sábado, novembro 14, 2020

A previsível birra no mais ansiado adeus

 

(artigo de opinião publicado no dia 6 de novembro de 2020)

No momento em que escrevo, Joe Biden está muito próximo de se tornar no 46º presidente dos Estados Unidos da América. Tem 253 votos eleitorais, contra 213 de Trump, e está próximo de atingir os 270 que bastarão para ser eleito. Nesta altura, estão muito perto de ser contabilizados os votos totais nos estados da Geórgia (16 votos eleitorais), Nevada (6), Pensilvânia (20) e Arizona (11). Ou seja, basta vencer na Pensilvânia (e está bem encaminhado para isso), mas Biden segue à frente nos quatro estados referidos.

Já ninguém duvidará que Joe Biden ganhou as eleições, embora o democrata tenha sempre recomendado calma nas suas intervenções pós-eleições, mantendo um registo ponderado e cauteloso. Numa postura diametralmente oposta está Donald Trump, que poucas horas depois de terem encerrado as urnas declarava vitória. Isto já seria grave, estando milhões e milhões de votos por contabilizar, mas o homem ainda foi mais longe: exigiu que se parasse a contagem de votos, alegando fraude eleitoral em virtude dos votos enviados por correio. Ou seja, Trump a ser Trump, no auge da sua prepotência, a declarar vitória antes que mais alguém o fizesse, naquela sua máxima, utilizada até à exaustão, de que uma mentira contada mil vezes se torna verdade.

O ainda presidente americano está, agora, cada vez mais sozinho no seu registo quixotesco, acompanhado apenas pela sua família e por outro elemento ainda mais ridículo e cabotino do que ele, Rudolph Giuliani, como bem o provou a sequela de Borat. Os seus argumentos? “Isto é tudo ilegal, os votos não deveriam contar, é tudo uma fraude eleitoral e estão a roubar-nos a vitória”. Algo como isto. Provas, factos, documentação? Nada. Acusar de fraude eleitoral as eleições presidenciais na maior democracia do mundo é simplesmente vergonhoso para o país. E quem é o presidente desse país? Exactamente a mesma pessoa que faz a acusação. Onde está a honestidade que tanto apregoa, quando quer que se contem apenas os votos que lhe dão a vitória nas eleições?

Trump e o seu séquito estranham muito que Biden lidere, com larga vantagem, nos votos por correio, mas esquecem-se que o democrata insistiu nos últimos meses nessa forma de voto, instando os eleitores a votarem dessa forma, por ser mais prático e até mais seguro em virtude da pandemia. Trump renegou completamente esta modalidade, classificando-a de perigosa e que levaria a potencial fraude, preferindo comícios repletos de gente sem máscara, passeios de SUV à porta do hospital quando estava infetado com covid-19, proferir arrogantes e narcisistas frases sobre o seu notável desempenho como presidente e até, pasme-se, os seus atributos físicos, dançar ao som da música “YMCA” e repetir ad nauseam a frase “a vacina está quase pronta”. Está quase pronta desde Maio…

O próprio partido republicano começa já afastar-se de Trump e das suas declarações. O antigo senador republicano Rick Santorum, que ficou atrás de Mitt Romney na corrida à Casa Branca em 2012, manifestou-se “desapontado e chocado” ao ouvir as infundadas alegações de Trump, desejando que o partido republicano defenda a legitimidade das eleições. Do mesmo modo, o advogado Benjamin Ginsberg, representante do partido republicano em várias eleições presidenciais, expressou a sua estupefação perante os ataques “infundados e sem sustentação legal” de Trump, referindo que, desta forma, ele está a chamar incompetentes e desleais a todos os republicanos que estão a prestar serviço na contagem de votos. Acrescentou, hoje, na CNN, que não existem casos credíveis de fraude para Trump levar aos tribunais.

Também a comunicação social está farta, e já não é apenas a revista Time. Em resposta a mais um bombardeamento conspirativo em termos de declarações oficiais do ainda presidente na noite de ontem, vários canais de televisão, como os gigantes ABC, CBS e NBC, cortaram a emissão em directo da Casa Branca, alegando existirem “apenas palavras, não há verdade nenhuma e não vamos permitir que continue porque não é verdade o que ele diz”. A falta de justificação e de provas para o constante discurso carregado de alegações de manipulação do escrutínio e da existência de “votos falsos” levou a esta decisão.

Daniel Dale, repórter da CNN destacado para a Casa Branca, que desde 2016 escreve artigos intitulados “Fact check” sobre as declarações de Donald Trump, considerou que o ainda presidente americano proferiu ontem à noite o seu discurso mais desonesto de sempre. Entre outras declarações, Trump queixou-se que lhe estavam a roubar a reeleição, disse que os votos por correio são um sistema corrupto, referindo que venceria as eleições com os votos ditos “legais”, e ainda montou toda uma teoria de conspiração a favor dos democratas, diabolizando o partido de Biden. Ou seja, tudo foi válido para justificar a mais do que provável derrota.

Como prova cabal do seu impregnado mau perder, atente-se neste episódio de hoje, quando Trump começou a ver que ia perder o estado da Pensilvânia, nomeadamente pelo número de votos de Biden em Filadélfia, a maior cidade do estado. No Twitter, escreveu que “a Filadélfia tem um péssimo histórico de integridade eleitoral”. Vai estrebuchar, fechar-se na sala oval, fazer mais uma dezena de birras, mas terá mesmo de sair, depois de ter andado quatro anos a preparar os próximos quatro.

Os americanos e o mundo vão livrar-se, finalmente, do líder supremo da arrogância e da prepotência. Ganhou na América profunda, menos bem informada e mais inculta, a mesma que lhe granjeou a presidência há quatro anos, quando Hillary Clinton não provou ser a candidata que mais unia o partido democrata. Quatro anos de atropelos, asneiras, mentiras, de presidência pelo Twitter, fuga ao fisco, afirmações racistas, incitação à violência, desconsiderações ao resto do mundo, ao Acordo de Paris, à Organização Mundial de Saúde, culminando no inenarrável episódio da infecção por covid-19, teriam de merecer este resultado. E perdeu, segundo Trump, para “o pior candidato a presidente de sempre da história do país”, como o definiu no primeiro debate eleitoral. No entanto, Biden é o candidato que até hoje teve mais votos na história das eleições americanas, o único a passar a barreira dos 70 milhões.

O mundo livrou-se de um homem muito perigoso. Certamente que uma qualquer estação televisiva já o tem em mira para um novo reality show, onde o senhor pode voltar a mandar à sua vontade e dizer as barbaridades que lhe apetecer.

“You’re fired!”.

segunda-feira, novembro 02, 2020

Missão: evitar novo confinamento!

 

(artigo escrito e publicado no dia 28 de Outubro de 2020)


De acordo com o Johns Hopkins Coronavirus Resource Center, os casos confirmados de covid-19 atingiram hoje os 43.9 milhões a nível mundial, com o número de mortos a chegar aos 1.16 milhões. Por toda a Europa, o aumento galopante dos números tem provocado medidas mais contundentes por parte dos governos.

Em Itália, determinou-se o encerramento dos bares e restaurantes às 18h00, tendo sido fechados ginásios, cinemas e piscinas municipais. Em várias regiões do país foi imposto recolher obrigatório, o mesmo sucedendo em França, Suíça, Grécia, Espanha, Bélgica e República Checa. O País de Gales e a Irlanda encetaram um novo confinamento total. Na Bulgária, foram fechados bares nocturnos e os estudantes vão ter apenas aulas online durante duas semanas. Na Alemanha, a cidade de Berchtesgaden, na Baviera, encontra-se num confinamento de duas semanas. Na Eslováquia, foi decretada a realização de testes à escala nacional, no sentido de evitar medidas mais duras.

Por todo o continente, aumentam exponencialmente o número de infectados, internamentos e mortes. Em França, registaram-se, na segunda-feira passada, 1307 novos internamentos de infectados com covid-19 apenas num dia, o número mais alto desde o dia 2 de Abril. O número diário de mortes também bateu o recorde registado a 22 de Abril, com 523 mortes contabilizadas ontem. No Reino Unido, a mesma situação, com 367 mortes, o valor mais alto desde 27 de Maio. Em Itália, 221 mortes no mesmo dia, na primeira vez que os números ultrapassam as duas centenas desde Maio. Na Alemanha, segundo o ministro da Economia, Peter Altmaier, o número de novos infectados subiu 75% em relação à semana passada.

Mike Ryan, director executivo do Programa de Emergência Médica da Organização Mundial de Saúde, alertou esta semana para a necessidade de se implementarem medidas rápidas para combater a escalada dos números na Europa. O responsável referiu ainda que vários países europeus estão na iminência de regressar ao confinamento nas próximas semanas.

Virando as atenções para o nosso país, o que se tem passado por cá?

Um valente tiro no pé com uma aplicação para telemóvel, o uso obrigatório de máscara (finalmente!) e um grande alvoroço em virtude de um fim-de-semana, o próximo, em que não serão permitidas deslocações entre concelhos no território nacional.

Toda a gente concorda e aplaude as medidas preventivas de controlo e vigilância do risco de infecção por covid-19. Excepto, lá está, se entrarem em rota de colisão com as suas vontades e interesses. É aquela velha luta interior dos portugueses, que não encontram meio-termo entre a subserviência/obediência cega e a subversão/insubordinação.

Neste caso concreto, os portugueses têm uma data na cabeça (2 de Novembro) e essa data é para a finalidade que lhe está associada há séculos: ir aos cemitérios prestar homenagem aos mortos. Se olharmos para o calendário com alguma atenção, verificamos que existem mais 364 dias e que em qualquer um deles os cemitérios também estão abertos. O que impede as pessoas de irem ao cemitério no dia 12 de Março, 29 de Maio ou 18 de Setembro? Ou vão apenas no dia 2 de Novembro porque toda a gente vai nesse dia também? Numa altura em que se pretende evitar ajuntamentos de pessoas em todo o lado, não seria sensato escolher um outro dia qualquer para ir ao cemitério que não este? Não poderemos, todos nós, pensar um pouco mais no bem geral e não apenas naquilo que nos convém no imediato?

Estes tempos de incerteza apelam à nossa capacidade de resistência, a uma mudança de atitudes e de comportamentos e a uma rápida adaptação a novos enquadramentos sociais, legais e sanitários. Apelam agora a um esforço adicional, depois do que passámos em Março, Abril e Maio, mas se o fizermos agora poderemos não ter de o repetir nos mesmos meses do próximo ano. Apelam a que rememos todos para o mesmo lado, porque se tivermos 5 milhões a remar para um lado e outros 5 milhões a remar para o outro… não saímos do mesmo sítio. Temos de começar, efectivamente, a pensar e a actuar com base numa escala que transcenda o perímetro das nossas preocupações imediatas.

E entretanto…

O jornal “Público” de hoje anuncia que a região Norte de Portugal pode chegar aos 7 mil casos diários de covid-19 na próxima semana e que há vários concelhos num patamar semelhante aos três do Tâmega e Sousa (Paços de Ferreira, Lousada e Felgueiras) onde foram impostas medidas mais musculadas. A Câmara Municipal de Matosinhos decidiu antecipar o encerramento dos centros comerciais para as 21h00 e recomendou a implementação do ensino à distância. Pediu, igualmente, ao governo para adoptar medidas urgentes.

Não duvidem, essas medidas vão mesmo chegar, infelizmente. Ninguém pretende um segundo confinamento, que seria terrível para a nossa economia, liberdade e sanidade. Mas, se todos fizermos a nossa parte…

quinta-feira, outubro 22, 2020

Perguntar não ofende

 


 O Município de Viseu lançou uma rubrica mensal, que terá início no dia 22 deste mês, intitulada “O Presidente responde”. Na definição do evento, refere-se que esta é uma rubrica de “contacto direto” entre os munícipes e o presidente da autarquia. Pretende-se, assim, que os cidadãos façam perguntas, “sem tabus nem preconceitos”, como se refere nas normas de participação, para Almeida Henriques responder em formato de vídeo. “Todas e todos são livres de colocar as questões que gostariam de ver esclarecidas”, afirma-se também, o que se enaltece, por respeitar os valores democráticos da sociedade em que vivemos.

A ideia preconizada é simples: os munícipes devem enviar as questões até às 10h00 do dia 21, sendo estas respondidas, no tal formato de vídeo, às 13h00 do dia 22. O autarca terá três minutos para responder a cada questão e a sessão terá cerca de 30 minutos de duração, o que dará espaço para 10 perguntas. Sublinha-se, nas normas de participação, que das questões remetidas será seleccionado “um conjunto representativo” para o presidente responder, procurando-se, desta forma, “uma maior abrangência de abordagens e temas”. Diz ainda o município que as sessões serão mensais e que decorrerão sempre na última quinta-feira de cada mês.

O que se pode depreender disto tudo até agora? Primeiro, não há nenhum “contacto direto”, como se observa, ao contrário do que se pretende fazer crer. Segundo, a última quinta-feira de Outubro é no dia 29. Terceiro, o autarca fica com bastante tempo, mais de 24 horas, mesmo considerando o tempo despendido na gravação do formato de vídeo para publicação, para trabalhar, com a sua equipa, as respostas. Quarto, todos gostaríamos de saber quem irá escolher o tal “conjunto representativo abrangente”. Ou seja, é uma espécie de censura controlada, porque não convém tornar este exercício em algo penoso ou até embaraçoso para o executivo camarário. Logo agora, ao fim de vários meses covidianos a dar “tiros nos pés”…

Apoiando-nos no historial de relações azedas com a oposição, sempre que esta tenta ser, efetivamente, oposição, é fácil chegar à conclusão de que este executivo não gosta mesmo nada de ser criticado ou que lhe apontem incongruências, falhas ou discrepâncias. São anos e anos de desaforos vomitados para cima dos vereadores da oposição em assembleias municipais e reuniões de câmara, simplesmente porque, de vez em quando, lá calha aparecer uma dúvida ou um pedido de justificação. Portanto, se este executivo é assim com a oposição, o que não fará com os titulares das perguntas mais impertinentes que surgirem?!

Sendo assim, certamente que, com este “contacto direto”, estarão à espera de perguntas como “É mesmo muito difícil ser presidente da câmara, não é?”, “Para qual canal de televisão gosta mais de dar entrevistas?”, “Sabe onde é que o Jorge Sobrado compra os seus chapéus?”, “Tenho uma prima e um tio que trabalha na câmara. Posso enviar o meu CV?” ou “Qual é a primeira coisa que faz quando chega à câmara?”. Nada de politicamente incorreto ou que possa ferir susceptibilidades, portanto.

Mesmo correndo esse risco, lanço aqui as minhas perguntas ao presidente da autarquia, que fiz seguir, tal como recomendado, para o mail presidencia@cmviseu.pt. Porque, lá está, perguntar não ofende.

- Por que motivo, sempre que há furacões ou depressões, com chuvas fortes e persistentes, se registam cheias nas mesmas artérias da cidade e por que razão, mesmo com esses locais bem identificados há anos, ainda não se tomaram providências para resolver esse problema?

- Em 2013, no início do seu primeiro mandato, disse que queria ficar com o seu nome associado ao regresso do comboio a Viseu. Quando pensa começar a fazer alguma coisa para esse desenlace?

- Depois dos atrasos na distribuição de máscaras aos munícipes e dos portáteis aos alunos (todos os outros municípios do distrito foram muito mais rápidos e eficientes), que justificação encontra para terem sido distribuídas, através do Viseu Educa, máscaras aos alunos do concelho que não cumprem os requisitos mínimos de proteção?

- Qual a explicação para se ter destruído o circuito de manutenção do Fontelo e se ter optado pela “plantação” indiscriminada de instalações de arte de duvidosa qualidade no seu espaço? Já não havia espaço na Quinta da Cruz? Nem no Parque Aquilino Ribeiro? Ou no Parque Urbano de Santiago?

- Na mesma medida, o que levou o município a vedar, no Fontelo, o acesso à água em todos os fontanários existentes, sabendo-se que é um local de excelência para praticar desporto e para convívios familiares? É notório que a água não é o líquido preferido deste executivo camarário…

- O Viseu Arena representa um investimento de 6,4 milhões de euros, com um financiamento a 20 anos e taxas de juro bonificadas. Acredita que será inaugurado antes do término do financiamento ou será uma coisa relativamente mais demorada e estará pronto apenas aquando das conclusões da Operação Éter?

- Na mesma linha, fará sentido iniciar, depois de sete anos de análises, avaliações, orçamentos e previsões, os projetos do Mercado 2 de Maio e do Mercado Municipal se não será possível fazer um quarto mandato para os inaugurar?

terça-feira, outubro 13, 2020

Já era tempo de meter a máscara na cabeça!

 

 


To each his sufferings: all are men, condemn'd alike to groan, the tender for another's pain, the unfeeling for his own. Yet, why should they know their fate, since sorrow never comes too late and happiness too swiftly flies? Thought would destroy their paradise. No more; where ignorance is bliss, 'tis folly to be wise.

Trecho do poema “Ode on a Distant Prospect of Eton College” (1742), de Thomas Gray

 

Não haja dúvidas de que esta parece ser a máxima dos difíceis tempos em que vivemos: “Onde a ignorância é felicidade, é tolice ser sábio”. Nem é preciso muito para se chegar a esta conclusão, basta percorrer a pé as principais artérias da cidade de Viseu e observar as centenas de pessoas que se passeiam sem máscara. Algumas, numa clara manifestação de apreço pelos versos finais do poema de Thomas Gray, chegam a deambular pachorrentamente com as ditas máscaras nos cotovelos ou nos pulsos, como se fosse um acessório.

O comandante nacional da Protecção Civil, Duarte da Costa, lamentava-se, no início de Setembro deste ano, quando falava sobre a campanha de tolerância zero ao fogo, que em Portugal se demorou 10 anos até ser verdadeiramente assumido por toda a gente o uso do cinto de segurança nos automóveis. No seu entender, a campanha de prevenção de incêndios enfermará do mesmo mal. E o uso de máscaras em situações de pandemia mundial quantos anos demorará?

Trago hoje à colação três episódios sobre a insensatez do ser humano, curiosamente todos eles registados na Rua Direita, em Viseu.
No primeiro, um casal, na casa dos quarenta, com duas filhas adolescentes, entrava, perto da Casa da Sorte, no recinto do evento Cubo Mágico, no mês de Julho. À entrada, dezenas de recomendações de segurança num painel lateral. Uma das filhas, depois de ver o painel, virou-se para o pai e perguntou: “É preciso colocar a máscara agora?”. Do alto da sua infinita sabedoria, como se estivesse a transmitir a mais douta das opiniões, ele respondeu: “Máscara?! Ó, ó, ó… era só o que faltava agora!”.

No segundo episódio, já em Setembro, dois alunos da Escola Mariana Seixas conversavam na rua. Um deles questionou se deveriam estar a usar máscara, ao que o outro respondeu prontamente: “Por mim, não, e nem a uso mais! Quanto mais depressa apanhar o Covid, melhor, fico já despachado!”.
 
No terceiro episódio, ocorrido hoje mesmo, duas trintonas encontraram-se na rua e encetaram uma conversa, da qual retirei estas três frases: “Ainda bem que te encontro, queria mesmo tirar a máscara, estou farta disto”; “Também vou aproveitar para tirar agora, se tu tiras”; “É que, como se não bastasse, borrata-me a maquilhagem toda”.

Conclusões? Três gerações, três posturas erradas. Um pai que desbarata uma oportunidade para dar um bom exemplo às filhas, dois jovens de vistas curtas centrados apenas neles mesmos e duas mulheres mais preocupadas com aspetos visuais do que com a sua própria saúde.

A maior parte das pessoas tem consciência de que os números estão a subir ou a descer, vêem as notícias, acompanham o evoluir da pandemia no seu distrito e no país. O problema é que nada disto se reflecte, depois, nos seus próprios actos. É só passar pelo centro histórico, na sexta e no sábado à noite, ou no fim-de-semana, para se constatar de que forma as pessoas se preocupam mesmo com a pandemia. São centenas de pessoas sem máscara nas ruas, em grupos nas esplanadas, a desrespeitar normas de segurança. Até podem alegar que estão ao ar livre, mas, caramba, estão praticamente em cima uns dos outros, sem observar as regras de distanciamento.


Começamos a inverter o paradigma quando verificamos que hoje em dia nos sentimos mais seguros num centro comercial, hipermercado, loja ou repartição pública, porque nesses locais é obrigatório usar máscara. Nas ruas e nas esplanadas isso é mais complicado, porque há sempre o bronze do Verão, a maquilhagem irrepreensível, o tratamento dentário, a barba que demorou quase duas horas a aparar para ficar como deve ser, ou o batom Mary Kay, que é “top, top, top”, para mostrar. E, no final de contas, se o Covid aparecer, “pronto, é melhor assim, ficamos já despachados”.

No meio de tudo isto, não é preciso muito para constatar que aqueles que estão mais preocupados com a pandemia são as pessoas com mais idade. Numa Rua Direita cada vez mais envelhecida, eles lá andam de máscara, alguns num desamparo extremo. Vagarosos, trémulos, vulneráveis e frágeis, mas de máscara bem colocada! Já trabalharam e sofreram muito mais do que as incautas novas gerações, têm muito menos conhecimento e acesso à informação do que eles, mas sabem que se deve usar máscara. Reflectem bem a resiliência beirã, a resistência perene e feroz perante as adversidades e a indómita vontade de subsistir. São autênticas lições de vida que nos dão diariamente.


Uma sociedade justa, como aquela que todos desejamos, terá de ter muito mais respeito por eles e pela vida que construíram. “Não se envelhece para morrer”, diz José Tolentino de Mendonça no seu último livro, acrescentando que “quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes”. Saibamos respeitar as nossas raízes!