domingo, março 27, 2022

festejos a dobrar no dia 27 de março
























durante a nossa existência, coleccionamos datas memoráveis e comemoramos aniversários, procurando ter cada vez mais motivos para assinalar e para festejar. eu não tive sorte nesta última vertente, porque ao invés de ter duas datas, igual ao número de filhos, tenho apenas uma, porque eles fizeram questão de nascer no mesmo dia, com seis anos de diferença. portanto, 27 de março é a minha estreia como pai e, ao mesmo tempo, a despedida. abri e fechei a conta no mesmo dia. curiosamente, nenhum deles deveria ter nascido neste dia. o
Pedro Lopes seria uma semana antes e a Mariana Lopes uma semana depois.

entretanto, quase num ápice, passaram 23 anos. felizmente, tenho uma excelente memória e lembro-me de quase tudo, porque vivi a paternidade com entusiasmo, empenho e compromisso. apesar disso, ao rever a caterva de fotografias digitais que possuo, no sentido de escolher 23 fotos para ilustrar esta publicação, não conseguir evitar uma lágrima ou outra, porque gostei mesmo muito de os ver crescer, de ouvir as primeiras palavras, de os ver a caminhar pela primeira vez, de os adormecer ao colo com as minhas músicas de fundo. o tempo voou (ou voámos nós por ele, como disse há dias uma amiga que a chuva trouxe de volta...) e hoje eles aí estão a comemorar juntos mais um aniversário!

é um avassalador orgulho ter sido e ser pai deles, todos os dias, e vê-los felizes e saudáveis, porque são a minha maior realização pessoal como ser humano! liguei-lhes à meia-noite, já lhes dei os parabéns verbalmente, mas fica aqui a minha homenagem a ambos, porque para eu sentir que fui e sou um bom pai, eles também tiveram e têm de ser bons filhos! e eles sempre o foram...

quinta-feira, março 24, 2022

the falling leaf that never tries to hold on to what keeps it alive


 há algo de reconfortante no vislumbre de uma meteorologia perfeita para os nossos estados de espírito. noite cerrada, o prazo do jantar já prescreveu há muito mas é substituído pela confiança no dever cumprido.

fecho a porta com as quatro voltas habituais, desço as escadas e vou preparando o telemóvel e os phones para a caminhada que me levará até casa. a rotina ensinou-me que haverá sempre lugar a duas músicas no trajecto, mas gosto de escolher a função aleatória da apresentação das músicas. no meio da minha tão intrínseca rotina, também deverá haver espaço para algum resquício de surpresa.

saio do prédio, detenho-me à beira do passeio enquanto o telemóvel, na sua lentidão exasperante, rasteja até à aplicação que utilizo. coloco os phones nos ouvidos, aperto o casaco e ajeito o cachecol, que se detém no último patamar antes do asfixiamento.

olho em volta antes de começar a caminhar. pavimento molhado a reflectir as luzes dos carros e das lojas, frio suportável e ruas semi-desertas. tenho direito àquela "chuva molha tolos", miudinha, suave, que sempre me soube bem. a música começa e inicio a minha caminhada, mãos nos bolsos das calças, mochila às costas.

"salty seas", dos devics, num daqueles momentos perfeitos e de simbiose entre música, meteorologia, estado de espírito, luzes, noite, estradas e passeios molhados. ouvi uma vez. fixei o verso "the falling leaf that never tries to hold on to what keeps it alive". tinha tempo para mais uma música. carreguei em "repeat"...

sexta-feira, março 18, 2022

segunda actuação ao vivo das vansick, o mesmo sucesso!








feito! concerto número dois despachado!
hoje foi na escola emídio navarro, num auditório completamente cheio. as Vansick foram as últimas a actuar, interpretando as músicas "zombie", dos cranberries, e "quem és tu miúda?", dos azeitonas. ao contrário da alves martins, hoje houve tempo para um encore, pedido em uníssono pelo público. foi tempo de estrear ao vivo um original da banda, "american dream". foi mais uma demonstração do querer, do saber fazer e do "vamos em frente que a vida são dois dias". o talento não se deve esconder numa envergonhada timidez; deve-se libertar e deixar andar à solta.
mais uma vez, Mariana Lopes, o mesmo orgulho, a mesma satisfação, o mesmo encanto e embevecimento! já estou ansioso pelo próximo...

domingo, março 06, 2022

aprender a andar de bicicleta sem rodinhas...


para um indivíduo claustrofóbico como eu, as escadas são sempre a melhor solução. os elevadores nunca foram opção, porque aquela sensação de estar preso dentro de quatro paredes, num espaço minúsculo, sem que dependa de mim a resolução do problema, caso este se manifeste (falta de electricidade, avaria, etc.), não se coaduna com a minha superlativa ansiedade. ou seja, venham de lá essas escadas, sem receio algum. aliás, a partir do momento em que, na minha alta hospitalar, em setembro do ano passado, após cinco dias de internamento e com claras debilidades físicas, decidi ir pelas escadas do sétimo andar para o rés-do-chão... creio que não será preciso mais nada para reforçar este aspecto.

os degraus que tenho vindo a subir desde agosto, no sentido de um completo restabelecimento de uma insuspeita e repentina falência renal, conheceram na última semana importantes desenvolvimentos. aquilo que colocaram dentro do meu corpo, mais concretamente nos rins, para estabilizar a minha situação, ou seja, um duplo jota, foi-me retirado no passado dia 3 de março. foi colocado em coimbra, no dia 28 de agosto, e foi retirado agora, em viseu. seis meses e 3 dias depois... 

enquanto o tive dentro de mim, e só no dia em que o tiraram fui capaz de ver a sua extensão (não estava à espera de algo tão extenso...), porque a primeira cirurgia, em coimbra, foi com anestesia geral, não consegui esconder o desconforto que me provocava, as dores, as constantes impressões na bexiga, o peso, o facto de não conseguir caminhar mais de 10 minutos sem me cansar como se tivesse acabado de correr uma maratona. apesar disso tudo, sabia que era para o meu bem, porque o duplo jota estava a impedir que os meus rins bloqueassem novamente, esse "pequeno" pormenor que me levou a ser intervencionado de urgência em coimbra. 

olhando para essa curiosa "ferramenta", o citado duplo jota, e depois das lancinantes dores que a intervenção me provocou, desta vez com anestesia local, concluí que seria impossível não ter os sintomas que tive durante seis meses. quando me falaram do duplo jota, pensei que seria algo com uns 10 centímetros no máximo. mas tinha o triplo do tamanho que eu pensava. mas, verdade seja dita, cumpriu a sua função. isso, aliado à forte medicação que tomei durante seis meses para destruir as pedras que me bloqueavam os dois rins, resolveram, para já, o problema. sofri a bom sofrer, mais agora, até, do que em agosto, porque aquela intervenção para retirar o duplo jota não teve, até hoje, qualquer paralelo em termos de intensidade de dores e da mais dilacerante agonia. mas está feito!

esta nova fase, que agora começa, será semelhante àquela em que começamos a aprender a andar de bicicleta sem rodinhas. após três dias em casa, já fiz uma caminhada. primeira diferença: não tenho nenhum daqueles sintomas provocados pelo duplo jota que citei acima. mas vou andar mais preocupado, porque, agora, os rins podem voltar a bloquear novamente. já não há as tais rodinhas...

mas é um processo e uma nova escadaria para subir, sem receios, com redobrado prazer pela vida e com renovada vontade de viver bem e sem dores!

certeza inabalável


 

devo ter feito alguma coisa bem, quando confirmei ontem estes mesmos sorrisos doze anos depois desta fotografia. posso ter feito muita coisa mal, posso ter errado centenas de vezes, tomado más decisões, optado pelo caminho/postura/comportamento errado, mas tenho a certeza de que, em relação a estes dois doces seres, posso ficar de consciência tranquila. dei-lhes aquilo que tenho de melhor e estou convicto de que eles estão a utilizar o que receberam de mim da melhor forma, nos seus percursos individuais. espero nunca lhes falhar, nunca lhes faltar e que nunca se sintam defraudados comigo, nem sequer em relação às minhas proezas gastronómicas. continuem a ostentar esse sorriso. sempre!

sexta-feira, fevereiro 25, 2022

e puff... de repente está um homem!


o rapaz que protagonizou, aos 13 anos, uma das cenas mais divertidas que já tive oportunidade de viver e que deu origem a este texto...

"certamente uma das situações mais trágico-cómicas que assisti na vida: os meus filhos sempre quiseram ter um puf. hoje fez-se a vontade aos dois. chegados a casa, foi cada um para o seu quarto com o seu puf, ambos eufóricos (vá-se lá perceber porquê...). cerca de 2 minutos depois, ouve-se um estrondo vindo do quarto do meu filho. fui dar com ele no meio de um enorme manto de esferovite, que se alastrou pelo quarto todo, com o ar mais incrédulo que alguma vez ostentou. o puf durou 2 minutos... a limpeza do quarto durou 45... o desgosto do meu filho ainda continua (apesar de o puf já estar novamente cozido)... mas aquela imagem que encontrei quando cheguei ao quarto depois do estrondo é para o resto da vida".

... deu-me hoje uma enorme alegria e encheu-me de orgulho através de um simples telefonema de um minuto. o meu filho está à beira de fazer 23 anos. esperou algum tempo por uma oportunidade profissional, algo a que se agarrar com unhas e dentes. alguém com bom senso, inteligência e perspicácia deu-lhe essa chance e apostou nele. em boa hora o fez e não deve estar arrependido de o ter feito. o meu filho mostrou aquilo de que é feito, o seu empenho, responsabilidade, compromisso, inteligência e dedicação, abraçando desde o primeiro dia esta oportunidade como aquela que poderia ser definitiva para mudar a sua vida. os atributos que evidenciou valeram-lhe, apenas três meses depois, a devida recompensa. e mal aconteceu, ele ligou-me!
este ar de conquistador que ostenta na foto em baixo contrasta, em muito, com aquele ar incrédulo que ficou gravado na minha memória aquando do incidente com o puff, mas é a mesma pessoa, um menino doce com um coração grande, um sentido de humor desarmante e uma inteligência emocional acima da média! está a trilhar o seu caminho da uma forma convicta e determinada! espero que a vida lhe continue a sorrir e que continue a afastar-se de puffs...

terça-feira, fevereiro 22, 2022

qual a minha melhor versão? será que ela existe?





é uma versão, mas uma excelente versão! simon e garfunkel escreveram e lançaram o tema directamente para a história da música. mas esta é uma versão, tal como todos nós somos uma versão. temos estados de espírito moldáveis a todo o tipo de situações.
hoje, tive mais um flagrante exemplo que atesta a última frase. o que era em termos de agonia, miserabilidade e do mais mórbido derrotismo, e no que me transformei, após uma breve consulta de 10 minutos, num ser esfuziante e com menos 300 quilos de preocupações coladas às minhas costas. e, agora, qual destas versões é o verdadeiro "eu"? onde é que me encaixo? sou depressivo, sorumbático e triste, ou sou, ao contrário, extrovertido, expansivo e apalhaçado?
creio que somos aquilo que vivemos. nos últimos seis meses, vivi os mais retorcidos e dilacerantes períodos da minha existência. nunca tinha perdido ninguém muito próximo de mim. perdi. nunca tinha tido graves problemas de saúde. tive-os. nunca tinha sentido um dos meus filhos a fugir-me. senti. nunca tinha visto a minha mãe tão vulnerável. mas vi. no meio de tudo isto, perdi a minha âncora, o maior apoio que tinha. mas, como diz a música, um rochedo não sente dor e uma ilha nunca chora.
agarrei-me ao trabalho, cheguei ainda mais cedo, comecei a sair ainda mais tarde, trabalhei nas folgas, nos fins-de-semana, o que fosse preciso. e quando chegava a casa, à minha infinita solidão, permitia-me pensar cinco minutos em tudo o que se estava a passar comigo. e via tudo negro, um futuro sombrio decorado com as mais refinadas cores de malvadez e crueldade. nessa altura, o tal rochedo transformava-se em finas areias, daquelas que se escapam pelos dedos da nossa ampulheta interior, aquela que marca o tempo que ainda vamos permanecer dentro do nosso corpo.
mas esta versão desaparecia no primeiro minuto do dia seguinte, porque era urgente recomeçar tudo: horários, deadlines, fechos de edição, compras, almoço, jantar, tudo preparado previamente para não se perder tempo. e tudo funcionava, apesar das constantes revoluções de dor provocadas no interior, as tais que não deveria sentir, porque era um rochedo, e os rochedos não sentem dor. mas elas apareciam, não raras vezes, e conspiravam contra a minha mais férrea e determinada vontade de não lhes ligar, tentando afastar o negrume que pairava em cima de mim como luzes de néon a indicar o bar mais próximo numa qualquer avenida frequentada por aqueles que já desistiram da vida.
e assim andei, vários meses, nesta condição de principal opositor das traições do meu próprio cérebro, de super-herói da marvel a utilizar a sua velocidade supersónica para obstruir todo e qualquer pensamento nocivo de chegar às minhas funções motoras.
o que era mesmo importante e vital era continuar, sem olhar a meios. continuar, de sorriso nos lábios. persistir, sem pensar em tudo o que estava a acontecer. és uma ilha, ou não és? és um rochedo, ou não és?
não sei se passei no teste. sei que sobrevivi e que estou aqui. hoje tive excelentes notícias, transformei-me completamente em 10 minutos. agarrei-me ao rochedo. respirei fundo, pensei em tudo o que perdi nestes últimos seis meses, suspirei, disse o que tinha a dizer, por ser a mais elementar verdade, peguei no telemóvel e liguei à minha mãe e aos meus filhos. e fiquei extremamente contente com as reacções que obtive da parte deles!
suspirámos todos de alívio e felicidade. afinal, não sou um rochedo, não sou uma ilha. sou alguém que tem sentimentos, que não tem receio de os demonstrar, seja onde, como e quando for, e que está pronto para enfrentar o resto do tempo que ainda terá pela frente. sejam 10, 20, 30 ou 40 anos, não importa o tempo que for, eu sei que vou tentar ser a melhor versão de mim próprio.
assim a encontre...

domingo, fevereiro 13, 2022

o primeiro concerto




a primeira actuação ao vivo da banda vansick, cuja vocalista é a minha filha, mariana lopes, foi um completo sucesso! foram as últimas a actuar e interpretaram os temas "sweater weather", dos neighbourhood, e "boys don't cry", dos the cure. no final dos dois temas, o público, rendido, pediu mais uma, mas não houve disponibilidade de tempo. a mariana esteve solta, completamente à vontade, engolindo os nervos com que estava uma hora e meia antes da actuação e libertando-se totalmente em palco, tendo inclusivamente tempo para apresentar a banda e fazer um pequeno discurso no final, a pedir apoio para a sua banda e para o projecto dos finalistas do conservatório de música de viseu.




quando a banda subiu ao palco, confesso que já me tinha rendido por completo à manifestação de puro virtuosismo de todos os executantes que a precederam. belas vozes, músicos exímios e uma qualidade e destrezas irrepreensíveis em palco.
o fecho foi, assim, com "chave de ouro", na primeira vez que vi a minha filha actuar num projecto musical. em 2019, já me tinha deslumbrado na feira de são mateus, com o seu projecto de dança. em ambas as situações, o mesmo desfecho: o mais rasgado sorriso de orgulho de um pai totalmente embevecido perante as capacidades desta menina, que me recordo de ver com o comando da tv na mão, aos 3 anos, a cantar o "hips don´t lie", da shakira. ela, que se considera tímida e introvertida, hoje voltou a surpreender-me e a deixar-me estarrecido perante o seu talento. que seja, pois, para continuar e que este tenha sido apenas o primeiro de muitos concertos.
uma palavra ainda para as suas colegas de banda, joana barros, maria marta e francisca reis, que foram de uma extrema competência também!







segunda-feira, janeiro 10, 2022

16 anos de nuvens da alma


este blogue chega hoje aos 16 anos de vida!

em jeito de homenagem, aqui ficam os melhores momentos da sua existência:



muito obrigado a todos!

terça-feira, dezembro 07, 2021

6 de dezembro



não me recordo de quantas vezes ele me pediu para lhe arranjar discos dos "chatos", a sua banda preferida. e eu corria ceca e meca para os encontrar para lhe oferecer. afinal, foram dele que vieram as minhas primeiras odisseias pela música, quando ouvia, incessantemente, as suas cassetes num velhinho rádio. ainda hoje, ao ouvir a "is this love", de bob marley, sou transportado para a minha infância, em que utilizava caixas vazias de medicamentos a fingir que eram carros e autocarros.

no dia de hoje, 6 de dezembro, ele faria 74 anos.
espero que esta música, em forma de homenagem, chegue aos seus ouvidos e que o faça esboçar um sorriso de satisfação!

terça-feira, novembro 30, 2021

como tirar uma fotografia a mim próprio dois meses antes...


 

parque do fontelo


 

ode a uma música



este foi o segundo cd que comprei. o primeiro foi o da cantora dos fairground attraction, eddi reader, a solo ("mirmana"), que continha uma música que eu idolatrava: "what you do with what you've got". lançado em abril de 1992, o disco apanhou-me com 19 aninhos, altura em que, graças ao disco anterior, "disintegration", já tinha elevado os the cure à categoria de bandas preferidas. embora não chegasse ao brilhantismo irrepreensível do disco anterior, que continha pérolas como "pictures of you", "plainsong", "prayers for rain", "lullaby", "lovesong" e essa música que, para mim, é o pináculo das músicas depressivas, intitulada "the same deep water as you", este "wish", conseguiu colocar meia dezena de músicas no meu top 20 da banda. são os casos de "apart", "a letter to elise", "from the edge of the deep green sea", "high" e esta obra de arte chamada "trust". lembro-me da primeira vez que a ouvi e de ter ficado petrificado, porque a música parecia ter sido feita de encomenda para mim, grande apreciador da banda, mas com evidente propensão para as músicas mais tristes, depressivas e sorumbáticas. "trust" é um arrebatamento puro, uma descida vertiginosa às sombras da nossa alma, um contemplar resignado à nossa condição de seres vulneráveis e à capacidade intrínseca que temos de ficar, em qualquer altura da nossa existência, com o coração partido. o que torna a música realmente espantosa, além de tudo isto, é a forma como, quase 30 anos depois de a ter ouvido pela primeira vez, ainda fico com a pele arrepiada logo nas primeiras notas de piano. é uma das músicas da minha vida, claramente, e tenho a certeza de que ainda me fará sentir desta forma daqui a 30 anos...

sexta-feira, novembro 26, 2021

versão raquítica de um clássico musical de 1972

"- como é que eu vim aqui parar, afinal?"

quando o cérebro decide brincar connosco, espicaçando-nos e martelando-nos a cabeça para fazer algo que sabemos muito bem que não queremos fazer, acabamos a fazer a pergunta que encima este texto.

podemos falar de curiosidade, essa cenoura que o cérebro nos coloca à frente dos olhos como se fossemos completamente inconscientes e, ainda por cima, cheios de fome. podemos chamar-lhe outra coisa qualquer, mas, no final, o cérebro ganha sempre ao corpo.

mesmo cansado, já na antecâmara de mais uma noite sem qualquer vestígio de novidade ou surpresa, despertei para a sugestão que, perfidamente, ele me sugeriu, como que a dizer "vá lá, tira lá o pijama, vai para a rua, vive um bocadinho, o mundo é a tua ostra!". matutei nessa ideia algumas dezenas de minutos, depois afastei-a completamente, para meio minuto mais tarde a voltar a considerar. afinal, o cérebro e eu vimos exactamente a mesma coisa no monitor: eu achei normal, mas ele acendeu de imediato holofotes, fez soar sirenes estridentes e atirou-me uma alternativa a mais uma noite pachorrenta, solitária e deprimente. e foi por isso que considerei a ideia e acabei por aceitá-la.

levantei-me, tirei o pijama, vesti-me de novo para o imenso frio que se fazia sentir, camisola de gola alta, casaco interior, casaco exterior, cachecol e um gorro. rua acima, em direcção ao carro, que estava gelado. por sorte, pegou à primeira e não tinha nenhum pneu furado. o destino estava traçado, porque o cérebro já me tinha fornecido todos os apontamentos: o que fazer, como fazer e quando fazer.

cheguei ao local e procurei um local apropriado para estacionar. desliguei o carro e fiquei inerte no veículo, tentando passar o mais despercebido possível. os minutos passam... observei meia dúzia de pessoas a passear os seus cães, para estes se aliviarem, outros tantos a fumar, dois ou três a deitar o lixo fora. e passam mais minutos... ao fim de meia hora, não sabia muito bem o que estava ali a fazer. tentei focar-me novamente. saí do carro, caminhei um pouco e cheguei à conclusão de que estava ainda mais frio do que quando saí de casa. nunca fumei nem tive essa vontade, mas talvez compreenda por que motivo os fumadores não se conseguem livrar do vício. talvez os aqueça em noites como estas.

voltei para o carro. sabia que estava no local certo e na posição certa para observar aquilo que o meu cérebro me compeliu a observar. a intenção dele era nobre, lá no fundo, mesmo no fundo, e foi por isso que decidi prestar-me ao papel que estava ali a representar. mas os minutos passavam e nada acontecia. em lugar do suspense e da excitação para ver aquilo que tinha ido ali ver, começava antes a instalar-se uma enorme sombra de auto-comiseração e alguma vergonha. apanhei a minha imagem no retrovisor central e não gostei do que vi. por que raio estava eu ali, àquela hora da noite? e para ver o quê? essa era a questão principal. quereria eu ver algo que me deixasse ainda mais triste? ou quereria eu observar algo que ainda mantivesse vivas as minhas esperanças? a dúvida persistiu durante as quase duas horas em que me mantive naquele sítio, ao frio, no escuro, de gorro, cachecol e máscara, à espera de algo que se iria desenrolar nuns míseros 20 segundos.

a minha solidão foi interrompida por alguém que me enfiou um panfleto por baixo da escova de limpar os vidros. depois disso, um carro estacionou atrás de mim. depois de dois minutos a fazer manobras e mais manobras, quando tinha espaço para estacionar em 3 segundos, o condutor desligou o carro. um minuto depois, não satisfeito, provavelmente, ligou novamente o carro, saiu daquele lugar e foi estacionar, mesmo sem acender as luzes, uns 20 metros mais à frente. há pessoas perfeccionistas, mas este condutor exagerou claramente.

quem era eu naquele momento? um patético cinquentão sem mais nada para fazer? um dom quixote disposto a tudo para defender a sua dama em caso de uma eventual contenda? uma espécie de guarda-costas ou anjo da guarda sempre pronto e disponível para ajudar em qualquer situação? olhava para o retrovisor e não me reconhecia. o cérebro tinha ganho aquele braço de ferro e levou-me para aquele local frio e impessoal, onde me sentia ainda mais deslocado do que habitualmente. não era a minha parte da cidade, não era a minha zona de residência, não eram os meus vizinhos a passear os cães. sujeitei-me a alguns olhares inquisidores, de algum receio até, o que compreendi. se fosse no meu bairro e visse algo do género ficaria preocupado também. mas fui aguentando...

a questão agora era "se já cheguei até aqui, agora vou até ao final". ou seja, se desistisse após uma hora e meia e fosse embora para casa, que raio de sentimento levaria comigo? frustração? impotência? falhanço? o reverso da medalha não era muito melhor, porque representava mais longos minutos à espera, ao frio, mais ansiedade e expectativa. mas decidi-me por este último.

fui até ao final, mesmo que me tivesse colocado a pergunta inicial deste texto umas dezenas de vezes. o desenrolar foi o mais satisfatório possível, naquelas condições. de certa forma, fiquei agradado com o desfecho daquela atípica noite, a minha versão, velha, miserável, patética e doente, da música "take a walk on the wild side", de lou reed.

não sei que noites me esperam no futuro, mas uma coisa é certa: vou colocar o meu cérebro de castigo por uns tempos. não preciso de noites destas. preciso de noites acolhedoras, debaixo de várias mantas quentinhas, a ver um bom filme, a beber um bom vinho alentejano e de mão dada com a pessoa amada. vivo para isso, de forma a que quando me olhar novamente no retrovisor central do meu carro veja um homem realizado, seguro de si, confiante e cheio de auto-estima, porque tem o coração bem aconchegado e que pertence a alguém que nos pertence!

domingo, novembro 21, 2021

51 horas







as amizades, mesmo aquelas com mais de quarenta anos, precisam de ser alimentadas, sob pena de também elas não resistirem às agruras do tempo.
conhecedor e respeitador dessa máxima, o albuquerque, lisboeta de gema, manobrou nos bastidores e orquestrou mais um regresso à terra onde foi passar as férias durante décadas, onde ficava na vetusta e hoje serôdia casa das eiras, dos seus avós. não me lembro do preciso momento em que nos conhecemos e começámos a construir essa longa amizade já referida, mas sei que já ultrapassou os quarenta anos.
desde o momento em que ele chegava, até à sua despedida, eu, o albuquerque e o souto, o famoso triunvirato, só não estávamos juntos quando íamos dormir, cada um em sua casa. de resto, naqueles dias em que parecia haver tempo para tudo e os minutos se arrastavam como caracóis ao sol, passávamos os dias a inventar formas novas de passar o tempo. e foram muitas: jogar futebol, ir ao rio, jogar no spectrum zx, ir à boleia a viseu comprar discos, ouvir programas de rádio para gravar em cassete as nossas músicas preferidas, ver televisão e ansiar pelos telediscos dos duran duran, dos a-ha ou dos cock robin, entre muitos outros, jogar futebol de mesa ou grand prix ou até mesmo encetar verdadeiras aventuras quando tentávamos descobrir que segredos escondiam as divisões da casa das eiras que estavam sempre encerradas.
como não poderíamos ficar jovens para sempre, a natural evolução surgiu em forma de casamentos, baptizados e vidas profissionais incompatíveis com o reencontro de três pessoas que habitavam em três locais diferentes do país. mesmo assim, a terra lá ficou - tal como o souto, o único que ainda lá reside -, com as centenas de memórias que lhe agrafámos durante décadas. algo que, enquanto não somos assaltados pelo alzheimer, sabe sempre bem recordar.
foi isso que fizemos no sábado à noite, na citada terra. antes, aqui o lopes foi buscar, com o filho, o albuquerque a nelas, à estação de comboio. padrinho do meu filho, o albuquerque é o mais velho dos três e fez 50 anos há duas semanas. segue-se o souto, em dezembro, e eu, apenas em agosto do próximo ano. e o reencontro também serviu para assinalar esse facto: um de nós chegou aos 50, à meia centena de anos que estaríamos longe de imaginar naquelas preguiçosas tardes em que nos deliciávamos com um gelado e bebíamos green sands, enquanto ouvíamos "the reflex" ou "wild boys", dos duran duran, no walkman.
antes da saída de viseu para nelas, uma desagradável surpresa: um pneu furado no meu carro. contacto para aqui e contacto para ali, a coisa resolveu-se quando uma mão amiga me cedeu as chaves do seu carro. apesar de tudo, chegámos antes do comboio, mas quando chegámos a viseu tínhamos uma empreitada pela frente: mudar o pneu do carro. apesar de todas as peripécias, a coisa ficou feita, embora no dia seguinte de manhã tenha tido de me deslocar a uma empresa da especialidade, recauchutagem, para tratar do pneu furado.
com esse problema resolvido, fomos jantar ao páteo, na rua direita, onde se comeu divinalmente. no final, fomos a uma casa de fados, pinguinhas, mas apenas para beber um digestivo (sem fados, portanto, um registo que nenhum de nós aprecia sobremaneira). o meu filho, o almeida lopes, acompanhou-nos sempre estoicamente e esteve sempre à altura do momento, com o seu irrepreensível sentido de humor. a primeira noite terminou com a sempre indispensável conversa mais séria, já só com o albuquerque, no seu alojamento local (be my guest, altamente recomendado!). teríamos tido conversa até nascer o sol, mas por volta das 3 horas o sono mandou-me para casa (por sorte, apenas a uns 5 minutos a pé).
o sábado começou com a já referida visita à empresa de pneus, recauchutagem viriato, que em apenas 10 minutos me resolveu o problema. depois, reencontro com o albuquerque no nosso "centro de operações" destes três dias: o armazém do caffé, na rua da paz, em viseu. fomos lá umas seis vezes... depois, uma demorada e interessada visita à feira das velharias de viseu, que se realiza no terceiro sábado de cada mês, na rua da paz e na rua formosa. o albuquerque comprou, regateando, claro, como se faz em todas as feiras do género, uma máquina de jogos tipo atari. foi então altura de começarmos a tratar do almoço...
fomos buscar o meu filho a sua casa e, enquanto demos um passeio higiénico pelo parque aquilino ribeiro, decidimos a ementa do almoço: encomendar umas pizzas na pizzaria mytica, a 3 minutos de minha casa, no centro histórico. a minha filha veio ter connosco a casa e almoçámos os quatro, totalmente deliciados com as pizzas confeccionadas em forno de lenha por um chef italiano. depois, nova ida ao armazém do caffé, nova visita à feira, desta vez com a minha filha também, apreciadora deste tipo de eventos, e regresso a casa para ver o watford - manchester united, que os red devils perderam por 4-1, para nosso contentamento.
por volta das 17h00, começámos a organizar a logística da nossa visita à terra do souto, a terra da nossa infância e adolescência. passámos por uma superfície comercial e adquirimos víveres para a nossa "noitada". chegámos às 19h00 e reencontramos o souto no jardim municipal da vila, actualmente em obras. seguimos para o jantar, no restaurante "ela", propriedade de uma simpática trintona polaca, chamada ela faltyn kotygin, sozinha no estabelecimento com o seu filhote de quatro anos, sensivelmente. falámos em inglês com ela, ouvimos boa música e comemos muito bem, com a nossa anfitriã a confeccionar os três pratos que escolhemos, que chegaram à mesa ao mesmo tempo. uma verdadeira multi-tasker!
no final do jantar, uma caminhada nostálgica pelos locais mais emblemáticos da vila, passando pelo café que foi propriedade dos meus pais, pelo campo de futebol do ciclo preparatório, onde fizemos mais de uma centenas de jogos, pelo liceu, pela supra citada casa das eiras, pela escola primária. uma visita guiada pelas nossas memórias e pelas centenas e centenas de recordações que fomos acumulando durante anos. a noite viria a terminar em casa do souto, onde nos fartámos de ouvir música, especialmente do novo álbum dos duran duran, "future past", a nossa banda de eleição durante décadas, mas também com muitas outras bandas que venerámos nos anos 80 e 90. claro que sempre bem acompanhados de um monte dos amigos, vinho alentejano, cerveja heineken e de tudo aquilo que comprámos para aquele reencontro com o nosso amigo. matámos saudades, falámos do passado, comentámos o presente e falámos no futuro, nomeadamente a noite do rock in rio que colocará no mesmo dia os duran duran e os a-ha, outro dos nossos ícones dos anos 80. estamos a congeminar a nossa ida ao festival, apenas nesse dia, para finalmente cumprirmos um dos nossos sonhos de adolescência: ver os duran duran ao vivo! nós que sabemos as letras todas de cor, as músicas, os álbuns, os concertos, enfim, tudo!
despedimo-nos do souto e regressámos a viseu, já de madrugada, satisfeitos por tudo ter corrido bem, incluindo as viagens!
o domingo acordou cansado, fruto de duas noites mal dormidas, mas não foi obstáculo a nada. voltou a iniciar-se no armazém do caffé, onde me encontrei com o albuquerque, de onde seguimos para casa do meu filho. após uma passagem pela pousada de viseu, onde bebemos uns aperitivos, arrancámos para o restaurante onde tínhamos feito reserva: home sushi & asian food, onde nos empanturrámos de sushi, já para não falar no cheesecake de manteiga de amendoim e na tarte de chocolate com raspas de lima. no final, exigia-se uma caminhada, e assim foi. fomos parar à esplanada do irish bar, no centro histórico, onde tomámos café e nos deixamos permanecer um considerável período de tempo, a fazer listas e a estabelecer os "onzes" das nossas preferências futebolísticas. de lá, saímos para minha casa, onde vimos o totthenham - leeds united, novamente com o resultado a agradar aos três.
depois, de volta à estrada, agora para levar o albuquerque a nelas novamente. regressou a lisboa às 19h10, num comboio pontualíssimo, e eu e o meu filho voltámos a viseu. pelo caminho, a confissão de que tinha adorado estes momentos com o pai e o padrinho e o reconhecimento de que já não se ria desta forma há muito tempo. fui levá-lo a casa, abracei-o, também já cheio de saudades dele, porque só o vejo aos fins-de-semana, e vim para casa, para a minha solidão.
cheguei a casa, liguei o computador e escrevi isto...
obrigado a todas as pessoas referidas neste texto por fazerem parte da minha vida!