quinta-feira, novembro 23, 2006

a vida não pode esperar

as pessoas estão mesmo habituadas a apressar tudo. é assim desde o início da nossa vida, desde o berço. querem que tudo evolua rapidamente e não aceitam nunca um "não" como resposta. nos primeiros anos de vida de uma pessoa, as perguntas são invariavelmente as mesmas, sempre tentando aferir se está tudo a evoluir depressa: "já gatinha?", "já fala?", "já caminha?". voltando só um pouco atrás, portanto antes mesmo do nascimento, sempre achei muito irritante e parva aquela mania que toda a gente tem de, quando encontra uma grávida conhecida, palpitar sempre sobre o sexo do bebé, como se fossem doutoradas no assunto. perdi a conta às pessoas que atiraram com palpites quando a minha mulher esteve grávida. elas sabem que têm 50% de hipóteses de acertarem, portanto dizem sempre qualquer coisa. ficaria impressionado era se alguém afirmasse categoricamente que a minha mulher iria dar à luz um koala.
mas voltando à minha linha de pensamento, a nossa pessoa virtual cresceu, já caminha e já fala. próximo passo: "já aprendeste a andar de bicicleta?", "já andas na escola?", "já tens namorada?" (esta é infalível!), "já sabes ler?", "já sabes escrever?". sempre a queimar etapas, rapidamente.
a seguir a esta fase, que termina na escola e percorre todo o liceu, a curiosidade das pessoas acalma sempre. entra-se na adolescência e essa é considerada uma fase chata, em que a nossa pessoa virtual fica automaticamente antipática, aversa a diálogos chatos com os "adultos", vive praticamente no seu quarto, o seu refúgio quando está em casa. nesta fase a pressa das outras pessoas (e reparem bem na maravilha que vai ser esta frase!) é que esta fase passe depressa (brilhante! faz lá melhor ó lobo antunes!). depois voltamos ao normal: "já estás na universidade?", "em que curso estás?", "já tens emprego?", "já tens carro?", "já tens namorada?" (eu sei, esta é repetida. no primeiro caso é uma pergunta inocente. neste caso, é mais uma pergunta no sentido de se saber se haverá casamento para breve). a nossa pessoa virtual está agora numa idade adulta. e o que é que as outras pessoas esperam de um adulto? isso mesmo. que se case. então começa a pressão. no meu caso, ouvi a frase que vou colocar a seguir entre aspas uma centena de vezes (também é certo que namorei 10 anos antes de me casar...): "então quando é que te casas?".
chega o casamento, mas isso não impede que comecem logo a seguir mais perguntas, sendo a mais comum a célebre "quando é que têm filhos?". as pessoas acabaram de ficar satisfeitas com o casamento, mas já têm nova "preocupação". tem que ser sempre a evoluir. outras perguntas fatais nesta altura são "já têm casa?" e "já têm carro?", mas estas são de índole mais materialista. chega um filho e recomeça o ciclo, agora com a criança da nossa pessoa virtual. mas as pessoas querem mais. "já é tempo de terem outro filho, não acham?".
depois de ter tido o número de filhos que a sociedade entende como normal, a nossa pessoa virtual... tem o merecido descanso, sendo as perguntas direccionadas para a evolução dos seus filhos. só anos mais tarde é que surgem questões como "quando é que te reformas?", "vais morar com o teu filho ou a tua filha?", "para qual lar da terceira idade vais?".
com tantas perguntas sobre a sua natural evolução, a nossa pessoa virtual acabou por fazer tudo o que a sociedade lhe "exigiu". agora resta-lhe esperar que ninguém lhe pergunte "então quando é que morres?".

2 comentários:

Tovarich Gina disse...

ah pois não...

tulipa_negra disse...

é engraçado, fazem todas as perguntas mas essa última não... ehehehe
beijocas