a questão que trago hoje é esta: porque raio nos havemos de sentir mal por gostarmos de uma pessoa? sim, que diabo, amar alguém, apaixonarmo-nos por uma pessoa, não é nenhum crime e, no entanto, por vezes agimos como se fosse a maior obscenidade à face da terra. todos aqueles que não acreditam em amores impossíveis deviam ser obrigados a ver 22 vezes seguidas um filme chamado "Cyrano de Bergerac", no qual Gérard Depardieu interpreta o mais eloquente dos homens, em actos e em palavras, mas que carrega consigo esse estorvo físico que é o tamanho descomunal do seu nariz, facto que o impede de declarar a sua paixão à mulher amada. é uma lição de vida o rumo que a história segue, desaguando na verdade reprimida durante anos. o troféu estava e sempre esteve no mesmo sítio, não houve foi coragem para o arrebatar; nem o mais corajoso e audaz dos espadachins, capaz de derrotar cem homens numa emboscada, foi capaz de ir à procura da sua felicidade, escudando-se atrás da sombra do seu nariz.
amanhã poderá ser qualquer um de nós a perder o momento, a oportunidade, e quem sabe, o amor da nossa vida! e porquê? "porque nem vale a pena tentar, é impossível"! não se está é disposto a cometer loucuras e a dar espaço à ilusão, sobretudo quando as pessoas cada vez mais hoje em dia se acomodam ao que já têm. é a chamada "era da pantufa", um estado de espírito confortável, sedentário, mas que retira qualquer veleidade ilusória a essas pessoas. e a ilusão é necessária, como a imaginação, a ousadia, a cortesia... quando se ama, seja em que idade for, volta-se à idade do clerasil (creme para borbulhas), como disse Miguel Esteves Cardoso. de repente sentimo-nos novamente adolescentes e até nos apetece andar na rua com walkman's, de skate, calças rasgadas, etc. e depois, haverá desafio maior do que o de conquistar uma mulher? ou pelo menos tentar... é tempo de sonhar. a vida é uma coisa, a realidade também, mas o amor é outra completamente diferente, está sempre acima de tudo. a realidade pode matar a ilusão mas o sonho é mais bonito que a vida. basta um olhar, um sorriso, para o coração os apanhar para sempre. ele conserva aquilo que nos escapa como areia fina das mãos. e isto é amar, por muito longe, por muito impossivel, por mais desesperante que seja. alojamos essa sensação no cérebro e usamo-la quando precisamos de escapar, entrando nesse mundo ilusório onde tudo parece mais aliciante. sim, é um escape também, uma tentativa de nos agarrarmos a um passado não tão distante quanto isso e ficarmos por lá algum tempo, alimentando a alma, fortalecendo o ego, desatando sensações que pareciam perdidas e, quem sabe, encontrarmo-nos a nós próprios! a ilusão permite-nos tudo isso.
amanhã recomeça tudo. a realidade é incontornável e respeitamo-la. Sempre! mas a ilusão da conquista será sempre mais forte do que aquelas confortáveis pantufas e, certamente, amanhã terei novamente tempo para me dedicar a ela. sim, ela também é mais forte... do que eu...
7 comentários:
Gostei do texto, mas ele suscita várias questões: amar alguém não é razão para nos sentirmos mal, claro que não - depende de quem se ama, do tipo de amor que se sente, e, sobretudo, se ele não está a contribuir para, pelo caminho, deixarmos de amar quem realmente merece - e precisa - o nosso amor.
Ao longo das nossas vidas tomamos opções, e se achamos que elas não foram as melhores devemos assumi-lo, caso contrário é um salve-se quem puder - porque passa a valer tudo com a desculpa de que "a ilusão é necessária". É... mas convém não exagerar, até porque, muitas vezes, essa procura da ilusão mais não é do que o desejo de uma nova realidade!
Muito há a dizer sobre o teu texto, josé alberto.
Começo por dizer que está muito bonito e desperta em nós recordações e a doçura de se pensar nos sentimentos e (ir)realidades descritas. Na verdade não há nada que tome mais conta de nós do que viver um amor, alheando-nos da realidade, sonhando e ficando lá nas nuvens, como dizias no teu texto anterior. No entanto quando tudo o que passamos a viver é uma ilusão, então, perde-se toda a maravilha do sentimento, porque quando saímos das nuvens não temos nada. Eu acho que não há nada como viver o amor de pantufas, os dois de pantufas, aninhados um no outro, vivendo uma realidade que foi construída com os alicerces do sonho...
Um beijinho
Acabei de ler o comentário do/da "bjm"... e concordo perfeitamente. Palavras sábias e conscientes.
Bom fim de semana, Zé.
o meu texto não é uma apologia ao adultério, à traição ou à mentira. é antes uma resignação, não no sentido pejorativo, do que sou e do que represento, no meu dia a dia. conheço os meus limites, vivo com eles permanentemente na minha mente, tenho consciência (sim, tenho de facto consciência, é verdade!) do compromisso que assumi há anos e da verosimilhança do mesmo. essa resignação de que falei não me impede, no entanto, de fantasiar, de me iludir. sinto mesmo que é a única forma de continuar a ser "eu" mesmo, recusando-me a desligar este aspecto do meu ser. é impossível. serei sempre assim. vou continuar a sonhar sempre... mas com os pés bem assentes na terra.
é o jardim da contemplação...
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