sexta-feira, setembro 22, 2006

o dilema do casaco

a transição verão/outono provoca sempre as mesmas questões quando se pretende ir jantar fora. "estará frio?", "fará frio mais tarde?". na minha profunda sabedoria, fruto de anos de estudo e investigação na área da meteorologia, digo quase sempre: "não sei".
depois vem sempre o dilema do casaco. a minha mulher nunca acha que está frio suficiente para se dar ao trabalho de vestir um casaco. por ela andava sempre de manga curta. o mais estranho é que tem montes de casacos e quando surgem situações deste género diz quase sempre: "não tenho nenhum casaco que fique bem com esta roupa". é fatal! portanto, a capacidade de aguentar temperaturas baixas está estreitamente relacionada com as chamadas regras de vestuário. o casaco até pode ser quentinho, mas ela pensa que fica gorda com ele e não condiz com nada que tem vestido. nesse caso, prefere gelar e apanhar uma gripe a destoar peças de vestuário, sujeitando-se a ouvir comentários maliciosos de outras "escravas da moda".
eu, por outro lado, tenho em mente o meu próprio interesse. sei que me constipo 228 vezes por ano e, como tal, sei que mais tarde, vai estar mais frio e vou ter necessidade de vestir um casaco. quando ela tiver frio, tenho de fazer o gesto de cavalheiro, que sou, de tirar o meu casaco e de o colocar sobre os seus ombros. o gesto é bonito, galante e charmoso, mas caramba... era escusado. quer dizer, se fossemos apanhados por uma inesperada chuva de granizo, ou o país fosse invadido e tivéssemos de fugir repentinamente com apenas a roupa do corpo, eu não teria qualqur problema. dar-lhe-ia o meu casaco instintivamente. mas neste caso temos escolha. estamos frente a um roupeiro com dezenas de artigos e acessórios protectores para cada variação potencial de cinco graus de temperatura: camisolas, cachecóis, blusões, luvas. mas não. "eu fico bem", diz ela.
e assim saímos de casa. mais tarde, quando vem o mais que provável frio, tendo em conta que estamos já no outono, os dias quentes já se foram, ela já não se importa se o meu casaco condiz com alguma coisa que ela tem vestido. de certeza que lhe fica pior do que qualquer outro casaco que ela tem em casa, mas, apesar disso, está tudo bem, porque as pessoas sabem o que se passa. não a vão criticar. quando se vê uma mulher com um casaco de homem a destoar sobre os ombros nunca se diz "credo, em que é que ela estava a pensar para vestir aquilo?", diz-se antes "olha que amoroso, como ele abdicou do casaco por ela".
e aquilo que eu penso é: "sou um paspalho. eu é que me preveni antes de sair de casa, eu é que trouxe casaco, mas eu é que estou aqui agora a gelar. amanhã não me posso esquecer de passar pela farmácia, para comprar mais antigripine".

2 comentários:

tulipa_negra disse...

lol
texto delicioso...
só me identifiquei na parte de ter muitos casacos e achar que nenhum fica bem com a roupa qeu tenho...
beijos

A. Duarte Lázaro disse...

achei um texto fantástico e muito engraçado (pões sempre um toque de humor nos teus textos e é disso q eu gosto). Realmente é enternecedor ver gestos como o teu mas sinto-me solidária com o frio que rapas.
Eu como friorenta que sou levo sempre o casaco atrás. Ontem estava danada porque fui tomar café com um amigo e este havia-se sentado na esplanada!!! Mas destesto o Outono não só nas noites frias... é que as 24 horas mudam tanto as temperaturas como eu mudo de humor nesse espaço horário... frio de manhã, calor à tarde, novamente frio... para se escolher a roupa é um desastre!! é tudo ou demasiado quente ou demasiado fresco!