duas pessoas decidem fazer uma viagem sem destino e sem perspectiva de regresso. carregam o carro com a bagagem de cada um e metem-se ao caminho. a viagem corre muito bem na primeira centena de quilómetros. boa conversa, músicas cantadas em dueto e sorrisos estampados nos rostos.
ao quilómetro 379, a primeira contrariedade: furou um pneu. um esforço adicional daqui e outro dali e em pouco mais de meia hora o problema ficou resolvido, reiniciando-se a viagem.
entre paragens para visitas, fotografias, refeições e dormidas, a viagem seguia pacífica, envolta numa cumplicidade emocional indisfarçável e num sentido de admiração e respeito mútuo. todavia, tal não impedia que as contrariedades continuassem a aparecer. eles chegavam, por vezes, em forma de multas por excesso de velocidade, reparos à adequação da condução em virtude das condições meteorológicas adversas, filas intermináveis de trânsito, ocasionais acidentes rodoviários ou ainda de problemas mecânicos do automóvel. mas eles, após uma análise cuidada aos imprevistos que iam surgindo, alguns deles demorando mais tempo que outros, seguiam caminho, nem sequer equacionando a hipótese de voltar para trás ou de desistir.
a seguir aos instantes mais conturbados, chegavam invariavelmente momentos de plenitude, contemplação, paz e realização. em todos os momentos, bons e maus, o coração estava sempre aconchegado e embevecido com as juras de amor que se trocavam, com o calor dos olhares apaixonados e com o toque que transmitia serenidade e aquela distinta sensação de se estar no sítio certo, ao lado da pessoa certa e parte de algo que fazia todo o sentido, por toda a corrente emocional que ligava dois seres deslumbrados e ainda incrédulos com a felicidade que lhes tinha vindo parar ao colo.
e a viagem seguia, nem sempre pelas melhores estradas, o que causava algumas perturbações momentâneas, mas rapidamente surgia uma nova auto-estrada e o sol voltava a brilhar.
mas, ao quilómetro 728, aconteceu o "evereste" dos imprevistos: o carro avariou e eles tiveram de parar. desnorteados, tentaram encontrar justificações para aquela avaria. um dizia uma coisa, o outro apontava outra; um avançava uma solução, o outro aventava uma outra. não tardou até que chegassem as acusações mútuas de negligência ou descuido no manuseamento da viatura. um dizia que bastaria chamar o mecânico e esperar um pouco enquanto o carro era reparado; o outro entendia que não valia a pena e que ainda não estariam longe demais para voltar para trás e esquecer a viagem. um queria seguir a viagem; o outro, agastado com tantos imprevistos, decidiu ficar por ali.
nenhum deles fazia ideia das paisagens que se seguiriam naquela viagem, que fotografias tirariam em dezenas de cidades, que refeições saboreariam em localidades pitorescas, que vinhos provariam ou em que hotéis dormiriam. os quilómetros que se seguiriam eram uma incógnita, tal como o foram, afinal, todos os quilómetros que eles já tinham percorrido. mas a viagem acabou ali, naquela avaria. um deles voltou para trás. o outro ficou ao lado do carro, a insistir, a tentar ligar novamente a viatura, porque lhe parecia inconcebível que tivessem chegado até ali e não continuassem a viagem. algum tempo depois, também desistiu, depois de sentir que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para continuar em frente, mas não havendo carro, nem companhia, tal seria impossível. aqueles quilómetros realizados, as paisagens contempladas e os momentos vividos a dois, a cantar, a passear de mãos dadas, a tirar fotografias com a máquina e com a alma, tinham ficado para trás. não houve coragem para continuar a viagem, substituindo a viatura, ou prosseguindo de autocarro, de comboio, de avião. alternativas não faltavam, mas, porventura, não estariam predispostos a passar novamente por mais imprevistos ou para percorrer as tais estradas menos boas quando não havia auto-estrada. mas fica a sensação de que já tinham passado pelas maiores agruras quando decidiram acabar aquela viagem.
o que resta agora, são apenas recordações, o vazio de uma ausência que nunca tinha sido tão prolongada, uma dor pungente e dilacerante de uma saudade que não se consegue alimentar, uma vontade de gritar a tudo e a todos "vocês viram-na?", "como é que ela está?", "como é que tem passado?", ou de pegar no telemóvel e usar uma das dezenas de possibilidades de entrar em contacto. mas antes desse ímpeto chega um outro, o receio da resposta, o medo de que uma palavra mais ríspida possa provocar, o pânico de não sentir na outra pessoa aquilo que outrora era automático, a cumplicidade, a sintonia sentimental, a mesma ansiedade por chegar, a mesma vontade de tocar, de passar as mãos pelo cabelo, de deitar a cabeça no peito, de agarrar algo que se sente como nosso, só nosso, intransmissível, único e indivisível.
o dilema é cortante, porque o carro continua lá, no quilómetro 728, e há uma pessoa que não sai do lado dele, à espera de algo que o coloque novamente a andar. enquanto houver carro e chave, existirá sempre uma hipótese de ele voltar a fazer-se à estrada. nunca o chavão "enquanto há vida, há esperança" fez tanto sentido. não é crime nenhum gostar de alguém; não é crime nenhum ter uma imensa vontade de dizer a essa pessoa que estamos cheios de saudades; não é crime nenhum manter viva esta premência de a voltar a ter nos braços; não é crime nenhum dizer "eu amo-te". posso estar "broken", mas continuarei ao lado do carro, no quilómetro 728, até não haver mais esperança, até o carro ser rebocado de vez.
"and i´m running out of words
I still love you like the very first time"
https://www.youtube.com/watch?v=kdjELYZ5GbQ
quinta-feira, setembro 19, 2019
quarta-feira, setembro 18, 2019
patrick watson - broken
Tell me where we're going tonight Home is better than wandering in our heads We tried everything to save our love The best was always waiting to come Did we dig too deep For fifty-one reasons not to lose our souls? And it's not that you're not the one And it's not that you're not the one We all need a little peace Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Tell me where we're going so fast Never used to run when we were young And I'm running out of words I still love you like the very first time Pack your bags with all the lives you've been before And leave behind what you don't want no more Sometimes sometimes you wanna wanna go back But it don't work like that Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Memories come and then they go You just learned how to let go Sometimes sometimes you wanna wanna go back But it don't work like that Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken? Do you feel a little broken?
terça-feira, setembro 17, 2019
patrick watson - dream for dreaming
This dream I'm dreaming Won't you wake me up tonight 'Cause this life I'm living Doesn't really feel like mine This strange dream I'm dreaming If it ain't wrong it don't feel right Never thought you were leaving I never thought I'd have to start again Somebody wake me up Don't you wish we were dreaming Don't you wish that we were just dreaming I never thought the stars would look new again Thought we'd get old, get dressed, and walk the dogs Never really thought I'd have to be alone I never thought you'd ever really be gone But I still sing along To yesterday's song I got lost in the tall green grass I'm so lost in the tall green grass Got on the phone and called a friend Asked him where the hell I am? Somebody wake me up Don't you wish we were dreaming Don't you wish that we were just dreaming Don't you wish that we were just dreaming
domingo, setembro 15, 2019
orgulho de pai
esta virtuosa miúda, de apenas 14 anos, mostrou hoje a centenas de pessoas o que é ter coragem. foi operada há menos de dois anos à coluna, mas a vontade férrea de dançar, vocação que nasceu com ela, levou-a a criar um grupo de dança para coreografar músicas de k-pop, o seu estilo de música preferido. o grupo cresceu, ensaiou todas as semanas e aperfeiçoou-se para uma oportunidade. ela chegou hoje, depois de, também, muito esforço para contactar as pessoas certas e angariar apoios. doze bravos adolescentes subiram ao palco viriato da feira de são mateus e encantaram a plateia, onde estava, a rejubilar com a actuação, jorge sobrado, vereador da cultura da câmara municipal de viseu e gestor da feira.
hoje, como sempre, a mariana deslumbrou, soltou-se, foi ela mesmo, aquela menina que eu via a inventar coreografias para as músicas da shakira e da beyoncé quando tinha 4/5 anos e que pegava no comando da televisão para fingir que era um microfone. a artista esteve sempre dentro dela, desde tenra idade. hoje, a artista saiu e foi um deleite, a dançar sempre com um sorriso nos lábios, de alguém que está a fazer o que adora, aquilo para que nasceu! E a Mariana nasceu para a dança!
no final, jorge sobrado deu-lhes a boa notícia: no próximo viseu street art, o grupo volta a actuar. como pai babado, babadíssimo, agradeço a distinção e a escolha. o grupo merece ser apoiado e acarinhado.
és uma valente, mariana! tomara eu ter metade da tua coragem e determinação! és uma verdadeira inspiração!
domingo, setembro 08, 2019
a dúvida persiste
gostava um dia de conseguir observar-me fora de mim, de me ser dada a hipótese de passar por mim na rua, de tomar café ao meu lado no balcão de um estabelecimento, de me ouvir a falar com as pessoas, porque só assim iria perceber que raio de imagem ando eu a passar de mim próprio há 47 anos.
se eu fosse uma estrela do cinema ou da música, já me teria despedido. faço muito pouco pela minha imagem, pela venda da pessoa que sou, pela minha personalidade. pior: sou mesmo a primeira pessoa a deitar-me abaixo e a rebaixar-me, seja qual for a situação. portanto, sou daquele tipo de pessoas que, em caso de dúvida, se utiliza como bode expiatório para resolver o diferendo. é preciso culpar alguém? lá estarei, qual batman a responder ao sinal estampado nos céus de gotham de cada vez que há uma emergência.
o que é que eu ganho com isto? muito pouco, convenhamos...
sei que não vou conseguir arranjar amigos com o estilo de vida que levo. sei que deveria sair, e agora apertem os cintos porque vem lá uma daquelas expressões fantásticas só ao alcance daquelas pessoas que realmente têm alguma coisa a dar à sociedade, com massa cinzenta suficiente para 1435 palestras motivacionais, cujo conteúdo é 95% tirado de posts do facebook com frases lindíssimas plasmadas em cima de pôr-de-sol, gatinhos ou flores, uff... da minha zona de conforto, ir à procura de um sítio onde me integrar, sentir bem ou, pelo menos, menos desenquadrado socialmente.
pois, falta-me isso. esse arriscar, essa coragem de não ter medo de ser escrutinado, observado e julgado. tal como faço aos outros... ou seja, tenho medo de me integrar em algo, porque, no fundo, sei que, se eu pertencesse a esse algo, eu próprio não me aceitaria a mim mesmo.
nó no cérebro? isso passa, vão por mim.
enquanto isso, a minha maior dúvida, desde que me conheço, persiste: será o resto do mundo que não permite que eu me integre, ou sou eu que não estou devidamente preparado para me integrar em algo?
se eu fosse uma estrela do cinema ou da música, já me teria despedido. faço muito pouco pela minha imagem, pela venda da pessoa que sou, pela minha personalidade. pior: sou mesmo a primeira pessoa a deitar-me abaixo e a rebaixar-me, seja qual for a situação. portanto, sou daquele tipo de pessoas que, em caso de dúvida, se utiliza como bode expiatório para resolver o diferendo. é preciso culpar alguém? lá estarei, qual batman a responder ao sinal estampado nos céus de gotham de cada vez que há uma emergência.
o que é que eu ganho com isto? muito pouco, convenhamos...
sei que não vou conseguir arranjar amigos com o estilo de vida que levo. sei que deveria sair, e agora apertem os cintos porque vem lá uma daquelas expressões fantásticas só ao alcance daquelas pessoas que realmente têm alguma coisa a dar à sociedade, com massa cinzenta suficiente para 1435 palestras motivacionais, cujo conteúdo é 95% tirado de posts do facebook com frases lindíssimas plasmadas em cima de pôr-de-sol, gatinhos ou flores, uff... da minha zona de conforto, ir à procura de um sítio onde me integrar, sentir bem ou, pelo menos, menos desenquadrado socialmente.
pois, falta-me isso. esse arriscar, essa coragem de não ter medo de ser escrutinado, observado e julgado. tal como faço aos outros... ou seja, tenho medo de me integrar em algo, porque, no fundo, sei que, se eu pertencesse a esse algo, eu próprio não me aceitaria a mim mesmo.
nó no cérebro? isso passa, vão por mim.
enquanto isso, a minha maior dúvida, desde que me conheço, persiste: será o resto do mundo que não permite que eu me integre, ou sou eu que não estou devidamente preparado para me integrar em algo?
quem sai aos seus alumia duas vezes
é engraçado como o tempo se encarrega de nos esbofetear com pequenos nadas que julgávamos insignificantes e que, uns anos mais tarde, chocam de frente connosco, como autocarros desgovernados após uma inclinação de noventa graus.
a minha mãe trabalhava como uma escrava, das 8h00 às 19h00, sensivelmente, com apenas uma meia horita para comer alguma coisa, a fingir que era o almoço. a restauração é dos sectores mais duros e limitadores que existem, falo por experiência própria. o seu trabalho consistia em assegurar tudo o que houvesse para assegurar num cozinha de restaurante, que era, ao mesmo tempo, pensão, snack bar e café. ou seja, a todos os momentos do dia, tinha que existir sempre algo para "mata-buchar" (expressão popular que deriva do não menos famoso "mata-bicho", muito usado na zona onde a minha mãe trabalhava). portanto, era trabalho non-stop, desde preparar os almoços, passando pelos lanches e acabando nos jantares. não havia tempo para descansar.
eu teria uns 8, 9 anos quando me apercebi disto, da carga hercúlea que ela e o meu pai tinham às costas, para poderem providenciar aos filhos, a mim e à minha irmã, três anos mais nova, uma vida confortável, digna e sem privações.
mas a minha mãe tinha os seus "truques", ou melhor, as suas formas de transformar tudo aquilo por que ela tinha de passar todos os dias numa espécie de recompensa no final do dia. ela tinha necessidade de, chegada ao final de um daqueles dias, se regalar com algo que ela entendia ser um prémio pelo esforço realizado. acredito mesmo que seria a pensar nisso que a minha mãe dava tudo o que tinha, para chegar ao fim do dia e ter a sua recompensa.
pois bem, a recompensa da minha mãe era muito simples: todos os dias, a minha mãe, quando saía do trabalho, tinha de levar consigo algo para degustar quando já estivesse de pijama, confortável, na sua cama, no pleno gozo do seu descanso. no verão, era sempre um gelado, primeiro os pernas de paus, mais tarde os magnum de amêndoas. não falhava! no inverno, era um chocolate jubileu, que dividia por duas semanas. mas era esta a rotina: chegava a casa, tomava banho, vestia o pijama, metia-se na cama e... recompensa! assistia a isto todos os dias, entendia, mas nunca lhe dei muita importância.
eu trabalho muito menos que a minha mãe. facto! nem me atrevo a comparar sequer a carga de trabalho. porém, há dias em que gosto de me mimar, e hoje foi um deles.
depois de uma semana de seis dias seguidos de trabalho, de um sábado em que dividi o tempo de ócio/folga com trabalho, cheguei ao domingo. acordei cedo, tomei banho e pequeno-almoço. decidi que seria tempo de, finalmente, sair de casa. aceitei o meu próprio desafio. vesti roupa desportiva e meti-me à estrada. rua direita abaixo, ribeira, parque radial de santiago. muito tempo a caminhar, tirar fotos e, essencialmente, a respirar. fundo, bem fundo! e a pensar. muito. muito mesmo...
chegado a casa, preparei o almoço, porque sabia o que lá vinha.
almocei, compassadamente, lavei a louça, mudei de roupa e... meti-me ao trabalho. estive quase cinco horas a trabalhar. texto, mais texto, mais texto, e por aí adiante.
acabei de trabalhar... e fui trabalhar. tinha-me comprometido que passaria pelo jornal para ajudar no fecho de edição. e lá fui. mais duas horas. num dia de folga...
a recompensa, perguntam vocês? pois, eu sabia que teria de me mimar, para me compensar por ter desperdiçado duas folgas com trabalho e, vá, algum ócio insatisfatório.
saí do jornal, fui a uma superfície comercial e, basicamente, tratei de me satisfazer com pequenos nadas que eu sabia que me iriam saber bem quando, já no meu período de descanso, as pudesse usufruir com conforto, sossego e tempo.
as práticas passam de pais para filhos, como se fossem matéria de testamento. hoje senti-me como a minha mãe em 1980. e senti-me mesmo muito bem com isso!
a minha mãe trabalhava como uma escrava, das 8h00 às 19h00, sensivelmente, com apenas uma meia horita para comer alguma coisa, a fingir que era o almoço. a restauração é dos sectores mais duros e limitadores que existem, falo por experiência própria. o seu trabalho consistia em assegurar tudo o que houvesse para assegurar num cozinha de restaurante, que era, ao mesmo tempo, pensão, snack bar e café. ou seja, a todos os momentos do dia, tinha que existir sempre algo para "mata-buchar" (expressão popular que deriva do não menos famoso "mata-bicho", muito usado na zona onde a minha mãe trabalhava). portanto, era trabalho non-stop, desde preparar os almoços, passando pelos lanches e acabando nos jantares. não havia tempo para descansar.
eu teria uns 8, 9 anos quando me apercebi disto, da carga hercúlea que ela e o meu pai tinham às costas, para poderem providenciar aos filhos, a mim e à minha irmã, três anos mais nova, uma vida confortável, digna e sem privações.
mas a minha mãe tinha os seus "truques", ou melhor, as suas formas de transformar tudo aquilo por que ela tinha de passar todos os dias numa espécie de recompensa no final do dia. ela tinha necessidade de, chegada ao final de um daqueles dias, se regalar com algo que ela entendia ser um prémio pelo esforço realizado. acredito mesmo que seria a pensar nisso que a minha mãe dava tudo o que tinha, para chegar ao fim do dia e ter a sua recompensa.
pois bem, a recompensa da minha mãe era muito simples: todos os dias, a minha mãe, quando saía do trabalho, tinha de levar consigo algo para degustar quando já estivesse de pijama, confortável, na sua cama, no pleno gozo do seu descanso. no verão, era sempre um gelado, primeiro os pernas de paus, mais tarde os magnum de amêndoas. não falhava! no inverno, era um chocolate jubileu, que dividia por duas semanas. mas era esta a rotina: chegava a casa, tomava banho, vestia o pijama, metia-se na cama e... recompensa! assistia a isto todos os dias, entendia, mas nunca lhe dei muita importância.
eu trabalho muito menos que a minha mãe. facto! nem me atrevo a comparar sequer a carga de trabalho. porém, há dias em que gosto de me mimar, e hoje foi um deles.
depois de uma semana de seis dias seguidos de trabalho, de um sábado em que dividi o tempo de ócio/folga com trabalho, cheguei ao domingo. acordei cedo, tomei banho e pequeno-almoço. decidi que seria tempo de, finalmente, sair de casa. aceitei o meu próprio desafio. vesti roupa desportiva e meti-me à estrada. rua direita abaixo, ribeira, parque radial de santiago. muito tempo a caminhar, tirar fotos e, essencialmente, a respirar. fundo, bem fundo! e a pensar. muito. muito mesmo...
chegado a casa, preparei o almoço, porque sabia o que lá vinha.
almocei, compassadamente, lavei a louça, mudei de roupa e... meti-me ao trabalho. estive quase cinco horas a trabalhar. texto, mais texto, mais texto, e por aí adiante.
acabei de trabalhar... e fui trabalhar. tinha-me comprometido que passaria pelo jornal para ajudar no fecho de edição. e lá fui. mais duas horas. num dia de folga...
a recompensa, perguntam vocês? pois, eu sabia que teria de me mimar, para me compensar por ter desperdiçado duas folgas com trabalho e, vá, algum ócio insatisfatório.
saí do jornal, fui a uma superfície comercial e, basicamente, tratei de me satisfazer com pequenos nadas que eu sabia que me iriam saber bem quando, já no meu período de descanso, as pudesse usufruir com conforto, sossego e tempo.
as práticas passam de pais para filhos, como se fossem matéria de testamento. hoje senti-me como a minha mãe em 1980. e senti-me mesmo muito bem com isso!
domingo, abril 07, 2019
dois corações que voltam a bater
"com a predisposição certa, vêem-se corações em todo o lado"
mas há um momento em que ele surge, mesmo de forma inesperada, e quando esse género de amor chega... temos de fazer tudo para o merecer, para o preservar, arrebatando o coração da pessoa amada e conquistando-o todos os dias. um amor assim, agarra-se para a vida! e o que resta dela é para passar ao seu lado, sempre a ver corações em todo o lado.
sábado, abril 06, 2019
revigorar o espírito e a alma nos passadiços do sistelo
uma caminhada a dois, entre a ponte medieval de vilela e a aldeia de sistelo, num total de 22 kms. não estávamos à espera que fosse tão difícil, embora estivéssemos preparados, depois de duas caminhadas na ecopista do dão, de 16 e 18 kms, nos dois fins de semana anteriores, mas fomos em frente, com o nível de dificuldade a subir gradualmente até à chegada à aldeia de sistelo. nada foi feito com espírito de missão ou de sacrifício; chegámos ao fim realizados, revigorados e, acima de tudo, com mais uma prova definitiva de que, juntos, conseguimos fazer tudo, por mais complicado que pareça ultrapassar o que nos vai surgindo pelo caminho.
foi uma experiência inesquecível, com paisagens memoráveis, a água mais límpida de sempre do majestoso rio vez, o verde do minho, que tanto nos impressiona (paredes de coura, ponte da barca, etc.), as dezenas de borboletas que nos foram acompanhando no percurso (mais as vacas, as cabras, as ovelhas), as nossas "recompensas", na forma de uma cerveja numa esplanada à chegada à aldeia de sistelo e de um piquenique improvisado na recta final do percurso, e aquela sensação, no final, de que estivemos em contacto com uma natureza pura e imaculada, bem conservada e respeitada, como deveria ser em todo o lado, pelas muitas pessoas que fazem aquele percurso.
um experiência para recordar... mas também para repetir, certamente!
sexta-feira, março 08, 2019
mark hollis (1955-2019)
a notícia chegou no dia 25 de fevereiro de 2019 e apanhou certamente toda a gente de surpresa. tinha partido mark hollis. o homem que nos tinha abandonado a todos, musicalmente, em 1998, desaparecia assim, também, da nossa vida terrena.
não foi o meu caso, porque, curiosamente, há meses que andava a ouvir talk talk no carro, nas minhas viagens, mas houve logo uma necessidade galopante de ir ouvir novamente os discos, nomeadamente os mais introspectivos, como "spirit of eden", "laughing stock" ou o disco a solo "mark hollis". foi assim que, aos primeiros sons de "i believe in you" foi impossível segurar as lágrimas, quando nos apercebemos que jamais haveria possibilidade de ouvir músicas como esta ao vivo, ou tantas outras do mesmo quilate, como "wealth", "april 5th", "time it's time", "it's getting late in the evening", "tomorrow started", "renee", "inheritance" ou "after the flood".
conheci verdadeiramente os talk talk apenas nos anos 90, através de um grande amigo, a quem já fiz questão de agradecer várias vezes a sugestão musical. claro que me lembro de, no início dos anos 80, ouvir dezenas de vezes por dia a "my foolish friend" e de, mais tarde, ouvir os hits da banda, como "it's my life", "talk talk" ou "such a shame". quando discos como "the colour of spring", "spirit of eden" e "laughing stock" foram editados, entre 1986 a 1991, estava longe de imaginar que um dia poderia endeusar as suas músicas e ouvi-las repetidamente. mas ainda fui a tempo de reconhecer todo o virtuosismo da banda, a capacidade invulgar de hollis verbalizar o seu sofrimento, a pungência das suas letras e a carga emocional encerrada nos seus discos mais introspectivos, de um perfeccionismo cortante e de imaculados arranjos. hollis chegou cedo ao sucesso e depois aproveitou-o para fazer os trabalhos que realmente queria deixar ao mundo. pintou os seus quadros e abandonou a sala para eles serem devidamente apreciados e reconhecidos.
depois do seu disco homónimo, a solo, em 1998, mark hollis abandonou o mundo da música, anunciando que se iria dedicar a ser um bom pai. à medida que os anos foram passando, os seus últimos três discos foram ganhando cada vez mais consenso, apesar do insucesso de vendas, chegando a ser considerados, especialmente "spirit of eden", como um dos melhores discos de sempre.
a sua morte consternou o mundo da música, com vários músicos a reconhecer a forte influência de hollis nas suas carreiras, como roland orzabal, dos tears for fears ("he was a god among so many mere mortals of 80s music. in fact, to brand what he did with talk talk as ‘80s music' is to discredit the genius that seeped out of his melodies and lyrics – lyrics that sometimes barely made it out of his mouth, as though he wanted to keep the world’s best kept secret all to himself"), charlotte church ("spirit of eden is, hands down, one of the greatest records ever made. The amount of healing that record allows is nothing less than a beautiful gift and I am ever thankful for it. Thank you, Mark, for your enigmatic spirit, which surrounded and comforted us through every work you made"), rachel goswell, dos slowdive ("mark’s voice has such fragile beauty and warmth. Eden floors me every time I hear it – lyrically it’s so beautiful, and the space and depth of the songs are simply wonderful"), richard reed parry, dos arcade fire ("if there were ever records that defy description, it’s Spirit of Eden, Laughing Stock, and Mark’s solo record. I don’t know of any other albums as confidently soft-spoken and utterly without precedent – where the sound of the room seems to be as important as any instrument, where the quality of an improvised single note, captured on tape the first time it’s played, is far more important than any amount of rehearsing or catchy pop melody. This trinity of modern chamber, jazz, post-rock masterpieces are some of the most finely crafted albums ever made, with no discernible limits to their scope beyond their own gorgeous sense of self-restraint"), ou max richter
("the first time I heard it (spirit of eden), I felt like I’d found a secret universe, one that contained something I’d been been missing without my being aware of it, and that seemed to promise a way of making sense of the world. I read somewhere that a person’s true legacy is what they leave behind in the hearts of others. By that measure, Mark Hollis left us a very beautiful legacy indeed").
o jornalista wyndham wallace descreveu, no site the quietus, a sensação de impotência com que todos nós, apreciadores do homem, do músico e do compositor, ficamos após a sua morte:
"In the 21 years following the release of his only solo album, people would occasionally claim to have spotted Hollis in, say, the stands at White Hart Lane, but to all intents and purposes he disappeared from sight entirely. Even his former bandmates and manager lost almost all contact with him. He was, in many ways, doing us a favour: our enjoyment of his records remains unfettered and unpolluted by anything so banal as analysis. But now, after a short illness, Mark Hollis has left us, extinguishing for eternity any last hope that he would share the secrets of its alchemy. The dream that he would one day again make air vibrate is gone with him too".
p.s. - se, depois de lerem tudo isto, tiverem a curiosidade de ouvir a música dos talk talk que agrafei a este post, espreitem, por favor, os comentários das pessoas que aproveitaram o youtube para se despedirem de mark hollis. raramente tinha sentido pele de galinha durante tanto tempo e tantas vezes, confesso.
quinta-feira, janeiro 10, 2019
estas nuvens fazem hoje 13 anos!
o "nuvens da alma" chega hoje aos 13 anos.
são já quase 2800 posts, de muita introspecção, desvario, aqui e ali alguma irascibilidade, acolá uma porção de picuinhice, mais além, atrás daquela árvore, não, não, a outra, lado direito, isso mesmo, um pouco de hedonismo, sempre à procura daquela sensação de chegar ao fim de um texto e dizer para mim mesmo: "caramba, era isto mesmo que eu queria explanar e transmitir aos meus dois fiéis seguidores!". como isso ainda não aconteceu nestes treze anos, não me resta outra alternativa. vou porfiar, com uma tenacidade voraz, até que esse momento irrompa. com a certeza, porém, de que as nuvens continuarão a perpassar por esta alma (cada vez menos) atribulada.
um muito sentido obrigado a quem ainda me segue por aqui, na blogosfera, e às quase 800 (um número para o qual não consigo encontrar justificação. oito, compreenderia; 80 já eram demasiadas; 800 é uma barbaridade! pronto, mas isso sou eu. continua lá a frase, pá. este já é o parêntesis mais longo da história...) que seguem o "nuvens da alma" na rede social facebook.
sexta-feira, janeiro 04, 2019
como inverter um complexo em duas décadas
qual país dos brandos costumes, qual carapuça! portugal é, hoje em dia, um "papa-troféus". a auto-estima é tão elevada que em qualquer competição, concurso, sondagem ou consulta popular, em que apareça o nome de portugal, se oblitera completamente o "um dos..." e se abraça imediatamente o epíteto de "melhor". cristiano ronaldo podia ser um dos melhores jogadores do mundo. não é! é o melhor! josé mourinho podia ser um dos melhores treinadores do mundo. não é! é o melhor! ricardinho, no futsal, idem. mário centeno, nas finanças, idem. turismo, idem. estrelas michelin, gastronomia, vinhos, sapatos, joanas vasconcelos, não interessa, temos de ser sempre "os melhores", incluindo recordes do guinness, corridas de caricas, concursos de degustação de caracóis e competições inter-regionais relacionadas com o comprimento da unha do dedo mindinho.
em suma, somos os maiores. somos tão bons que até um jornal nacional, esta semana, fez parangonas a exultar que o nosso país tinha sido "eleito pela forbes como o país mais cool para visitar este ano", quando, na realidade, essa crónica (uma crónica, meu deus!) da revista referia apenas a ilha dos açores e a tabela de dez destinos a visitar estava por ordem alfabética, e, assim sendo, era difícil os açores não estarem em primeiro. ou seja, o jornal até poderia enveredar pela estrada dos factos, mas isso não chamaria a atenção de ninguém. portanto vamos lá ver como é que isto se terá processado na redacção do jornal, que eu vou manter em segredo, mas era o sol:
- vi agora no twitter uma referência a uma crónica da revista forbes que cita os açores como um dos destinos mais "cool" a visitar.
- caramba, mas isso é incrível! na forbes?
- não, vi no twitter, mas é sobre uma crónica...
- não interessa, é na forbes, que diabo! e os açores estão em que lugar?
- estão em primeiro na lista, mas é por ordem alfabética...
- um primeiro lugar é sempre um primeiro lugar. vamos lá puxar por isso.
- mas como?
- já sei! vamos colocar portugal em vez dos açores, porque também há coisas muito "cool" para se visitar em carrazeda de ansiães, freixo de espada à cinta ou vila velha de ródão, que diabo! e vamos dizer que foi a revista forbes a eleger...
- mas era apenas uma crónica...
- revista forbes, por favor. vá, vamos lá então. que dizes deste título: "portugal eleito pela forbes o país mais "cool" para visitar este ano".
e é com isto que temos de levar todos os dias. ontem, a fazer zapping, apanhei marcos frota, actor brasileiro, no "5 para a meia-noite". quando lhe perguntaram o que ele não gostava de portugal, o actor referiu que não gostava muito do portugal de há uns 20/25 anos, porque era muito triste, sorumbático, com complexo de inferioridade e de culpa enorme, apontando a enorme diferença que sente agora no nosso país, em que vê as pessoas alegres, bem dispostas, simpáticas, abertas e cheias de auto-estima. fiquei a pensar nisto durante dez segundos e voltei a mudar de canal. desde que começaram a bombardear-nos com os "somos os melhores nisto", "somos os melhores naquilo", "temos o melhor isto", "temos o homem com a unha do dedo mindinho mais comprida do mundo", que a nossa auto-estima veio por aí acima.
pena é o marcos frota, que eu já não via na televisão desde os anos 80, sensivelmente, não ser português. caso contrário, era o melhor actor do mundo!
em suma, somos os maiores. somos tão bons que até um jornal nacional, esta semana, fez parangonas a exultar que o nosso país tinha sido "eleito pela forbes como o país mais cool para visitar este ano", quando, na realidade, essa crónica (uma crónica, meu deus!) da revista referia apenas a ilha dos açores e a tabela de dez destinos a visitar estava por ordem alfabética, e, assim sendo, era difícil os açores não estarem em primeiro. ou seja, o jornal até poderia enveredar pela estrada dos factos, mas isso não chamaria a atenção de ninguém. portanto vamos lá ver como é que isto se terá processado na redacção do jornal, que eu vou manter em segredo, mas era o sol:
- vi agora no twitter uma referência a uma crónica da revista forbes que cita os açores como um dos destinos mais "cool" a visitar.
- caramba, mas isso é incrível! na forbes?
- não, vi no twitter, mas é sobre uma crónica...
- não interessa, é na forbes, que diabo! e os açores estão em que lugar?
- estão em primeiro na lista, mas é por ordem alfabética...
- um primeiro lugar é sempre um primeiro lugar. vamos lá puxar por isso.
- mas como?
- já sei! vamos colocar portugal em vez dos açores, porque também há coisas muito "cool" para se visitar em carrazeda de ansiães, freixo de espada à cinta ou vila velha de ródão, que diabo! e vamos dizer que foi a revista forbes a eleger...
- mas era apenas uma crónica...
- revista forbes, por favor. vá, vamos lá então. que dizes deste título: "portugal eleito pela forbes o país mais "cool" para visitar este ano".
e é com isto que temos de levar todos os dias. ontem, a fazer zapping, apanhei marcos frota, actor brasileiro, no "5 para a meia-noite". quando lhe perguntaram o que ele não gostava de portugal, o actor referiu que não gostava muito do portugal de há uns 20/25 anos, porque era muito triste, sorumbático, com complexo de inferioridade e de culpa enorme, apontando a enorme diferença que sente agora no nosso país, em que vê as pessoas alegres, bem dispostas, simpáticas, abertas e cheias de auto-estima. fiquei a pensar nisto durante dez segundos e voltei a mudar de canal. desde que começaram a bombardear-nos com os "somos os melhores nisto", "somos os melhores naquilo", "temos o melhor isto", "temos o homem com a unha do dedo mindinho mais comprida do mundo", que a nossa auto-estima veio por aí acima.
pena é o marcos frota, que eu já não via na televisão desde os anos 80, sensivelmente, não ser português. caso contrário, era o melhor actor do mundo!
segunda-feira, novembro 19, 2018
quando os olhares convergem
raros eram os dias em que ele não frequentava aquela pastelaria. o vício do café levava-o há mais de uma dezena e meia de anos ao mesmo local, onde, por norma, escolhia a mesma mesa. a rotina era tão intrínseca que a própria funcionária do estabelecimento ficava admirada quando ele ficava numa mesa diferente.
os anos foram passando, com poucas variações na forma de pedir o café ("boa tarde, queria um café curto, se faz favor!"), na (falta de) interacção com os outros clientes ou mesmo na duração daquele momento diário. os dias misturavam-se uns com os outros, sem nada de surpreendente a reter além de um ou outro cliente novo e da natural rotação de funcionárias. quando ele entrava e se sentava, sabia que caras ia encontrar e isso sossegava-o, porque se sentia enquadrado e confortável.
de entre as dezenas de rostos familiares, havia um que não deixava de lhe suscitar uma grande curiosidade, porque era a única pessoa naquela pastelaria que não aproveitava aqueles minutos para descomprimir, descansar os olhos e simplesmente saborear o seu café (no caso dela, chá. sempre chá). os dias passavam e a sua postura mantinha-se inalterável: olhos fixos num livro, sempre muito agasalhada, como se nunca estivesse calor suficiente para ela largar todas as peças de roupa que insistia em colocar em cima do seu corpo, e o mesmo ar alienado e distante, como se apenas o corpo dela ali estivesse e a mente flutuasse ao ritmo das palavras que lia.
os anos passaram, muitos anos mesmo, e todos os dias, à mesma hora, no mesmo sítio, repetia-se, invariavelmente, a situação: ela nunca levantava os olhos dos livros que levava consigo religiosamente, ele à espera de um olhar que fosse. dois seres presos no conforto da sua timidez e introversão, que apenas queriam passar despercebidos naqueles minutos diários na pastelaria. ela bem tentava... mas ele reparava nela todos os dias.
passaram-se vários anos e, por estes dias, eles continuam a frequentar a mesma pastelaria, só que, agora, na mesma mesa. as roldanas gigantes que fazem a vida dar voltas sem fim resolveram parar naquele dia 18 de novembro, pelas 11 horas, para se desamarrar aquele tão ansiado olhar, desejado há tantos anos. demoraram mais de uma década a eliminar as mesas e as cadeiras que os separavam, diariamente, naquela pastelaria, até ficarem, finalmente, juntos.
segunda-feira, outubro 01, 2018
os 5 segundos do benefício da dúvida
afinal, a vida prepara-nos para quê? fala-se tanto em aprendizagem, maturidade e sabedoria adquirida com a idade, e, no entanto, eu continuo sem perceber onde irei encontrar isso tudo.
receio que tenha entendido tudo mal logo de início. aprendi caminhar, a falar, a ler, a escrever, a andar de bicicleta, a nadar (não para salvar a minha vida, mas o suficiente para me cansar ao fim de quinze segundos), a apertar os sapatos, a vestir-me (embora tenha faltado a todas as aulas que versavam os nós de gravata), a conduzir, a lavar-me e a assoar-me (aqui sim, não faltei a uma única aula e sou um autêntico campeão!).
chegado à madrugada dos 46, e depois de todas aquelas etapas complicadas do parágrafo anterior, encontro-me, na realidade, um pouco perdido. sinto que faltam algumas coisas e que, sem as quais, não consigo efectivamente entrar naquilo a que toda a gente chama de vida. assim de repente, tenho graves lacunas em termos de tacto social, um sentido de oportunidade péssimo (fico sempre com a sensação de que as pessoas me dão 5 segundos de benefício da dúvida para dizer algo inteligente - ou inteligível - e que eu nunca aproveito da melhor forma esse tempo. e pior: quando vou começar a dizer algo, as pessoas, que já tiveram a bondade de me "oferecer" 5 segundos, já fizeram as malas e foram oferecer essa quantia exagerada de tempo a outras pessoas) (ena, que grande parêntesis...) (olha, três parêntesis seguidos!...) e, acima de tudo, uma introversão bipolar, que por vezes se mascara de extroversão.
resumindo: nem eu próprio me consigo entender e, muito menos, viver comigo e com as minhas múltiplas camadas.
sinto-me feliz, por vezes, e até consigo prolongar o momento por alguma horas. é giro! consigo sorrir até, alegrar as pessoas à minha volta, ao ponto de até lhes conseguir vislumbrar, amiúde, algum esgares de consideração, respeito e admiração. reconheço-os porque são uma lufada de ar fresco depois de tantos franzires de sobrolho e revirares de olhos. mas logo depois, se porventura esmoreço ou caio novamente na minha teia sorumbática, aparecem imediatamente carradas de malas outra vez e ouve-se uma voz feminina no altifalante: "senhores passageiros, o comboio estacionado na linha 3 vai partir em direcção a badajoz".
a sensação é exactamente igual às entregas de testes no liceu, quando eu tinha a noção que um determinado teste me tinha corrido excepcionalmente bem e que iria ter uma excelente nota, e aparecia para me cumprimentar um gigante 6, 7 ou 8, a vermelho. é uma mistura de incredulidade com ingenuidade, servida com uma redução de inadequação e uns salpicos de angústia e resignação.
pensei que tinha estudado o suficiente. julguei que tinha respondido da melhor forma a todas as questões. esforcei-me para ter uma boa nota. por tudo isto, quando acabavam os testes, saía da sala de aula leve como uma pintainho, aliviado e certo de que a nota estava garantida. afinal, tinha dado o meu melhor. essa boa sensação prolongava-se entre o final do teste e a entrega do mesmo. depois disso, vinham as questões todas, sempre as mesmas. percebi tudo mal? onde é que errei? se me esforcei tanto e tirei esta nota miserável, que raio de nota receberei quando nem sequer me esforçar?
portanto, estamos perante um daqueles casos em que a professora, quando chamava os pais à escola, dizia que as notas eram más porque a matéria não tinha sido apreendida. já passaram tantos anos e, no entanto, continuo a receber más notas e a sentir-me exactamente da mesma forma naquilo a que toda a gente chama de vida...
receio que tenha entendido tudo mal logo de início. aprendi caminhar, a falar, a ler, a escrever, a andar de bicicleta, a nadar (não para salvar a minha vida, mas o suficiente para me cansar ao fim de quinze segundos), a apertar os sapatos, a vestir-me (embora tenha faltado a todas as aulas que versavam os nós de gravata), a conduzir, a lavar-me e a assoar-me (aqui sim, não faltei a uma única aula e sou um autêntico campeão!).
chegado à madrugada dos 46, e depois de todas aquelas etapas complicadas do parágrafo anterior, encontro-me, na realidade, um pouco perdido. sinto que faltam algumas coisas e que, sem as quais, não consigo efectivamente entrar naquilo a que toda a gente chama de vida. assim de repente, tenho graves lacunas em termos de tacto social, um sentido de oportunidade péssimo (fico sempre com a sensação de que as pessoas me dão 5 segundos de benefício da dúvida para dizer algo inteligente - ou inteligível - e que eu nunca aproveito da melhor forma esse tempo. e pior: quando vou começar a dizer algo, as pessoas, que já tiveram a bondade de me "oferecer" 5 segundos, já fizeram as malas e foram oferecer essa quantia exagerada de tempo a outras pessoas) (ena, que grande parêntesis...) (olha, três parêntesis seguidos!...) e, acima de tudo, uma introversão bipolar, que por vezes se mascara de extroversão.
resumindo: nem eu próprio me consigo entender e, muito menos, viver comigo e com as minhas múltiplas camadas.
sinto-me feliz, por vezes, e até consigo prolongar o momento por alguma horas. é giro! consigo sorrir até, alegrar as pessoas à minha volta, ao ponto de até lhes conseguir vislumbrar, amiúde, algum esgares de consideração, respeito e admiração. reconheço-os porque são uma lufada de ar fresco depois de tantos franzires de sobrolho e revirares de olhos. mas logo depois, se porventura esmoreço ou caio novamente na minha teia sorumbática, aparecem imediatamente carradas de malas outra vez e ouve-se uma voz feminina no altifalante: "senhores passageiros, o comboio estacionado na linha 3 vai partir em direcção a badajoz".
a sensação é exactamente igual às entregas de testes no liceu, quando eu tinha a noção que um determinado teste me tinha corrido excepcionalmente bem e que iria ter uma excelente nota, e aparecia para me cumprimentar um gigante 6, 7 ou 8, a vermelho. é uma mistura de incredulidade com ingenuidade, servida com uma redução de inadequação e uns salpicos de angústia e resignação.
pensei que tinha estudado o suficiente. julguei que tinha respondido da melhor forma a todas as questões. esforcei-me para ter uma boa nota. por tudo isto, quando acabavam os testes, saía da sala de aula leve como uma pintainho, aliviado e certo de que a nota estava garantida. afinal, tinha dado o meu melhor. essa boa sensação prolongava-se entre o final do teste e a entrega do mesmo. depois disso, vinham as questões todas, sempre as mesmas. percebi tudo mal? onde é que errei? se me esforcei tanto e tirei esta nota miserável, que raio de nota receberei quando nem sequer me esforçar?
portanto, estamos perante um daqueles casos em que a professora, quando chamava os pais à escola, dizia que as notas eram más porque a matéria não tinha sido apreendida. já passaram tantos anos e, no entanto, continuo a receber más notas e a sentir-me exactamente da mesma forma naquilo a que toda a gente chama de vida...
segunda-feira, agosto 20, 2018
slowdive em paredes de coura
3 anos depois da última vez, o regresso a paredes de coura, para ver a mesma banda: slowdive! Um concerto inesquecível, etéreo e inebriante, embrulhado num cativante bailado entre os deliciosos e envolventes sons da banda e um fantástico jogo de luzes. Quatro temas do disco de 2017 e mais uma viagem idílica aos anos 90, revisitando o 'shoegazing' que os catapultou e os temas que teimam em não envelhecer ("alison", "when the sun hits", "catch the breeze", "souvlaki space station" ou "crazy for you"), terminando em apoteose com a sempre magistral e épica "golden hair". Uma forma perfeita, também, de apresentar o festival, que conheci em 1998 com o meu compadre ricardo, à pessoa com quem pretendo partilhar tudo até ao meu último suspiro. Um triunvirato inolvidável: o verde vivo do minho, uma espantosa banda e o coração cheio, a verter felicidade, emoção e, acima de tudo, muito amor! Em 2019, lá estaremos novamente...
quarta-feira, janeiro 10, 2018
12 anos de nuvens da alma
10 de Janeiro!
2006-2018!
12 anos! É obra! Não uma prima, mas uma daquelas requalificações de pavimento ou inaugurações de chafarizes a duas semanas das eleições autárquicas.
domingo, novembro 05, 2017
"i'm still here"
Barney Panofsky: ...and I'm just gonna keep talking here, 'cause I'm afraid that if I stop there's gonna be a pause or a break and you're gonna say 'It's getting late' or 'I should get going', and I'm not ready for that to happen. I don't want that to happen. Ever.
[they pause]
Miriam: There it was. The pause.
Barney Panofsky: Yeah.
Miriam: I'm still here.
Miriam: We can be friends now, can't we?
Barney Panofsky: No. We can't.
Miriam: I'm here for you if you'll let me. We had a beautiful marriage, but it's over. I want you to be at peace with that.
Barney Panofsky: Have I ever given up when it comes to you?
Miriam: Never.
Barney Panofsky: So what makes you think I would start now?- diálogos do filme "barney's version", entre barney (paul giamatti) e miriam (rosamund pike)
domingo, outubro 29, 2017
mark eitzel - o homem que canta com o coração nas mãos
tinha visto mark eitzel pela primeira vez em 2005, no santiago alquimista, em lisboa. na altura, os american music club tinham voltado a juntar-se e vieram apresentar o disco "love songs for patriots". para quem, como eu, gostava da banda desde o início dos anos 90, quando ouvi discos como "california", "mercury", "everclear" ou "san francisco", ouvi-los ao vivo foi uma experiência inesquecível, por ouvir músicas que endeusei durante anos, pela virtuosa voz de mark eitzel. lembro-me igualmente da sua timidez inicial, enquanto não sentiu o pulso ao público, soltando-se gradualmente à medida que o concerto ia avançando. fez sempre questão de fazer um pequeno intróito antes de cada música, sempre com uma humildade e uma honestidade desarmante. foi isso que me cativou nele, o facto de ser um "alguém" no sector musical (a rolling stone e o new musical express elegeram-no como "best songwriter" em 1991, o the guardian escreveu que ele era o "america's greatest living lyricist") e comportar-se em palco como se fosse um "zé ninguém", assumindo uma postura auto-depreciativa e jocosa em relação ao seu trabalho, com um sentido de humor bastante apurado. no final do concerto, sentou-se numa pequena mesa quadrada para assinar autógrafos e discos dos admiradores da banda ou da sua carreira a solo, que na altura já era bem profícua. nunca fui uma daquelas pessoas pedantes ou devotas a celebridades, mas no caso de eitzel abri uma excepção (a outra foi com mark kozelek, uns anos depois). lembro-me da sua afabilidade, simpatia e atenção (até chegou a pedir-me desculpa por alguém me ter passado à frente na fila), e quando chegou a minha vez fiz questão de lhe transmitir que tinha adorado o concerto e que era um admirador da banda há muitos anos. respondeu-me com um largo sorriso, disse "thanks, that means a lot" e estendeu-me a mão para o cumprimentar. enquanto me afastava, fiquei com a clara sensação de que tinha acabado de conhecer um ídolo.
doze anos depois, reencontrei-me com mark eitzel, agora em espinho. a expectativa, depois do que tinha acontecido em 2005 e dos excelentes trabalhos discográficos que tinha lançado entretanto, não poderia ser maior. de uma coisa tinha a certeza: o cantor iria estar em palco exactamente com a mesma postura e a mesma disposição, não seria pessoa para alterar fosse o que fosse na sua personalidade, para vender mais discos ou encher mais as salas de concertos. eitzel é puro, honesto, sincero demais para se "vender" dessa forma.
enquanto eu e a minha namorada esperávamos para entrar no auditório, vimos os músicos passar. eitzel ia no meio, de sapatilhas, com o seu inseparável boné e com a mão direita a segurar o casaco às costas, como um qualquer funcionário que ia pegar ao serviço às 21h30. pareceu-me sereno e, claro, tímido, sempre tímido, como que secretamente a desejar que ninguém o reconhecesse naquele instante, deixando-o seguir o seu caminho. mas, no palco, tudo iria ser diferente...
ao contrário do que costuma ser habitual neste país, o concerto começou a horas. os músicos, baterista, pianista e guitarrista, entraram em palco, abrindo caminho para mark eitzel, que surgiu com um copo de vinho tinto na mão e dois guardanapos, onde tinha apontado o alinhamento musical do concerto. acenando timidamente à plateia duas vezes, abriu com "if i had a hammer", do disco "mercury". sentindo-se um pouco mais à vontade, eitzel começou então o seu espectáculo paralelo, utilizando os intervalos entre as músicas para perorar sobre a américa de trump, o desrespeito pelas mulheres, a religião, a vida na estrada/digressão ou a forma correcta de pronunciar espinho (que saiu algo como "espinhú"), fazendo sempre um intróito antes de cada tema, para explicar quem o motivou, a quem o ia dedicar ou em que condição, financeira, sentimental ou emocional, estava na altura em que o escreveu. arrancou sempre fortes gargalhadas ao público, no seu jeito entre o trapalhão "bobo da corte" e o stand-up comedian mais corrosivo, sarcástico e acintoso. pelo meio, pediu, como é seu timbre, umas largas dezenas de "sorry's", algo que lhe está entranhado na personalidade.
ao mesmo tempo, as músicas iam desfilando, com o primeiro grande momento a acontecer com "what holds the world together", uma música que eitzel foi refinando ao longo dos anos em actuações ao vivo (como poderão aferir aqui). Seguiram-se-lhe "mission rock resort", "why won't you stay", "nothing and everything", "the last ten years", "all my love", in my role as professional singer and ham", "an answer", "the road", "apology for an accident" e "go where the love is". o copo de vinho tinto, entretanto, ia-se esvaziando aos poucos, até eitzel se ver obrigado a abrir uma garrafa de água, da qual só bebeu um gole.
quando os músicos saíram do palco, depois do alinhamento previsto, era mais do que óbvio que não tardariam a entrar de novo. o público estava conquistado e queria mais. alguém da produção fez questão de levar uma garrafa de vinho tinto e um copo ao palco. no regresso da banda, para o encore, eitzel agradeceu e voltou a encher o copo. foi neste momento que o público aproveitou para pedir músicas (e notou-se que era uma plateia conhecedora da obra dos american music club e de mark eitzel). alguém pediu "sick of food" e "last harbor". eu, cheio de coragem, pedi "western sky", tal como em aveiro tinha pedido a mark kozelek que cantasse a "somehow the wonder of life prevails". eitzel disse que ia cantar uma das músicas que o público pediu e eu, confiante, segredei à minha namorada que tinha a certeza que ele ia escolher a minha. o cantor começou o encore com "jesus hands", do disco "everclear", para depois dedicar à irmã a belíssima "blue and grey shirt", do disco "california". depois... "western sky"! eitzel aproveitou os primeiros versos da música para se despedir do público: "time for me to go away, i'll get a new name, i'll get a new face". no final do tema, saiu do palco. o público continuou a bater palmas, exigindo o seu regresso, mas, entretanto, as luzes da sala acenderam-se. resignado, o público começou a levantar-se para sair, de barriga bem cheia. mas, de repente, ainda com as luzes ligadas, surge mark eitzel, de gatas, a entrar no palco. gatinhando, passou por baixo do piano e chegou ao microfone. o público, num misto de perplexidade e alegria, voltou a sentar-se e as luzes voltaram a apagar-se, para o cantor interpretar mais um tema: "firefly", igualmente de "california", o disco dos american music club mais revisitado da noite.
era bem evidente o ar de satisfação do público quando se começou a juntar à saída do auditório, à espera dos músicos. mark eitzel, ainda com o copo de vinho tinto na mão, surgiu com a sua banda. interpelei-o quando passou por mim, soltando um "fantastic show!", ao que ele respondeu, sorrindo, "cheers, thanks man!". depois, foi esperar pela minha vez, para ele me assinar o bilhete do concerto. enquanto o fazia, atirei o que me veio à cabeça, referindo-lhe que já seguia a sua carreira desde o primeiro disco dos american music club, "restless stranger", de 1985, algo que ele soube reconhecer e valorizar. depois, ainda lhe disse, enquanto lhe apertava a mão, que ele estava melhor de disco para disco, recebendo um enorme sorriso e um sentido "my god, thank you very much!".
saímos de coração cheio: eu, porque voltei a encontrar-me com a pessoa que escreveu dezenas das minhas músicas preferidas e que admiro há três décadas; a minha namorada, porque tinha acabado de acrescentar, na sua lista de ídolos, o nome de mark eitzel!
quinta-feira, maio 18, 2017
quarta-feira, fevereiro 22, 2017
what's next?
novamente à frente de um gigantesco ponto de interrogação. já deveria estar habituado, é um facto, devido à minha arreliadora mania de escolher sempre as opções erradas, nomeadamente a nível profissional. sei que estou disposto a fazer seja o que for, a trabalhar em qualquer área, para tentar atingir um patamar que deveria ter atingido... há vinte anos... enfim, eu sei, é triste, é decadente, chega a ser embaraçoso, mas é este o resumo da minha vida. tentei algumas áreas, meia dúzia, ainda cheguei a pensar que iria longe numa delas (jornalismo), mas a realidade caiu-me em cima, como aquele pé gigante que fechava o genérico do "monty python flying circus". gastei os meus melhores anos a convencer-me que seria ali o meu futuro. pois, não era. muito menos no local onde trabalhei quase 15 anos. quando saí daquele "buraco", sabia que o tinha feito já com muitos anos de atraso, mas tinha (tive) de arcar com as minhas responsabilidade, levantar-me e voltar à luta. e fui. e lutei. e entrei noutro sector, onde até tinha tudo para vencer. mas um incontornável anti-corpo levou a melhor e tive de me render, sob pena de ficar, novamente amargurado, vários anos a trabalhar para/com pessoas que não gostava. saí e parti para outra, quase de imediato. e assim passei os meus últimos seis meses. sabia com quem ia trabalhar, sabia que ia ser bom, sabia que ia gostar. e assim foi. ficou o "bichinho" deste último sector comercial. quem sabe se não será este o futuro que me espera?
terça-feira, janeiro 10, 2017
2006 - 2017: onze anos de nuvens da alma
e, sem quase se dar por isso (eu não dei, por exemplo, e até seria a pessoa que teria essa responsabilidade), este blogue chega aos onze anos. é um número bonito e, se virmos bem, extremamente elegante (não é um balofo 88 ou um curvilíneo 65). creio que até merecia uma palmada nas costas, mas tenho receio de deslocar algum músculo ao fazê-lo...
em 2006, quando nasceu, o nuvens da alma não tinha objectivos ou metas a cumprir. hoje, olhand para trás, fico contente por verificar que continua exactamente igual. à sua criação presidiu apenas uma vontade intrínseca de escrever, desabafando, analisando, sonhando e ansiando. portanto, e como já estou muito perto dos três mil posts, creio mesmo que estamos perante a mais longa introspecção de sempre (sim, já liguei para o guinness world records).
se vou continuar? creio que ouvi essa pergunta vinda lá do fundo... bem, respondo com o meu mais assertivo e concludente "logo se vê". sinto que ainda tenho muito para escrever e para expurgar, no sentido de tirar algum peso que carrego diariamente às costas.
se a qualidade do blogue vai, finalmente, sofrer evidentes melhorias? esta ouvi bem, foi mesmo aqui à frente. meus amigos, o que nasce torto alumia duas vezes. portanto, ficamos esclarecidos quanto a esta matéria...
agora, quero é festejar, porque só se pode comemorar um aniversário uma vez por ano, apesar de haver correntes de opinião acérrimas que defendem a sua elevação à meia dúzia. vou abrir uma garrafa, nem que seja de sumol de ananás, elevar bem alto o meu copo e fazer um brinde com o meu cérebro, o órgão que tornou possível toda esta salganhada chamada "nuvens da alma".
obrigado!
quarta-feira, dezembro 28, 2016
george michael
como indivíduo que nasceu para a música nos anos 80, década de onde saíram os meus primeiros ídolos (com os duran duran à cabeça), há referências que marcam de forma indelével essa altura da minha vida e que, infelizmente, aos poucos, vão começando a desaparecer. de freddie mercury a black, de laura branigan a prince, de david bowie a falco, os nomes vão desfilando, deixando um vazio difícil de preencher. agora, foi a vez de george michael, nome que está lá bem alto nas minhas listas de preferências, nomeadamente de baladas. só a título de exemplo, no meu telemóvel tenho cerca de 200 músicas e 18 pertencem ao recentemente falecido cantor. o seu desaparecimento ainda custa mais porque eu sempre esperei algo grande de george michael, um disco de eleição, daqueles que o elevassem ao olimpo e cimentassem de vez o lugar a que ele tinha direito, como excelente cantor e compositor. infelizmente, esse disco nunca irá surgir. só espero que não se passe o mesmo com simon le bon, dos duran duran, de quem espero um disco a solo há anos, sem a bagagem pesada da banda que lidera há quase 40 anos. regressando a george michael, não adianta falar muito dos seus dotes vocais, por todos bem conhecidos. importa sim desabafar a falta que nos vão fazer as dezenas de músicas que ainda iria compor e lançar, sempre com aquela voz celestial, a que emprestava uma inusitada emoção à flor da pele, como se estivesse a debitar as últimas palavras.
foi difícil, confesso, reunir dez músicas para um top ten do cantor, porque muitas ficaram de fora (incluindo os hinos "careless whisper" e "last christmas"), mas a minha humilde homenagem aqui fica, nestas dez brilhantes canções magistralmente interpretadas por george michael.
e o céu ganhou mais uma estrela...
1. cowboys and angels
2. one more try
3. you have been loved
4. tonight
5. where did your heart go
6. jesus to a child
7. kissing a fool
8. praying for time
9. father figure
10. mother's pride
(os dez vídeos podem ser vistos aqui: https://www.facebook.com/jose.a.lopes)
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