domingo, novembro 24, 2019

um sorriso que se eternizou no rosto

é completamente impossível prever o que nos vai acontecer durante um determinado período de tempo, não havendo forma de garantirmos a felicidade suprema ou de evitarmos a mais profunda depressão; limitamo-nos, simplesmente, a entregar a nossa carcaça ao destino para este fazer connosco o que bem entender. foi com este aforismo que enfrentei uma semana de férias, a meio de novembro, um hiato agendado desde março.
perguntar-me-ão (e eu não vos posso censurar por isso): mas por que raio marcar férias de uma semana em novembro, em que há frio, chuva, vento, neve, deslizamentos de terra, tsunami's e avalanches a toda a hora? respondo a essa pertinente questão com isto: não têm rigorosamente nada a ver com isso. adiante...

é engraçado como as nossas perspectivas se alteram em virtude de um identificado momento. se antes desse momento olhava para as minhas férias como um bloco de tempo entediante, sem nada previamente agendado ou definido, depois dele parece que tudo se transformou. se estava renitente ou receoso com a forma como iria preencher o meu tempo durante nove dias (uma semana mais dois fins-de-semana), esse referido momento abriu uma enorme avenida à frente dos meus olhos. e o mais espantoso é que teve lugar precisamente nas minhas primeiras horas de férias, porque tinha saído do trabalho duas horas antes nesse dia, 15 de novembro. essa noite mudou tudo e as minhas férias passaram a ter outra banda sonora e outro calor, mais cores e, sobretudo, um enorme e apatetado sorriso de orelha a orelha que ainda hoje não consigo deixar de evidenciar.

leitura.
durante a semana, li dois livros: "a paixão segundo G.H.", de clarice lispector, e "a sombra do vento", de carlos ruiz zafón. este último, "devorei-o" num dia e meio, de tão agarrado que fiquei à narrativa. custava-me pousar o livro, porque a ansiedade queria sempre mais, tal como me custou, no final, despedir-me daquelas personagens. repeti a experiência vivida aquando da leitura de "a mulher que correu atrás do vento", de joão tordo, que também li num ápice, dando por muito bem empregues todas as horas que passei a mergulhar no universo literário do escritor de barcelona. já iniciei um novo livro, provindo das mesmas eruditas mãos que me recomendaram as obras já citadas: "conversa n'a catedral", de mario vargas llosa. dar-vos-ei feedback daqui a 600 páginas. controlem essa ansiedade, por favor...

cozinha.
um homem na cozinha. quais são as suas principais dificuldades? eu tinha uma, muito grande mesmo: não sabia fazer arroz. vivo sozinho há muito tempo já e não havia forma de me aventurar a fazer arroz. nestas férias, decidi colocar mãos à obra. comprei o arroz, li as instruções, adicionei o que tinha a adicionar, nas doses certas, a água, o arroz, a água a ferver e tal. no final, devo dizer que gostei do meu arroz, ficou solto, sequinho e até saboroso. mas haverá sempre margem, claro, para melhorar. tal como na minha outra empreitada: fazer frango assado. habituado ao meu "frango à zé alberto", que vai ao forno apenas com sal, cerveja, sopa de cebola e natas, entendi que tinha de alargar o meu espectro culinário em termos galináceos. comprei os ingredientes (colorau, alho, vinho branco, louro, sal e azeite), misturei tudo, espalhei pelo frango e... não é que ficou uma delícia! certamente que não ao nível das minhas omoletes, muito apreciadas (eheheh), mas com uma qualidade muito satisfatória!

desporto.
desde a instalação da aplicação google fit, tenho estado muito mais desperto para a minha condição física. comecei lentamente a fazer caminhadas, aumentando o ritmo de semana para semana, passando à corrida quando me senti preparado para tal. a aplicação começou a ajustar-me os objectivos semanais, aumentando a carga em termos de minutos activos e de pontos cardio. tenho atingido as marcas propostas e esta semana não foi excepção. apesar do frio e da chuva, fui bem cedo para o fontelo e para o parque de santiago tratar de mim, da minha condição física e do meu bem-estar.
a tudo isto, junte-se muita música, tanto em casa como na rua, durante as caminhadas/corridas, filmes e séries, tempo de qualidade com os filhos, pais e irmã, e o cimentar de todas as amizades que fazem de mim uma melhor pessoa.

voltando a 15 de novembro, é óbvio que poderia ter feito tudo isto que referi durante estes nove dias, da mesma forma, à mesma hora. não teria era o coração tão aconchegado como o tive, nem exibiria o tal sorriso apatetado a toda a hora. há momentos em que até sentimos o som das peças a encaixar umas nas outras, em que temos a certeza de que estamos a regressar a casa depois de uma longa ausência, em que conseguimos ver reflectidos nos olhos que temos à nossa frente as mesmas sensações, a mesma cumplicidade, as mesmas certezas e convicções. o peito enche-se novamente de ar, o coração volta a ter espaço para pular de felicidade e a alma volta a ter lenha para se aquecer. depois desse dia, tudo voltou a fazer sentido novamente, as chaves voltaram a entrar nas fechaduras certas, os planetas alinharam-se novamente e as cores regressaram às nossas faces.
é impossível quantificar o peso do amor na vida de uma pessoa, a forma como determina as nossas reacções, a nossa disposição ou até a nossa vontade de acordar todos os dias. não consigo quantificar, é certo, mas estou convicto, agora, nesta fase da minha vida, e depois de meses de amargura, de que não posso viver sem ele, sem esta sensação de harmonia e plenitude emocional que dele advém, sem esta convicção de que estou acompanhado mesmo quando estou a 300 quilómetros de distância dele, sem esta euforia de me saber de alguém e de ser de alguém, numa comunhão perfeita em todos os sentidos. harmonia, plenitude e serenidade. tudo isto regressou nesse dia e foi devidamente comemorado na nossa data, três dias depois. o nosso equilíbrio emocional foi restaurado e em virtude disso eternizou-se um enorme sorriso nos nossos rostos.

sábado, novembro 02, 2019

from a late night train




21h30 – chovia intensamente naquela tristonha noite de outono, envolta em denso nevoeiro. a estação estava quase vazia e a sua companhia eram dois tropas e um casal idoso. a premência de nunca chegar atrasado fosse onde fosse fazia com que chegasse sempre muito antes da hora marcada. a viagem só se iniciaria, se dentro do prazo, 20 minutos depois.
a chuva teimava em não abrandar e ele caminhava, dentro da estação, de um lado para o outro, para não ficar com os pés frios. eram passos trémulos e inseguros, de quem não tinha a certeza se aquele comboio tinha efectivamente o destino pretendido. olhava à sua volta, como se procurasse algo ou alguém, mas o nevoeiro cerrado não permitia visualizar muito além de um raio de dez metros. o nó na garganta acentuava-se a cada minuto que passava, pensava nas pessoas que ia deixar para trás, das quais não teve oportunidade de se despedir. a ter que partir, só poderia ser assim, e ele sabia bem disso, mas essa era mais uma faca espetada no seu amargurado coração.
a espera tornava-se cada vez mais amarga e insustentável. era um homem dividido: parte dele queria que o comboio chegasse rápido, para acabar com aquele sofrimento; mas na outra parte ainda residia alguma esperança de não chegar a partir. as dúvidas começavam a coarctar-lhe os movimentos e agora era uma homem especado a olhar o vazio em que se tinha tornado. uma lágrima soltou-se pela sua face abaixo, chamando muitas outras atrás de si, quando mergulhou nos últimos anos da sua vida e recordou tudo aquilo que poderia perder dez minutos depois.
o nó na garganta aumentava à medida que os minutos iam ficando mais curtos para a chegada do comboio. a estação estava agora muito mais composta, algo que poderia camuflar a sua agonizante solidão, mas, ao invés, acicatava ainda mais a dor que sentia, porque nenhuma das pessoas que chegavam eram aquela que ele mais queria ver. o confronto entre os dois cenários que tinha pela frente dilaceravam-no: ficar ou partir. a razão mandava-o partir, mas o coração ainda insistia para ele ficar e tentar, mais uma vez, rectificar o mal que fez, a dor que causou, a desilusão e a tristeza que provocou na pessoa que sempre menos quis magoar. aquele comboio que iria chegar poderia ser o recomeço de algo, mas também tinha um enorme carimbo de fracasso que ele não conseguia escamotear ou deixar de ver.
a chuva continuava teimosa, as pessoas mostravam-se cada vez mais impacientes, agarrados às suas malas, balbuciando impropérios entre tossicares, ou falando cada vez mais alto à procura de público para as suas conversas fúteis sobre o tempo. ele mantinha-se estático, imperturbável e sereno, apesar da enorme convulsão interior. apenas mexia a cabeça, para a esquerda e para a direita, quando chegava mais alguém à estação. se fosse possível ver a sua alma, ela estaria a sangrar o mais escuro dos sangues, fustigada pela dimensão das suas incertezas.
o frio era agora mais intenso. faltavam cinco minutos para a chegada do comboio. o espaço que ocupava há cerca de 20 minutos era cada vez mais reduzido e começava a fartar-se dos “peço desculpa” e dos “foi sem querer” com que era brindado de meio em meio minuto. o nevoeiro não deixava perceber se o comboio estaria a chegar, mas a hora aproximava-se e ele ali estava, ainda sem uma decisão, com os níveis de ansiedade na sua expressão máxima. 
olhava agora ainda mais insistentemente à sua volta, à procura de um rosto específico, de olhos meigos, e daqueles cabelos longos que ele idolatrava e adorava acariciar. o comboio estava agora, oficialmente, atrasado. ele sentiu essa falta de pontualidade como um sinal. assaltava-o a ideia de que a decisão de partir poderia não ser a mais acertada, porque se assim fosse a sua mente não continuaria a enviar-lhe mensagens de desconfiança e incerteza.
uma voz abrutalhada interrompeu-lhe o fio de pensamento, anunciando a chegada do comboio dentro de 5 minutos. ele permanecia estático, as pernas teimavam em não se mexer, como se estivesse a decorrer um golpe de estado dentro de si mesmo. olhou para a sua esquerda e, no meio do nevoeiro, vislumbraram-se, então, pela primeira vez, as luzes daquele adamastor de ferro que o iria levar para longe de tudo. sentiu o coração a parar de bater e uma dor lancinante no peito, como se este estivesse a ser apertado por dezenas de cordas. respirar era quase impossível, assim como engolir, porque o nó na garganta era agora gigantesco.
tinha chegado o momento e rapidamente as pessoas começaram a movimentar-se, com passageiros a sair, outros a quererem entrar, acotovelando-se como se fosse uma prova olímpica. pegou nas suas malas e começou a dirigir-se, sem muita vontade, para o comboio, com meia dezena de pessoas à sua frente. agora teria mesmo de ir, não havia volta a dar, a decisão acabou por surgiu naturalmente.
alguém lhe tocou, então, no ombro. no seu estado quase catatónico e imerso na mais profunda tristeza, ignorou, pensando que seria mais um “peço desculpa” ou um “foi sem querer”. continuou a avançar na direcção da entrada, já só restava entrar o casal idoso que tinha chegado à mesma hora que ele. voltaram a tocar-lhe no ombro, no mesmo ombro, a que se seguiu uma palavra, uma palavra apenas.
“amor?”
virou-se para trás. dois segundos depois, largou as malas. os olhares amarraram-se e rapidamente se soltou o beijo mais ansiado de sempre, que se prolongou até o comboio desaparecer no horizonte.
estava encontrada a resposta para as suas dúvidas.
ficaram!

sexta-feira, outubro 18, 2019

uma caterva de perspectivas


deu algum trabalho, admito, mas já posso dizer que tenho um blogue de fotografias actualizado. as imagens que escolhi são uma espécie de "best of" das minhas amadoras incursões pela fotografia, sendo que todas elas me deram um gozo tremendo a planear e a executar. se tiverem 10 minutos livres, convido-vos a visitarem a minha humilde nova casinha, que ainda cheira a novo. limpem os pés ao entrar, por favor. espero sinceramente que gostem!

https://umacatervadeperspectivas.blogs.sapo.pt/

sábado, outubro 05, 2019

do obsoletismo ao obscurantismo em poucos anos

quase vinte anos passados no novo século, com a tecnologia e a ciência a atropelarem de forma avassaladora o século passado, o telemóvel a impor-se como um instrumento mais indispensável do que a carteira ou o porta-moedas e as redes sociais a substituírem os antigos diários. a sensação que me fica é que a tecnologia tudo está a fazer para que as pessoas deixem de escrever. sim, com caneta ou lápis. sim, esse escrever. estamos quase no final de 2019 e a questão continua premente: as pessoas desabituaram-se de escrever. hoje, nem os médicos escrevem para passar as receitas, os namorados não escrevem cartas de amor, já não se aponta o número de telemóvel ou telefone de alguém com caneta e papel, faz-se um chamada e diz-se "já tens o meu número, guarda-o nos contactos", e até para jogar no euromilhões, que implicava pegar numa caneta e fazer umas cruzes no boletim, o que não era escrever, mas pelo menos pegava-se no raio de uma caneta, basta dizer no balcão "quero os números da máquina", e ela escolhe aleatoriamente uns números e faz sozinha o boletim. enfim, é tudo uma enorme facilidade hoje em dia, aparece tudo feito e não temos que nos chatear com essa coisa tão ultrapassada, tão século passado, que é escrever.
até o simples autógrafo, que no século passado era considerado um objectivo supremo quando em contacto com os nossos ídolos, passou de moda. já não se vê ninguém com uma caneta e um papel à espera de um cantor ou actor. o que é que se usa hoje? isso mesmo, o telemóvel. a fotografia substituiu o autógrafo. tal como a máquina fotográfica foi substituída pelo telemóvel, arriscando-se fortemente a ser "a máquina de escrever do século XXI". o telemóvel faz tudo! todos os anos tem novas funcionalidades, com o objectivo de facilitar a vida às pessoas. fica tudo mais simples, é tudo mais rápido e as pessoas não perdem tanto tempo. mas como é que as pessoas vão gastar depois esse tempo que pouparam com essas novas tecnologias que lhes permitem poupar tempo? exactamente, no próprio telemóvel. ou seja, ficam com mais tempo livre para ir às redes sociais colocar fotos dos seus pratos de comida, frases de outras pessoas que passam por frases suas e fotos tiradas pelo próprio telemóvel.
antigamente, saía-se de casa a consultar os bolsos para verificarmos se tínhamos a carteira e as chaves de casa e do carro. hoje, a prioridade é o telemóvel, porque tudo no dia-a-dia passa por ele. chamadas, agenda, aplicações, contactos, redes sociais, fotografias, calendário, calculadora, etc.. está lá tudo. antes, compreendia-se que as pessoas, nas carteiras ou nos casacos, tivessem canetas e pequenos blocos para apontamentos. hoje, isso é obsoleto. aponta-se tudo no telemóvel, é ele que dirige a nossa vida. se ele for parar, por acidente, debaixo de uma roda de um autocarro, ficamos sem nada. mas, até lá, reina, domina e é imprescindível.
ou seja, esta tendência para o facilitismo, para a rapidez e para o imediatismo, leva-nos a crer que, daqui a 20/30 anos, as próprias canetas serão obsoletas, como o são hoje em dia as sms, outrora, e nem assim há tanto tempo, o último grito em termos comunicacionais. cartas de amor? enquanto houver whatsapp's e afins, nem pensar. cartas de reclamação de serviços? podem fazer-se online. autógrafos? hoje há selfies. até já nem os polícias pegam numa caneta para passar multas, elas vão parar a casa.
portanto, aquilo que mais se viu nesta última campanha eleitoral é mais uma prova mais do que evidente que os políticos não lêem os sinais nem compreendem o seu eleitorado. o que é que eles mais distribuíram durante a campanha? sim, isso mesmo, canetas... é tão útil como oferecer protector solar no zaire ou gelo no pólo norte.

quinta-feira, setembro 19, 2019

viagem

duas pessoas decidem fazer uma viagem sem destino e sem perspectiva de regresso. carregam o carro com a bagagem de cada um e metem-se ao caminho. a viagem corre muito bem na primeira centena de quilómetros. boa conversa, músicas cantadas em dueto e sorrisos estampados nos rostos.
ao quilómetro 379, a primeira contrariedade: furou um pneu. um esforço adicional daqui e outro dali e em pouco mais de meia hora o problema ficou resolvido, reiniciando-se a viagem.
entre paragens para visitas, fotografias, refeições e dormidas, a viagem seguia pacífica, envolta numa cumplicidade emocional indisfarçável e num sentido de admiração e respeito mútuo. todavia, tal não impedia que as contrariedades continuassem a aparecer. eles chegavam, por vezes, em forma de multas por excesso de velocidade, reparos à adequação da condução em virtude das condições meteorológicas adversas, filas intermináveis de trânsito, ocasionais acidentes rodoviários ou ainda de problemas mecânicos do automóvel. mas eles, após uma análise cuidada aos imprevistos que iam surgindo, alguns deles demorando mais tempo que outros, seguiam caminho, nem sequer equacionando a hipótese de voltar para trás ou de desistir.
a seguir aos instantes mais conturbados, chegavam invariavelmente momentos de plenitude, contemplação, paz e realização. em todos os momentos, bons e maus, o coração estava sempre aconchegado e embevecido com as juras de amor que se trocavam, com o calor dos olhares apaixonados e com o toque que transmitia serenidade e aquela distinta sensação de se estar no sítio certo, ao lado da pessoa certa e parte de algo que fazia todo o sentido, por toda a corrente emocional que ligava dois seres deslumbrados e ainda incrédulos com a felicidade que lhes tinha vindo parar ao colo.
e a viagem seguia, nem sempre pelas melhores estradas, o que causava algumas perturbações momentâneas, mas rapidamente surgia uma nova auto-estrada e o sol voltava a brilhar.
mas, ao quilómetro 728, aconteceu o "evereste" dos imprevistos: o carro avariou e eles tiveram de parar. desnorteados, tentaram encontrar justificações para aquela avaria. um dizia uma coisa, o outro apontava outra; um avançava uma solução, o outro aventava uma outra. não tardou até que chegassem as acusações mútuas de negligência ou descuido no manuseamento da viatura. um dizia que bastaria chamar o mecânico e esperar um pouco enquanto o carro era reparado; o outro entendia que não valia a pena e que ainda não estariam longe demais para voltar para trás e esquecer a viagem. um queria seguir a viagem; o outro, agastado com tantos imprevistos, decidiu ficar por ali.
nenhum deles fazia ideia das paisagens que se seguiriam naquela viagem, que fotografias tirariam em dezenas de cidades, que refeições saboreariam em localidades pitorescas, que vinhos provariam ou em que hotéis dormiriam. os quilómetros que se seguiriam eram uma incógnita, tal como o foram, afinal, todos os quilómetros que eles já tinham percorrido. mas a viagem acabou ali, naquela avaria. um deles voltou para trás. o outro ficou ao lado do carro, a insistir, a tentar ligar novamente a viatura, porque lhe parecia inconcebível que tivessem chegado até ali e não continuassem a viagem. algum tempo depois, também desistiu, depois de sentir que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para continuar em frente, mas não havendo carro, nem companhia, tal seria impossível. aqueles quilómetros realizados, as paisagens contempladas e os momentos vividos a dois, a cantar, a passear de mãos dadas, a tirar fotografias com a máquina e com a alma, tinham ficado para trás. não houve coragem para continuar a viagem, substituindo a viatura, ou prosseguindo de autocarro, de comboio, de avião. alternativas não faltavam, mas, porventura, não estariam predispostos a passar novamente por mais imprevistos ou para percorrer as tais estradas menos boas quando não havia auto-estrada. mas fica a sensação de que já tinham passado pelas maiores agruras quando decidiram acabar aquela viagem.
o que resta agora, são apenas recordações, o vazio de uma ausência que nunca tinha sido tão prolongada, uma dor pungente e dilacerante de uma saudade que não se consegue alimentar, uma vontade de gritar a tudo e a todos "vocês viram-na?", "como é que ela está?", "como é que tem passado?", ou de pegar no telemóvel e usar uma das dezenas de possibilidades de entrar em contacto. mas antes desse ímpeto chega um outro, o receio da resposta, o medo de que uma palavra mais ríspida possa provocar, o pânico de não sentir na outra pessoa aquilo que outrora era automático, a cumplicidade, a sintonia sentimental, a mesma ansiedade por chegar, a mesma vontade de tocar, de passar as mãos pelo cabelo, de deitar a cabeça no peito, de agarrar algo que se sente como nosso, só nosso, intransmissível, único e indivisível.
 o dilema é cortante, porque o carro continua lá, no quilómetro 728, e há uma pessoa que não sai do lado dele, à espera de algo que o coloque novamente a andar. enquanto houver carro e chave, existirá sempre uma hipótese de ele voltar a fazer-se à estrada. nunca o chavão "enquanto há vida, há esperança" fez tanto sentido. não é crime nenhum gostar de alguém; não é crime nenhum ter uma imensa vontade de dizer a essa pessoa que estamos cheios de saudades; não é crime nenhum manter viva esta premência de a voltar a ter nos braços; não é crime nenhum dizer "eu amo-te". posso estar "broken", mas continuarei ao lado do carro, no quilómetro 728, até não haver mais esperança, até o carro ser rebocado de vez.

"and i´m running out of words
I still love you like the very first time"

https://www.youtube.com/watch?v=kdjELYZ5GbQ

quarta-feira, setembro 18, 2019

patrick watson - broken


Tell me where we're going tonight Home is better than wandering in our heads We tried everything to save our love The best was always waiting to come Did we dig too deep For fifty-one reasons not to lose our souls? And it's not that you're not the one And it's not that you're not the one We all need a little peace Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Tell me where we're going so fast Never used to run when we were young And I'm running out of words I still love you like the very first time Pack your bags with all the lives you've been before And leave behind what you don't want no more Sometimes sometimes you wanna wanna go back But it don't work like that Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Memories come and then they go You just learned how to let go Sometimes sometimes you wanna wanna go back But it don't work like that Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken?

para que servem os blogues?

percebo agora a necessidade de criar um blogue. enclausurado dentro de mim, faltam-me âncoras diárias de amparo onde despejar tudo o que se acumula dentro de mim há algumas semanas.
não estou bem, admito que não estou mesmo nada bem. tudo o que havia para correr mal, correu mal. os piores receios confirmaram-se, aquela sombra negra que pairava sobre mim, e que se afastou durante dois anos, regressou e parece decidida a "compensar" a prolongada ausência com contornos ainda mais carregados de negrume, infinita mágoa e dilacerante amargura.
afinal, os blogues servem para isto mesmo: substituir pessoas de carne e osso. essas, lentamente, vão-se afastando. por coincidência, ou não, estamos quase no outono e, aos poucos, a minha árvore vai ficando sem folhas. elas vão caindo, uma a uma, levando com elas a irreversibilidade do momento em que conseguem soltar-se, precipitando-se numa queda aliviada para o chão. aqueles tempos em que, como pessoa ansiosa que sou, contava os dias que faltavam para me encontrar com amigos já lá vão. tenho que me render às evidências, falhei redondamente neste aspecto da minha vida, tal como noutros. sou obrigado a reconhecer que ainda não tenho, nem virei a ter, certamente, uma personalidade devidamente estabilizada e confiante o suficiente para me soltarem na sociedade. se eu fosse um computador, aceitaria, de bom grado, por esta altura, um reset total, ou, em último caso, que me devolvessem à fábrica, por manifesto e mais do que evidente erro de fabrico.
erradamente, pensei que o meu livro de instruções, o tal que veio de fábrica, já teria sido entendido por alguém nesta fase da minha existência. pura ilusão... os meus problemas, todos eles, com pessoas à minha volta ou sem pessoas à minha volta, continuam cá todos. estiveram, simplesmente, camuflados durante dois anos. andava tão eufórico com tudo o que me estava a acontecer de bom, de magnífico, de excelente mesmo, que nem me preocupava com isso, com essa avaliação ou introspecção. afinal, tinha alguém ao meu lado e esse factor da aceitação e integração social nem sequer foi uma preocupação para mim, de tão feliz, completo e pleno que estava.
chegado a este ponto, definho debaixo das minhas dúvidas e incapacidades. questiono tudo o que ficou para trás, quem fui numa outra perspectiva, dentro da referida ilusão, e se terei agido sempre em conformidade com esse estado de euforia sentimental, se o demonstrei devidamente, todos os dias, a toda a gente, se poderia ter feito algo de forma diferente ou se fiz tudo o que estava ao meu alcance para, de certa forma, merecer esse estatuto de homem finalmente feliz a passear constantemente nas nuvens.
sei quem fui e sei o que fiz. acredito mesmo que, se o tempo voltasse para trás, voltaria a fazer tudo da mesma forma. estava apaixonado? demonstrei-o. ficava deslumbrado todos os dias com a sua beleza? afirmava-o. manifestava uma ansiedade tremenda em estar sempre com ela? milhares de vezes. nunca me cansei. nunca houve enfado. o que nunca chegava... era o tempo. queria sempre mais e mais. nunca era nem foi suficiente.
acreditei cegamente que seria finalmente feliz, coloquei todas as minhas esperanças, anseios, ilusões, fantasias e aspirações nessa empreitada, com vista a esse desiderato. o estilhaçar desse sonho deixou-me desfeito e vazio por dentro. se tentar chorar, já só chorarei pó; se me cortar, já só verterei cinza.
este é um funeral a que nunca pensei assistir, mas da mesma forma que luto, no final de cada dia, pela existência de mais um dia, e que anseio por cada novo fôlego diariamente, resta-me a convicção, pura e dura, de que fui eu. limitei-me a ser eu, sem artifícios, maquilhagem ou ornamentos. o problema está identificado e bem enraizado, mas continua à espera de resolução, por ser uma consequência natural de quem se debate diariamente com a mesma dúvida existencial: devo ser como realmente sou porque só assim serei genuíno, autêntico e coerente, ou devo mudar a minha forma de ser, de agir e de pensar para assim agradar mais, ou alguma coisa, às pessoas com quem interajo?

terça-feira, setembro 17, 2019

patrick watson - dream for dreaming



This dream I'm dreaming Won't you wake me up tonight 'Cause this life I'm living Doesn't really feel like mine This strange dream I'm dreaming If it ain't wrong it don't feel right Never thought you were leaving I never thought I'd have to start again Somebody wake me up Don't you wish we were dreaming Don't you wish that we were just dreaming I never thought the stars would look new again Thought we'd get old, get dressed, and walk the dogs Never really thought I'd have to be alone I never thought you'd ever really be gone But I still sing along To yesterday's song I got lost in the tall green grass I'm so lost in the tall green grass Got on the phone and called a friend Asked him where the hell I am? Somebody wake me up Don't you wish we were dreaming Don't you wish that we were just dreaming Don't you wish that we were just dreaming

domingo, setembro 15, 2019

orgulho de pai



esta virtuosa miúda, de apenas 14 anos, mostrou hoje a centenas de pessoas o que é ter coragem. foi operada há menos de dois anos à coluna, mas a vontade férrea de dançar, vocação que nasceu com ela, levou-a a criar um grupo de dança para coreografar músicas de k-pop, o seu estilo de música preferido. o grupo cresceu, ensaiou todas as semanas e aperfeiçoou-se para uma oportunidade. ela chegou hoje, depois de, também, muito esforço para contactar as pessoas certas e angariar apoios. doze bravos adolescentes subiram ao palco viriato da feira de são mateus e encantaram a plateia, onde estava, a rejubilar com a actuação, jorge sobrado, vereador da cultura da câmara municipal de viseu e gestor da feira.
hoje, como sempre, a mariana deslumbrou, soltou-se, foi ela mesmo, aquela menina que eu via a inventar coreografias para as músicas da shakira e da beyoncé quando tinha 4/5 anos e que pegava no comando da televisão para fingir que era um microfone. a artista esteve sempre dentro dela, desde tenra idade. hoje, a artista saiu e foi um deleite, a dançar sempre com um sorriso nos lábios, de alguém que está a fazer o que adora, aquilo para que nasceu! E a Mariana nasceu para a dança!
no final, jorge sobrado deu-lhes a boa notícia: no próximo viseu street art, o grupo volta a actuar. como pai babado, babadíssimo, agradeço a distinção e a escolha. o grupo merece ser apoiado e acarinhado.
és uma valente, mariana! tomara eu ter metade da tua coragem e determinação! és uma verdadeira inspiração!

domingo, setembro 08, 2019

a dúvida persiste

gostava um dia de conseguir observar-me fora de mim, de me ser dada a hipótese de passar por mim na rua, de tomar café ao meu lado no balcão de um estabelecimento, de me ouvir a falar com as pessoas, porque só assim iria perceber que raio de imagem ando eu a passar de mim próprio há 47 anos.
se eu fosse uma estrela do cinema ou da música, já me teria despedido. faço muito pouco pela minha imagem, pela venda da pessoa que sou, pela minha personalidade. pior: sou mesmo a primeira pessoa a deitar-me abaixo e a rebaixar-me, seja qual for a situação. portanto, sou daquele tipo de pessoas que, em caso de dúvida, se utiliza como bode expiatório para resolver o diferendo. é preciso culpar alguém? lá estarei, qual batman a responder ao sinal estampado nos céus de gotham de cada vez que há uma emergência.
o que é que eu ganho com isto? muito pouco, convenhamos...
sei que não vou conseguir arranjar amigos com o estilo de vida que levo. sei que deveria sair, e agora apertem os cintos porque vem lá uma daquelas expressões fantásticas só ao alcance daquelas pessoas que realmente têm alguma coisa a dar à sociedade, com massa cinzenta suficiente para 1435 palestras motivacionais, cujo conteúdo é 95% tirado de posts do facebook com frases lindíssimas plasmadas em cima de pôr-de-sol, gatinhos ou flores, uff... da minha zona de conforto, ir à procura de um sítio onde me integrar, sentir bem ou, pelo menos, menos desenquadrado socialmente.
pois, falta-me isso. esse arriscar, essa coragem de não ter medo de ser escrutinado, observado e julgado. tal como faço aos outros... ou seja, tenho medo de me integrar em algo, porque, no fundo, sei que, se eu pertencesse a esse algo, eu próprio não me aceitaria a mim mesmo.
nó no cérebro? isso passa, vão por mim.
enquanto isso, a minha maior dúvida, desde que me conheço, persiste: será o resto do mundo que não permite que eu me integre, ou sou eu que não estou devidamente preparado para me integrar em algo?

quem sai aos seus alumia duas vezes

é engraçado como o tempo se encarrega de nos esbofetear com pequenos nadas que julgávamos insignificantes e que, uns anos mais tarde, chocam de frente connosco, como autocarros desgovernados após uma inclinação de noventa graus.
a minha mãe trabalhava como uma escrava, das 8h00 às 19h00, sensivelmente, com apenas uma meia horita para comer alguma coisa, a fingir que era o almoço. a restauração é dos sectores mais duros e limitadores que existem, falo por experiência própria. o seu trabalho consistia em assegurar tudo o que houvesse para assegurar num cozinha de restaurante, que era, ao mesmo tempo, pensão, snack bar e café. ou seja, a todos os momentos do dia, tinha que existir sempre algo para "mata-buchar" (expressão popular que deriva do não menos famoso "mata-bicho", muito usado na zona onde a minha mãe trabalhava). portanto, era trabalho non-stop, desde preparar os almoços, passando pelos lanches e acabando nos jantares. não havia tempo para descansar.
eu teria uns 8, 9 anos quando me apercebi disto, da carga hercúlea que ela e o meu pai tinham às costas, para poderem providenciar aos filhos, a mim e à minha irmã, três anos mais nova, uma vida confortável, digna e sem privações.
mas a minha mãe tinha os seus "truques", ou melhor, as suas formas de transformar tudo aquilo por que ela tinha de passar todos os dias numa espécie de recompensa no final do dia. ela tinha necessidade de, chegada ao final de um daqueles dias, se regalar com algo que ela entendia ser um prémio pelo esforço realizado. acredito mesmo que seria a pensar nisso que a minha mãe dava tudo o que tinha, para chegar ao fim do dia e ter a sua recompensa.
pois bem, a recompensa da minha mãe era muito simples: todos os dias, a minha mãe, quando saía do trabalho, tinha de levar consigo algo para degustar quando já estivesse de pijama, confortável, na sua cama, no pleno gozo do seu descanso. no verão, era sempre um gelado, primeiro os pernas de paus, mais tarde os magnum de amêndoas. não falhava! no inverno, era um chocolate jubileu, que dividia por duas semanas. mas era esta a rotina: chegava a casa, tomava banho, vestia o pijama, metia-se na cama e... recompensa! assistia a isto todos os dias, entendia, mas nunca lhe dei muita importância.
eu trabalho muito menos que a minha mãe. facto! nem me atrevo a comparar sequer a carga de trabalho. porém, há dias em que gosto de me mimar, e hoje foi um deles.
depois de uma semana de seis dias seguidos de trabalho, de um sábado em que dividi o tempo de ócio/folga com trabalho, cheguei ao domingo. acordei cedo, tomei banho e pequeno-almoço. decidi que seria tempo de, finalmente, sair de casa. aceitei o meu próprio desafio. vesti roupa desportiva e meti-me à estrada. rua direita abaixo, ribeira, parque radial de santiago. muito tempo a caminhar, tirar fotos e, essencialmente, a respirar. fundo, bem fundo! e a pensar. muito. muito mesmo...
chegado a casa, preparei o almoço, porque sabia o que lá vinha.
almocei, compassadamente, lavei a louça, mudei de roupa e... meti-me ao trabalho. estive quase cinco horas a trabalhar. texto, mais texto, mais texto, e por aí adiante.
acabei de trabalhar... e fui trabalhar. tinha-me comprometido que passaria pelo jornal para ajudar no fecho de edição. e lá fui. mais duas horas. num dia de folga...
a recompensa, perguntam vocês? pois, eu sabia que teria de me mimar, para me compensar por ter desperdiçado duas folgas com trabalho e, vá, algum ócio insatisfatório.
saí do jornal, fui a uma superfície comercial e, basicamente, tratei de me satisfazer com pequenos nadas que eu sabia que me iriam saber bem quando, já no meu período de descanso, as pudesse usufruir com conforto, sossego e tempo.
as práticas passam de pais para filhos, como se fossem matéria de testamento. hoje senti-me como a minha mãe em 1980. e senti-me mesmo muito bem com isso!

domingo, abril 07, 2019

dois corações que voltam a bater



"com a predisposição certa, vêem-se corações em todo o lado"


há pessoas tão doces e ternas que nos preenchem. há pessoas tão belas e sensíveis que nos cativam. há pessoas tão estimulantes e viciantes que nunca queremos sair do lado delas, porque é lá que nos sentimos nós mesmos, que sentimos que pertencemos a algo. e esse algo é o "nós" que procurávamos há tanto tempo. o amor puro até pode chegar tarde, em forma de segunda oportunidade; pode chegar quando menos se espera, quando existem compromissos prévios; pode chegar e reescrever tudo aquilo que somos, em virtude da enorme cumplicidade, da ternura espontânea, da admiração, respeito e amizade mútuas; pode chegar e ser vivido intensamente, usufruindo de cada minuto como se fosse o primeiro fôlego, o primeiro passo, o primeiro bater do coração.
mas há um momento em que ele surge, mesmo de forma inesperada, e quando esse género de amor chega... temos de fazer tudo para o merecer, para o preservar, arrebatando o coração da pessoa amada e conquistando-o todos os dias. um amor assim, agarra-se para a vida! e o que resta dela é para passar ao seu lado, sempre a ver corações em todo o lado.

sábado, abril 06, 2019

revigorar o espírito e a alma nos passadiços do sistelo



uma caminhada a dois, entre a ponte medieval de vilela e a aldeia de sistelo, num total de 22 kms. não estávamos à espera que fosse tão difícil, embora estivéssemos preparados, depois de duas caminhadas na ecopista do dão, de 16 e 18 kms, nos dois fins de semana anteriores, mas fomos em frente, com o nível de dificuldade a subir gradualmente até à chegada à aldeia de sistelo. nada foi feito com espírito de missão ou de sacrifício; chegámos ao fim realizados, revigorados e, acima de tudo, com mais uma prova definitiva de que, juntos, conseguimos fazer tudo, por mais complicado que pareça ultrapassar o que nos vai surgindo pelo caminho.
foi uma experiência inesquecível, com paisagens memoráveis, a água mais límpida de sempre do majestoso rio vez, o verde do minho, que tanto nos impressiona (paredes de coura, ponte da barca, etc.), as dezenas de borboletas que nos foram acompanhando no percurso (mais as vacas, as cabras, as ovelhas), as nossas "recompensas", na forma de uma cerveja numa esplanada à chegada à aldeia de sistelo e de um piquenique improvisado na recta final do percurso, e aquela sensação, no final, de que estivemos em contacto com uma natureza pura e imaculada, bem conservada e respeitada, como deveria ser em todo o lado, pelas muitas pessoas que fazem aquele percurso.
um experiência para recordar... mas também para repetir, certamente!



















sexta-feira, março 08, 2019

mark hollis (1955-2019)




a notícia chegou no dia 25 de fevereiro de 2019 e apanhou certamente toda a gente de surpresa. tinha partido mark hollis. o homem que nos tinha abandonado a todos, musicalmente, em 1998, desaparecia assim, também, da nossa vida terrena. 
não foi o meu caso, porque, curiosamente, há meses que andava a ouvir talk talk no carro, nas minhas viagens, mas houve logo uma necessidade galopante de ir ouvir novamente os discos, nomeadamente os mais introspectivos, como "spirit of eden", "laughing stock" ou o disco a solo "mark hollis". foi assim que, aos primeiros sons de "i believe in you" foi impossível segurar as lágrimas, quando nos apercebemos que jamais haveria possibilidade de ouvir músicas como esta ao vivo, ou tantas outras do mesmo quilate, como "wealth", "april 5th", "time it's time", "it's getting late in the evening", "tomorrow started", "renee", "inheritance" ou "after the flood".
conheci verdadeiramente os talk talk apenas nos anos 90, através de um grande amigo, a quem já fiz questão de agradecer várias vezes a sugestão musical. claro que me lembro de, no início dos anos 80, ouvir dezenas de vezes por dia a "my foolish friend" e de, mais tarde, ouvir os hits da banda, como "it's my life", "talk talk" ou "such a shame". quando discos como "the colour of spring", "spirit of eden" e "laughing stock" foram editados, entre 1986 a 1991, estava longe de imaginar que um dia poderia endeusar as suas músicas e ouvi-las repetidamente. mas ainda fui a tempo de reconhecer todo o virtuosismo da banda, a capacidade invulgar de hollis verbalizar o seu sofrimento, a pungência das suas letras e a carga emocional encerrada nos seus discos mais introspectivos, de um perfeccionismo cortante e de imaculados arranjos. hollis chegou cedo ao sucesso e depois aproveitou-o para fazer os trabalhos que realmente queria deixar ao mundo. pintou os seus quadros e abandonou a sala para eles serem devidamente apreciados e reconhecidos.
depois do seu disco homónimo, a solo, em 1998, mark hollis abandonou o mundo da música, anunciando que se iria dedicar a ser um bom pai. à medida que os anos foram passando, os seus últimos três discos foram ganhando cada vez mais consenso, apesar do insucesso de vendas, chegando a ser considerados, especialmente "spirit of eden", como um dos melhores discos de sempre.
a sua morte consternou o mundo da música, com vários músicos a reconhecer a forte influência de hollis nas suas carreiras, como roland orzabal, dos tears for fears ("he was a god among so many mere mortals of 80s music. in fact, to brand what he did with talk talk as ‘80s music' is to discredit the genius that seeped out of his melodies and lyrics – lyrics that sometimes barely made it out of his mouth, as though he wanted to keep the world’s best kept secret all to himself"), charlotte church ("spirit of eden is, hands down, one of the greatest records ever made. The amount of healing that record allows is nothing less than a beautiful gift and I am ever thankful for it. Thank you, Mark, for your enigmatic spirit, which surrounded and comforted us through every work you made"), rachel goswell, dos slowdive ("mark’s voice has such fragile beauty and warmth. Eden floors me every time I hear it – lyrically it’s so beautiful, and the space and depth of the songs are simply wonderful"), richard reed parry, dos arcade fire ("if there were ever records that defy description, it’s Spirit of Eden, Laughing Stock, and Mark’s solo record. I don’t know of any other albums as confidently soft-spoken and utterly without precedent – where the sound of the room seems to be as important as any instrument, where the quality of an improvised single note, captured on tape the first time it’s played, is far more important than any amount of rehearsing or catchy pop melody. This trinity of modern chamber, jazz, post-rock masterpieces are some of the most finely crafted albums ever made, with no discernible limits to their scope beyond their own gorgeous sense of self-restraint"), ou max richter
("the first time I heard it (spirit of eden), I felt like I’d found a secret universe, one that contained something I’d been been missing without my being aware of it, and that seemed to promise a way of making sense of the world. I read somewhere that a person’s true legacy is what they leave behind in the hearts of others. By that measure, Mark Hollis left us a very beautiful legacy indeed").
o jornalista wyndham wallace descreveu, no site the quietus, a sensação de impotência com que todos nós, apreciadores do homem, do músico e do compositor, ficamos após a sua morte: 
"In the 21 years following the release of his only solo album, people would occasionally claim to have spotted Hollis in, say, the stands at White Hart Lane, but to all intents and purposes he disappeared from sight entirely. Even his former bandmates and manager lost almost all contact with him. He was, in many ways, doing us a favour: our enjoyment of his records remains unfettered and unpolluted by anything so banal as analysis. But now, after a short illness, Mark Hollis has left us, extinguishing for eternity any last hope that he would share the secrets of its alchemy. The dream that he would one day again make air vibrate is gone with him too".

p.s. - se, depois de lerem tudo isto, tiverem a curiosidade de ouvir a música dos talk talk que agrafei a este post, espreitem, por favor, os comentários das pessoas que aproveitaram o youtube para se despedirem de mark hollis. raramente tinha sentido pele de galinha durante tanto tempo e tantas vezes, confesso.

quinta-feira, janeiro 10, 2019

estas nuvens fazem hoje 13 anos!


o "nuvens da alma" chega hoje aos 13 anos.
são já quase 2800 posts, de muita introspecção, desvario, aqui e ali alguma irascibilidade, acolá uma porção de picuinhice, mais além, atrás daquela árvore, não, não, a outra, lado direito, isso mesmo, um pouco de hedonismo, sempre à procura daquela sensação de chegar ao fim de um texto e dizer para mim mesmo: "caramba, era isto mesmo que eu queria explanar e transmitir aos meus dois fiéis seguidores!". como isso ainda não aconteceu nestes treze anos, não me resta outra alternativa. vou porfiar, com uma tenacidade voraz, até que esse momento irrompa. com a certeza, porém, de que as nuvens continuarão a perpassar por esta alma (cada vez menos) atribulada.
um muito sentido obrigado a quem ainda me segue por aqui, na blogosfera, e às quase 800 (um número para o qual não consigo encontrar justificação. oito, compreenderia; 80 já eram demasiadas; 800 é uma barbaridade! pronto, mas isso sou eu. continua lá a frase, pá. este já é o parêntesis mais longo da história...) que seguem o "nuvens da alma" na rede social facebook.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

como inverter um complexo em duas décadas

qual país dos brandos costumes, qual carapuça! portugal é, hoje em dia, um "papa-troféus". a auto-estima é tão elevada que em qualquer competição, concurso, sondagem ou consulta popular, em que apareça o nome de portugal, se oblitera completamente o "um dos..." e se abraça imediatamente o epíteto de "melhor". cristiano ronaldo podia ser um dos melhores jogadores do mundo. não é! é o melhor! josé mourinho podia ser um dos melhores treinadores do mundo. não é! é o melhor! ricardinho, no futsal, idem. mário centeno, nas finanças, idem. turismo, idem. estrelas michelin, gastronomia, vinhos, sapatos, joanas vasconcelos, não interessa, temos de ser sempre "os melhores", incluindo recordes do guinness, corridas de caricas, concursos de degustação de caracóis e competições inter-regionais relacionadas com o comprimento da unha do dedo mindinho.
em suma, somos os maiores. somos tão bons que até um jornal nacional, esta semana, fez parangonas a exultar que o nosso país tinha sido "eleito pela forbes como o país mais cool para visitar este ano", quando, na realidade, essa crónica (uma crónica, meu deus!) da revista referia apenas a ilha dos açores e a tabela de dez destinos a visitar estava por ordem alfabética, e, assim sendo, era difícil os açores não estarem em primeiro. ou seja, o jornal até poderia enveredar pela estrada dos factos, mas isso não chamaria a atenção de ninguém. portanto vamos lá ver como é que isto se terá processado na redacção do jornal, que eu vou manter em segredo, mas era o sol:

- vi agora no twitter uma referência a uma crónica da revista forbes que cita os açores como um dos destinos mais "cool" a visitar.
- caramba, mas isso é incrível! na forbes?
- não, vi no twitter, mas é sobre uma crónica...
- não interessa, é na forbes, que diabo! e os açores estão em que lugar?
- estão em primeiro na lista, mas é por ordem alfabética...
- um primeiro lugar é sempre um primeiro lugar. vamos lá puxar por isso.
- mas como?
- já sei! vamos colocar portugal em vez dos açores, porque também há coisas muito "cool" para se visitar em carrazeda de ansiães, freixo de espada à cinta ou vila velha de ródão, que diabo! e vamos dizer que foi a revista forbes a eleger...
- mas era apenas uma crónica...
- revista forbes, por favor. vá, vamos lá então. que dizes deste título: "portugal eleito pela forbes o país mais "cool" para visitar este ano".

e é com isto que temos de levar todos os dias. ontem, a fazer zapping, apanhei marcos frota, actor brasileiro, no "5 para a meia-noite". quando lhe perguntaram o que ele não gostava de portugal, o actor referiu que não gostava muito do portugal de há uns 20/25 anos, porque era muito triste, sorumbático, com complexo de inferioridade e de culpa enorme, apontando a enorme diferença que sente agora no nosso país, em que vê as pessoas alegres, bem dispostas, simpáticas, abertas e cheias de auto-estima. fiquei a pensar nisto durante dez segundos e voltei a mudar de canal. desde que começaram a bombardear-nos com os "somos os melhores nisto", "somos os melhores naquilo", "temos o melhor isto", "temos o homem com a unha do dedo mindinho mais comprida do mundo", que a nossa auto-estima veio por aí acima.
pena é o marcos frota, que eu já não via na televisão desde os anos 80, sensivelmente, não ser português. caso contrário, era o melhor actor do mundo!

segunda-feira, novembro 19, 2018

quando os olhares convergem



raros eram os dias em que ele não frequentava aquela pastelaria. o vício do café levava-o há mais de uma dezena e meia de anos ao mesmo local, onde, por norma, escolhia a mesma mesa. a rotina era tão intrínseca que a própria funcionária do estabelecimento ficava admirada quando ele ficava numa mesa diferente. 
os anos foram passando, com poucas variações na forma de pedir o café ("boa tarde, queria um café curto, se faz favor!"), na (falta de) interacção com os outros clientes ou mesmo na duração daquele momento diário. os dias misturavam-se uns com os outros, sem nada de surpreendente a reter além de um ou outro cliente novo e da natural rotação de funcionárias. quando ele entrava e se sentava, sabia que caras ia encontrar e isso sossegava-o, porque se sentia enquadrado e confortável. 
de entre as dezenas de rostos familiares, havia um que não deixava de lhe suscitar uma grande curiosidade, porque era a única pessoa naquela pastelaria que não aproveitava aqueles minutos para descomprimir, descansar os olhos e simplesmente saborear o seu café (no caso dela, chá. sempre chá). os dias passavam e a sua postura mantinha-se inalterável: olhos fixos num livro, sempre muito agasalhada, como se nunca estivesse calor suficiente para ela largar todas as peças de roupa que insistia em colocar em cima do seu corpo, e o mesmo ar alienado e distante, como se apenas o corpo dela ali estivesse e a mente flutuasse ao ritmo das palavras que lia. 
os anos passaram, muitos anos mesmo, e todos os dias, à mesma hora, no mesmo sítio, repetia-se, invariavelmente, a situação: ela nunca levantava os olhos dos livros que levava consigo religiosamente, ele à espera de um olhar que fosse. dois seres presos no conforto da sua timidez e introversão, que apenas queriam passar despercebidos naqueles minutos diários na pastelaria. ela bem tentava... mas ele reparava nela todos os dias.
passaram-se vários anos e, por estes dias, eles continuam a frequentar a mesma pastelaria, só que, agora, na mesma mesa. as roldanas gigantes que fazem a vida dar voltas sem fim resolveram parar naquele dia 18 de novembro, pelas 11 horas, para se desamarrar aquele tão ansiado olhar, desejado há tantos anos. demoraram mais de uma década a eliminar as mesas e as cadeiras que os separavam, diariamente, naquela pastelaria, até ficarem, finalmente, juntos. 

escolhem sempre a mesma mesa, a que tem a palavra "doce" estampada, porque foi nessa que tomaram café juntos pela primeira vez, naquele dia de novembro. os anos passam, mas o brilho nos olhos de ambos quando estão juntos mantém-se inalterável desde então...

segunda-feira, outubro 01, 2018

os 5 segundos do benefício da dúvida

afinal, a vida prepara-nos para quê? fala-se tanto em aprendizagem, maturidade e sabedoria adquirida com a idade, e, no entanto, eu continuo sem perceber onde irei encontrar isso tudo.
receio que tenha entendido tudo mal logo de início. aprendi caminhar, a falar, a ler, a escrever, a andar de bicicleta, a nadar (não para salvar a minha vida, mas o suficiente para me cansar ao fim de quinze segundos), a apertar os sapatos, a vestir-me (embora tenha faltado a todas as aulas que versavam os nós de gravata), a conduzir, a lavar-me e a assoar-me (aqui sim, não faltei a uma única aula e sou um autêntico campeão!).
chegado à madrugada dos 46, e depois de todas aquelas etapas complicadas do parágrafo anterior, encontro-me, na realidade, um pouco perdido. sinto que faltam algumas coisas e que, sem as quais, não consigo efectivamente entrar naquilo a que toda a gente chama de vida. assim de repente, tenho graves lacunas em termos de tacto social, um sentido de oportunidade péssimo (fico sempre com a sensação de que as pessoas me dão 5 segundos de benefício da dúvida para dizer algo inteligente - ou inteligível - e que eu nunca aproveito da melhor forma esse tempo. e pior: quando vou começar a dizer algo, as pessoas, que já tiveram a bondade de me "oferecer" 5 segundos, já fizeram as malas e foram oferecer essa quantia exagerada de tempo a outras pessoas) (ena, que grande parêntesis...) (olha, três parêntesis seguidos!...) e, acima de tudo, uma introversão bipolar, que por vezes se mascara de extroversão.
resumindo: nem eu próprio me consigo entender e, muito menos, viver comigo e com as minhas múltiplas camadas.
sinto-me feliz, por vezes, e até consigo prolongar o momento por alguma horas. é giro! consigo sorrir até, alegrar as pessoas à minha volta, ao ponto de até lhes conseguir vislumbrar, amiúde, algum esgares de consideração, respeito e admiração. reconheço-os porque são uma lufada de ar fresco depois de tantos franzires de sobrolho e revirares de olhos. mas logo depois, se porventura esmoreço ou caio novamente na minha teia sorumbática, aparecem imediatamente carradas de malas outra vez e ouve-se uma voz feminina no altifalante: "senhores passageiros, o comboio estacionado na linha 3 vai partir em direcção a badajoz".
a sensação é exactamente igual às entregas de testes no liceu, quando eu tinha a noção que um determinado teste me tinha corrido excepcionalmente bem e que iria ter uma excelente nota, e aparecia para me cumprimentar um gigante 6, 7 ou 8, a vermelho. é uma mistura de incredulidade com ingenuidade, servida com uma redução de inadequação e uns salpicos de angústia e resignação.
pensei que tinha estudado o suficiente. julguei que tinha respondido da melhor forma a todas as questões. esforcei-me para ter uma boa nota. por tudo isto, quando acabavam os testes, saía da sala de aula leve como uma pintainho, aliviado e certo de que a nota estava garantida. afinal, tinha dado o meu melhor. essa boa sensação prolongava-se entre o final do teste e a entrega do mesmo. depois disso, vinham as questões todas, sempre as mesmas. percebi tudo mal? onde é que errei? se me esforcei tanto e tirei esta nota miserável, que raio de nota receberei quando nem sequer me esforçar?
portanto, estamos perante um daqueles casos em que a professora, quando chamava os pais à escola, dizia que as notas eram más porque a matéria não tinha sido apreendida. já passaram tantos anos e, no entanto, continuo a receber más notas e a sentir-me exactamente da mesma forma naquilo a que toda a gente chama de vida...

segunda-feira, agosto 20, 2018

slowdive em paredes de coura


3 anos depois da última vez, o regresso a paredes de coura, para ver a mesma banda: slowdive! Um concerto inesquecível, etéreo e inebriante, embrulhado num cativante bailado entre os deliciosos e envolventes sons da banda e um fantástico jogo de luzes. Quatro temas do disco de 2017 e mais uma viagem idílica aos anos 90, revisitando o 'shoegazing' que os catapultou e os temas que teimam em não envelhecer ("alison", "when the sun hits", "catch the breeze", "souvlaki space station" ou "crazy for you"), terminando em apoteose com a sempre magistral e épica "golden hair". Uma forma perfeita, também, de apresentar o festival, que conheci em 1998 com o meu compadre ricardo, à pessoa com quem pretendo partilhar tudo até ao meu último suspiro. Um triunvirato inolvidável: o verde vivo do minho, uma espantosa banda e o coração cheio, a verter felicidade, emoção e, acima de tudo, muito amor! Em 2019, lá estaremos novamente...

quarta-feira, janeiro 10, 2018

12 anos de nuvens da alma


10 de Janeiro!
2006-2018!
12 anos! É obra! Não uma prima, mas uma daquelas requalificações de pavimento ou inaugurações de chafarizes a duas semanas das eleições autárquicas.