quarta-feira, outubro 10, 2012

mark kozelek no "late night with jimmy fallon"

quem costuma visitar este blogue depara amiúde com o nome de mark kozelek. nunca escondi que é uma das maiores referências musicais nos últimos 20 anos. a sua primeira banda, red house painters, ainda hoje encima o topo de preferências deste estaminé, com os seus inesquecíveis discos. a banda, depois de sete álbuns de estúdio, "morreu" cedo demais, em 2001, com a edição de "old ramon", mas mark kozelek continuou a sua missão de trovador moderno, cantando de coração nas mãos as desilusões amorosas, as relações falhadas, os amores impossíveis, a amargura da distância, a saudade dos pais, as vivências familiares, os amigos do passado. depois de alguns discos a solo, a maior parte deles ao vivo, kozelek apresentou novo projecto em 2003: sun kil moon. o disco de estreia, "ghosts of the great highway" demonstrou que os indefectíveis de kozelek podiam estar descansados, porque o talento e o virtuosismo continuavam inalteráveis. os sun kil moon lançaram mais quatro discos, o último deles este ano ("among the leaves"). mais de vinte anos depois do início da carreira, mark kozelek teve finalmente a sua oportunidade de actuar na televisão americana, para uma audiência de massas, neste caso na nbc, um dos mais importantes canais televisivos norte-americanos. foi no programa "late night with jimmy fallon", onde o cantor interpretou duas músicas ("the moderately talented young woman", do novo disco dos sun kil moon, e "mistress", do brilhante disco "rollercoaster", dos red house painters), com a ajuda da banda residente do programa, os the roots. como curiosidade, refira-se que jimmy fallon actuou ao lado de mark kozelek no filme de cameron crowe "almost famous". este admirador, aqui neste rectângulo à beira mar, num país à beira de um ataque de nervos, trucidado pela crise e pela sucessão inesgotável de pessoas incompetentes à frente dos seus destinos, não pode deixar de ficar satisfeito por este facto, por entender que era mais do que justa esta pequena homenagem, chamemos-lhe assim, a um vulto incontornável do registo "sadcore" (ou "slowcore"). desde 1989 que mark kozelek merecia uma audiência deste tamanho...

sábado, setembro 29, 2012

saudosismos


a distância pode ser cruel e, por vezes, intolerantemente dolorosa. no entanto, acredito que a saudade embeleza os sentimentos, ajuda a moldá-los da forma correcta. perdemos muito tempo a contemplar o que já vivemos, a recordar quem nos faz falta. vagueamos pelas ruas e conseguimos facilmente vislumbrar nos semblantes das outras pessoas o mesmo aspecto carregado de saudosismo.
toda a gente sente a falta de alguém. toda a gente faz falta. é um fenómeno de massas. há pessoas que passam por nós diariamente, seja um carteiro, um polícia ou um estafeta, que certamente estará a fazer falta a alguém. todavia, a nós não nos dizem nada, literalmente. aliás, muito dificilmente me dirão algo, na medida em que, diariamente, exceptuando o trabalho, só comunico basicamente com empregados de café.
o tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável. por outro lado, o tempo que gastamos, ou perdemos, com pessoas que não nos dizem nada é uma monstruosa amargura. os dias passam e a frieza dos minutos, das horas a passar tornam-nos cada vez mais azedos, mais tristes. é muito fácil deixarmo-nos viciar pela tristeza, pela depressão. por vezes até é cómodo. é uma desculpa, como outra qualquer, para não funcionarmos, para vegetar.
há certamente pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. mas quando olhamos à volta, vemos que não são aquelas que nos rodeiam. o mesmo sucederá com as outras pessoas em relação a mim... e por aí adiante. é praticamente um genocídio sentimental. e continuamos a perder tempo, dias, semanas, meses, sempre a ansiar por um reencontro, um regresso.
há quem acredite que a partir de uma certa idade se perde o luxo de ter amigos só por amizade. inventam-se novas categorias: "amigos de amigos", "amigos de familiares", "amigo que dá jeito porque eu não faço ideia de como se compõe uma persiana", "amigo que um dia me pode ser muito útil quando quiser abrir uma loja de peças para torradeiras", "amigo que me leva o carro à inspecção todos os anos se eu lhe pedir", etc.. a vida "obriga-nos" a alargar os nossos horizontes em termos sociais, dando especial relevo à via profissionalizante desses nossos contactos.
infelizmente, ou felizmente, ainda não decidi, não enveredei por essa prática. como já referi, o meu "público" são as funcionárias e os funcionários dos cafés e restaurantes. o resto do meu tempo é... para o saudosismo. nunca tive vocação nenhuma para estabelecer qualquer tipo de cumplicidade com desconhecidos. até fujo desse tipo de situações. por isso, abracei a solidão, habituei-me a ela. dessa forma, evito ser avaliado ou julgado, ou estar numa posição desconfortável de tentar agradar a alguém. os amigos que (ainda) tenho já vêm de longe e é deles que tenho saudade.
há quem endeuse esta palavra (saudade), mas ela é apenas o sinal evidente de que há qualquer coisa que não está bem. ou seja, alguém não está onde devia estar. simplesmente! saudade é amor ou amizade que se gasta sem proveito, provavelmente enquanto estamos a almoçar sozinhos numa esplanada qualquer, em silêncio, pensando que poderíamos estar a ter uma conversa estimulante com um amigo. ao invés, estamos enclausurados num básico "boa tarde, queria um café curto, se faz favor" (café esse que nunca, mas nunca mesmo, vem como a gente o pediu, ou seja, curto), provando que metade do que dizemos não se ouve mesmo (e eu já digo tão pouco...).
e o tempo vai-se gastando... sem piedade. fica, como consolação, o facto de imaginarmos que, algures, a 100 metros, a 10 ou a 800 quilómetros, haverá alguém a sentir o mesmo por nós. só espero que tenha mais sorte do que eu em relação ao café curto...

segunda-feira, setembro 24, 2012

emmys 2012


"modern family" continua a arrasar a concorrência;
louis c.k. (na foto) foi, merecidamente, uma das estrelas da noite;
julia louis-dreyfus já vai na terceira sitcom seguida a vencer prémios ("seinfeld", "the new adventures of old christine" e "veep")...;
the daily show with jon stewart arrecadou o décimo emmy consecutivo;
"homeland" destronou "mad men";
e até kevin costner (sim, ainda está vivo) levou uma estatueta dourada para casa...
 
Supporting Actor in a Comedy Series:
Ed O'Neill, Modern Family
Jesse Tyler Ferguson, Modern Family
Ty Burrell, Modern Family
Eric Stonestreet, Modern Family
Max Greenfield, New Girl
Bill Hader, Saturday Night Live

Writing For A Comedy Series:
Community, Remedial Chaos Theory
Girls, Pilot
Louie, Pregnant
Parks and Recreation, The Debate
Parks and Recreation, Win, Lose, or Draw

Supporting Actress In A Comedy Series
Mayim Bialik, The Big Bang Theory
Kathryn Joosten, Desperate Housewives
Julie Bowen, Modern Family
Sofia Vergara, Modern Family
Merritt Wever, Nurse Jackie
Kristen Wiig, Saturday Night Live

Guest Actress In A Comedy Series
Dot-Marie Jones, Glee
Maya Rudolph, Saturday Night Live
Melissa McCarthy, Saturday Night Live
Elizabeth Banks, 30 Rock
Margaret Cho, 30 Rock
Kathy Bates, Two and a Half Men

Guest Actor In A Comedy Series
Michael J. Fox, Curb Your Enthusiasm
Greg Kinnear, Modern Family
Bobby Cannavale, Nurse Jackie
Jimmy Fallon, Saturday Night Live
Will Arnett, 30 Rock
Jon Hamm, 30 Rock

Directing For A Comedy Series
Robert B. Weide, Curb Your Enthusiasm
Lena Dunham, Girls
Louis C.K., Duckling
Jason Winer, Modern Family
Steven Levitan, Modern Family
Jake Kasdan, New Girl

Lead Actor In A Comedy Series
Jim Parsons, The Big Bang Theory
Larry David, Curb Your Enthusiasm
Don Cheadle, House of Lies
Louis C.K., Louie
Alec Baldwin, 30 Rock
Jon Cryer, Two and a Half Men

Lead Actress In A Comedy Series
Lena Dunham, Girls
Melissa McCarthy, Mike & Molly
Zooey Deschanel, New Girl
Edie Falco, Nurse Jackie
Amy Poehler, Parks and Recreation
Tina Fey, 30 Rock
Julia Louis-Dreyfus, Veep

Reality-Competition Program
The Amazing Race
Dancing With the Stars
Project Runway
So You Think You Can Dance
Top Chef
The Voice


Host For A Reality Or Reality-Competition Program
Phil Keoghan, The Amazing Race
Ryan Seacrest, American Idol
Betty White, Betty White’s Off Their Rockers
Tom Bergeron, Dancing With the Stars
Cat Deeley, So You Think You Can Dance

Supporting Actor In A Drama Series
Aaron Paul, Breaking Bad
Giancarlo Esposito, Breaking Bad
Brendan Coyle, Downton Abbey
Jim Carter, Downton Abbey
Peter Dinklage, Game of Thrones
Jared Harris, Mad Men

Writing For A Drama Series
Julian Fellowes, Downton Abbey
Alex Gansa, Howard Gordon & Gideon Raff, Homeland
Semi Chellas & Matthew Weiner, Mad Men
Andre Jacquemetton & Maria Jacquemetton, Mad Men
Erin Levy & Matthew Weiner, Mad Men

Supporting Actress In A Drama Series
Anna Gunn, Breaking Bad
Maggie Smith, Downton Abbey
Joanne Froggatt, Downton Abbey
Archie Panjabi, The Good Wife
Christine Baranski, The Good Wife
Christina Hendricks, Mad Men

Guest Actress In A Drama Series
Martha Plimpton, The Good Wife
Loretta Devine, Grey's Anatomy
Jean Smart, Harry's Law
Julia Ormond, Mad Men
Joan Cusack, Shameless
Uma Thurman, Smash

Guest Actor In A Drama Series
Mark Margolis, Breaking Bad
Dylan Baker, The Good Wife
Michael J. Fox, The Good Wife
Jeremy Davies, Justified
Ben Feldman, Mad Men
Jason Ritter, Parenthood

Directing For A Comedy Series
Tim Van Patten, Boardwalk Empire
Vince Gilligan, Breaking Bad
Brian Percival, Downton Abbey
Michael Cuesta, Homeland
Phil Abraham, Mad Men

Lead Actor In A Drama Series
Steve Buscemi, Boardwalk Empire
Bryan Cranston, Breaking Bad
Michael C. Hall, Dexter
Hugh Bonneville, Downton Abbey
Damian Lewis, Homeland
Jon Hamm, Mad Men

Lead Actress In A Drama Series
Glenn Close, Damages
Michelle Dockery, Downton Abbey
Julianna Margulies, The Good Wife
Kathy Bates, Harry's Law
Claire Danes, Homeland
Elisabeth Moss, Mad Men

Writing For A Variety Special
84th Annual Academy Awards, Jon Macks, Dave Boone & Carol Leifer, with Tim Carvell, Jeff Cesario, Billy Crystal, Ed Driscoll, Billy Martin, Ben Schwartz, Marc Shaiman, Eric Stangel, Justin Stangel, David Steinberg, Mason Steinberg & Colleen Werthmann
Betty White's 90th Birthday: A Tribute to America's Golden Girl, Jon Macks, Steve Ridgeway, Mason Steinberg & Brad Lachman
The Kennedy Center Honors, George Stevens, Michael M. Stevens, Sara Lukinson & Lewis Friedman
Louis C.K. Live at the Beacon Theatre, Louis C.K.
65th Annual Tony Awards, Dave Boone with Paul Greenberg

Directing For A Variety Special
Don Mischer, 84th Annual Academy Awards
Louis J. Horvitz, The 54th Annual Grammy Awards
Louis C.K, Louis C.K. Live at the Beacon Theatre
Alan Skog, New York City Ballet George Balanchine's The Nutcracker (Live From Lincoln Center)
Glenn Weiss, 65th Annual Tony Awards

Outstanding Variety Series
The Colbert Report
The Daily Show With Jon Stewart
Jimmy Kimmel Live
Late Night With Jimmy Fallon
Real Time With Bill Maher
Saturday Night Live


Supporting Actress in a Miniseries or A Movie
Frances Conroy, American Horror Story
Jessica Lange, American Horror Story
Sarah Paulson, Game Change
Mare Winningham, Hatfields & McCoys
Judy Davis, Page Eight

Supporting Actor In A Miniseries Or A Movie
Denis O'Hare, American Horror Story
Ed Harris, Game Change
Tom Berenger, Hatfields & McCoys
David Strathairn, Hemingway & Gellhorn
Martin Freeman, Sherlock: A Scandal in Belgravia

Writing for a Miniseries Or A Movie
Game Change
Hatfields & McCoys • Part 2
The Hour
Luther
Sherlock: A Scandal in Belgravia


Lead Actress In A Miniseries Or A Movie
Connie Britton, American Horror Story
Julianne Moore, Game Change
Nicole Kidman, Hemingway & Gellhorn
Ashley Judd, Missing
Emma Thompson, The Song of Lunch

Directing For a Miniseries Or A Movie
Jay Roach, Game Change
Kevin Reynolds, Hatfields & McCoys
Philip Kaufman, Hemingway & Gellhorn
Sam Miller, Luther
Paul McGuigan, Sherlock: A Scandal in Belgravia

Lead Actor In A Miniseries Or A Movie
Woody Harrelson, Game Change
Kevin Costner, Hatfields & McCoys
Bill Paxton, Hatfields & McCoys
Clive Owen, Hemingway & Gellhorn
Idris Elba, Luther
Benedict Cumberbatch, Sherlock: A Scandal in Belgravia

Miniseries or Movie
American Horror Story
Game Change
Hatfields & McCoys
Hemingway & Gellhorn
Luther
Sherlock: A Scandal in Belgravia


Outstanding Drama Series
Boardwalk Empire
Breaking Bad
Downton Abbey
Game of Thrones
Homeland
Mad Men


Outstanding Comedy Series
The Big Bang Theory
Curb Your Enthusiasm
Girls
Modern Family
30 Rock
Veep

quinta-feira, setembro 20, 2012

últimos dias de verão


fim de tarde em viseu, a apreciar os últimos dias do verão. são minutos de deslumbre, num ecrã gigante de vivas cores, em que azuis, amarelos e laranjas disputam os últimos raios solares, antes da chegada da noite.

quinta-feira, setembro 13, 2012

trespassers william


os trespassers william nasceram em 1997, na califórnia, formados por anna-lynne williams (voz, guitarra), matt brown (guitarra, teclados), ross simonini (baixo, teclados) e jamie williams (bateria). com uma sonoridade etérea, que se pode definir como indie rock/dream pop, com laivos de shoegaze e folk, os trespassers william apresentaram o primeiro trabalho discográfico em 1999, "anchor", seguindo-se, em 2002, "different stars", que teve direito a dois lançamentos: o primeiro pela editora bella union, de simon raymonde; o segundo, em 2004, pela editora nettwerk. o terceiro disco da banda, "having", misturado pelo produtor dos flaming lips, dave fridmann, foi lançado em fevereiro de 2006, igualmente pela nettwerk.
a banda começou a ganhar algum reconhecimento, em parte devido à presença de várias músicas em séries televisivas de sucesso, como "one tree hill", "the o.c.", "buffy, the vampire slayer" e "felicity", ou filmes como "a love song for bobby long" e "annapolis". apesar da modesta atenção da imprensa especializada, a banda fez várias digressões pelos estados unidos e europa, onde actuaram em espectáculos com os chameleons, morrisey, damien rice, tim booth e lisa germano.
entretanto, anna-lynne williams e matt brown envolveram-se em projectos a solo (lotte kestner, ormonde e disinterested) e novas colaborações musicais, o que levou à dissolução da banda, tornada oficial no início de 2012. no entanto, com tantas músicas por lançar ou por terminar, a editora saint marie records decidiu lançar, no início deste mês de setembro, um disco duplo dos trespassers william, no que constitui uma despedida mais condigna da banda. "cast" reúne onze raridades e lados b (disco 1) e a versão integral do ep "the natural order of things" (2009), com dez músicas.
anna-lynne williams continua a escrever e a gravar no seu projecto pessoal, "lotte kestner", e no duo "ormonde", com robert gomez. matt brown está envolvido na produção de vários grupos, entre os quais o seu, "disinterested".
refira-se que esta magnífica banda foi buscar o seu nome a um conto de winnie the pooh, intitulado "pooh and piglet go hunting and nearly catch a woozle", de a.a. milne. nesse conto, aparece uma tabuleta com a inscrição "trespassers w". quando questionado sobre a referida tabuleta, piglet explica que é o nome do seu avô, trespassers will, que é diminutivo de trespassers william.
em seguida, ficam cinco bons exemplos do virtuosismo desta banda, mais uma que ficou pelo caminho, subvalorizada, vergada ao peso do esquecimento.

quarta-feira, setembro 12, 2012

trespassers william - untitled



It is too late to feel like a numb skin
Say that you've harpooned me,
am I a prize then I am lost as the sea,
you tell me what I see
Love was supposed to save me
Love was supposed to save me
It is too dim to read, and there's no moon
Our love always rhymes like a poem
This mirror seems wrong
you decide what I am
Love was supposed to save me
Love was supposed to save me
You chose the rose with the thorn
You chose the sky with the storm
I'll take the lover that lies
My piece of divine til everything dies
Love was supposed to save me
Love was supposed to save me

trespassers william - my hands up



Turning into something I can't cope
With not having
Stop, stop it
Could I put my hands up
And ask that you stop
Do I need to be in love
I'm lost when it's just me
With only a hope to make
You happy enough to stay
Return the words,
the looks I give you like they're falling out of me
Seconds change
And at the end
Your face is inerasable
True, I need to be in love
I'm lost when it's just me
With only a hope to make
You happy enough
Do I need to be in love
What is there otherwise from loving
Just takes a face
To make everything else erase
Stop, stop it
Could I put my hands up
And ask that you stop

trespassers william - surrounded



all the good disappears is that what you wanted
i let go cuz i thought you did and i want you
to be surrounded by what you want
i could give to a point, maybe lots of light
and out it goes the difference is startling
but you don't say anything i've stopped
trying to show how sweetness is sweet, my love
i don't show it well enough
i don't if i could know one...
could i know what you want i'd stop this running around
to know that i stand nowhere lots of light
and out it goes the difference is startling
but you don't say anything i've stopped trying
to show how sweetness is sweet, my love
i don't show it well enough
i don't what i want is more
like pictures with words
i fear you'll whisper there's other things good as love
if i could... if i could know one...
could i know what you want to give
only what would draw out a "how'd you know

trespassers william - love you more



All of my songs are for you
All of my songs are sad
Whenever you wake at night you say
That all of your dreams were bad
 Give me your tightest arm
Give me an "I love you"
I'll stay awake all night
And blow your darker thoughts far from you
Don't say that I don't love you more
I can't understand what you'd doubt for
Just like how if I would dream your dreams
I'd know why you say "just hold me"
 All of our kisses must
Come to an end some time
But it is always your lips
Pulling away from mine
 Don't say that I don't love you more
I can't understand what you'd doubt for
Just like how if I would dream your dreams
I'd know why you say "just hold me"

trespassers william - lie in the sound



I love you more than I should
So much more than is good for me
More than is good
Oh the timing is cruel
Oh I need and don't want to need
More than I should
 I am falling, say my name
And I'll lie in the sound
What is love, but whatever
My heart needs around
Oh my sheet is so thin
So I say I can't sleep because
It's so very cold
Oh but I know what I need
And if you were just near to me
Would you go...
 I am falling, say my name
And I'll lie in the sound
What is love, but whatever
My heart needs around
 I am falling, say my name
And I'll lie in the sound
What is love, but whatever
My heart needs around
 And it needs you too much now

domingo, setembro 02, 2012

40 anos

fazer 40 anos...
pancadinhas nas costas, "estás a ficar velho", paternalismos de toda a espécie, "bem vindo aos "entas", pá"...
é uma sensação estranha, em que se começa a vislumbrar um estranho paralelismo entre a entrada nos "quarentas" e um internamento no hospital, na medida em que toda a gente nos pergunta "e então, como te sentes?". 
eu sinto-me... na mesma. creio que nada mudou, nem fisicamente, nem psicologicamente, entre o dia 29 e o dia 31 de agosto. sou a mesma pessoa, com tudo de bom e mau que isso acarreta. não me vou sentir mal por continuar a jogar playstation, ou por ver as dez temporadas do "friends" pela 13ª vez.
acima de tudo, ao chegar a esta idade, fica a certeza de que alcancei muitos dos objectivos a que me tinha proposto, que ajudei a construir alicerces seguros que me fazem encarar de uma forma risonha tudo o que me espera nos próximos anos e que tudo farei para continuar a ver sorrisos estampados nas caras das pessoas que mais amo.






segunda-feira, agosto 27, 2012

ser sportinguista...

dois jogos. 180 minutos. zero golos marcados. um ponto. cinco pontos perdidos contra equipas do calibre do vitória de guimarães, que por pouco não conseguia inscrever a equipa na liga por falta de dinheiro, e do rio ave, um colosso europeu. pior, muito pior, é que nem oportunidades de golo o sporting cria. as que surgem nascem de ressaltos ou maus alívios. não há movimentação do meio campo para a frente, vendo-se dezenas de vezes os centrais de cabeça no ar à procura de alguém a quem endossar a bola.
capel está na esquerda, bem junto à linha lateral, mas muito longe da linha do fundo. como, normalmente, é ele quem cria os desequilíbrios e as situações de golo (ver o único golo apontado pelo sporting em jogos oficiais esta época), carrega nas costas a ansiedade da equipa, porque mais ninguém parece querer esse papel. carrillo "esconde-se" do jogo muitas vezes, adrien não tem estofo, nem técnica, nem sentido posicional, para comandar as operações no meio-campo, e wolfswinkel parece cada vez mais alheado do que se está a passar dentro das quatro linhas.
restam, da equipa titular de hoje, elias e gelson. este último, a meu ver, não é jogador para o sporting. irritam-me solenemente as dezenas de vezes em que, tendo a bola nos pés e sem ninguém à sua volta, joga para trás em vez de se virar para a frente e construir um lance de ataque. nos dois jogos da liga, gelson foi nulo a atacar, a fazer passes, a apoiar o ataque. é mais um que se "esconde" quando a obrigação é ter a bola nos pés e fazer algo de construtivo com ela. por fim, elias. quanto a mim, é o único médio que consegue criar desequilíbrios quando sobe à área contrária. é rápido, tem boa técnica e, como se viu no jogo contra o olympiakos, remata bem. no entanto, sá pinto, a perder por 0-1 ao intervalo, tira elias e faz entrar andré martins. também tirou adrien, mas essa substituição é já crónica. não se entende por que raio insiste sá pinto em colocar adrien de início quando já toda a gente viu que o jogador não rende naquela posição. jogar com gelson e adrien, de início, é contraproducente. um deles bastaria, abrindo uma vaga no meio-campo, para labyad, por exemplo.
jogar em casa, frente ao rio ave, e apresentar o "onze" que sá pinto apresentou é... de treinador medroso. é certo que wolfswinkel está em baixo de forma, mas deixar o holandês entregue a si próprio, sem ninguém por perto que o possa assistir, não pode ser a melhor solução. e wolfswinkel não é liedson, que fazia essa missão nas calmas. e pensar que o "levezinho" até estava disponível para voltar ao sporting... mas não quiseram, optaram por viola, que é uma espécie de rubio, mas um bocadinho mais alto.
é certo que jogadores como izmailov, rinaudo e schaars fazem muita falta a esta equipa, até porque parecem ser os únicos com capacidade de liderança no relvado. o que se vê é uma equipa imatura, por vezes ingénua até, que perde bolas de forma infantil, faz passes a roçar o ridículo, cruzamentos sem nexo (hoje então foram às dezenas - cedric não acertou um...), que joga sempre mais com o coração do que com a cabeça.
e o que se passa com pranijc? foi contratado para jogar? com ínsua em tão má forma, a centrar para trás da baliza, não seria altura de colocar o croata? e wolfswinkel tem de jogar sempre os 90 minutos? é intocável? uns joguitos no banco não lhe fariam bem?
o fc porto goleia, o benfica goleia, o sp. braga joga bom futebol, já foi empatar à luz e já tem equipa consolidada. o sporting... parte sempre atrás. é sempre o último dos "grandes" a formar um "onze" base e este ano isso ainda é mais gritante. quem jogará quando izmailov, pranijc, schaars e rinaudo estiverem em forma? quem será o "10"? já se viu que nem adrien nem andré martins são solução. aliás, a insistência em adrien só poderá ser explicada como "montra" para venderem o jogador antes do fecho do mercado. e virá mesmo, ainda, outro ponta de lança? e alternativas a cedric? e onde encaixar labyad? vamos entrar em setembro e sá pinto parece não ter encontrado ainda espaço para o marroquino, que é claramente um jogador de qualidade. e ainda falta "adaptar" viola (não sei por que raio os jogadores têm de passar por um período de adaptação. futebol é igual em todo o lado) e o suposto ponta de lança que ainda há-de vir. ou seja, ainda bem que o sporting só volta a jogar para a liga a 16 de setembro. até lá, pode ser que sá pinto consiga arranjar um tempito para pensar nisto tudo. ah, e já agora, se não fosse pedir muito, que encontre um "onze" realmente competitivo e que aguente 90 minutos. caso contrário, ou muito me engano ou no final de outubro já estaremos arredados da luta pelo título...

sexta-feira, agosto 24, 2012

a MÚSICA!



há músicas que encaixam verdadeiramente na nossa maneira de ser, que são autênticas bandas sonoras do nosso dia-a-dia, do que somos, do que sentimos. músicas que ecoam pelo nosso cérebro sem ser necessário um leitor de cds ou um mp3. estão cá dentro, fazem parte de nós. sons etéreos, deambulações emocionais, entre o riso e o choro, a paixão e a dor. há músicas que gostamos de "visitar" todos os dias, como um livro que se leu e que se relê com renovado interesse, sem desgaste. esta é uma dessas músicas: "holes", dos mercury rev. acho que foi a música que mais ouvi nestes últimos anos. é uma paixão, um arrebatamento, uma exaltação sentimental que se vive durante os 5 minutos e 56 segundos da música. no final, quando se começa a ouvir o trompete, é quase impossível segurar as lágrimas, a barragem colapsa, inundando de água cristalina uma face de expressão ambígua: por um lado a felicidade de conhecermos tal preciosidade musical; por outro o turbilhão emocional desencadeado pela música confronta-nos com sentimentos que julgávamos escondidos, trazendo à "superfície" aqueles primeiros desgostos amorosos que vivemos, as horas de amargura até ao próximo encontro, a ansiedade e o desejo incontido de voltar a estar com a pessoa amada, uma paixão mal curada, uma ou outra ilusão passageira que nunca saberemos o que poderia ter dado. enfim, tantas e tão variadas emoções, "all those endless ends, that can't be tied, oh they make me laugh, and always make me cry".

"holes" - mercury rev

Time, all the long red lines, that take control,
of all the smoke like streams that flow into your dreams,
that big blue open sea, that can't be crossed,
that can't be climbed, just born between,
oh the two white lines, distant gods and faded signs,
of all those blinking lites, you had to pick the one tonite...

Holes, dug by little moles, angry jealous spies,
got telephones for eyes, come to you as friends,
all those endless ends, that can't be tied,
oh they make me laugh, and always make me cry,
til they drop like flies, and sink like polished stones,
of all the stones i throw, how does that old song go?
how does that old song go?
Bands, those funny little plans, that never work quite right.

terça-feira, junho 12, 2012

os melhores discos de 2012 até ao momento

este ano de 2012 tem sido muito interessante em termos de lançamentos discográficos. nos restantes meses do ano ainda vamos ter o prazer de ouvir os novos trabalhos de antony and the johnsons, grizzly bear e john grant, entre outros. promete...
até ao momento, a meu ver, foram estes dez discos que mais se destacaram:

patrick watson - adventures in your own backyard
porcelain raft - strange weekend
m. ward - a wasteland companion
perfume genius - put your back n 2 it
beach house - bloom
paul buchanan - mid air
memoryhouse - the slideshow effect
the soft hills - the bird is coming down to earth
sun kil moon - among the leaves
rufus wainwright - out of the game

a seguir, deixo-vos com um exemplar de cada um destes discos.

2012 - os melhores discos até ao momento - X



patrick watson
disco: adventures in your own backyard
música: lighthouse

2012 - os melhores discos até ao momento - IX



porcelain raft
disco: strange weekend
música: backwords

2012 - os melhores discos até ao momento - VIII



m. ward
disco: a wasteland companion
música: crawl after you

2012 - os melhores discos até ao momento - VII



perfume genius
disco: put your back n 2 it
música: dirge

2012 - os melhores discos até ao momento - VI



beach house
disco: bloom
música: on the sea

2012 - os melhores discos até ao momento - V



paul buchanan
disco: mid air
música: after dark

2012 - os melhores discos até ao momento - IV



memoryhouse
disco: the slideshow effect
música: kinds of light

2012 - os melhores discos até ao momento - III



the soft hills
disco: the bird is coming down to earth
música: return to eden

2012 - os melhores discos até ao momento - II



sun kil moon
disco: among the leaves
música: king fish

2012 - os melhores discos até ao momento - I



rufus wainwright
disco: out of the game
música: jericho

sexta-feira, junho 08, 2012

novo escalão de veterania

"o peso da idade
um tipo sabe que está a ficar velho quando vai jogar futebol e todos os jogadores com vinte e poucos anos nos tratam por você".

fiz este desabafo aqui em março de 2009.
três anos depois, já resignado ao "você", subo mais um escalão na minha veterania. agora, pelos vistos, já sou um "senhor". passar um jogo a ouvir "chute o senhor", "suba o senhor" ou "marque o senhor" é um carimbo que já não sai mais...

segunda-feira, junho 04, 2012

o país dos rebanhos

pensei, sinceramente, que já era uma coisa do século passado, mas afinal ainda perdura esta mania "tuga" de querer, a toda a força, aparecer na televisão. creio que, para 80% da população nacional, aparecer na televisão é o principal objectivo a alcançar durante a existência. ter um filho? plantar uma árvore? escrever um livro? escalar o everest? nada disso... o povo quer é os seus 15 minutos de fama, nem que esses 15 minutos se esfumem em 15 segundos de frases incoerentes e gritos ululantes em frente das câmaras televisivas. para tal, o povo desloca-se em massa, qual rebanho, a todo e qualquer evento onde possa haver cobertura televisiva, sempre em transe histérico e, por conseguinte, totalmente elegível para ser escolhido por um qualquer repórter televisivo de microfone em riste.
treinos da selecção? vamos lá. rock in rio? já lá estamos. e reparem que, neste último evento, cuja cobertura televisiva por parte de um canal privado chegou a roçar a pura imbecilidade, tanto em número de directos como em "conteúdo" totalmente estéril por parte das duas dezenas de repórteres presentes, que às tantas já se entrevistavam uns aos outros, o cartaz nem sequer interessava. quer dizer, stevie wonder? bryan adams? isto era o rock in rio 2012 ou rock in rio 1988? e depois, os mesmos de sempre: ivete sangalo, xutos e pontapés (juro que nunca hei-de entender a onda de entusiasmo à volta desta banda), metallica, james (que deve ser a banda internacional que mais vezes já tocou em portugal)... enfim, não percebo. o povo vai sempre atrás, até mesmo se no palco actuassem os modern talking, o chris de burgh, o barry manilow e a maria josé valério.
com a selecção, em vésperas de uma prova importante, o processo é sempre o mesmo. elevar a nossa equipa à condição de favorita a vencer a prova, enaltecendo a qualidade dos nossos jogadores, fazendo o povo acreditar que sim senhor, é desta que vamos "limpar" tudo e trazer o "caneco" para portugal. bandeiras à janela, porque o povo responde sempre a este tipo de apelos, como se uma bandeira na janela de um t3 na rinchoa fizesse o cristiano ronaldo marcar penalties como deve ser ou o hélder postiga acertar na bola uma vez que fosse, chusmas de pessoas nos treinos, no centro de estágio, a ver passar o autocarro, a acompanhar o mesmo ao aeroporto. e lá estão sempre as câmaras e os repórteres televisivos, sempre à procura de alguém para "entrevistarem". o que acontece depois é o mesmo que se passa quando vamos para um jardim e começamos a deitar pão a uma pomba. em dez segundos, aparecem dezenas e dezenas de pombas que também querem comer...

terça-feira, maio 29, 2012

estímulos

gosto de ser estimulado a mostrar o melhor de mim.
lembro-me de ter gostado muito dessa sensação em 1984...

sábado, maio 19, 2012

olhares


depois de em 2010 ter aberto conta no flickr (http://www.flickr.com/photos/josealbertolopes/), abri recentemente uma conta no site olhares (http://olhares.sapo.pt/josealbertolopes). é mais um "escape", uma forma de expressão através da fotografia, onde predominam as nuvens, o céu, a água e as árvores, bem como várias perspectivas da minha cidade, viseu, e da sua natural fotogenia.
espero que gostem!...

sexta-feira, maio 18, 2012

perfume genius - dirge



Boys that held him dear,
Do your weeping now,
All you loved of him lies here,
Do your weeping now.
Brought to earth the arrogant brow,
And the withering tongue,
Do your weeping now.
Sing whatever songs are sung,
Wind whatever wreath,
For a playmate perished young,
For a spirit whose spent in death.
Boys that held him dear,
Do your weeping now,
All you loved of him lies here,
Do your weeping now.

perfume genius


desde o disco "i am a bird now", de antony and the johnsons, que não ouvia algo tão pungente e depressivamente belo. este é um daqueles discos que se ouvem do início ao fim, como se se tratasse de um filme, sem saltar temas menos bons ou músicas que consideramos deslocadas da linha musical que estamos a vivenciar. "put your back n 2 it" é o segundo disco de perfume genius, nome artístico do projecto de mike hadreas, lançado em fevereiro deste ano.
a 7 de julho, perfume genius vai estrear-se em portugal, no festival super rock super bock. em baixo, podem ouvir quatro músicas deste excelente disco, que teve 8.4 em 10 no site pitchfork:
"Put Your Back N 2 It is an album about love-- what happens when we feel sheltered by it, how we fail to love ourselves and the people around us-- but amidst the heartache and bruised tenderness, there's hope, too. Hadreas sums it all up in the hollowed-out torch song "No Tear": "I will carry on with grace (...) On Put Your Back N 2 It, there's a crack of light coming through the darkness".

perfume genius - awol marine

perfume genius - normal song

perfume genius - 17

perfume genius - put your back n 2 it



Put your back into it
There is still grace in this
Let me be the one to turn you on
There is love with no hiding
Nothing you show me I will never need
Let me be the one to turn you on

domingo, maio 13, 2012

glória em cinco minutos para o manchester city

depois de ter estado a seguir, via livescore, a primeira parte da última jornada da liga inglesa, cheguei ao forum viseu com o sentido de ver, pelo menos, a última meia hora do jogo man. city - queen's park rangers, o jogo do título, em que bastava aos visitados vencerem para serem campeões. para meu espanto, nos televisores passava o jogo chelsea - blackburn, que não aquecia nem arrefecia ninguém, apesar de ainda haver bastante gente a vê-lo. não sabia a quem me dirigir, mas encontrei um segurança e perguntei-lhe quem é determinava os canais em exibição. depois de referir que eram eles, seguranças, os responsáveis, logo lhe solicitei que mudasse o canal para o jogo mais importante, explicando que era a última jornada, o jogo do título, bla, bla, bla... para minha sorte, o segurança até percebia de futebol e foi bastante atencioso, mudando de imediato para a sporttv3, sem que alguém reclamasse.
aos 70 minutos, quando comecei a ver o jogo, estava o qpr a vencer por 2-1 e a jogar com dez jogadores. o city atacava desesperadamente, tinha 80% de posse de bola, 23 remates contra 3, mas o tempo ia passando e a desvantagem atribuía o título ao united, que vencia no terreno do sunderland. nas bancadas, o desespero do público ia aumentando à medida que o tempo se ia esgotando. mancini parecia uma "barata tonta" a dar indicações aos seus jogadores, que pareciam não ter soluções para ultrapassar o bloco defensivo do qpr, orientado por mark hughes, precisamente o técnico que mancini foi substituir no city e que, enquanto jogador, se notabilizou ao serviço do manchester united. com 1-2 no marcador, o jogo chegou aos 90 minutos. o árbitro dá cinco minutos de descontos.
a cinco minutos do final do jogo em manchester, o united era campeão. o city perdia em casa e ninguém esperaria que em cinco minutos conseguisse fazer o que não tinha conseguido nos vinte anteriores, ou seja, marcar dois golos. o que se passou a seguir vai ser lembrado, tenho a certeza, durante anos e anos, tal como ainda me recordo do célebre golo de michael thomas, no último minuto, que deu o título ao arsenal, em 1988/89, em detrimento do liverpool. aos 91m, dzeko marcou de cabeça, na sequência de um canto. com o 2-2, os adeptos começaram a acreditar que ainda era possível. aos 94m, aguero entrou na área, contornou um defesa do qpr, fugindo até à tentação de se fazer ao penalty, e rematou para o fundo da baliza. 3-2. título para o manchester city, 44 anos depois da última vitória na liga. inesquecível, sem dúvida alguma. é por momentos como estes que é tão gratificante gostar de futebol. nem estava a torcer pelo city, mas o semblante dos seus adeptos, no antes e depois, do desalento à euforia em cinco minutos, comoveu-me e, no final, até fiquei contente pelo título. e ainda por cima o queen's park rangers não desceu, apesar da derrota. no final, o segurança, que permitiu, enfim, tudo isto, todas estas emoções, referiu que o título era justo. concordei com ele. afinal, o city venceu os dois jogos contra o united e num deles até goleou (1-6). glória para os novos campeões!

quinta-feira, maio 10, 2012

inconsequência

acho que nunca vou ser capaz de entender a lógica que define o destino do meu próprio mundo. sou constantemente atropelado por seguir um caminho de onde já estão a regressar todas as outras pessoas. se for eu a descobrir outro caminho, sou derrubado e ultrapassado por toda a gente que quer chegar mais rápido. não encontro conforto na intermitência da minha vida social, nos esporádicos e breves contactos, na fugacidade dos encontros, na competitiva troca de palavras em que se coloca em confronto a miserabilismo da condição humana, na ansiedade de uma próxima vez, nos imponderáveis silêncios e afastamentos, na incerteza do próximo dia. mas recuso, ao mesmo tempo, fazer a auto-promoção necessária para abrir novas portas, nadar em oceanos em vez de rios, percorrer estradas em vez de caminhos...
desta forma, continuarei a definhar, dia após dia, na minha inconsequência, num mundo (o real e o virtual) que nunca chega a parar para eu, finalmente, entrar. dia após dia, a mesma ânsia de culpabilização interior, o desboroar lento e previsível de uma indómita vontade de encaixar em algum lado, de fazer parte de alguma coisa. vou escurecendo lentamente, transformando ímpetos em poeira e potenciais sorrisos em taciturnos semblantes, coarctando a minha própria boa vontade. trago comigo, sempre, os meus melhores amigos, a ironia e o sarcasmo, para me defenderem de qualquer invasão ou tentativa de aproximação exterior. se o mundo é um oceano, eu não sei claramente nadar; e quando aprender, tenho a certeza que deixará de existir água... voltarei a chegar tarde demais, como sempre.
será sempre esta a minha grande dúvida: não me consigo ou não me quero integrar?

os cafés curtos desta vida

a distância pode ser cruel e, por vezes, intolerantemente dolorosa. no entanto, acredito que a saudade embeleza os sentimentos, ajuda a moldá-los da forma correcta. perdemos muito tempo a contemplar o que já vivemos, a recordar quem nos faz falta. vagueamos pelas ruas e conseguimos facilmente vislumbrar nos semblantes das outras pessoas o mesmo aspecto carregado de saudosismo.
toda a gente sente a falta de alguém. toda a gente faz falta. é um fenómeno de massas. há pessoas que passam por nós diariamente, seja um carteiro, um polícia ou um estafeta, que certamente estará a fazer falta a alguém. todavia, a nós não nos dizem nada, literalmente. aliás, muito dificilmente me dirão algo, na medida em que, diariamente, exceptuando o trabalho, só comunico basicamente com empregados de café.
o tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável. por outro lado, o tempo que gastamos, ou perdemos, com pessoas que não nos dizem nada é uma monstruosa amargura. os dias passam e a frieza dos minutos, das horas a passar tornam-nos cada vez mais azedos, mais tristes. é muito fácil deixarmo-nos viciar pela tristeza, pela depressão. por vezes até é cómodo. é uma desculpa, como outra qualquer, para não funcionarmos, para vegetar.
há certamente pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. mas quando olhamos à volta, vemos que não são aquelas que nos rodeiam. o mesmo sucederá com as outras pessoas em relação a mim... e por aí adiante. é praticamente um genocídio sentimental. e continuamos a perder tempo, dias, semanas, meses, sempre a ansiar por um reencontro, um regresso.
há quem acredite que a partir de uma certa idade se perde o luxo de ter amigos só por amizade. inventam-se novas categorias: "amigos de amigos", "amigos de familiares", "amigo que dá jeito porque eu não faço ideia de como se compõe uma persiana", "amigo que um dia me pode ser muito útil quando quiser abrir uma loja de peças para torradeiras", "amigo que me leva o carro à inspecção todos os anos se eu lhe pedir", etc.. a vida "obriga-nos" a alargar os nossos horizontes em termos sociais, dando especial relevo à via profissionalizante desses nossos contactos.
infelizmente, ou felizmente, ainda não decidi, não enveredei por essa prática. como já referi, o meu "público" são as funcionárias e os funcionários dos cafés e restaurantes. o resto do meu tempo é... para o saudosismo. nunca tive vocação nenhuma para estabelecer qualquer tipo de cumplicidade com desconhecidos. até fujo desse tipo de situações. por isso, abracei a solidão, habituei-me a ela. dessa forma, evito ser avaliado ou julgado, ou estar numa posição desconfortável de tentar agradar a alguém. os amigos que (ainda) tenho já vêm de longe e é deles que tenho saudade.
há quem endeuse esta palavra (saudade), mas ela é apenas o sinal evidente de que há qualquer coisa que não está bem. ou seja, alguém não está onde devia estar. simplesmente! saudade é amor ou amizade que se gasta sem proveito, provavelmente enquanto estamos a almoçar sozinhos numa esplanada qualquer, em silêncio, pensando que poderíamos estar a ter uma conversa estimulante com um amigo. ao invés, estamos enclausurados num básico "boa tarde, queria um café curto, se faz favor" (café esse que nunca, mas nunca mesmo, vem como a gente o pediu, ou seja, curto), provando que metade do que dizemos não se ouve mesmo (e eu já digo tão pouco...).
e o tempo vai-se gastando... sem piedade. fica, como consolação, o facto de imaginarmos que, algures, a 100 metros, a 10 ou a 800 quilómetros, haverá alguém a sentir o mesmo por nós. só espero que tenha mais sorte do que eu em relação ao café curto...

padrões e valores morais

serei alguma vez capaz de atingir os meus próprios padrões em termos de personalidade? é complicado estabelecer comparações e juízos de valor sobre uma pessoa quando verificamos que padecemos dos mesmos defeitos. a rita (nome fictício de marta) é intriguista, básica, fútil, hipócrita, tem mau hálito e um hábito terrível de citar fernando pessoa sempre que lhe perguntam o que quer de sobremesa. tudo bem, a rita pode ser isto tudo, mas é fabulosamente agradável em termos visuais. o rafael (igualmente nome fictício de marta, curiosamente) deve sentir-se mal por ser amigo dela? por preferir as virtudes físicas às virtudes morais? por deixar arrastar uma "amizade" que nada de psicologicamente estimulante lhe oferece? se analisarmos estas últimas três pertinentes questões pelo lado masculino, chegamos à conclusão de que o rafael quer, efectivamente, apenas "saltar para a cueca" da rita. ou então nem tanto, tendo em conta o tal problema do mau hálito da rapariga, quer apenas ser visto com ela, ser invejado pelo resto da sua espécie. o rafael criou durante largos anos, baseando-se em revistas, programas nocturnos com bolinha vermelha no canto superior direito e na sua professora de inglês do 8º ano, um consistente ideal de beleza. na sua transição da adolescência para a vida adulta, conheceu centenas de mulheres, umas mais inteligentes, outras mais atraentes, sempre com os mesmos padrões físicos embutidos no cérebro. depois de uma interminável travessia pelo deserto (em sentido figurado, claro, porque ele não conseguiu os mínimos para participar no rally lisboa dakar), rafael conheceu rita. dois segundos depois, a sua libido deu cambalhotas de contentamento. dois minutos depois, a libido foi-se deitar novamente, por manifesto cansaço. meia hora depois, a libido acordou porque alguém estava a bater à porta, mas era engano. ou seja, o estímulo visual criado pela rita foi-se desvanecendo com o tempo e o pobre do rafael começou a ficar dividido. ouvir horas e horas de conversas fúteis e insípidas só porque ela é efectivamente uma "brasa" ou continuar a procurar alguém que reúna as vertentes psicológica e física num só corpo? pepsi ou coca-cola? fifa 2008 ou pro evolution soccer 2008? conan 0'brien ou jon stewart? miguel sousa tavares ou vasco pulido valente? pois, o rafael não sabe o que fazer. chega a sentir-se mal ao lado da rita porque sente que está a atraiçoar os seus próprios valores e padrões. sente que não é aquilo que ele representa. sente que poderia perfeitamente estar a ter conversas muito mais interessantes e estimulantes com outras pessoas, que poderia estar a cultivar-se e a aprender. a rita, por sua vez, gosta muito de estar com o rafael, acha que ele é boa pessoa, com um sentido de humor um bocado esquisito (que ela muitas vezes não entende mas sorri na mesma para mostrar que percebeu a piada) e umas referências musicais e cinematográficas estranhas (cinema europeu? isso existe?). no entanto, ao mesmo tempo também acha que o rafael é intriguista, básico, fútil, hipócrita, tem mau hálito e um hábito terrível de assobiar o refrão da música "the final countdown", dos europe, antes de tomar café.

"já não temos vagas"

este texto surge porque senti que vos devia algumas palavras, como "frigorífico", "estendal" e "capacete". a minha vida continua a ser a mesma sucessão de quintas-feiras, sem que nada de particularmente interessante ou especial me aconteça. continuo a cumprimentar as pessoas e a ficar com a sensação de que elas não respondem aos meus "bons dias" e "boas tardes" (já nem digo "boas noites" porque já não saio à noite desde que foi proclamada a república), continuo com a impressão de que sou sempre mal atendido nos cafés e restaurantes onde entro pela primeira vez (por isso tento sempre frequentar os mesmos sítios em viseu - pastelaria lobo e restaurante amarelinho), continuo a chegar e a sair sempre a horas ao trabalho, embora por vezes o patronato merecesse que eu entrasse às 15h e saísse às 15h30, e continuo à espera que algo de bom me aconteça, todos os dias. acho que toda a gente parte para um novo dia com esse pensamento na cabeça. "e se hoje surgisse uma proposta de emprego aliciante?", "será que me vão pagar hoje?", "conseguirei arranjar estacionamento hoje no centro histórico à hora de almoço?". no fim do dia, antes de preparar mentalmente o dia seguinte (o que não é muito difícil), faz-se o balanço e, se não tiver acontecido nada de relevante, arrumamos as memórias das últimas 24 horas no fundo do cérebro, ao lado do cubo mágico, da bota botilde e do spectrum zx, e ansiamos rapidamente pelo próximo dia. é claro que o meu objectivo nunca foi conhecer uma pessoa nova por dia, embora reconheça que é um excelente objectivo, sobretudo para quem trabalha atrás de um balcão numa repartição pública, mas se calhar, e colocando o dedo na ferida, fazia-me bem conhecer pessoas novas, sobretudo daquele tipo de pessoas que não me irrita automaticamente quando se mexe ou abre a boca. acreditem, já conheci muitas dessas. não me interpretem mal, o problema não são as pessoas que conheço, as que já fazem parte do meu pequeno círculo de amizades, essas são interessantes o suficiente. infelizmente, é muito reduzido o tempo que passo com elas, criando-se um fosso temporal enorme que condiciona e faz estremecer a mais sólida das amizades. quando reencontramos um amigo deste género, ao fim de algum tempo, perde-se sempre uma hora a actualizar as informações, o ambiente é quase sempre de constrangimento, porque nunca sabemos se alguma coisa mudou, se o nosso comportamento é o ideal, se devemos ou não fazer uma graçola fácil quando esse amigo nos está a contar algo desagradável que lhe aconteceu, etc.. gasta-se algum tempo a encontrar o ponto em que tinha ficado o nosso encontro anterior. e geralmente quando isso acontece, a outra pessoa tem que ir embora. segue-se uma inevitável frustração, seguida da previsível resignação. não há mesmo nada a fazer. só aceitar as evidências.
em termos de novos conhecimentos, todavia, também não peço muito, não quero conhecer um astronauta, um prémio nobel ou um cientista, contentar-me-ia com alguém que soubesse, pelo menos, qual é a capital da turquia e da austrália, quem é o vocalista dos radiohead, o realizador de "when harry met sally" e a formação inicial do sporting na final da taça de portugal na época 1994/1995. pronto, nesta última estava a brincar. vou alterá-la para o nome dos 24 jogadores da selecção de el salvador no mundial 82, realizado na espanha.
o meu problema é que as pessoas interessantes parecem já estar ocupadas... com as outras pessoas interessantes. mesmo que tentasse, eu nunca conseguiria entrar. lembro-me sempre da famosa citação de groucho marx, que dizia que não gostaria de pertencer a um clube que o aceitasse como membro...

toda a gente deveria ter direito a gémeas polacas

estou cada vez mais convencido de que estou neste mundo apenas para ver, não me interessando minimamente participar. na minha juventude saltei todas as etapas que a maioria considerava fulcrais: baile de finalistas, praxes, latadas, queimas... ao invés, entrei cedo no mercado de trabalho porque queria definir rapidamente o meu futuro. é o que dá crescer num corpo que sempre aparentou ter cinco ou seis anos a mais do que os verdadeiros. no liceu, quando comparavam a minha envergadura física com a dos meus restantes colegas, não faltavam pessoas a pensar que eu precisava de três anos para passar um ano de escolaridade. quando jogava futebol federado acontecia o mesmo "drama": quando era iniciado, diziam que havia aldrabice porque eu parecia juvenil; quando cheguei a juvenil, fartava-me de ouvir bocas do público (geralmente quando jogava fora de casa), acusando-me de já ser júnior. finalmente, ao chegar a júnior, pude descansar um pouco, mas havia sempre um "esperto" qualquer a chamar-me de sénior, provavelmente por causa da minha barba (que cresce desmesuradamente desde os meus 13 anos). assim, todas estas pequenas incidências (com grande impacto no meu crescimento) fizeram com que eu desejasse chegar o mais rapidamente possível ao mundo dos adultos. agora que aqui estou, que já dei umas voltas para ver o ambiente e meti conversa com dois ou três espécimes, apetece-me pagar a conta, meter-me no carro e voltar ao ano de 1988 (não faço a mínima ideia de qual será a melhor estrada para isso, vou tentar ir por ermesinde, virando à direita em esposende, atravessando o douro em amarante e cortando à esquerda em carrazeda de ansiães). sim, confesso que sinto a falta de alguma loucura, de alguma irreverência, de alguma extravagância juvenil. e porquê? pode parecer estúpido agora, mas na altura não queria defraudar aquelas pessoas que já viam em mim, um puto de 14/15 anos, um adulto, e tentei ser o mais "atinadinho" possível, sem desvios comportamentais ou psicológicos. quando se cresce num meio pequeno, onde toda a gente se conhece, é complicado cometer um pequeno devaneio que seja sem se ficar imediatamente conotado ou rotulado. mesmo assim, foi nessa miserável terra que tive oportunidade de experimentar um "cheirinho" das três profissões que, desde cedo, queria seguir: fui futebolista durante seis anos, tendo chegado, no penúltimo ano, à selecção distrital sub-17 de viseu, como defesa-central (a minha altura tinha que servir para alguma coisa); actuei ao vivo, como músico (escrito assim até parece algo de especial, mas já de seguida vão ficar a saber que... nem por isso), como elemento da escola de música "lira", interpretando, no órgão, a famosa canção popular francesa do século XVIII "au clair de la lune"; e fiz teatro amador durante quatro anos, chegando a acumular, na mesma peça ("o saco das nozes"), dois papéis (marido violento e padre). recordo com particular saudade os ensaios, as actuações, o friozinho que corria pela espinha quando se aproximava a altura de entrar em palco, o alívio enorme quando acabava uma sessão, as diabólicas cócegas que os bigodes postiços causavam, a roupa desconfortável e os sapatos apertados, a férrea resistência a qualquer boca que viesse da assistência para nos fazer rir, as cábulas escondidas no cenário para não falharmos uma deixa, os improvisos, as "brancas", as pancadinhas de moliére e... os aplausos, que felizmente eram sempre muitos. bons tempos! dos melhores, certamente, que passei naquela miserável terra.
quando mudei para outra terra, senti-me revigorado, pronto para recomeçar a construir um outro eu, uma nova identidade. fiz amigos, criei novas rotinas e cresci bastante em termos psicológicos, sociais e intelectuais. rapidamente me entrosei, me senti em casa. no meu primeiro ano de liceu em viseu, 10º ano de escolaridade, vivia mesmo no centro da cidade. apetecia-me sempre andar na rua, passear pela rua formosa, cheirar as tílias do rossio e a relva molhada do parque aquilino ribeiro (por onde passava todos os dias para ir às aulas), calcorrear a rua direita e a zona histórica... foi um gigantesco "banho" de viseu, um novo baptismo espiritual, que me fez cair de amores por esta cidade para o resto da vida.
três anos depois, deu-se a despedida. coimbra chamou por mim. ainda lhe dei o benefício da dúvida durante uns meses, mas a minha cidade de eleição já tinha sido encontrada. senti-me desamparado em coimbra, não fui capaz de absorver a cidade da mesma forma. sabia que me estava a enganar a mim mesmo ao prolongar aquele martírio, mas não queria desapontar os meus pais, especialmente a minha mãe, grande admiradora do fado de coimbra, das tunas e das serenatas. mas algum tempo depois o barco bateu no icebergue (excelente analogia! diria mais: brilhante!). desabafei com os meus pais, dei-lhes um grande desgosto e uma desilusão que jamais esqueceram (a minha mãe suspira sempre que vê uma tuna na televisão) e voltei. adeus latadas, queimas, bebedeiras de caixão à cova, concertos do quim barreiros, sexo desenfreado sem obrigações morais, "directas" a estudar, pequenos-almoços às cinco da tarde, mais concertos do quim barreiros, mais sexo desenfreado sem obrigações morais e sem telefonema obrigatório no dia seguinte, preservativos de todas as cores, lingerie comestível, cogumelos esquisitos, "o bacalhau quer alho" em altos berros, sexo desenfreado com gémeas polacas do erasmus, colecção de garrafas vazias de absinto na cozinha, pilha de roupa suja na marquise, cama por fazer há quatro meses, quim barreiros novamente e, para acabar, sexo desenfreado no banco traseiro de um renault 5 laureate gtl com a equipa feminina de voleibol do castêlo da maia. perdi tudo isto, sem que alguma vez possa recuperar seja o que for (bem, talvez o quim barreiros). será que quem passou por isto tudo atribui alguma importância a estes anos das suas vidas? creio que sim, pelo menos a acreditar em alguns meus amigos. entraram na vida adulta mais aliviados, mais leves, em clara descompressão. esgotaram totalmente o plafond de "loucuras permitidas" que lhe foi atribuído aquando da entrada na universidade e encararam, de forma positiva, a vida laboral, com memórias e incidências suficientes para centenas de coffee-breaks nas empresas onde trabalham. as minhas histórias, quando muito, dariam para uma pausa para um cigarro no parque de estacionamento. nem sequer para um charuto davam. mas já estou completamente resignado, acreditem. por estes dias, depois de intensa introspecção e alguma terapia, só ainda não consegui tirar da cabeça as gémeas polacas do programa erasmus...

os ciclos da vida

não sei, se calhar fiz tudo mal. caramba, se nem no facebook tenho "saída" o que me restará? é certo que fico com a distinção de ter sido o primeiro blogger a iniciar um post com as palavras "não sei", mas é nitidamente pouco para quem, nesta altura da vida, esperava já ter realizado pelo menos sete dos seus quatrocentos e vinte e oito sonhos. a vida é feita de círculos e de ciclos. temos determinado círculo de pessoas à nossa volta em determinado ciclo da nossa vida (e prometo que vou deixar de escrever a palavra "determinado"). passando esse ciclo, o círculo de pessoas desaparece. no fundo, são etapas de vida, camadas de experiência por que temos de passar, como tomar banho aquando do baptizado, com água fria, ainda por cima, aprender a andar de bicicleta e, consequentemente, aprender a não gritar quando a mãe nos coloca álcool nos joelhos esfolados, ir à escola, começar a namorar, ir à escola porque nos esquecemos lá do porta-lápis, a alegria de termos um quarto só para nós, a imposta responsabilidade de termos de o arrumar sozinhos, ir à escola porque nos esquecemos lá da namorada, ir para a universidade ou, transversalmente, para arrumador de carros, começar a trabalhar, casar, ter filhos, ir à escola porque nos esquecemos lá do filho, passar pela famosa crise de meia-idade, comprar um porsche, quando se pode, para disfarçar a crise da meia-idade, ser avô e, com sorte, bisavô e, finalmente, morrer. e o que fica desta vida? o raio do porta-lápis que ficou na escola.
sim, não há dúvidas que as pessoas que nos rodeiam são essenciais. imaginem o que seria passar a adolescência tendo como amigos de escola o cláudio ramos, o nuno eiró e o daniel nascimento. é claro que não podemos encomendar por catálogo as pessoas que queremos conhecer, caso contrário todas as mulheres escolheriam o george clooney ou o johnny depp e os homens optariam pela filha do nené ou pela betty grafstein. elas surgem de repente, caem de pára-quedas nas nossas vidas, sem pré-aviso que nos permita, ao menos, tomar banho antes. depois, como é natural, entra em campo o nosso rigoroso sistema selectivo, que faz com que fiquemos naturalmente com as pessoas com quem mais nos identificamos (ou que tenham seios grandes, é opcional) e deitemos fora as outras, as chatas, as inoportunas e as falsas (e as que nem de calças de licra bem apertadas fiquem minimamente atraentes). depois, quando nos dá para a introspecção, como num qualquer dia de aniversário, olhamos para trás e vemos que ainda nem levantamos a mesa do jantar. depois disso, continuamos a avaliar intensamente o nosso percurso ao longo de meia vida. afinal, segue-se a etapa da crise da meia-idade e eu não tenho dinheiro para um porsche, nem para um renault clio ou um smart. com sorte, consigo comprar um datsun 1200 de 1982 num sucateiro. a questão é esta: estarei devidamente preparado para esta crise? e ainda posso colocar mais algumas questões pertinentes, como estas: o que hei-de vestir? o que levo para comer? fará frio ou calor? conseguirei destrocar uma nota de 200 euros? não faço a mínima ideia de que forma vou enfrentar tudo isto.
o que é suposto eu fazer na minha crise de meia-idade? vestir-me como se tivesse 19 anos? fazer desportos radicais? ver os morangos com açúcar? andar na rua sempre com o mp3 a bombar nos ouvidos? visitar os pais só para poder sair disparado de casa deles a vociferar "nesta casa ninguém me entende"? não sei. só sei que por esta altura se começa, efectivamente, a ver o tempo fugir-nos e queremos aproveitar ao máximo tudo aquilo a que ainda temos direito. que diabo, até já comi sushi. não quero morrer ignorante. "então meu amigo, gostou da vida que levou?", pergunta-me o s. pedro. "gostei, foi interessante", respondo-lhe eu. "experimentou tudo? plantar uma árvore? ser pai? sexo com gémeas polacas? tiramisu? por-do-sol na praia? sushi?", volta a perguntar o barbudo. "bolas, sushi, eu sabia que me faltava alguma coisa...". pois, era chato pedir ao homem para vir cá abaixo só para experimentar sushi. mas há ainda uma imensidão de coisas que ainda quero fazer, como ir à pesca. nunca fui mas sempre quero saber qual é a "pica" que se tira daquilo, do facto de se estar sentado largas horas com uma cana de pesca nas mãos. deve ser giro. ou talvez não. também gostava de ser comentador desportivo de voleibol de praia feminino. ou de ténis feminino. gostava de ir a itália, mas de avião nem pensar, só de comboio. gostava de ver ao vivo um jogo do campeonato inglês, se bem que isso seja praticamente impossível, só pedindo às equipas e aos adeptos para se deslocarem a portugal ou, vá, à espanha. ainda quero ver muitos concertos musicais, cantar ainda muitas vezes os parabéns aos meus pais e assistir ao crescimento dos meus filhos ao lado da minha mulher. são já vinte e quatro os anos ao seu lado, mais de metade da minha vida, em que a passagem do tempo apenas a tornou, ano após ano, ainda mais resplandecente aos meus olhos. tenho muitas dúvidas em relação a diversos aspectos do meu futuro, mas sei perfeitamente que nunca me vou cansar de olhar para ela. essa é a única certeza.
o futuro não me assusta. independentemente dos ciclos que aí venham, bons ou maus, conto com o apoio do meu círculo, nas alegrias e nas vitórias, nas tristezas e nas derrotas, e, essencialmente, para me ajudarem a encontrar as tais gémeas polacas...

os "remendos"

"só existe uma coisa melhor do que fazer novos amigos: conservar os velhos."
elmer g. letterman

não faço a mínima ideia quem é elmer g. letterman, até procurei no google mas o homem nem sequer tem página no wikipedia. portanto, é um borra botas qualquer, que num belo dia proferiu esta frase. alguém a ouviu na mesa ao lado do café e achou-lhe piada, ao ponto de a colocar num daqueles sites bonitinhos com frases sobre tudo e mais alguma coisa: amizade, amor, hóquei em patins, puericultura, pesca submarina, acne facial, etc.. encontrei a frase num site desse género, em trabalho. vi a frase, que até estava destacada, e senti-me exactamente da mesma maneira que o tal tipo que estava na mesa ao lado no café, onde o elmer g. letterman ia tomar todos os dias o pequeno almoço com um primo, quatro anos mais novo do que ele, que tinha a particularidade de coxear das duas pernas. de facto, a frase faz sentido, sobretudo se olhar para os últimos meses da minha vida. procurar novos amigos é complicado, sobretudo quando já se passou há muito a barreira dos 30 anos e estamos naquela fase em que não estamos para nos chatear com essas coisas. os velhos amigos já leram o nosso manual de instruções, já assimilaram as informações vitais, conhecem os nossos gostos e sabem lidar perfeitamente com o nosso feitio. iniciar um novo processo com um total desconhecido pode ser traumático. faz lembrar aquela teoria que define a principal diferença sentimental entre homens e mulheres da seguinte forma: um homem pode ter dez mulheres apaixonadas por ele, mas no dia em que uma delas deixe de o amar, ele começa a questionar tudo, inclusivamente o amor das outras nove, partindo do princípio que a que deixou de o amar é que tem razão. por sua vez, uma mulher borrifa-se completamente para os outros nove homens que não estão apaixonadas por ela, porque tem um que está e isso basta-lhe. o que é que eu quero dizer com isto? bem, vamos lá ler tudo isto juntos, devagarinho desta vez. eu espero...
bem, a questão, transportada para assuntos de amizade, pode desembocar exactamente na mesma conclusão. se o carlos carpinteiro cortou relações com o arlindo gnr, oficialmente por conflitos de personalidade mas toda a gente sabe que foi porque o arlindo foi "chibar" à mulher do carlos que ele, aos sábados, em vez de ir ver os jogos de futebol na sport tv do café do senhor cardoso, vai a casa da salete, que é precisamente a mulher do coitado do senhor cardoso, que tem que ficar com o café aberto a noite toda por causa do futebol na sport tv (uff, vamos respirar fundo agora que a frase já vai longa como o catano), servirá o mesmo arlindo para ser amigo de um outro qualquer ser humano? bem, talvez só de um padre. ou da mulher do carlos, porque se calhar era essa a sua intenção desde o início.
conservar os velhos amigos é sinal de maturidade, de plenitude emocional. em termos simplistas, mas mesmo muito simplistas, é como a minha relação com a roupa. há anos que tenho um casaco azul (o casaco que tenho vestido na foto no meu perfil), até já lhe dediquei um post uma vez; sinto-me confortável com ele, visto-o e sei que ele "encaixa" perfeitamente porque parece já moldado ao meu corpo. sou muito esquisito com a roupa. normalmente, qualquer peça de vestuário nova leva imediatamente um carimbo de "não me sinto confortável com isto". até já mandei fazer autocolantes para facilitar a vida à minha mulher. ou são as mangas que são muito compridas ou curtas, os colarinhos irritam-me o pescoço, o último botão da camisa não dá para apertar, o penúltimo está muito subido ou muito descido, as calças arrastam no chão e é preciso fazer uma dobra (e eu detesto dobras), a t'shirt por baixo do pullover ou se vê demasiado ou não se vê de todo. enfim, um suplício. para evitar estes dramas matinais, eu tenho uma dúzia de peças de roupa infalíveis, daquelas com que se pode contar sempre quando o tempo aperta e não há muito tempo para perder com estes momentos desconfortáveis. o tal casaco azul é uma delas. por muito velho e gasto que ele possa vir a ficar, será sempre de preservar. a roupa estraga-se, mas pode sempre remendar-se; as amizades, por vezes, também se estragam, mas existem sempre soluções para as "remendar". até no caso do arlindo e do carlos...

o insuportável peso da idade

os "trintas" são tramados, não tenham dúvidas. é aquela altura da vida em que se definem as nossas prioridades, em que se faz aquela transição, nem sempre fácil, entre uma vida de solteiro e uma vida de casado. enquanto solteiros, o mais normal é manter durante vários anos as amizades que se foram cimentando durante a vida de estudante, nos liceus, nas universidades, etc.. mesmo quando surge uma namorada na nossa vida, é de certa forma fácil conciliar os dois mundos e, apesar das exigências de ambos os lados, o pensamento que impera nesta fase é o de que a vida deveria ser sempre assim, com os amigos e a namorada sempre "à mão", dependendo do nosso estado de espírito. os "vintes" são, dessa forma, fantásticos, porque há um pouco de tudo na nossa vida: ainda há vida de estudante, com as consequentes loucuras sazonais, há a emoção do primeiro emprego, as borbulhas começam finalmente a desaparecer, decidimos que "look" é que vamos adoptar ao entrar na chamada "vida adulta" (pêra, barba de três dias, bigode à freddie mercury, cabelinho "à fosga-se", risco ao meio), conduzimos o nosso primeiro carro, temos o nosso primeiro acidente de viação, ainda temos energia para parques de campismo, discotecas e batalhas de shot's, ainda há bebidas alcoólicas para experimentar e, sobretudo, já não temos, finalmente, hora para chegar a casa, porque experimentamos pela primeira vez as maravilhas de viver sozinho. basicamente, the world is your oyster, ou seja, estamos a retirar tudo o que queremos da vida, da forma como queremos e quando queremos. nos "vintes", depois de muitos anos a obedecer às regras parentais, nós fazemos as nossas próprias regras. se quisermos ficar a dormir até ao meio dia num sábado, tomar o pequeno-almoço à uma da tarde, dormir mais um bocado, porque a noite foi "puxada", e almoçar apenas às seis, podemos fazê-lo sem recriminações. à noite, estamos novamente fresquinhos para repetir a dose. pois, os "vintes" não têm comparação com mais nenhuma época da nossa vida. os amigos são realmente amigos, aturam-nos tudo, embarcam em todas as nossas loucuras, não desperdiçam vinho nem palavras e são, acima de tudo, mais honestos e francos, sobretudo quando estão embriagados. é nesta altura das nossas vidas que descobrimos que os nossos amigos só dizem determinadas coisas quando estão "tocados", abandonando todas as camadas de timidez e preconceito para dizerem bacoradas como "tu és um tipo muito porreiro", ou "sempre achei que ficavas muito sexy com essas calças", ou ainda "fui eu que atropelei acidentalmente o teu gato". depois, vomitar nos "vintes" é de homem, ou um sinal de que nos estamos a tornar uns homenzinhos; vomitar nos "trintas" é deprimente, para quem vomita e para quem vê. uma noitada nos "trintas" é diferente. já existem horas para chegar a casa, temos sempre que conduzir até casa, o fígado já começa a dar de si e a "controlar" o que bebemos, até os amigos e as conversas são diferentes. nos "trintas" já não queremos dominar o mundo, marcar uma posição, falar mais alto do que os outros para impressionar a sala inteira; só queremos é ser bem atendidos e passar o mais despercebidos possível, sobretudo quando estamos num ambiente... cheio de "vintes". certamente que, quando andava pelos "vintes", pouca importância dava aos "trintas", porque na maior parte das vezes, nas saídas nocturnas, estavam sempre aquela mesa mais silenciosa, só se fazendo notar quando olhavam incredulamente para nós, os "vintes", na maior algazarra e animação. agora, os papéis inverteram-se. os "trintas" já nem querem sair à noite por se sentirem deslocados ou, lá está, por terem assumido outras prioridades na vida. esta transição não é visível a olho nu e muito menos palpável, mas acontece e marca decisivamente o adeus aos "vintes". nos "trintas", o mundo já não é a nossa ostra, no máximo é uma ameijoa, e o grande objectivo passa a ser, essencialmente, a gestão desse grande empreendimento chamado família. a tendência é, quer se queira, quer não, termos outros amigos, com as mesmas prioridades e estilo de vida, pessoas que nos compreendam e respeitem a nossa "missão". agora, em vez de estarmos às 4 da manhã a beber mais um shot, estamos na cozinha a preparar um biberon de leite. os "trintas" demoram um pouco a resignar-se, mas quando se conformam é para o resto da vida. regressar aos "vintes", só num de lorean, como no "regresso ao futuro"...

"my one regret in life is that I am not someone else"

tenho saudades de ter saudades de alguém. uma vida assim vazia, sem o contar dos dias, das horas para se ver uma determinada pessoa, tende a cair num marasmo irrecuperável, em que nunca há nada à nossa espera em cada dia que nasce. eu gosto de ter saudades das pessoas, dos momentos que partilhei e do que elas me fizeram sentir. um ser humano, por muito misantropo que seja, carrega sempre consigo uma carga emocional, sendo que umas são naturalmente mais pesadas que outras, em função do que se viveu até agora. o presente e o futuro ainda não aconteceram. mas enquanto há pessoas que sabem perfeitamente o que lhes reserva esse presente e esse futuro, porque conhecem muito bem a "bagagem" que carregam e os créditos que granjearam ao longo da sua vida, sabendo, portanto, que nunca lhes faltará alguém de quem sentir saudades ou ansiar por um novo encontro, outras há que, se forem à janela espreitar o seu horizonte apenas contemplarão um árido deserto nesse domínio. sinto que estou neste último grupo há algum tempo já, e, sinceramente, não sei o que sentir, porque me encontro dividido, tal como sempre me senti, entre ser uma "people person", daquelas dedicadas, que fazem tudo pelos amigos, pelos amigos dos amigos, pela família dos amigos, no sentido de aumentar a sua rede de conhecimentos pessoais, e ser um completo misantropo, avesso a qualquer contacto social, mesmo os mais ligeiros, como cumprimentar alguém na rua com um simples "bom dia". aos 39 anos de idade, sinto que ainda não sei quem sou. pior: sinto que não sei o que quero ser. faça o que fizer, interpretando os dois papéis acima referidos, seja em que situação for, acabo sempre por me recriminar, por sentir que não fui eu mesmo. confuso? é capaz de ser um pouco. trata-se de um complicado caso de bipolaridade. a questão é esta: em que circunstâncias é que sou eu mesmo, sem hipocrisias, sem tiques artificiais para impressionar, sem arrogâncias estéreis ou laivos de superioridade? ou eu sou realmente assim, com todas as características que apontei? será que tenho um feitio tão insuportavelmente cretino e cabotino que, a pouco e pouco, afugento toda a gente à minha volta? se me é permitido responder às minhas próprias perguntas, eu acho que sim. analisando os últimos quinze anos da minha vida, em termos puramente sociais, é muito mais fácil contabilizar as pessoas que ficaram pelo caminho do que aquelas que conheci e com quem desenvolvi algum tipo de relação de amizade. portanto, a conclusão é bastante fácil de tirar. sendo eu, ainda por cima, uma pessoa pouco talhada para impressionar alguém nos primeiros encontros, devo ser a pessoa com maior número de piores "primeiras impressões" à superfície da terra, falhando geralmente os "mínimos" para garantir, pelo menos, uma "segunda impressão", sinto que estou, irremediavelmente, num beco sem saída. são já muito poucas as pessoas que leram o meu manual de instruções e decidiram "comprar o produto". por coincidência, ou não, como estamos no outono, aos poucos a minha árvore vai ficando sem folhas. elas vão caindo, uma a uma, levando com elas a irreversibilidade do momento em que conseguem soltar-se, precipitando-se numa queda aliviada para o chão. aqueles tempos em que, como pessoa ansiosa que sou, contava os dias que faltavam para me encontrar com amigos já lá vão. tenho que me render às evidências. falhei redondamente neste aspecto da minha vida, tal como noutros. sou obrigado a reconhecer que ainda não tenho uma personalidade devidamente estabilizada e coerente para me "soltarem" na sociedade. se eu fosse um computador, aceitaria, por esta altura, um "reset" total ou, em último caso, que me devolvessem à fábrica, por manifesto erro de fabrico. como não sou um computador, resta-me agradecer às pessoas que me fizeram chegar a esta conclusão. porventura, demorei tempo demasiado a aceitá-la, mas esta é uma consequência natural de quem luta diariamente com duas personalidades diferentes: aquela que queria ter e a que realmente tenho.

devo utilizar a minha invisibilidade para o bem ou para o mal?

hoje apetece-me escrever. não sei bem de quê, mas apetece-me. é uma aventura começar a escrever sem ter um tópico, um assunto, um tema. é a minha forma, eu que sou tão temeroso e pouco vocacionado para a espontaneidade, de me lançar no escuro, "push the envelope" (sempre quis utilizar esta expressão num post). chateia-me imenso que nunca me aconteça nada de relevante para vos contar, uma ameaça de bomba, uma perseguição a alta velocidade na auto-estrada, uma luta entre a vida e a morte como refém num assalto a um banco... tanta coisa que me poderia acontecer, mas nada me acontece. no máximo dos máximos, quase sou atropelado numa passadeira, porque, comprovando a minha teoria de que sou, efectivamente, invisível, os condutores têm uma enorme dificuldade em ver-me. vir para aqui chatear-vos com a forma como sou atendido (e às vezes nem isso) em estabelecimentos comerciais e repartições públicas também seria bastante maçador. mas pronto, como não tenho mesmo assunto, saliento apenas um episódio, ocorrido numa superfície comercial de viseu. o meu filho anda com a "panca" do bowling, ficou imediatamente viciado quando experimentou pela primeira vez, ao ponto de, agora, querer fazer lá a sua festa de aniversário (sim, é possível). mas, se dependesse de mim, tal nunca se realizaria. isto porque, na semana passada, depois de repetidos pedidos do meu filho, fui com ele ao bowling. lá chegados, com as pistas todas ocupadas, tentei saber no balcão, que estava sem clientes e apenas com os dois funcionários, se poderíamos jogar. cheguei ao balcão, repito que não estava mais ninguém para atender, apenas eu, e esperei que os dois funcionários, um rapaz e uma rapariga, acabassem a conversa que estavam a ter para, depois, ser efectivamente atendido. o tempo foi passando, a conversa nunca mais acabava e eu a sentir-me cada vez mais minúsculo. a minha teoria da invisibilidade voltou a ganhar contornos preocupantes. depois de mais de um minuto disto, desisti. afastei-me do balcão, sem que algum deles tivesse sequer reparado que eu lá estive. bem, eu não tenho um metro e meio, sou bem alto, por sinal, acho muito difícil não me terem visto. mesmo assim, decidiram que eu não seria merecedor da atenção deles. curiosamente, apenas 30 segundos depois, apareceu um grupo de teenagers, que se dirigiu ao balcão e, surpresa, foram imediatamente atendidas! uau! não é fantástico? como eu entendo, em casos como este, a personagem de michael douglas no filme "falling down". mas enfim, adiante. preferi ficar com a raiva toda cá dentro, que vai acumulando, acumulando, até um dia já não aguentar mais. se calhar até vai ser num caso muito menos "grave" do que este, como por exemplo um empregado de um café esquecer-se de me trazer o pacote de açúcar, mas esse é um risco que eu vou ter que correr (eu e todos os empregados de café deste país). e depois, eu estava com o meu filho. não queria que ele ficasse traumatizado para o resto da vida se eu saltasse o balcão e começasse a arrancar, uma por uma, as unhas das mãos dos tais funcionários.
eu gosto de passar por invisível, não quero que me abordem na rua, tento ser o mais "low profile" possível, mas caramba, também não é preciso exagerarem no desprezo. há dias, numa farmácia de viseu, antes de ser atendido, ouvi por diversas vezes os funcionários da mesma perguntarem aos clientes se já tinham o calendário da farmácia, dando a dois ou três deles o referido calendário. quando chegou a minha vez de ser atendido, esperei, obviamente, que, na mesma linha de orientação, também me fosse oferecido um calendário. não é pelo calendário em si, que provavelmente iria deixar em casa, em cima do frigorífico, ou no móvel de entrada, sem que alguma vez me servisse dele, mas pelo facto de o mesmo ter sido oferecido a todos os outros clientes da farmácia nos minutos que precederam o meu atendimento. muito bem, pedi os medicamentos, o senhor foi buscar, trouxe os medicamentos, pediu-me o nome para a factura, disse-me quanto era, paguei-lhe, deu-me o troco e... mais nada. "e o calendário?" - poderia ter perguntado, "toda a gente recebeu um antes de mim". não disse nada, obviamente, mas foi mais uma daquelas situações que servem para ir encurtando o espaço entre o rastilho e a dinamite. é que desta vez nem sequer foi um problema de invisibilidade. o homem viu-me, de facto, atendeu-me e tudo, mas achou que eu não era digno de levar para casa um calendário daquela farmácia. lá está, eu até já deveria estar habituado e este género de situações, tantas são as vezes que elas ocorrem. tenho cara de mau? devo ter. serei invisível? não creio, sinceramente, embora pareça que sou. tenho um problema de atitude? sim, tenho, mas um problema grave que não permite que eu reaja no instante em que as situações acontecem e reaja depois, umas semanas mais tarde, na porcaria deste blogue...

o filme mais chato de todos os tempos

confesso que continuo sem saber qual é o meu papel nesta grande produção chamada "vida". em virtude das minhas limitações, talvez não ouse almejar mais do que um papel secundário, daqueles sem direito sequer a uma linha no filme. é mais do que evidente, trinta e nove anos depois, que o filme está a ser rodado noutro lado qualquer, que a acção nunca há-de passar por estes lados. no máximo, aparecerei como aquele que é quase atropelado pelo autocarro no "speed", ou um dos escoceses que morrem ao lado de william wallace em "braveheart". nem terei direito ao meu dramático "freeedooom". limitar-me-ia a levar com uma seta no peito e a tombar, tal como centenas dos meus irmãos escoceses, nessa luta pela independência do jugo britânico.
há igualmente uma crescente preocupação em relação ao género do filme. comédia ou drama? porque se há alturas em que me sinto um jim carrey, em filmes como "yes" ou "ace ventura", há outras em que visto as roupas de um jack baker, em "the fabulous baker boys", ou de um miles raymond, em "sideways". ou seja, se eu fosse escolhido como actor principal desta grande produção, hesitaria bastante quando tivesse que escolher um dos registos. ainda não cheguei a nenhuma conclusão neste domínio. a minha vida daria uma comédia ou um drama? e, havendo um produtor completamente lunático disposto a levar a minha vida ao grande ecrã, quem entraria no meu filme? que momentos da minha vida seriam realçados? e teria cenas de acção frenéticas ou, pelo menos, uma perseguição de carro? um affair? um "love interest"? um homicídio passional? um iceberg? vampiros? um vírus mortal? provavelmente, teriam que incluir tudo isto no filme, para ficar minimamente apetecível gastar seis euros para o ver no cinema. se o filme fosse apenas baseado na minha vida seria um autêntico soporífero. seria uma espécie de "groundhog day", o filme em que bill murray é obrigado a reviver o mesmo dia... todos os dias, encontrando sempre as mesmas pessoas e passando constantemente pelas mesmas situações, mas com muito menos piada, obviamente. resultaria um "groundhog day" como se fosse realizado por manoel de oliveira, o que, ainda por cima, significaria que eu teria que arranjar um papel para o luís miguel cintra e para o ricardo trêpa (como se já não houvesse dezenas de personagens aborrecidas no "meu" filme).
como personagem principal do filme (do tal lunático e, sejamos francos, demente produtor), não cativaria nem apelaria a ninguém (provavelmente só aquela franja de espectadores que considera o filme "branca de neve", de joão césar monteiro, o melhor filme de sempre), tanto a nível psicológico, como físico. daí que, para tornar o filme um pouco mais interessante, tal como fiz há anos e na medida em que estamos a fazer cócegas à imaginação neste exercício especulativo que chega a roçar a pura imbecilidade, me permitam que vá buscar os seguintes atributos a algumas personagens masculinas:
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a eloquência e a destreza de gerard depardieu em "cyrano de bergerac"
- os dotes artísticos e o virtuosismo de geophrey rush em "shine"
- a inteligência e o discernimento de morgan freeman em "seven"
- ser sedutor como daniel day lewis em "a idade da inocência"
- a "pinta" do jeff bridges em "os fabulosos irmãos baker"
- o sex appeal de george clooney em "out of sight"
- o sentido de humor de woody allen em "annie hall"
- o charme natural de hugh grant em "notting hill"
- o cavalheirismo de clint eastwood em "as pontes de madison county"
- a paixão profissional de robin williams em "o clube dos poetas mortos"
- o carácter meticuloso de tim robbins em "shawshank redemption"
- o optimismo e altruísmo de roberto benigni em "a vida é bela"
- a integridade de paul giamatti em "sideways".
com tudo isto, nem o manoel de oliveira conseguiria estragar o filme da minha vida. a única coisa que o poderia fazer seria... o argumento.

os timings perfeitos

falha-se o momento, perde-se a oportunidade... e o mundo avança, sem piedade, sem contemplações. mais uma ruga, mais 134 cabelos brancos, mais uma colecção de frases que deveriam ter sido proferidas em determinado momento mas que só nos surgem horas depois. a vida é construída de pequenos nadas, em que até uma mera palavra, dita no momento exacto e com a respectiva eloquência, pode fazer toda a diferença, seja no emprego, na vida pessoal, familiar ou numa colectividade recreativa e social. até pode ser uma palavra tão simples como "sim", "não" ou "trombocitopenia". a questão é dizê-la quando realmente interessa, quando ela pode fazer toda a diferença. acumular sentimentos, remoer amarguras sem as extravasar, reviver momentos passados ao segundo, analisando todas as palavrinhas, vírgulas e pontos finais, é tão saudável como andar de bicicleta nas minas da panasqueira. por mais "programados" que estejamos para enfrentar determinado momento das nossas vidas, quando ele surge parece que o nosso cérebro ganhou uma aridez nunca antes vista. a lógica é a mesma de um hotel ter um dia semanal de descanso. não há nenhuma lógica que explique como é que se pode estar preparado para algo, às vezes com o diálogo já todo decorado e na ponta da língua, e depois, quando é realmente a valer, ficar petrificado e com as cordas vocais entrelaçadas. o momento está lá, os intervenientes também, mas a conversa programada dilui-se como o pó de uma saqueta de alka-seltzer num copo de água. no final, quando o nosso cérebro recupera do choque e já conseguimos processar novamente o argumento previamente estabelecido, apetece voltar a chamar a pessoa, ou pessoas, para, então, repetir o momento. mas este, quando se perde, nunca volta.
é o chamado "síndrome miles raymond" - quem viu o filme "sideways" sabe do que estou a falar. faz lembrar, também, um episódio de "seinfeld", em que george costanza é alvo de chacota no seu local de trabalho, por comer camarões em catadupa e de forma alarve ("hey george, the ocean called; they're running out of shrimp"). na altura, fica sem palavras, mas horas mais tarde lembra-se da resposta perfeita. nos dias seguintes, no escritório, tenta desesperadamente repetir a situação inicial, de forma a poder responder adequadamente ao comentário do seu colega de trabalho. obviamente, apesar de conseguir dizer o que tinha "engatilhado" há dias, o impacto não é o mesmo. os timings, nestas situações, são vitais.
george clooney, em "up in the air", é um homem solitário, habituado a viajar de um lado para o outro, sem residência fixa, sem amarras emocionais ou familiares. no entanto, quando começa a vacilar sentimentalmente, por vera farmiga, vai perdendo, sucessivamente, o momento exacto para "oficializar" o que sente, isto apesar de ela lhe dizer que "i am the woman that you don't have to worry about" (e mais tarde saberemos o que ela quis dizer com isto). quando eles se despedem, no aeroporto (where else?), depois de um fim de semana juntos, ela diz-lhe "call me when you're feeling lonely". enquanto ela se vai afastando, ele diz "i'm feeling lonely right now". mas que raio, se nem o george clooney consegue "sacar" um momento destes, que esperança temos nós, a ralé feiosa e totalmente desprovida de charme? mas confesso que gostei de ver, tanto em "500 days of summer" como em "up in the air", duas personagens femininas verdadeiramente independentes a nível emocional e de fortes convicções a nível sentimental: zooey deschanel e vera farmiga.
voltando à terra, cada um de nós é responsável pelos momentos que perde, por todas as frases que não chegou a dizer, pelos "amo-te" que não confessou, os "tens mau hálito", os "já ouviste falar em desodorizante?", ou os "raios me partam se esse decote não é das coisas mais sensuais que eu já vi na vida". em suma, por tudo o que ficou a entulhar o telencéfalo ao longo dos anos. seríamos mais felizes se tivéssemos dito tudo o que nos passou pela cabeça? nunca se saberá... mas, em todo o caso, os momentos já passaram e as oportunidades goraram-se. irreversivelmente.