sexta-feira, março 03, 2006

os prémios americanos

no próximo domingo haverá novamente entrega de óscares, mais uma chance que os actores, produtores, realizadores têm de pagar favores uns aos outros. este ano, a lista de nomeados "fugiu" um pouco dos blockbusters sazonais para dar lugar a filmes mais modestos em termos de orçamento, mas certamente mais ricos em argumento. mesmo assim, de ano para ano, criam-se sempre lobbys que privilegiam uns e negligenciam outros. é o verdadeiro sistema de hollywood, em que, tal como no resto do mundo, em qualquer sociedade, ocidental ou oriental, para se "vencer" há sempre que se saber "vender". um bom actor não se pode limitar a ser um bom actor, tem que ir a festas, engraxar produtores, convidar outros actores para jantares, promover campanhas de solidariedade, etc.. tudo isto somado, para conseguir chegar a algum lado, um actor tem que ser verdadeiramente actor 24 horas por dia, excepto, claro está, os chamados "monstros sagrados" como um jack nicholson, robert de niro, al pacino, meryl streep, entre outros, que já granjearam tanto prestígio que lhes permite serem uns arrogantes de primeira apanha. os outros têm mesmo que passar pelo processo todo, de casting em casting, de festa em festa, de engraxadela em engraxadela, até conseguirem chegar a um patamar mais elevado, quem sabe até mesmo a uma nomeação para os Óscares... aí sim, vem o reconhecimento por toda aquela trabalheira que foi vestir a pele de "lambe-botas", mais até do que pela sua verdadeira vocação artística. a comunidade cinematográfica entende que o esforço que esse actor fez, a nível humano, de relacionamento social, foi o suficiente para lhe fazerem esse obséquio, essa condescendência. e nas semanas que antecedem a votação propriamente dita é que esse "relacionamento humano" é mesmo posto à prova. há que "trabalhar" muito bem os membros da academia, gastar caixas industriais de graxa, organizar festas com muita imprensa à mistura, para fazer passar a mensagem que de facto o actor é um tipo porreiraço, bem disposto, um mãos largas, que merece, sem dúvida nenhuma, o Óscar. o papel que interpreta? "bem, realmente agora não me estou muito bem a lembrar do filme, mas que diabo, ele merece a estatueta!". para mim, os Óscares, o fascínio que exercia, as noites em branco a ver tudo pela televisão, morreram na edição de 1990, quando se assistiu à maior injustiça até hoje perpetrada. concorriam para melhor actor principal Kevin Costner (Danças com Lobos), Richard Harris (The Field), Robert De Niro (Awakenings), Jeremy Irons (Reversal of Fortune) e Gérard Depardieu (Cyrano de Bergerac). Costner ganharia nessa noite a estatueta para melhor filme e melhor realizador (logo no seu primeiro filme como realizador, o que eu também não entendo... se pensarmos que Martin Scorsese nunca ganhou nenhum...), mas não venceu nesta categoria. Harris era uma hipótese muito remota. De Niro e Depardieu eram os grandes candidatos. Em Awakenings, Robert De Niro tem uma interpretação fabulosa, uma das melhores da sua carreira, e, em Cyrano de Bergerac, Gérard Depardieu é simplesmente assombroso, notável, brilhante, o filme É ele e ele É o filme, basicamente. apoiante de Depardieu nessa noite dos Óscares, nem me importava muito que ele perdesse para De Niro, que também merecia. mas quem venceu foi Jeremy Irons, em Reversal of Fortune, numa interpretação a roçar a banalidade, na pele de um barão aristocrata. a injustiça custou a engolir, mas nessa altura, nos meus inocentes 18 anos, desconhecia ainda as campanhas de valorização pessoal que revertiam em estatuetas, em detrimento do valor artístico. e mais: nessa altura, a imprensa americana, temente que o Óscar de melhor actor fosse parar a um "patético francês gordo", engendrou uma verdadeira campanha anti-Depardieu, relatando histórias da sua juventude, metendo prostitutas, sexo e deboche ao barulho. o chauvinismo americano prevaleceu sobre o francês, que quando chegou à cerimónia já tinha quase a certeza que ia perder. entretanto, na Europa, o filme coleccionava prémios atrás de prémios, e Depardieu tinha o reconhecimento que lhe era devido. já lá vão 16 anos e, para além de não me esquecer desta obra maquiavélica americana, nunca mais tornei a ver, num filme, uma interpretação tão poderosa, tão marcante, como a de Depardieu, numa película apaixonante, verdadeira apologia romântica, que, pasme-se, nem sequer venceu na categoria de melhor filme estrangeiro. mas isto, vindo do país que estraçalhou um outro só porque pensou que este tinha armas de destruição maciça, não admira assim muito. os Óscares não premeiam arte, mas sim pessoas. de preferência... americanas.

5 comentários:

Cláudia Faro Santos disse...

Apoiadíssimo!
Realmente a cultura americana tem muito que se lhe diga...E VIVA HOLLYWOOD!É toda uma política de publicidade e farsa...

Enfim...Mas estamos cá nós para exaltar as grandes obras...O Cyrano é de facto um hino ao amor, à poesia, à arte!

*

Anónimo disse...

Os Óscares são o que são. Se a nossa sociedade é hipócrita, injusta e lambe-botas, não vejo por que os óscares tenham que ser diferentes. A verdade é que a cerimónia de entrega dos óscares é um espectáculo fantástico, bem feito, profissional e que põe a um canto qualquer outra cerimónia realizada por esse mundo fora (e já nem falo das que fazemos por cá, porque essas então...).
Todos os anos é esta conversa: se um actor negro não é nomeado, os óscares são uma cerimónia racista, se ganha um negro, os americanos são hipócritas; se não ganha um filme estrangeiro, os americanos são xenófobos, mas se ganha, então os americanos só estão a tentar agradar ou a preencher quotas; se o Martin Scorcese não ganha, os óscares não prestam, quando o Martin Scorcese ganhar, o prémio já vem tarde e aquilo é tudo uma farsa. É sempre isto - mais do que nos preocuparmos em apreciar os filmes, os desempenhos, ou a cerimónia, andamos de caneta em riste ansiosos por dizer mal, por criticarmos os americanos - esses malvados - porque o nosso actor preferido não ganhou ou porque o filme de que gostámos mais não foi nomeado.
E que tal, por umas horitas, preocuparmo-nos apenas em olhar para a cerimónia de entrega dos óscares como aquilo que ela é - entretenimento da melhor qualidade!

Ricardo

Daniela Mann disse...

Concordo com o teu texto! já toda a gente sabe que é muito difícil entrar naquele "clã"!
Beijinhos.

João disse...

é verdade

João disse...

Pois agradecendo a sua visita, lembro da entrevista, e o que diz como ontem disse, incluindo o Iraque, é verdade