quinta-feira, janeiro 19, 2006

ilusão e pantufas

a questão que trago hoje é esta: porque raio nos havemos de sentir mal por gostarmos de uma pessoa? sim, que diabo, amar alguém, apaixonarmo-nos por uma pessoa, não é nenhum crime e, no entanto, por vezes agimos como se fosse a maior obscenidade à face da terra. todos aqueles que não acreditam em amores impossíveis deviam ser obrigados a ver 22 vezes seguidas um filme chamado "Cyrano de Bergerac", no qual Gérard Depardieu interpreta o mais eloquente dos homens, em actos e em palavras, mas que carrega consigo esse estorvo físico que é o tamanho descomunal do seu nariz, facto que o impede de declarar a sua paixão à mulher amada. é uma lição de vida o rumo que a história segue, desaguando na verdade reprimida durante anos. o troféu estava e sempre esteve no mesmo sítio, não houve foi coragem para o arrebatar; nem o mais corajoso e audaz dos espadachins, capaz de derrotar cem homens numa emboscada, foi capaz de ir à procura da sua felicidade, escudando-se atrás da sombra do seu nariz.
amanhã poderá ser qualquer um de nós a perder o momento, a oportunidade, e quem sabe, o amor da nossa vida! e porquê? "porque nem vale a pena tentar, é impossível"! não se está é disposto a cometer loucuras e a dar espaço à ilusão, sobretudo quando as pessoas cada vez mais hoje em dia se acomodam ao que já têm. é a chamada "era da pantufa", um estado de espírito confortável, sedentário, mas que retira qualquer veleidade ilusória a essas pessoas. e a ilusão é necessária, como a imaginação, a ousadia, a cortesia... quando se ama, seja em que idade for, volta-se à idade do clerasil (creme para borbulhas), como disse Miguel Esteves Cardoso. de repente sentimo-nos novamente adolescentes e até nos apetece andar na rua com walkman's, de skate, calças rasgadas, etc. e depois, haverá desafio maior do que o de conquistar uma mulher? ou pelo menos tentar... é tempo de sonhar. a vida é uma coisa, a realidade também, mas o amor é outra completamente diferente, está sempre acima de tudo. a realidade pode matar a ilusão mas o sonho é mais bonito que a vida. basta um olhar, um sorriso, para o coração os apanhar para sempre. ele conserva aquilo que nos escapa como areia fina das mãos. e isto é amar, por muito longe, por muito impossivel, por mais desesperante que seja. alojamos essa sensação no cérebro e usamo-la quando precisamos de escapar, entrando nesse mundo ilusório onde tudo parece mais aliciante. sim, é um escape também, uma tentativa de nos agarrarmos a um passado não tão distante quanto isso e ficarmos por lá algum tempo, alimentando a alma, fortalecendo o ego, desatando sensações que pareciam perdidas e, quem sabe, encontrarmo-nos a nós próprios! a ilusão permite-nos tudo isso.
amanhã recomeça tudo. a realidade é incontornável e respeitamo-la. Sempre! mas a ilusão da conquista será sempre mais forte do que aquelas confortáveis pantufas e, certamente, amanhã terei novamente tempo para me dedicar a ela. sim, ela também é mais forte... do que eu...

7 comentários:

bjm disse...

Gostei do texto, mas ele suscita várias questões: amar alguém não é razão para nos sentirmos mal, claro que não - depende de quem se ama, do tipo de amor que se sente, e, sobretudo, se ele não está a contribuir para, pelo caminho, deixarmos de amar quem realmente merece - e precisa - o nosso amor.
Ao longo das nossas vidas tomamos opções, e se achamos que elas não foram as melhores devemos assumi-lo, caso contrário é um salve-se quem puder - porque passa a valer tudo com a desculpa de que "a ilusão é necessária". É... mas convém não exagerar, até porque, muitas vezes, essa procura da ilusão mais não é do que o desejo de uma nova realidade!

A. Duarte Lázaro disse...

Muito há a dizer sobre o teu texto, josé alberto.
Começo por dizer que está muito bonito e desperta em nós recordações e a doçura de se pensar nos sentimentos e (ir)realidades descritas. Na verdade não há nada que tome mais conta de nós do que viver um amor, alheando-nos da realidade, sonhando e ficando lá nas nuvens, como dizias no teu texto anterior. No entanto quando tudo o que passamos a viver é uma ilusão, então, perde-se toda a maravilha do sentimento, porque quando saímos das nuvens não temos nada. Eu acho que não há nada como viver o amor de pantufas, os dois de pantufas, aninhados um no outro, vivendo uma realidade que foi construída com os alicerces do sonho...

Um beijinho

A. Duarte Lázaro disse...

Acabei de ler o comentário do/da "bjm"... e concordo perfeitamente. Palavras sábias e conscientes.

Bom fim de semana, Zé.

Cado disse...
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isaac davis disse...

o meu texto não é uma apologia ao adultério, à traição ou à mentira. é antes uma resignação, não no sentido pejorativo, do que sou e do que represento, no meu dia a dia. conheço os meus limites, vivo com eles permanentemente na minha mente, tenho consciência (sim, tenho de facto consciência, é verdade!) do compromisso que assumi há anos e da verosimilhança do mesmo. essa resignação de que falei não me impede, no entanto, de fantasiar, de me iludir. sinto mesmo que é a única forma de continuar a ser "eu" mesmo, recusando-me a desligar este aspecto do meu ser. é impossível. serei sempre assim. vou continuar a sonhar sempre... mas com os pés bem assentes na terra.

Cado disse...
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Anónimo disse...

é o jardim da contemplação...