terça-feira, outubro 06, 2020

A geração tipificada

 

 


 Haverá algo mais irritante do que estarmos a falar com alguém que usa a mesma muleta linguística repetidamente? É certo que não é uma situação tão grave como ouvir calinadas como “ouvistes”, “quaisqueres” ou “”hádem”, mas aleija na mesma. Foram anos a aguentar o martirizante “é assim”, o erróneo “prontos”, o inexplicável “a modos que” ou o transversal “cena”.

“A modos que, para mim, essa é uma cena marada, porque é assim, não estou nem aí para essas coisas, prontos. A minha cena não é essa, mas isso sou eu, tás a ver?”.

Sim, eu sei, depois de uma frase destas até a minha sombra fugiria mais depressa que eu. Mas, e este é mais um tique linguístico, “é o que há”:

Vem isto a propósito da enervante ascensão ao poder da muleta “tipo”, pulverizando todas as outras, sobretudo entre as camadas etárias mais jovens. Actualmente, é virtualmente impossível falar com alguém na faixa etária 15-30 sem ouvir 357 “tipos”. Ninguém sabe para que serve, mas a constante repetição da palavra despoleta um desconforto semelhante ao martelar de um prego no nosso canal auditivo.

O site Priberam descreve-a assim: “palavra esvaziada de sentido que se usa ou se repete no discurso, geralmente de forma inconsciente ou automática, como bordão linguístico”.

Exacto, “esvaziada de sentido”… Ninguém deixará de questionar as teorias evolucionistas da humanidade perante uma frase como esta: “Eu entrei tipo na sala, e tipo ficou toda a gente a olhar tipo para mim, e eu fiquei tipo nervosa, porque não sabia tipo o que fazer, foi tipo mesmo surreal, tás a ver?”.

Poderemos falar em preguiça ou desleixo mental, porque existem milhares de palavras, há dicionários à venda, livros para ler, mas será certamente mais fácil, ou mais prática, usar as mesmas palavras que toda a gente usa, tipificando toda uma geração.

Recuando um pouco no tempo, e estabelecendo comparações a níveis linguísticos, não deixamos de ficar maravilhados com o cuidado e tratamento que se davam às palavras para chegar a declarações de amor como esta: “E é amar-te, assim, perdidamente; é seres alma, e sangue e vida em mim; e dizê-lo cantando a toda a gente!”. Nos dias de hoje, algo indolente e entorpecido como “curto-te tótil, és tipo a pessoa que eu tipo mais amo e estou bué apaixonado por ti, porque és tipo top para mim” passa uma esponja sobre o processo criativo de Florbela Espanca.

O “tipo” é pandémico ao ponto de, tendo começado nas camadas mais jovens da sociedade, já ter contagiado as gerações mais velhas. Já não faltará muito para ouvirmos frases como estas no talho (“Quer o frango inteiro ou tipo partido?”), na reunião com a directora de turma do filho (“O Timóteo é assim tipo distraído e desleixado, tipo parece que nem está na aula”), ou no dentista (“Você tem aqui tipo cinco cáries e se não as tratar vai ter tipo muitas dores no futuro”).

Vendo esta temática pelo lado positivo, temos de nos sentir aliviados por não ter sido a geração do “tipo” a descrever momentos de elevada importância histórica no passado. Se fosse, ficaria algo como isto: “Este é tipo um pequeno passo para o homem, mas tipo um salto gigantesco para tipo a humanidade”; “Mr. Gorbachev, deite tipo abaixo este muro”; “Eu tenho tipo um sonho, de que os meus quatro filhos viverão tipo um dia numa nação onde não serão julgados tipo pela cor da sua pele, mas tipo pelo teor do seu carácter”; “Eu sou tipo um berlinense”; “Para Angola, tipo rapidamente e tipo em força”.

Vamos esperar que isto passe, tipo, depressa.

Um debate no recreio da escola

 

 


 Nos Estados Unidos da América, os candidatos não são escolhidos pelos seus méritos oratórios, diplomacia ou experiência política, mas sim pela capacidade financeira e pelos valores que conseguem arrecadar durante o ciclo eleitoral. De que outra forma conseguiríamos explicar a um extra-terrestre, recém-chegado ao nosso planeta, que uma personagem como Donald Trump é mesmo presidente de um país?! E não se trata de um país qualquer, é o auto-proclamado “líder do mundo livre”.

Vem isto a propósito do debate entre os dois candidatos à presidência americana, realizado na terça-feira. Porque, quase quatro anos depois, ainda me custa a acreditar que os americanos elegeram mesmo tão ignóbil criatura para gerir os seus destinos.

Habituei-me, na década de 90, a assistir aos debates finais entre candidatos, sobretudo desde que Clinton “roubou” o segundo mandato ao Bush pai. Mais experiente, quatro anos depois, o democrata nem chegou a ser beliscado por Bob Dole para chegar ao segundo mandato. Seguiu-se a famigerada primeira eleição de Bush filho, em 2000, onde Al Gore, vice-presidente de Clinton, teve mais votos e maior percentagem eleitoral (48,4 contra 47,9%), mas perdeu por 5 votos no colégio eleitoral (266-271). Bush teve mais sorte na segunda eleição, contra um macio John Kerry, cedendo depois o seu lugar ao democrata Obama. Os debates entre este e os seus opositores, o bonacheirão John McCain e o circunspecto Mitt Romney, foram muito interessantes, levando a incerteza sobre o vencedor até às urnas. Mas Obama conseguiu levar a tocha até Hillary Clinton, que se perfilava como a primeira presidente americana. Até que surgiu Donald Trump…

Há quatro anos, o mundo ficou incrédulo com a vitória republicana. Todas as sondagens davam a vitória a Hillary, que teve mais votos, maior percentagem (48,18 contra 46,09%), mas perdeu, tal como Gore, no colégio eleitoral (227-304). Em choque ainda, fomos assistindo a todo o tipo de malabarismos, contradições, mentiras, atropelos e desconsiderações por parte do presidente americano, que governou com a subtileza de um elefante a andar de patins numa loja de porcelanas.

O primeiro mandato já está a acabar… respirem fundo… Mas ele aí está novamente, como seria de esperar, até porque não deverá existir à face da terra alguém mais apegado ao poder (bem, talvez Putin, ou Maduro…). A táctica que usou contra Hillary está de regresso: atropelos constantes à liberdade de comunicação e regras de etiqueta, má educação, rudeza e a habitual verborreia umbiguista. Do outro lado, o vice-presidente de Obama, Joe Biden, que ganhou o lugar ao muito mais vivaço Bernie Sanders.

O debate de terça-feira, o primeiro de três, confirmou o que era expectável, vindo de quem vem: bullying contínuo, ataques pessoais a familiares de Biden, zero decoro e contenção verbal. A forma como Trump falou por cima do seu opositor, cortou constantemente a sua linha de raciocínio e o interrompeu já estaria estudada há meses, conhecendo as fraquezas do democrata. Evidenciou a sua personalidade asquerosa e rudimentar e um ego do tamanho de um sistema planetário, algo que já exibia há décadas, tanto no programa televisivo “The Apprentice” ou nos concursos de Miss América, promovidos pelo empresário.

Trump não muda, quem muda são os seus adversários. Sabe que as pessoas que votaram nele em 2016 vão votar novamente, porque o seu discurso é exactamente igual. Meia dúzia de mentiras e promessas ocas, aliadas a repetidas afirmações da hegemonia americana no mundo, não receando nada nem ninguém, e está servida a mesma refeição. Sabendo disso, os democratas optaram pelo completo contraponto de Trump, uma figura dócil, inofensiva e demasiado complacente. Além de mandar calar a alaranjada figura e de lhe chamar “palhaço”, Joe Biden apenas fez acusações diretas, como “você foi o pior presidente americano de sempre”, sem nunca as aprofundar devidamente. É certo que estava constantemente a ser interrompido, mas quando falou, de olhos para as câmaras televisivas, não foi eloquente ou assertivo o suficiente, não apresentou alternativas nem programa eleitoral capaz. Em meia dúzia de palavras, Trump conseguiu sempre reverter tudo a seu favor. Biden pareceu um daqueles miúdos que passa a vida a ser achincalhado no recreio por um miúdo mais forte fisicamente, e que, por fim, resolve fazer queixa desses maus tratos. O pior é que com essa queixa a sua vida fica ainda mais infernizada…

O debate foi pobre e até confrangedor. Nem mesmo quando o moderador deu oportunidade a ambos para falarem de projectos para os próximos quatro anos se ouviu uma ideia, reforma ou visão. Preferiram, ambos, falar do que cada um fez no passado, criticar o que foi feito quando um e outro estiveram no poder. Quem perdeu foram os eleitores, que, desta forma, ficaram a saber precisamente o mesmo que já sabiam.

O meu receio é que os próximos debates sejam precisamente iguais, com Trump a pulverizar tudo novamente com constantes elogios a si mesmo, e que Biden continue amorfo, pouco loquaz e repetitivo. Tenho receio dos próximos quatro anos com Trump novamente ao leme de uma das mais poderosas nações do mundo. Temo que perca as eleições e arranje forma de impugnar o acto ou de reverter os resultados a seu favor. Porque quando as crianças mimadas recebem um presente que desejavam há muito tempo, não deixam mais ninguém brincar com ele.

domingo, setembro 27, 2020

150.000 visitas em 10 anos!


 

de 1 de julho de 2010 a setembro de 2020, o nuvens da alma registou 150.005 visitas!

uma média de 15.000 visitas por ano, 1.250 por mês e 42 por mês.

isto porque, apesar de o blogue ter sido criado em janeiro de 2006, só instalei a contagem de visitas em julho de 2010. curiosamente, creio mesmo que os primeiros quatro anos do blogue, os tais que não foram contabilizados, até foram os mais frequentados. baseio esta minha opinião no grande número de comentários recebidos nessa altura.

estes números, todavia, não são nada maus, até porque os blogues já não estão na moda. hoje em dia, a reacção que temos quando dizemos que temos um blogue é a mesma que recebemos ao dizer que temos uma máquina de escrever.

quanto ao resto, 2160 comentários recebidos em 2193 publicações, e 29 seguidores do blogue.

em termos de países, 52.000 visitas de portugal (34%), 29.900 do brasil (20%), 24.900 dos estados unidos da américa (17%), 7.000 da rússia (5%) e 4.000 da frança (3%).

satisfeito com os números, agradeço a todos aqueles que ainda frequentam este estaminé e louvo a sua infinita paciência.

obrigado a todos!

quarta-feira, setembro 23, 2020

a ensimesmar é que a gente se entende


 "ele é claramente uma mais-valia para nós, portanto vamos apostar nele".

mesmo sem o sabermos efectivamente, certamente que já fomos o visado numa frase desta estirpe.

a vida não se materializa apenas com certezas, como todos sabemos. a maior parte das vezes, ela desenvolve-se partindo meramente de pressupostos, do género "mas eu tinha a certeza que...". pois, não raras vezes a realidade apanha-nos desprevenidos e espeta-nos dois valentes tabefes na cara. 

mas sim, tenho de admitir, já devo ter sido, alguma vez, o alvo de uma frase como aquela que encima este despretensioso texto. a caminho dos 30 anos de vida profissional activa, iniciada em são pedro do sul em 1993, sou o melhor conhecedor dos meus defeitos, manias e falhas, mas também, ao mesmo tempo, a pessoa que mais depressa encontra em mim coerência, espinha dorsal e integridade.

falhei em toda a linha em muitos aspectos da minha vida profissional? sim, falhei.

se tivesse sido mais aberto e receptivo às personalidades mais distantes de mim teria tido mais oportunidades e melhor enquadramento social? sim, tenho a certeza.

esbanjei todas as oportunidades que me deram, as tais "apostas". fosse por embirração provocada por alguma pessoa, pela materialização de procedimentos que me custavam a executar, pela sensação de que me estava a vender, ou a vergar, a algo que não me servia (como se tivesse que comprar uns sapatos dois números abaixo do meu) ou por não me sentir bem na minha pele ou totalmente desenquadrado quando tinha que encarnar um papel, fazer uma encenação ou fingir fosse o que fosse.

tentei, ao longo destes 27 anos de vida profissional, ser o mais fiel àquilo que sou. não mendiguei amizades, não bajulei, não "comprei" momentos para alimentar o meu ego, não pactuei com invejas, falsidades e injustiças, não me meti em lutas alheias, dei o espaço que tinha de dar às pessoas com quem lidei diariamente, sem nada forçar, sem me "vender" como falso amigo ou messias de pacotilha.

fui eu mesmo, não encenei nada! nunca tive essa necessidade.

só consigo ser eu mesmo, não tenho veleidade de pretender ser algo que não sou.

prefiro isso a uma apresentação "milli vanilli", a um play-back, a um "mergulho" forjado dentro da grande área para provocar um penálti.

claro que, nesta altura, podem questionar: mas valeu a pena tudo isso?

não, claro que não! as pessoas, ou a grande maioria delas, não pretende nada disto. quer sorrisos amarelos, quer falsas atenções, quer pancadinhas nas costas, quer afagos na alma, mesmo que, ao mesmo tempo em que estes estão a ser efectuados, estejamos a ver no telemóvel o estado do tempo para o resto da semana ou os resultados da primeira jornada do campeonato grego.

e o que é que acontece quando não és assim? exacto, és colocado de lado e és rotulado com epítetos como "arrogante", "altivo", "imperial", "antipático" e "misantropo" (curiosamente, ainda não tive a oportunidade de conhecer némesis que soubessem o significado desta palavra).

de nada importa aquilo que produzes, a forma como o produzes, a pesquisa e o trabalho prévio para o produzir, todo o cuidado que tens a materializar o produto, ao nível da ortografia, pontuação e gramática, ou a apresentação que dás ao teu produto. se continuares a evidenciar todos aqueles epítetos do parágrafo anterior, tudo aquilo que produzes é... zero! mesmo que seja material digno de um pulitzer.

concluindo (ou em jeito de recomendação a todos aqueles que, tal como eu em 1993, estejam a iniciar uma carreira profissional):

se não quiserem acabar como eu, um quarentão rezingão, frustrado e totalmente inadequado em quase todos os aspectos da chamada vida social, façam exactamente o oposto daquilo que eu fiz. ou seja, sorriso amarelo estampado no rosto o dia inteiro (ao ponto de provocar lesões musculares na face) para evidenciar satisfação por qualquer piada, chiste ou anedota que é verbalizada, dinheiro sempre pronto para pagar qualquer despesa no café ou na tasca, disponibilidade para aceitar qualquer convite social proveniente do teu local de trabalho (baptizados, comunhões, despedidas de solteiro, jogo de futebol entre solteiros e casados, torneio de sueca, porco no espeto, etc.), comprar toda e qualquer rifa escolar vendida por um colega, ouvir sem um esgar de sacrifício ou dor qualquer história que alguém decide contar, estar disponível para dar umas gargalhadas valentes mesmo que não tenha qualquer piada aquilo que ouves (porque faz bem ao ego de alguém), e abdicar de tudo aquilo que tens para fazer, lá está, a tal produção, para ouvires os teus colegas falar das suas casas, animais de estimação, jardins, hortas, férias, fins de semana, etc..

independentemente do que produzas, independentemente da qualidade com que o fazes, independentemente da rentabilidade que apresentas perante a tua empresa, estes são os condimentos para uma vida profissional duradoura. porque, lá está, aos olhos de muita gente (e estamos nós no século XXI...), o mais importante não é aquilo que fazes, é aquilo que as pessoas pensam que tu és. e quando elas se sentem confortáveis com isso, o mundo é a tua ostra.

quem não tiver isto, resta-lhe continuar a seguir a estrada, até encontrar algo minimamente parecido com aquilo que procura. o tempo é cada vez mais escasso, mas há que manter o pensamento positivo.

quinta-feira, setembro 03, 2020

a primeira introspecção dos 48


 

não há dúvida nenhuma de que somos, para a maior parte das pessoas, apenas o reflexo daquilo que aparentamos ser. é fácil colocarem-nos um rótulo, após meia dúzia de interacções, e desistirem de nós, porque se assume que já nos conhecem e que, infelizmente, pensam elas, não somos capazes de mais.

quando optamos por uma postura mais tranquila e introvertida, somos automaticamente catalogados de antipáticos, arrogantes e altivos; mas quando decidimos ser extrovertidos e espontâneos somos atacados da mesma forma (nomeadamente com alusões ao álcool ou substâncias de efeitos análogos). conclusão: seja de que forma nos apresentarmos, haverá sempre alguém que não goste; seja qual for a roupagem por que optamos, ela esbarrará constantemente naquele juízo prévio a que fomos condenados.


esta dualidade, ou desenquadramento social, leva muitas vezes ao inevitável descarte por parte daqueles que não querem ter o trabalho de nos entender. é como ter um livro com 550 páginas e nunca pegar nele para o ler, porque se antecipa logo muito trabalho e compromisso. mas os melhores livros que já li têm precisamente esse número de páginas, ou até mais.


em conclusão: podemos não criar marcas indeléveis nas pessoas, ao ponto de toda a gente com quem trabalhámos durante 3 anos se esquecer do nosso aniversário, por exemplo, mas não nos vergamos à sombra daquilo que as pessoas querem que nós sejamos, apenas porque lhes facilita a vida.

e sim, se eu fosse um livro, teria mais de 800 páginas...

segunda-feira, agosto 03, 2020

o meu reino por um fontanário no fontelo!



conhecido como o "pulmão" da cidade, o parque do fontelo é uma referência incontornável quando se fala em exercício físico, desporto e bem-estar. ponto de encontro obrigatório, durante décadas, de praticantes de atletismo, futebol, ténis, btt, entre outras modalidades, o espaço oferecia ainda um circuito de manutenção, devidamente assinalado e com equipamentos disponíveis. a juntar a tudo isto, no lote dos elementos a enaltecer, a oportunidade de respirar ar puro entre a diversidade e a riqueza das espécies arbóreas existentes, a beleza dos pavões (conforme a foto documenta) e facto de haver alguma oferta em termos de fontanários. neste último ponto, consigo contabilizar pelo menos cinco, com água potável, disponíveis no parque há dois ou três anos.
com o encerramento ao público do parque, devido à passagem das tempestades leslie e helena, o cenário mudou, não só em termos visuais, mas também a nível de infraestruturas. 
em termos visuais, os frequentadores do fontelo viram-se "premiados" com meia-dúzia de esculturas e instalações promovidas por um colectivo/projecto cultural local. não questiono a sua "qualidade", porque não as entendo, e duvido que alguém, além dos seus criadores, as entenda, mas questiono o local escolhido. algumas delas colidem ferozmente com a envolvente natural, não se percebendo o que estão ali a fazer, nem o que significam.
em termos de infraestruturas, aconteceu precisamente o inverso: se, a nível visual, nasceram elementos, neste, desapareceram valências. dos cinco fontanários, ou chafarizes, existentes há bem pouco tempo, nesta altura o parque do fontelo só tem um. UM!
várias centenas de pessoas passam diariamente por aquele espaço para praticar desporto. a caminhar, a correr, a andar de bicicleta. é fácil de entender o elevado teor de dispêndio físico, bem como a necessidade que essas mesmas pessoas terão de se refrescar. ainda por cima com o calor que se tem feito sentir. mas onde é que há água?!...
da mesma forma, há dezenas de famílias que levam as suas crianças ao parque no fim-de-semana. é frequente ver os progenitores a ensinarem os seus filhos a andar de bicicleta, ou a jogar à bola com eles. mas, como todos sabemos, neste tipo de actividade há sempre algum risco de uma criança cair e magoar os joelhos ou as mãos. pergunta-se novamente: onde é que há água?!...
pois bem, nesta altura, em todo o parque do fontelo, há apenas um chafariz com água, de torneira e com pressão muito baixa. fica ao lado dos balneários e do campo de relvado sintético. antigamente, havia um fontanário no largo principal (perto dos pavões), mais uma fonte ali bem perto (descendo umas escadas), mais uma bica ao lado do pavilhão gimnodesportivo e uma outra perto dos campos de ténis. todas elas estão inoperacionais e não se entende muito bem por quê.
custa a acreditar que o município que tanto apregoa que viseu "é a melhor cidade para se viver" não assegure essa mesma qualidade de vida num espaço tão nobre como o fontelo. a colocação de "obras de arte" no parque ultrapassou, em termos de prioridade, o acesso a um recurso natural tão prioritário como é a água? ou é estratégia do município para potenciar a venda de águas engarrafadas no café do fontelo? a um euro por garrafa, fica caro fazer exercício físico em viseu...


terça-feira, julho 07, 2020

"have a nice day!"



a passar a terceira semana comigo, a minha filha, de 15 anos, decidiu, logo na primeira delas, instituir um procedimento que tem tanto de simples como de atencioso. 
sempre que íamos tomar café ao nosso local de eleição, armazém do café, em viseu, ela fazia questão de escrever nos pacotes de açúcar vazios uma mensagem, geralmente um "have a nice day!". 
o objectivo era também ele simples: chegar a alguém, dar um sinal de simpatia e de agradecimento. o procedimento manteve-se, diariamente, sem nunca esperar, certamente, nada em troca. 
qual não foi o nosso espanto quando, hoje, no nosso café ao fim de almoço, uma das empregadas do estabelecimento (que trabalha lá desde a abertura) se abeirou da nossa mesa na esplanada, trazendo na mão alguns desses pacotes manuscritos pela minha filha. 
confessou-nos que já andava intrigada há algum tempo, a tentar adivinhar de quem viriam as mensagens. de uma forma honesta e até enternecedora, agradeceu à minha filha, quando eu lhe disse que a ideia tinha sido dela, pelo facto dessas missivas lhe terem dado coragem e alento, colocando-lhe um sorriso na face sempre que as via. 
hoje, certamente que guardou mais esta mensagem da minha filha. 
é tão simples tocar as pessoas com gestos de simpatia e atenção! 
como pai dessa menina fantástica, só tenho de ficar orgulhoso, não só pelo tamanho do seu coração, mas também por querer marcar a diferença pela positiva, pela via da simpatia e da cordialidade, apesar da sua tremenda introversão. 
como cliente do armazém do café, o melhor café de viseu, registo o acto nobre e de elevação da funcionária.

terça-feira, maio 05, 2020

poderá o sofrimento ser tão belo ao ponto de desejarmos morrer?


quem não conhecer a palavra "páthos" e a sua definição deve ver esta série para ficar a saber. o argumento poderia ser escrito em metade de uma folha A4, no entanto, há tanto a dizer sobre "after life" e a forma como arranca de nós mesmo as mais teimosas lágrimas. os 12 episódios, divididos em duas temporadas, seguem uma coerente linha entre a comédia, por vezes burlesca, e o drama, que por mais pungente que seja (e acreditem que é) nunca resvala para a pieguice gratuita, numa espécie de vertigem que nunca nos deixa cair. a empatia que criamos com tony (interpretação magistral de ricky gervais), desde os primeiros minutos, acompanha-nos como uma sombra nesta viagem emocional de alguém que perdeu aquilo que o mantinha vivo. "after life" é um produto televisivo brutalmente honesto, personifica a dor, a perda e o desespero, que chega a parecer dilacerante, mas encarrega-se de nos oferecer um conjunto de personagens tão hilariantes quanto imprevisíveis, para contrabalançar, e ainda um ponto de equilíbrio em forma de consciência moral, providenciado pela personagem de penelope wilton. tudo muito bem embrulhado por uma banda sonora envolvente e uma direcção de fotografia inatacável. é uma daquelas séries que, quando acaba, deixa ficar um vazio tremendo. mas está perfeita assim. não lhe mexam mais, por favor.

segunda-feira, fevereiro 03, 2020

desconstruir as redes sociais

gostava de entender a necessidade cada vez mais premente que a maior parte das pessoas têm de aparecer, de chocar, de provocar, de agitar. vêem algo nas redes sociais com que não concordam, vindo seja lá de onde for, e comentam, criticam, denigrem, chamam nomes, atacam, destilam ódio, mesmo sem sequer conhecerem quem está do outro lado, quem escreveu e publicou tal "barbaridade". mesmo sem tentar entender o que foi escrito, como foi escrito e para quem foi escrito. ainda há outra parvoíce ainda maior: quando o texto publicado é muito grande, há sempre uma vontade indómita de se cingirem ao título ou, quando muito, ao primeiro parágrafo. ler cansa muito o cérebro, incomoda, causa sono, é chato, daí o facto desta estirpe de pessoas adorar ler títulos. e onde é que há mais títulos? exactamente, no feed do facebook. há quem considere que fazer scroll down nessa rede social durante várias horas, diariamente, é o equivalente a ler dezenas de jornais, uma centena de livros e milhares de teses de doutoramento. e, lá está, quando surge um daqueles títulos bombásticos, há que intervir, mostrar a indignação, dizer aos quatro ventos que o país é uma merda, as instituições são uma fraude, os governantes são corruptos, o sistema não funciona, fazendo tábua rasa de tudo aquilo que, no fundo, deveria servir de bússola orientadora da sociedade. mas não, para este tipo de pessoas, nunca nada está bem, está sempre tudo mal. ana gomes? "é matá-la, já". rui pinto? "esse filho da puta já deveria estar morto". joacine? "raios partam o raio da gaga que só me enerva". o povo quer é sangue. o correio da manhã dá-lhes isso diariamente, no jornal e na televisão, as audiências comprovam tudo aquilo que o povo ambiciona. quer demissões, escândalos, divórcios, atritos, crimes e sangue, muito sangue. é isso que querem ver no facebook, todos os dias. é isso que querem comentar. é aí que querem despejar as suas frustrações, despejar a raiva acumulada, vociferar contra alguém (às vezes nem se sabe muito bem quem) que poderia ser perfeitamente um colega de trabalho, o patrão, o marido, o vizinho do lado, a esposa, se desse para os insultar sem se saber, de forma incógnita e cobarde. o que é preciso é dizer mal, porque dizer bem, aplaudir, elogiar, cumprimentar, é para meninos e não fica bem. estas pessoas precisam da "carneirada" à sua volta, de consensos, e, portanto, se toda a gente diz mal, eles também vão dizer mal, porque assim sentem-se parte de algo grandioso e de algo popular. nesta situação, o que interessa é aparecer, não chegar atrasado aos temas, estar informado (lá está, com as tais horas diárias no facebook a ler títulos) para quando os assuntos surgirem, normalmente através dessa horda a que se convencionou chamar de "influencers" (mais um nome pomposo para aqueles que nem têm uma profissão), eles estarem devidamente preparados, julgam eles, para intervir. e o povo pede intervenção, a carneirada exige acção, caso contrário, não podes pertencer a esse fantástico clube onde reina o consenso, a expressão máxima do consenso: "tudo está mal, todos estão errados e se fosse eu a mandar... faria exactamente a mesma coisa".

sexta-feira, janeiro 10, 2020

14 anos de nuvens da alma





esta modesta chafarica completa hoje 14 anos. parece que foi ontem, mas foi no dia 10 de janeiro de 2006 que as nuvens começaram a preencher os meus dias. o entusiasmo inicial, nomeadamente na procura incessante de temas para aprofundar, porque a blogosfera precisava de alimento, foi-se desvanecendo com o passar dos anos, o que se reflectiu, e de que maneira, no número de publicações mensais (cerca de 30 por mês nos primeiros 3 anos para valores residuais nos últimos 2 anos). em todo o caso, é um aniversário e importa festejá-lo e comemorar a efeméride. são 14 anos de desabafos, de preferências musicais, cinematográficas, televisivas e literárias, de mágoas e amarguras, mas também de exultações e, aqui e ali, algum júbilo. são 14 anos da minha vida reflectidos em toda a sua magnificente insignificância, mas que atestam, igualmente, as metas que fui alcançando ao longo desse tempo e a natural evolução como ser humano, como pai, como filho, como companheiro, como amigo e como profissional. se não tiverem servido para mais nada, que ao menos estes 14 anos tenham servido como registo. sei que, daqui a outros 14 anos, me vai dar um gozo enorme reler o que aqui vou vertendo, para me lembrar do que fui e para me certificar de que, afinal, continuo a ser a mesma pessoa, com todos os enormes defeitos que me vestem, mas mantendo sempre a mesma coerência e a mesma verticalidade.
obrigado a todos aqueles que ainda continuam desse lado!

domingo, novembro 24, 2019

um sorriso que se eternizou no rosto

é completamente impossível prever o que nos vai acontecer durante um determinado período de tempo, não havendo forma de garantirmos a felicidade suprema ou de evitarmos a mais profunda depressão; limitamo-nos, simplesmente, a entregar a nossa carcaça ao destino para este fazer connosco o que bem entender. foi com este aforismo que enfrentei uma semana de férias, a meio de novembro, um hiato agendado desde março.
perguntar-me-ão (e eu não vos posso censurar por isso): mas por que raio marcar férias de uma semana em novembro, em que há frio, chuva, vento, neve, deslizamentos de terra, tsunami's e avalanches a toda a hora? respondo a essa pertinente questão com isto: não têm rigorosamente nada a ver com isso. adiante...

é engraçado como as nossas perspectivas se alteram em virtude de um identificado momento. se antes desse momento olhava para as minhas férias como um bloco de tempo entediante, sem nada previamente agendado ou definido, depois dele parece que tudo se transformou. se estava renitente ou receoso com a forma como iria preencher o meu tempo durante nove dias (uma semana mais dois fins-de-semana), esse referido momento abriu uma enorme avenida à frente dos meus olhos. e o mais espantoso é que teve lugar precisamente nas minhas primeiras horas de férias, porque tinha saído do trabalho duas horas antes nesse dia, 15 de novembro. essa noite mudou tudo e as minhas férias passaram a ter outra banda sonora e outro calor, mais cores e, sobretudo, um enorme e apatetado sorriso de orelha a orelha que ainda hoje não consigo deixar de evidenciar.

leitura.
durante a semana, li dois livros: "a paixão segundo G.H.", de clarice lispector, e "a sombra do vento", de carlos ruiz zafón. este último, "devorei-o" num dia e meio, de tão agarrado que fiquei à narrativa. custava-me pousar o livro, porque a ansiedade queria sempre mais, tal como me custou, no final, despedir-me daquelas personagens. repeti a experiência vivida aquando da leitura de "a mulher que correu atrás do vento", de joão tordo, que também li num ápice, dando por muito bem empregues todas as horas que passei a mergulhar no universo literário do escritor de barcelona. já iniciei um novo livro, provindo das mesmas eruditas mãos que me recomendaram as obras já citadas: "conversa n'a catedral", de mario vargas llosa. dar-vos-ei feedback daqui a 600 páginas. controlem essa ansiedade, por favor...

cozinha.
um homem na cozinha. quais são as suas principais dificuldades? eu tinha uma, muito grande mesmo: não sabia fazer arroz. vivo sozinho há muito tempo já e não havia forma de me aventurar a fazer arroz. nestas férias, decidi colocar mãos à obra. comprei o arroz, li as instruções, adicionei o que tinha a adicionar, nas doses certas, a água, o arroz, a água a ferver e tal. no final, devo dizer que gostei do meu arroz, ficou solto, sequinho e até saboroso. mas haverá sempre margem, claro, para melhorar. tal como na minha outra empreitada: fazer frango assado. habituado ao meu "frango à zé alberto", que vai ao forno apenas com sal, cerveja, sopa de cebola e natas, entendi que tinha de alargar o meu espectro culinário em termos galináceos. comprei os ingredientes (colorau, alho, vinho branco, louro, sal e azeite), misturei tudo, espalhei pelo frango e... não é que ficou uma delícia! certamente que não ao nível das minhas omeletes, muito apreciadas (eheheh), mas com uma qualidade muito satisfatória!

desporto.
desde a instalação da aplicação google fit, tenho estado muito mais desperto para a minha condição física. comecei lentamente a fazer caminhadas, aumentando o ritmo de semana para semana, passando à corrida quando me senti preparado para tal. a aplicação começou a ajustar-me os objectivos semanais, aumentando a carga em termos de minutos activos e de pontos cardio. tenho atingido as marcas propostas e esta semana não foi excepção. apesar do frio e da chuva, fui bem cedo para o fontelo e para o parque de santiago tratar de mim, da minha condição física e do meu bem-estar.
a tudo isto, junte-se muita música, tanto em casa como na rua, durante as caminhadas/corridas, filmes e séries, tempo de qualidade com os filhos, pais e irmã, e o cimentar de todas as amizades que fazem de mim uma melhor pessoa.

voltando a 15 de novembro, é óbvio que poderia ter feito tudo isto que referi durante estes nove dias, da mesma forma, à mesma hora. não teria era o coração tão aconchegado como o tive, nem exibiria o tal sorriso apatetado a toda a hora. há momentos em que até sentimos o som das peças a encaixar umas nas outras, em que temos a certeza de que estamos a regressar a casa depois de uma longa ausência, em que conseguimos ver reflectidos nos olhos que temos à nossa frente as mesmas sensações, a mesma cumplicidade, as mesmas certezas e convicções. o peito enche-se novamente de ar, o coração volta a ter espaço para pular de felicidade e a alma volta a ter lenha para se aquecer. depois desse dia, tudo voltou a fazer sentido novamente, as chaves voltaram a entrar nas fechaduras certas, os planetas alinharam-se novamente e as cores regressaram às nossas faces.
é impossível quantificar o peso do amor na vida de uma pessoa, a forma como determina as nossas reacções, a nossa disposição ou até a nossa vontade de acordar todos os dias. não consigo quantificar, é certo, mas estou convicto, agora, nesta fase da minha vida, e depois de meses de amargura, de que não posso viver sem ele, sem esta sensação de harmonia e plenitude emocional que dele advém, sem esta convicção de que estou acompanhado mesmo quando estou a 300 quilómetros de distância dele, sem esta euforia de me saber de alguém e de ser de alguém, numa comunhão perfeita em todos os sentidos. harmonia, plenitude e serenidade. tudo isto regressou nesse dia e foi devidamente comemorado na nossa data, três dias depois. o nosso equilíbrio emocional foi restaurado e em virtude disso eternizou-se um enorme sorriso nos nossos rostos.

sábado, novembro 02, 2019

from a late night train




21h30 – chovia intensamente naquela tristonha noite de outono, envolta em denso nevoeiro. a estação estava quase vazia e a sua companhia eram dois tropas e um casal idoso. a premência de nunca chegar atrasado fosse onde fosse fazia com que chegasse sempre muito antes da hora marcada. a viagem só se iniciaria, se dentro do prazo, 20 minutos depois.
a chuva teimava em não abrandar e ele caminhava, dentro da estação, de um lado para o outro, para não ficar com os pés frios. eram passos trémulos e inseguros, de quem não tinha a certeza se aquele comboio tinha efectivamente o destino pretendido. olhava à sua volta, como se procurasse algo ou alguém, mas o nevoeiro cerrado não permitia visualizar muito além de um raio de dez metros. o nó na garganta acentuava-se a cada minuto que passava, pensava nas pessoas que ia deixar para trás, das quais não teve oportunidade de se despedir. a ter que partir, só poderia ser assim, e ele sabia bem disso, mas essa era mais uma faca espetada no seu amargurado coração.
a espera tornava-se cada vez mais amarga e insustentável. era um homem dividido: parte dele queria que o comboio chegasse rápido, para acabar com aquele sofrimento; mas na outra parte ainda residia alguma esperança de não chegar a partir. as dúvidas começavam a coarctar-lhe os movimentos e agora era uma homem especado a olhar o vazio em que se tinha tornado. uma lágrima soltou-se pela sua face abaixo, chamando muitas outras atrás de si, quando mergulhou nos últimos anos da sua vida e recordou tudo aquilo que poderia perder dez minutos depois.
o nó na garganta aumentava à medida que os minutos iam ficando mais curtos para a chegada do comboio. a estação estava agora muito mais composta, algo que poderia camuflar a sua agonizante solidão, mas, ao invés, acicatava ainda mais a dor que sentia, porque nenhuma das pessoas que chegavam eram aquela que ele mais queria ver. o confronto entre os dois cenários que tinha pela frente dilaceravam-no: ficar ou partir. a razão mandava-o partir, mas o coração ainda insistia para ele ficar e tentar, mais uma vez, rectificar o mal que fez, a dor que causou, a desilusão e a tristeza que provocou na pessoa que sempre menos quis magoar. aquele comboio que iria chegar poderia ser o recomeço de algo, mas também tinha um enorme carimbo de fracasso que ele não conseguia escamotear ou deixar de ver.
a chuva continuava teimosa, as pessoas mostravam-se cada vez mais impacientes, agarrados às suas malas, balbuciando impropérios entre tossicares, ou falando cada vez mais alto à procura de público para as suas conversas fúteis sobre o tempo. ele mantinha-se estático, imperturbável e sereno, apesar da enorme convulsão interior. apenas mexia a cabeça, para a esquerda e para a direita, quando chegava mais alguém à estação. se fosse possível ver a sua alma, ela estaria a sangrar o mais escuro dos sangues, fustigada pela dimensão das suas incertezas.
o frio era agora mais intenso. faltavam cinco minutos para a chegada do comboio. o espaço que ocupava há cerca de 20 minutos era cada vez mais reduzido e começava a fartar-se dos “peço desculpa” e dos “foi sem querer” com que era brindado de meio em meio minuto. o nevoeiro não deixava perceber se o comboio estaria a chegar, mas a hora aproximava-se e ele ali estava, ainda sem uma decisão, com os níveis de ansiedade na sua expressão máxima. 
olhava agora ainda mais insistentemente à sua volta, à procura de um rosto específico, de olhos meigos, e daqueles cabelos longos que ele idolatrava e adorava acariciar. o comboio estava agora, oficialmente, atrasado. ele sentiu essa falta de pontualidade como um sinal. assaltava-o a ideia de que a decisão de partir poderia não ser a mais acertada, porque se assim fosse a sua mente não continuaria a enviar-lhe mensagens de desconfiança e incerteza.
uma voz abrutalhada interrompeu-lhe o fio de pensamento, anunciando a chegada do comboio dentro de 5 minutos. ele permanecia estático, as pernas teimavam em não se mexer, como se estivesse a decorrer um golpe de estado dentro de si mesmo. olhou para a sua esquerda e, no meio do nevoeiro, vislumbraram-se, então, pela primeira vez, as luzes daquele adamastor de ferro que o iria levar para longe de tudo. sentiu o coração a parar de bater e uma dor lancinante no peito, como se este estivesse a ser apertado por dezenas de cordas. respirar era quase impossível, assim como engolir, porque o nó na garganta era agora gigantesco.
tinha chegado o momento e rapidamente as pessoas começaram a movimentar-se, com passageiros a sair, outros a quererem entrar, acotovelando-se como se fosse uma prova olímpica. pegou nas suas malas e começou a dirigir-se, sem muita vontade, para o comboio, com meia dezena de pessoas à sua frente. agora teria mesmo de ir, não havia volta a dar, a decisão acabou por surgiu naturalmente.
alguém lhe tocou, então, no ombro. no seu estado quase catatónico e imerso na mais profunda tristeza, ignorou, pensando que seria mais um “peço desculpa” ou um “foi sem querer”. continuou a avançar na direcção da entrada, já só restava entrar o casal idoso que tinha chegado à mesma hora que ele. voltaram a tocar-lhe no ombro, no mesmo ombro, a que se seguiu uma palavra, uma palavra apenas.
“amor?”
virou-se para trás. dois segundos depois, largou as malas. os olhares amarraram-se e rapidamente se soltou o beijo mais ansiado de sempre, que se prolongou até o comboio desaparecer no horizonte.
estava encontrada a resposta para as suas dúvidas.
ficaram!