terça-feira, maio 23, 2006

quem camufla teu amigo é

tenho um grande defeito! reconheço. aliás, tenho vários, mas hoje queira falar de um deles apenas. os outros encheriam todas as páginas do expresso, incluindo suplementos.
os meus amigos, os verdadeiros, não aqueles de ocasião, confrontam-me amiúde com a minha suposta "falta de atenção" para com eles, a ausência de sinais de carinho e ternura, criticando, ainda, a minha acidez em alguns comentários pejorativos (não mal intencionados, aqueles que se dizem na brincadeira), a minha instabilidade emocional, que nunca lhes permite aferir se estou bem ou mal disposto antes de iniciarem qualquer conversa comigo. isto tudo para além de eu não conseguir conversar olhando olhos nos olhos a outra pessoa. e mais: que eu sou incapaz de manter uma conversa séria junto deles sem estar constantemente a mandar piadas parvas e a fazer trocadilhos irracionais e totalmente deslocados do assunto.
realmente... é muita coisa. é caso para perguntar como é que eu ainda tenho amigos!!...

pois bem, o meu defeito é o de "disfarçar" sensações, dissimulá-las, alterá-las de uma forma meia "apatetada" de maneira a que eu me sinta confortável e não meio acabrunhado, sem reacção para além de um sorriso amarelo constrangedor que, de tão rígido, provoca dores musculares na face durante um mês.
e quando é que eu faço isso? (não devo ser a única pessoa a fazê-lo, certamente!) eu faço isso quando não quero dar a entender à outra pessoa que, de facto, gosto dela. e é nessa altura que eu regrido cerca de 30 anos e me porto como um puto de 4 anos que se farta de gozar as meninas, a roupa delas, as brincadeiras e as bonecas delas, quando, no fundo, até queria mesmo era brincar com elas, pentear a barbie, vestir a cindy, fazer bolos de chocolate no mini forno eléctrico e servir chá no salão às amigas da carlota cambalhota (por exemplo). pois é, como era tudo tão simples nessa altura, gostávamos das nossas colegas da escola primária, mas ficava-nos bem dizer que as detestávamos, que o que era bom era brincar com o Chico, o Tó, o Zeca e o João. ah, e gozar com elas. sempre! agora é diferente, claro. se temos colegas de trabalho no emprego, como antigamente tinhamos colegas de escola, já não nos fica bem fazer o que faziamos antes.

mas voltando um pouco atrás, Vasco da Gama estava certo de que tinha encontrado o caminho marítimo para a Índia, embora não soubesse como voltar novamente ao seu país... bem, não tanto atrás. (parvoíce!). a esse processo eu chamo de "mecanismo de defesa", ou seja, estou sempre salvaguardado nesta minha carapaça de indiferença, mostrando o meu lado arrogante, de desprezo quase, dizendo apenas barbaridades, só para não ter que mostrar o meu "lado fraco" e sensível. conheço mulheres que adoram esse lado nos homens (felizmente são muitas e ainda bem, porque eu sou de facto assim); mas também há outras que nos "enganam" muito bem, porque parece que são exactamente o oposto disso e, depois, são iguais, não queriam era demonstra-lo, porque, lá está, também elas não queriam mostrar o seu "lado fraco". ou seja, quando pensamos que uma determinada relação, seja ela de trabalho, familiar ou de amizade, está a seguir um rumo "confortável", sem ondas, sem muitas exigências de parte a parte, somos confrontados com uma espécie de chamada de atenção do género: "porque é que a umas fazes questão de as brindar com elogios e a outras preferes pisar para não ter que elogiar?". e isto desarma qualquer um. primeiro porque a pessoa que fez a questão está cheia de razão. segundo porque esta espécie de "ciúme" camuflado faz-me cair na realidade e constatar que, de facto, tenho negligenciado algumas pessoas, em detrimento de outras, em várias fases da minha vida. e esta é uma delas (tanto a fase, como a pessoa). é o meu chamado "top of the pops" sentimental. (ricardo, esta do top é para ti!). umas vezes estão umas pessoas no topo, outras no fundo da tabela, também há reentradas, entradas directas para primeiro lugar, etc.. só não tenho é a isabel figueira a apresentar todas as semanas na televisão. sou assim, não há volta a dar. perdem-se muitas pessoas pelo caminho, ganham-se outras, ferem-se umas, mutila-se outras, causam-se severos danos psicológicos numas, vontade de mudar de sexo e orientação sexual noutras, etc..

reconhecendo isso, resta-me dizer a essa minha amiga que prezo mesmo bastante o pouco tempo que passo com ela. quando faço figuras de parvo ao mandar bocas foleiras e depreciativas tou a vestir uma pele confortável e cómoda, que apaga qualquer vislumbre de carinho e ternura que sinto por ela. e ela sabe que o sinto!...

6 comentários:

Ricardo disse...

Hmmmm... Isabel Figueira....

BR disse...

Dearest Isaac...

... e porque é tão difícil tirar a máscara? Porque é tão complicado dizer "gosto de ti"?
Já pensou que ao dizer à menina a quem "manda as bocas" que sente toda essa ternura por ela, ela poderá retribui com um: "Eu também."?

Das duas, uma: ou as mulheres são complicadas de tão simples ou simplesmente indecifráveis de tão complicadas. Por isso arrisque e jogue (não pelo seguro) mas como "atacante de team brasileiro"!

Um abraço e um conselho sem conhecimento de causa e ainda assim, sentido.
BR

isaac davis disse...

br:
não sei se já viu um excelente filme chamado "Sideways", em que há uma cena fabulosa, num alpendre, de noite, em que o protagonista (Paul Giamatti) conversa apaixonadamente sobre vinhos com uma mulher (Virginia Madsen), de tal forma que a "agarra"; ela deixa-se envolver, fascinada pelo tema e pela eloquência demonstrada. cria-se um ambiente de cumplicidade, motivado por um gosto comum (a apreciação vinícola), que se vai arrastando para uma atracção física evidente. há uma fracção de segundos em que a conversa pára e eles ficam a olhar um para o outro, à espera de algo, de um movimento, de uma aproximação. em silêncio constrangedor, o protagonista não consegue articular mais nada para além de um "vou à casa de banho". chegado lá, ele sente nitidamente que "perdeu o momento", que não teve coragem para dar o passo decisivo, quando todo o ambiente estava criado e "pedia" essa crucial medida. ele sai da casa de banho e encontra-a na cozinha. desesperado, chega ao pé dela e tenta beijá-la, tentando "remediar" a situação. ela afasta-o, delicadamente. já não havia "ambiente", o fascínio estava agora quebrado, the mood was gone.
e é isto! adorei o filme, a personagem principal é contagiante, mas quem é que quer que lhe aconteça isto?! numa situação idêntica, e já tive muitas, também me "levantei para ir à casa de banho". nunca consegui fazer essa transição entre uma conversa agradável, um fascínio e atracção mútua, para algo... mais.
bem... vou à casa de banho.

Ricardo disse...

Lava as mãos, pá. (para o caso de a quereres beijar, e tal...)

Anónimo disse...

Entendo a necessidade de usar a carapaça... é confortável e serve de escudo protector. até ai, assino em baixo - e sabes bem que sim... mas se algumas pessoas são tão especiais ao ponto de serem merecedoras de elogios rasgados ( e ás vezes um tanto ou quanto exagerados , digo eu) então, não serão as outras tão significantes?

ou será que merecem apenas comentários depreciativos porque já são relações seguras? ou será, trantando-as menos bem, uma forma de dizer que lhes queres bem? será uma questão de receptividade o factor que te leva a apreciar umas e a "despreciar" outras? ou será, tão pura e simplesmente, uma especié de "se aguentares isto tudo é porque estás realmente do meu lado"?

mas, por outro lado, tens razão... também não é só nas palavras doces que se recolhem sentimentos. são sentimentos, por isso, sentem-se...

Anónimo disse...

E para concluir um meu anterior post, queria apenas acrescentar uma frase que recebi há pouco por mail. Pareceu-me que veio na altura certa... tira o que quiseres dela:

"Nunca se justifique. Os
amigos não precisam e os inimigos não acreditam."