segunda-feira, fevereiro 23, 2026

a leveza, sometimes, é mesmo necessária


podemos não aceitar imediatamente quando as provas irrefutáveis nos caem em cima, porque preferimos pensar que não estamos a envelhecer e que ainda temos a energia dos "vintes" e "trintas", mas à medida que o tempo passa sentimos mais o peso do trabalho. no corpo e na mente.

são os deadlines, a preocupação com os detalhes, o rigor que se coloca em tudo o que fazemos, escrever, corrigir, rever, analisar, conferir... tudo é importante e uma menor aplicação num destes patamares pode deitar tudo a perder.

o tempo avança, sem piedade, e quando passas a ter menos energia tens o dobro ou o triplo das responsabilidades no teu local de trabalho. ironias...

tudo isto para explicar que, após uma semana de seis dias de trabalho (de domingo a sexta-feira), era absolutamente necessária uma saída, uma escapadela, um carregar de baterias, uma mudança de ares. e qual é o melhor ar que se pode respirar? precisamente. à beira mar.

os benefícios para a saúde respiratória e mental são enormes. o ar húmido e rico em sal agem como uma nebulização natural, aliviando as vias aéreas, reduzindo o muco e ajudando quem sofre de rinite e sinusite. em suma, a brisa marítima exponencia a oxigenação, reduz o stress e faz crescer os níveis de serotonina.

foi a pensar em todas estas vantagens que, no sábado de manhã, nos pusemos a caminho da praia da barra, em ílhavo, para passarmos o fim de semana. a meteorologia agiu em conformidade e deu-nos dois dias de sol, calor e vento ameno, o que, junto à praia, costuma ser muito invulgar.

como chegámos perto do almoço ao nosso destino, decidimos ir almoçar à costa nova, mesmo ao lado da barra. fomos a um restaurante que me dizia muito, por o ter frequentado amiúde com os meus pais: a marisqueira costa nova. lembro-me que os meus pais pediam sempre o pote do marinheiro e se deliciavam com todo aquele peixe e marisco. eu, na ingenuidade dos meus 10/11 anos, provavelmente insistiria no habitual, banal e corriqueiro bitoque.

chegámos cedo, o local ainda tinha pouca gente e arranjámos mesa facilmente, mesmo sem reserva. escolhemos açorda com savel frito, ela, e caril de lagosta, eu. comida de adulto, portanto. bebemos uma garrafa de mateus rosé, um dos nossos preferidos para acompanhar pratos de peixe e marisco. o almoço acabou por ser catártico, em virtude da conversa que tivemos naquele local, que tanto me fez lembrar o meu pai. agora, como adulto, tentei perceber como ele se sentiria quando nos levava a este mesmo restaurante, que nunca deve ter sido considerado acessível aos bolsos da classe média/baixa. o dinheiro não abundava, mas ele gostava destes momentos, em que podia proporcionar à família algo diferente, com muito mais requinte do que estávamos habituados. pensei muito nele e falei muito dele. a ana, como sempre, ouviu-me, sentiu-me e apaziguou-me.

seguimos então para a nossa praia da barra. fomos rapidamente colocar os sacos em casa e saímos para a nossa habitual caminhada pelos passadiços da praia. levei a máquina fotográfica, outra presença obrigatória. queríamos respirar o mar e sentir a brisa e a pressa/ansiedade já era muita.

a conversa, para nós, nunca foi um problema, temos assunto um para o outro mesmo que vivamos até aos 187 anos. mas, dada a leveza que ambos sentíamos, pelo facto de estarmos finalmente num local pelo qual ansiávamos há algum tempo, essa mesma conversa foi parar... aos anos 80. os gloriosos anos 80 e a todas as bandas e músicas que nos pudéssemos lembrar. somos da mesma idade, temos as mesmas referências musicais e, dessa forma, tal como cerejas, os nomes, os temas, os telediscos, as bandas e os cantores foram surgindo em catadupa. 

deviam ser umas duas da tarde quando iniciámos esta odisseia. creio que só a terminámos hoje de manhã (segunda-feira, por volta das 8h00), quando me lembrei de mais duas referências musicais dessa década: "19", de paul hardcastle; e "one night in bangcok", de murray head. ou seja, em 42 horas (descontando obviamente o tempo em que dormimos), devemos ter avançado com duas centenas de hits, de nomes, de referências, de curiosidades sobre a década, dos telediscos, dos duetos, das colaborações pontuais (queen/bowie; clannad/bono; dire straits/sting, etc).

e o que saiu da nossa memória? isto é apenas um resumo: duran duran, a-ha, cock robin, a flock of seaguls, tina turner, elton john, u2, nik kershaw, laura branigan, eurythmics, jennifer rush, the communards, abc, the human league, omd, kajagoogoo, limahl, robert palmer, frankie goes to hollywood, bryan adams, rod stewart, queen, wham, george michael, joe cocker, david bowie, sting, the police, pet shop boys, tears for fears, kool and the gang, erasure, starship, foreigner, whitney houston, the pretenders, kim wilde, talk talk, depeche mode, time bandits, falco, nena, sandra, texas, suzanne vega, fairground atration, all about eve, entre muitos, MUITOS, outros. mas a música que mais "bateu", a cantar e a dançar, em virtude do teledisco, em que andy bell, dos erasure, dançava de uma forma muito parva (algo que não nos custou a imitar, portanto), foi a música "sometimes". andámos com ela na cabeça várias horas. mas também vibrámos com a "cherish", dos kool and the gang, e "i want to dance with somebody", de whitney houston.

estávamos no nosso mundo, a cantar e a dançar quando e como nos apetecia, sem amarras, sem complexos. conquistámos aqueles momentos! a nossa leveza, felicidade e plenitude devem ter deixado muita gente de boca aberta, mas estávamos a ser nós mesmos. isto durante uma tarde em que tirei à ana mais uma coleção de boas fotos, uma das coisas que eu mais gosto de fazer neste mundo. uma modelo maravilhosa num local com o mesmo adjetivo!

à noite, decidimos ir jantar a aveiro. fomos sem destino, como também é habitual em nós. sabemos que vamos encontrar algo especial. foi precisamente isso que aconteceu. depois de consultarmos duas ou três ementas à porta dos estabelecimentos, optámos pelo "zeca - loja, cafetaria, turismo". ficámos encantados com o conceito, que juntava meia dúzia de elementos num "pacote" tabelado previamente. optámos por um que incluía queijos, patê, manteiga com limão, pão quentinho, tiras de frango panado, azeitonas e camarão frito em azeite e alho. simplesmente divinal! não tínhamos muita fome, depois de um almoço farto, mas quando começámos a comer... os itens desapareceram num ápice. bebemos sangria de espumante e saímos claramente saciados. como deixámos o carro ainda longe, fizemos mais uma caminhada até lá, e esta impunha-se, porque estávamos bem cheios.

no final do dia, conferimos os nossos relógios e a ana tinha feito acima de 16 mil passos, ficando eu pelos 13 mil. portanto, comer bem, sim, mas com dispêndio físico para compensar.

no domingo de manhã, saímos cedo de casa para mais uma caminhada junto ao mar, com mais fotos, mais referências dos anos 80, nomeadamente numa deliciosa mesinha na esplanada do "infinito", com vista para o mar, com dois cafés e uma fatia de bolo de cenoura à nossa frente. ficámos ali uma hora a puxar pela cabeça, a debitar mais nomes e mais músicas, num daqueles momentos para recordar sempre, de tão inebriante que foi.

aproximava-se a hora de almoçar e já tínhamos a bebida, que levámos de casa no dia anterior: uma monte velho reserva. a ideia era mesmo ir buscar o almoço ao nosso supermercado preferido da barra, onde sempre gostámos de tudo o que fomos buscar. escolhemos leitão à bairrada, que estava divinal, levámos pão e batata frita. o almoço, agora só a dois, em casa e a ouvir (sempre) música dos anos 80, foi delicioso, por tudo: a nossa harmonia, a música que nos une, a paixão por uma refeição à nossa medida, com boa comida e boa bebida, a boa disposição, a leveza. sim, sempre a leveza.

cerca de duas horas depois, saímos da barra, empanturrados de tanta satisfação, de sorrisos nos lábios e com as baterias devidamente carregadas. foi uma escapadela, mas uma escapadela perfeita, em todos os parâmetros. iremos repetir várias vezes ao longo do ano, para enchermos o peito de ar e voltarmos a sentir toda aquela leveza que nos fez flutuar.

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