sábado, julho 17, 2010

sábado à noite

sábado à noite. lá fora o mundo fervilha, cheio de pessoas com vontade de se divertir, precisando, para tal, de outras pessoas com o mesmo propósito. há como que uma espécie de acordo tácito entre companheiros da noite, como se se esforçassem ao máximo para se encaixarem em variados ambientes nocturnos, numa descontracção directamente proporcional à quantidade de bebidas alcoólicas ingeridas. é um jogo, um ritual socialmente obrigatório que se divide em três categorias dominantes: os "lobos solitários", que se embrenham na noite à espera que lhes aconteça algo; os "groupies", aqueles que pertencem a um grupo consolidado há anos e que vagueiam pela noite perfeitamente "amparados" uns pelos outros; e os chamados "inadequados", aqueles que saem esporadicamente e, por norma, se sentem completamente deslocados, pouco seguros de si, ao contrário de um "lobo solitário", e sem o conforto de ser um "groupie", uma parte integrante de algo que foi construído ao longo dos tempos.
geralmente, estes "inadequados", claramente sem "bagagem" espiritual e social para se arvorarem em "lobos solitários", saem em ceias de natal, jantares de empresa, aniversários ou, menos frequente, "atrelados" a um grupo, por intermédio de alguém. raramente se sentem confortáveis em situações do género, olhando diversas vezes para o relógio, nunca sentindo os minutos a passar, pensando em todos os programas de televisão, incluindo jogos de futebol, que estão a perder, tentando fazer sentido numa qualquer conversa de circunstância com alguém, elogiando ou comentando a qualidade, ou a falta dela, da comida, olhando mais uma dezena de vezes para o relógio, até, finalmente, chegar o café.
é chegada então a altura das decisões, normalmente tomadas à porta do restaurante. "para onde vamos agora?", pergunta o núcleo duro dominante e com mais peso social. o "inadequado" vê claramente aqui a oportunidade que estava à espera. "eu amanhã tenho que me levantar cedo, por isso acho que vou andando". já os aspirantes a "groupies", à espera de uma oportunidade há algum tempo de se encostarem ao tal núcleo duro, aproveitam para, numa espécie de "casting", mostrar todas as suas potencialidades, sejam elas humorísticas, sócio-culturais ou simplesmente a baixa resistência ao álcool. há ainda quase sempre alguém "independente", que quer continuar na noite mas não quer acompanhar os outros, por não concordar com o local escolhido ou por simplesmente preferir caminhar sozinho, qual "lobo solitário". portanto, no mesmo jantar/evento/ceia/aniversário, temos os três grupos dominantes presentes.
sábado à noite. lá fora o mundo fervilha. eu estou em casa a escrever este texto, ao som delicioso do novo disco dos sun kil moon. até o gato já adormeceu com a voz melodiosa e enleante de mark kozelek. vejam lá se adivinham em qual das três categorias me incluo...

1 comentário:

rasgos em rosa e cinza disse...

Bem... mas saír à noite, para ti, deve ser o maior castigo de todos os tempos.... Mas é bom ter as "legendas" dos teus comportamentos nessas ocasiões... Agora já sei que cada frase minha tu catapultas para a série que querias estar a ver, que a cada nova bebida tu rezas pela última gota no copo e que no final desejas que não haja prolongamento... quem bem!!!