segunda-feira, fevereiro 23, 2009

o momento da noite


jerry lewis foi justamente homenageado, com o prémio humanitário jean hersholt, na 81ª edição dos óscares. não se tratou, infelizmente, de um prémio de carreira, como ele bem merecia, mas, mesmo assim, foi um reconhecimento totalmente merecido, em virtude do trabalho do actor à frente da associação de distrofia muscular e do seu empenho de décadas nas famosas maratonas televisivas "telethon" de angariação de fundos monetários para combater aquela doença. depois de receber o óscar das mãos de eddie murphy, jerry lewis agradeceu à academia, num sentido e, talvez até demais, curto discurso. pareceu-me triste, ao mesmo tempo que parecia querer evidenciar uma alegria enorme pelo reconhecimento, ainda em vida, do seu trabalho.
bem sei que a comédia sempre foi negligenciada ao longo dos anos pelos óscares, e por isso jerry lewis nunca foi, sequer, nomeado ao longo da sua carreira (se bem que em "the king of comedy", de martin scorsese, e "arizona dream", de emir kusturica, tenha interpretado papéis dramáticos que mereciam uma nomeação), mas fazer rir milhões de pessoas durante décadas merecia, no mínimo, cinco minutos de "standing ovation" no kodak theatre, quinze minutos de discurso de jerry lewis e uma saída em apoteose. mas, mesmo assim, foi o momento alto da noite para mim. o homem que mais me fez rir na minha adolescência, em dezenas de filmes (e, mais recentemente, na sitcom "mad about you", num episódio hilariante onde também entrava steven wright), estava ali, de coração aberto e surpreendentemente algo reverente, à frente da nata da indústria cinematográfica, a agradecer a atenção que lhe estavam a dispensar. foi curta a sua intervenção. como grande admirador do seu trabalho, queria que ele ficasse mais tempo, falasse mais. e caramba, como ele me pareceu tão velho, tão cansado. no final, quando saiu do palco, ao lado de eddie murphy, senti que eu devia estar a sentir o mesmo que ele: estava feliz pela homenagem, mas triste por ter sido tão efémera e por não ter sentido o "calor" da plateia. devia estar triste por não ter conseguido fazer rir a plateia, triste porque foi algo que ele sempre fez ao longo da carreira, triste porque a estatueta que ele segurava nas mãos devia ser uma que premiasse a sua carreira cinematográfica, triste porque, porventura, este foi o seu último "tempo de antena" num programa à escala mundial. mesmo assim, jerry lewis tentou ser engraçado, mas não conseguiu vencer a angústia de uma despedida precoce do estrelato, agora "remendada" com este prémio humanitário. quando o vi sair do palco, senti que tinha sido a última vez que iria ver jerry lewis ao vivo e que aquele momento poderia ter tido outro simbolismo. mas a vida de "palhaço" é assim: mesmo quando estão tristes têm que fazer rir o público; podem estar amargurados por dentro mas têm que mostrar sempre um sorriso rasgado e resplandecente, porque "the show must go on"!
da minha parte, obrigado jerry lewis, por tudo o que me proporcionaste durante vários anos. recebe, da minha parte, uma ovação em pé de quinze minutos, de respeito e admiração pelo teu trabalho, e incontáveis horas de gargalhadas ao ver filmes como "the bellboy", "cinderfella", "the nutty professor", "the patsy", "the family jewels", "wich way to the front?" e tantos outros...

1 comentário:

na outra banda disse...

senti mais mágoa do que outra coisa. o curto discurso dele refletiu isso, na minha opinião.
a academia junta mais uma falha ao esquecer ícones como lewis.
quase preferia não vê-lo ali e como muito bem escreveste, sem sequer receber ovação merecida.