não sei, se calhar fiz tudo mal. caramba, se nem no hi5 tenho "saída" o que me restará? é certo que fico com a distinção de ter sido o primeiro blogger a iniciar um post com as palavras "não sei", mas é nitidamente pouco para quem, nesta altura da vida, esperava já ter realizado pelo menos sete dos seus quatrocentos e vinte e oito sonhos. a vida é feita de círculos e de ciclos. temos determinado círculo de pessoas à nossa volta em determinado ciclo da nossa vida (e prometo que vou deixar de escrever a palavra "determinado"). passando esse ciclo, o círculo de pessoas desaparece. no fundo, são etapas de vida, camadas de experiência por que temos de passar, como tomar banho aquando do baptizado, com água fria, ainda por cima, aprender a andar de bicicleta e, consequentemente, aprender a não gritar quando a mãe nos coloca álcool nos joelhos esfolados, ir à escola, começar a namorar, ir à escola porque nos esquecemos lá do porta-lápis, a alegria de termos um quarto só para nós, a imposta responsabilidade de termos de o arrumar sozinhos, ir à escola porque nos esquecemos lá da namorada, ir para a universidade ou, transversalmente, para arrumador de carros, começar a trabalhar, casar, ter filhos, ir à escola porque nos esquecemos lá do filho, passar pela famosa crise de meia-idade, comprar um porsche, quando se pode, para disfarçar a crise da meia-idade, ser avô e, com sorte, bisavô e, finalmente, morrer. e o que fica desta vida? o raio do porta-lápis que ficou na escola.
sim, não há dúvidas que as pessoas que nos rodeiam são essenciais. imaginem o que seria passar a adolescência tendo como amigos de escola o cláudio ramos, o nuno eiró e o daniel nascimento. é claro que não podemos encomendar por catálogo as pessoas que queremos conhecer, caso contrário todas as mulheres escolheriam o george clooney ou o johnny depp e os homens optariam pela filha do nené ou pela betty grafstein. elas surgem de repente, caem de pára-quedas nas nossas vidas, sem pré-aviso que nos permita, ao menos, tomar banho antes. depois, como é natural, entra em campo o nosso rigoroso sistema selectivo, que faz com que fiquemos naturalmente com as pessoas com quem mais nos identificamos (ou que tenham seios grandes, é opcional) e deitemos fora as outras, as chatas, as inoportunas e as falsas (e as que nem de calças de licra bem apertadas fiquem minimamente atraentes). depois, quando nos dá para a introspecção, como num qualquer dia de aniversário, olhamos para trás e vemos que ainda nem levantamos a mesa do jantar. depois disso, continuamos a avaliar intensamente o nosso percurso ao longo de meia vida. afinal, segue-se a etapa da crise da meia-idade e eu não tenho dinheiro para um porsche, nem para um renault clio ou um smart. com sorte, consigo comprar um datsun 1200 de 1982 num sucateiro. a questão é esta: estarei devidamente preparado para esta crise? e ainda posso colocar mais algumas questões pertinentes, como estas: o que hei-de vestir? o que levo para comer? fará frio ou calor? conseguirei destrocar uma nota de 200 euros? não faço a mínima ideia de que forma vou enfrentar tudo isto.
o que é suposto eu fazer na minha crise de meia-idade? vestir-me como se tivesse 19 anos? fazer desportos radicais? ver os morangos com açúcar? andar na rua sempre com o mp3 a bombar nos ouvidos? visitar os pais só para poder sair disparado de casa deles a vociferar "nesta casa ninguém me entende"? não sei. só sei que por esta altura se começa, efectivamente, a ver o tempo fugir-nos e queremos aproveitar ao máximo tudo aquilo a que ainda temos direito. ontem, que diabo, até comi sushi. não quero morrer ignorante. "então meu amigo, gostou da vida que levou?", pergunta-me o s. pedro. "gostei, foi interessante", respondo-lhe eu. "experimentou tudo? plantar uma árvore? ser pai? sexo com gémeas polacas? tiramisu? por-do-sol na praia? sushi?", volta a perguntar o barbudo. "bolas, sushi, eu sabia que me faltava alguma coisa...". pois, era chato pedir ao homem para vir cá abaixo só para experimentar sushi. mas há ainda uma imensidão de coisas que ainda quero fazer, como ir à pesca. nunca fui mas sempre quero saber qual é a "pica" que se tira daquilo, do facto de se estar sentado largas horas com uma cana de pesca nas mãos. deve ser giro. ou talvez não. também gostava de ser comentador desportivo de voleibol de praia feminino. ou de ténis feminino. gostava de ir a itália, mas de avião nem pensar, só de comboio. gostava de ver ao vivo um jogo do campeonato inglês, se bem que isso seja praticamente impossível, só pedindo às equipas e aos adeptos para se deslocarem a portugal ou, vá, à espanha. ainda quero ver muitos concertos musicais, cantar ainda muitas vezes os parabéns aos meus pais e assistir ao crescimento dos meus filhos ao lado da minha mulher. são já vinte os anos ao seu lado, mais de metade da minha vida, em que a passagem do tempo apenas a tornou, ano após ano, ainda mais resplandecente aos meus olhos. tenho muitas dúvidas em relação a diversos aspectos do meu futuro, mas sei perfeitamente que nunca me vou cansar de olhar para ela. essa é a única certeza.
o futuro não me assusta. independentemente dos ciclos que aí venham, bons ou maus, conto com o apoio do meu círculo, nas alegrias e nas vitórias, nas tristezas e nas derrotas, e, essencialmente, para me ajudarem a encontrar as tais gémeas polacas...
sábado, agosto 30, 2008
sexta-feira, agosto 29, 2008
anos 90 (I)
"debonair", the afghan whigs, do disco "gentlemen", de 1993, interpretado ao vivo no late night with conan o'brien.
u.s. closed

ana ivanovic fez história ontem no u.s. open. foi a primeira número um mundial a perder na segunda ronda em 40 anos. julie coin, tenista francesa de 27 anos que ocupa a 188ª posição do ranking atp, venceu pelos parciais 6-3, 4-6 e 6-3. vinda de uma lesão, que a impossibilitou de marcar presença nos jogos olímpicos, a bela ana ivanovic bem poderia ter seguido os conselhos de marco fortes e ter ficado na caminha a descansar. mesmo assim, os americanos não ficaram muito desiludidos. um site americano escreveu mesmo: "it’s ok though because ana will live on at the open in our hearts and minds". à beleza desculpa-se tudo...
romântico incurável?

rui costa - ó mister, então qual é o avançado que quer?
quique flores - já não vem mesmo o luís garcia?
rui costa - é muito caro.
quique flores - e o saviola?
rui costa - também é muito caro.
quique flores - dios mio, mas então onde vamos arranjar um ponta de lança versátil?
rui costa - temos a hipótese de ir buscar o suazo, por empréstimo, ao inter de milão.
quique flores - quem é esse? jogou contra nós na taça eusébio?
rui costa - não. mas acho que esteve a aquecer por trás da baliza do quim. e pela forma como ele aqueceu deve ser muito bom.
quique flores - então pode ser esse.
rui costa - e há ainda outra faceta do jogador que lhe vai interessar de certeza...
quique flores - qual? joga bem de cabeça? remata forte de fora da área? faz bons cruzamentos?
rui costa - nada disso. ele é um romântico incurável...
quique flores - vamos já lá buscar o homem então.
too much californication

david duchovny, actor das séries "x-files" e "californication", entrou recentemente numa clínica de reabilitação devido ao seu vício por sexo. o advogado stanton "larry" stein, divulgou à imprensa o comunicado do actor, onde este afirma que foi de forma voluntária que decidiu sujeitar-se ao tratamento, pedindo respeito e privacidade para a sua esposa, a actriz téa leoni, e filhos, enquanto lidam com a situação como uma família.
david duchovny, de 48 anos, está casado com téa leoni há 10 anos e têm dois filhos, madelaine, de 9 anos, e kyd, de 6.
tendo em conta o papel que interpreta em "californication", o escritor hank moody, parece que a personagem lhe subiu à cabeça...
quinta-feira, agosto 28, 2008
sorteio da liga dos campeões
liga dos campeões 2008/2009
- constituição dos grupos
Grupo A:
Chelsea (ING); Roma (ITA); Bordéus (FRA); Cluj (ROM)
Grupo B:
Inter Milão (ITA); Werder Bremen (ALE); Panathinaikos (GRE); Anorthosis (CHP)
Grupo C:
Barcelona (ESP); Sporting (POR); Basileia (SUI); Shakhtar (UCR)
Grupo D:
Liverpool (ING); PSV (HOL); Marselha (FRA); Atlético Madrid (ESP)
Grupo E:
Manchester United (ING); Villarreal (ESP); Celtic (ESC); Aalborg (DIN)
Grupo F:
Lyon (FRA); Bayern (ALE); Steaua (ROM); Fiorentina (ITA)
Grupo G:
Arsenal (ING); FC Porto (POR); Fenerbahçe (TUR); Dínamo Kiev (UCR)
Grupo H:
Real Madrid (ESP); Juventus (ITA); Zenit (RUS); BATE Borisov (BIE)
à primeira vista, o grupo D será o mais equilibrado, com liverpool, marselha, psv e atlético de madrid. logo a seguir, nesta matéria, vem o grupo F, com lyon, bayern, steaua e fiorentina. o chelsea, de scolari, vai enfrentar a roma, o bordéus e a "catrefada" de portugueses que jogam no cluj, da roménia. o inter, de josé mourinho, um dos grandes candidatos, enfrentará o werder bremen, o panathinaikos e o anorthosis, do chipre. real madrid e juventus vão proporcionar, no grupo H, o primeiro grande embate de "gigantes" na fase de grupos. o zenit e a sensação bate borisov, da bielorússia, fecham o grupo.
sporting e fc porto nem se podem queixar muito da sorte, se bem que os portistas tenham um grupo mais difícil, com arsenal, que dispensa comentários, o fenerbahçe, treinado por luis aragonés, campeão da europa no euro 2008, e o sempre complicado dinamo kiev. o sporting fez ontem em madrid o ensaio geral, péssimo por sinal, para enfrentar o barcelona, um dos mais sérios candidatos ao troféu. as duas restantes equipas do grupo são, em teoria, acessíveis: o basileia, que os leões eliminaram no ano anterior na taça uefa e que, ontem, eliminaram o vitória de guimarães, e o shakhtar, da ucrânia.
- constituição dos grupos
Grupo A:
Chelsea (ING); Roma (ITA); Bordéus (FRA); Cluj (ROM)
Grupo B:
Inter Milão (ITA); Werder Bremen (ALE); Panathinaikos (GRE); Anorthosis (CHP)
Grupo C:
Barcelona (ESP); Sporting (POR); Basileia (SUI); Shakhtar (UCR)
Grupo D:
Liverpool (ING); PSV (HOL); Marselha (FRA); Atlético Madrid (ESP)
Grupo E:
Manchester United (ING); Villarreal (ESP); Celtic (ESC); Aalborg (DIN)
Grupo F:
Lyon (FRA); Bayern (ALE); Steaua (ROM); Fiorentina (ITA)
Grupo G:
Arsenal (ING); FC Porto (POR); Fenerbahçe (TUR); Dínamo Kiev (UCR)
Grupo H:
Real Madrid (ESP); Juventus (ITA); Zenit (RUS); BATE Borisov (BIE)
à primeira vista, o grupo D será o mais equilibrado, com liverpool, marselha, psv e atlético de madrid. logo a seguir, nesta matéria, vem o grupo F, com lyon, bayern, steaua e fiorentina. o chelsea, de scolari, vai enfrentar a roma, o bordéus e a "catrefada" de portugueses que jogam no cluj, da roménia. o inter, de josé mourinho, um dos grandes candidatos, enfrentará o werder bremen, o panathinaikos e o anorthosis, do chipre. real madrid e juventus vão proporcionar, no grupo H, o primeiro grande embate de "gigantes" na fase de grupos. o zenit e a sensação bate borisov, da bielorússia, fecham o grupo.
sporting e fc porto nem se podem queixar muito da sorte, se bem que os portistas tenham um grupo mais difícil, com arsenal, que dispensa comentários, o fenerbahçe, treinado por luis aragonés, campeão da europa no euro 2008, e o sempre complicado dinamo kiev. o sporting fez ontem em madrid o ensaio geral, péssimo por sinal, para enfrentar o barcelona, um dos mais sérios candidatos ao troféu. as duas restantes equipas do grupo são, em teoria, acessíveis: o basileia, que os leões eliminaram no ano anterior na taça uefa e que, ontem, eliminaram o vitória de guimarães, e o shakhtar, da ucrânia.
quarta-feira, agosto 27, 2008
real madrid - sporting II
ena, na segunda parte ganhamos 2-0... resultado final: 5-3.
algumas observações:
decididamente, hélder postiga nunca deveria ter seguido uma carreira de futebolista; romagnoli continua inconsequente e raramente toma a iniciativa e a responsabilidade de rematar à baliza; continuo sem saber se rochemback é precioso ou nocivo para o sporting; caneira lá prosseguiu o seu calvário, agora a defesa esquerdo, escondendo-se tanto do jogo que só aos 77 minutos dei por ele, quando ao tentar passar a bola a um colega de equipa a atirou, infantilmente, para fora; joão moutinho, para mim, não devia voltar a vestir a camisola do sporting, por isso nem devia ter jogado; adrien, em vez de amadurecer, parece que está cada vez mais "verde" e imaturo; por que raio não jogou vukcevic? é "apenas" um dos melhores jogadores do plantel! paulo bento implicou com o montenegrino, à imagem do que sucedeu com stojkovic, e agora temos que recorrer a pereirinhas, adriens, tiuís e postigas. enfim... quem não consegue resolver os problemas dentro do balneário, impondo respeito e fazendo-se respeitar, nunca consegue ir muito longe como treinador. basta comparar a atitude do técnico nos casos de stojkovic e vukcevic com aquela que evidenciou, e continua a evidenciar, no caso de joão moutinho.
aspectos positivos? houve alguns. abel e tonel demonstraram que estão em boa forma; izmailov é, cada vez mais, a "estrela da companhia", defendendo, atacando, rematando, sempre em alta rotação; e yannick djaló. admito que já embirrei solenemente com ele, às vezes tem falhas próprias de um juvenil, seja na recepção da bola ou no passe, mas, não havendo liedson ainda, tem sido djaló a resolver. e tem marcado quase sempre. vamos lá ver se paulo bento não se incompatibiliza com ele... nunca se sabe...
algumas observações:
decididamente, hélder postiga nunca deveria ter seguido uma carreira de futebolista; romagnoli continua inconsequente e raramente toma a iniciativa e a responsabilidade de rematar à baliza; continuo sem saber se rochemback é precioso ou nocivo para o sporting; caneira lá prosseguiu o seu calvário, agora a defesa esquerdo, escondendo-se tanto do jogo que só aos 77 minutos dei por ele, quando ao tentar passar a bola a um colega de equipa a atirou, infantilmente, para fora; joão moutinho, para mim, não devia voltar a vestir a camisola do sporting, por isso nem devia ter jogado; adrien, em vez de amadurecer, parece que está cada vez mais "verde" e imaturo; por que raio não jogou vukcevic? é "apenas" um dos melhores jogadores do plantel! paulo bento implicou com o montenegrino, à imagem do que sucedeu com stojkovic, e agora temos que recorrer a pereirinhas, adriens, tiuís e postigas. enfim... quem não consegue resolver os problemas dentro do balneário, impondo respeito e fazendo-se respeitar, nunca consegue ir muito longe como treinador. basta comparar a atitude do técnico nos casos de stojkovic e vukcevic com aquela que evidenciou, e continua a evidenciar, no caso de joão moutinho.
aspectos positivos? houve alguns. abel e tonel demonstraram que estão em boa forma; izmailov é, cada vez mais, a "estrela da companhia", defendendo, atacando, rematando, sempre em alta rotação; e yannick djaló. admito que já embirrei solenemente com ele, às vezes tem falhas próprias de um juvenil, seja na recepção da bola ou no passe, mas, não havendo liedson ainda, tem sido djaló a resolver. e tem marcado quase sempre. vamos lá ver se paulo bento não se incompatibiliza com ele... nunca se sabe...
real madrid - sporting
o jogo está no intervalo. resultado: 5-1.
algumas observações:
será pedro silva o pior jogador de futebol do mundo? bem, chamar-lhe "jogador de futebol" já é muito; miguel veloso sabe que está a jogar? alguém lhe disse? o que estão lá a fazer tiuí e postiga? para fazerem número de maneira a serem onze de cada lado? será que caneira nunca vai encontrar uma posição no terreno onde renda, efectivamente, alguma coisa? a forma como é "comido" por higuain no primeiro golo do jogo é de principiante; ronny saberá que pode tentar roubar a bola aos adversários em vez de lhes estender uma passadeira vermelha para eles passarem?
enfim, vamos ver se o resultado final não será uma hecatombe ainda maior do que a registada ao intervalo. a figura que estamos a fazer neste troféu de prestígio é má demais para ser verdade.
algumas observações:
será pedro silva o pior jogador de futebol do mundo? bem, chamar-lhe "jogador de futebol" já é muito; miguel veloso sabe que está a jogar? alguém lhe disse? o que estão lá a fazer tiuí e postiga? para fazerem número de maneira a serem onze de cada lado? será que caneira nunca vai encontrar uma posição no terreno onde renda, efectivamente, alguma coisa? a forma como é "comido" por higuain no primeiro golo do jogo é de principiante; ronny saberá que pode tentar roubar a bola aos adversários em vez de lhes estender uma passadeira vermelha para eles passarem?
enfim, vamos ver se o resultado final não será uma hecatombe ainda maior do que a registada ao intervalo. a figura que estamos a fazer neste troféu de prestígio é má demais para ser verdade.
2ª temporada de "californication"
a estreia da 2ª temporada de "californication", nos estados unidos da américa, está marcada para o dia 28 de setembro. vamos ver se não demora muito tempo a chegar a portugal. e, já agora, para quando o lançamento em dvd da 1ª série em território nacional? já tenho o dinheiro guardado desde julho para a comprar. se demorar muito ainda gasto tudo em gelados. por falar em lançamentos em dvd, em setembro vão ser lançadas algumas coisas interessantes. a saber: "joey" - 2ª temporada, no dia 11 de setembro; "prison break" - 3ª temporada, no dia 25 de setembro; e, principalmente, "entourage" - 4ª temporada, no dia 18 de setembro. lá vou ter que começar a juntar dinheiro outra vez.
terça-feira, agosto 26, 2008
26-08-1988

já foi há 20 anos...
carlos paião faleceu no dia de anos do meu avô, num acidente de viação em rio maior, quando se dirigia para um concerto integrado nas festas da vila de penalva do castelo, precisamente a terra do meu avô. era uma figura simpática, divertida, cheia de sentido de humor e criatividade, sem recorrer ao vernáculo e à verborreia popularucha, que tanto prolifera hoje na chamada música popular portuguesa (vulgo "pimba"). ao longo dos últimos 20 anos não apareceu ninguém no nosso panorama musical com as características e as qualidades de paião, o que constitui mais um forte motivo para o recordar. músicas como "souvenir", "play back", "pó de arroz", "vinho do porto", "o foguete", "meia dúzia", "cinderela" ou "versos de amor" marcam de uma forma indelével a infelizmente curta carreira do cantor. já lá vão 20 anos mas, de 1988 até hoje, não houve um único 26 de agosto em que não me tenha lembrado de carlos paião, pelo seu trágico desaparecimento, pelo sentido de humor, simpatia e boa disposição que dele irradiavam e, também, porque ficou "agrafado" sentimentalmente ao dia de aniversário do meu avô.
segunda-feira, agosto 25, 2008
capítulo IX
capítulo IX
os dias seguintes foram de tédio absoluto. o andré tinha ido de férias, com uma namorada recente, a verónica, para itália. eu tinha a casa só para mim e tempo para construir um navio, mas não me apetecia fazer nada. só tinha a sofia na cabeça, um pensamento tão vívido e tão forte que até me tolhia os movimentos. os dias de trabalho, a quinze dias de ir de férias, sucediam-se, sem nenhuma ponta de interesse. dias houve em que "despachei" a garrafa de vodka toda e, mesmo assim, as coisas não melhoraram. faltava-me lá o andré para a "galhofa", para nos rirmos de toda e qualquer situação, mesmo as mais normais possíveis. os meus outros colegas da repartição eram chatos como tudo, tinham uma cultura geral abaixo de cão, limitando-se a repetir durante todo o santo dia as anedotas que tinham ouvido na noite anterior nos "malucos do riso" ou nos "batanetes". eu devia olhar para o relógio umas duzentas vezes por dia, tal era a vontade de sair dali. atender as pessoas ainda era o mais insuportável, digamos que era bem o exemplo de um funcionário do estado: mal encarado, antipático e pouco prestável. ficava as tardes todas a pensar no que haveria de fazer quando saísse daquela "prisão" e, quando finalmente saía, metia-me em casa, sem coragem nem iniciativa para fazer fosse o que fosse. limitava-me a ficar no sofá, com o comando da televisão na mão, a mudar de canal. no dia seguinte, mais uma gigantesca dose de neura no trabalho. sempre, mas sempre, com a sofia na cabeça. angustiava-me a incerteza de um novo encontro, a minha cobardia e impotência para lhe pedir um número, uma morada, o que quer que fosse que a mantivesse ligada a mim. estávamos em agosto, ela estava certamente de férias, sabe-se lá onde. e eu aqui, "amordaçado", em lisboa, que parecia vazia, sem alma e também ela de férias.
os dias foram passando, sempre da mesma forma, até eu sentir uma enorme necessidade de falar com alguém, de algum calor humano, compaixão, ternura... ir a uma festa ou sair sem o andré era mentira, ainda não me sentia preparado para enfrentar uma multidão sozinho. mas dei o primeiro passo, que era vital, para estancar aquela monotonia: meti-me no carro, depois de jantar, e vagueei sem destino. para mim já era uma grande passo, aventurar-me sozinho na noite, sem "muletas", sem paternalismos de qualquer espécie. acabei por ir ao colombo tomar café, fazendo questão de escolher a mesma mesa onde estive com a sofia. desta vez tomei mesmo o café, seguindo depois para uma inconsequente excursão pelas montras. sentia-me tão sozinho, tão desamparado, que cheguei a pensar em ligar à sónia, que ainda estava por lisboa. mas o marco não iria compreender. depois pensei na paula, a fogosa mulher do césar cardoso, tal era o desespero. saí do colombo e passei por casa dela, de carro. não sei o que é que eu pensava encontrar indo lá. a paula à porta de casa, em lingerie, a fazer-me sinal com o dedo para eu entrar? um sinal gigante em neón a dizer "o meu marido saiu em negócios, só volta para a semana"? não sei o que me motivou a ir ali, à procura de algo que a paula, manifestamente, não me poderia voltar a dar. já tinha sido um grande risco da outra vez, ainda acabaria por lhe estragar a vida. por isso afastei-me do local, em direcção... ao vazio. ainda não me tinha sentido assim tão sozinho desde o meu divórcio. sentia-me mal e angustiado mas recusava-me a assumir a derrota daquela noite. continuei a conduzir, pela noite dentro.
estava uma noite quente, quase sem vento, e eu tinha os vidros abertos. parei num sinal vermelho e, do meu lado direito, vi três prostitutas, o que até era normal ver quando saía com o andré. de roupas minúsculas, maquilhagem a mais e... ao alcance de qualquer pessoa. uma delas disse bem alto "30 euros, uma hora". a minha primeira reacção foi de profunda censura e até de algum nojo. sempre tinha reprovado o conceito de alguém "alugar" o corpo por alguns minutos a troco de dinheiro. quando o sinal verde abriu, suspirei de alívio. mas, à medida que o tempo ia passando, e a frase "30 euros, uma hora" não deixava de ecoar na minha cabeça, começou a instalar-se uma forte curiosidade e uma vontade de experimentar algo que nunca tinha vivido. sim, tinha noção de que era o "último recurso", mas se houve noite, em toda a minha existência, em que eu não queria regressar sozinho para casa foi aquela. voltei a passar por lá e encostei. lentamente, uma delas foi-se aproximando do carro. era feia como tudo e, sinceramente, creio ter visto um proeminente buço nos cantos da sua boca quando proferia, vezes sem conta, o "famoso" chavão "30 euros, uma hora". como não estava minimamente preparado para tanta falta de beleza, disse à prostituta que não estava interessado e pedi-lhe para chamar uma outra sua colega de profissão. ela reagiu mal e, no mais estridente sotaque brasileiro, lá foi perguntando se aquilo era algum "rodízio de putas". depois de me mandar para a "puta qui ti pariu" e de se afastar, aproximou-se uma das outras duas. sotaque ucraniano, ou de algum país de leste, sem buço, olhos azuis e cabelos louros, curtos. chamava-se natasha e praticava os mesmos preços da sua colega do rodízio. disse-lhe para entrar no carro, ao que ela prontamente acedeu. pelo caminho, fiz-lhe perguntas sobre as "condições" do nosso pequeno contrato, nomeadamente se a poderia levar para casa. ela, em mau português, disse que podia ser onde eu quisesse, desde que lhe pagasse o táxi para regressar. já era tarde quando entrei em casa com a natasha. creio que nenhum vizinho nos viu a entrar; se vissem facilmente chegariam à conclusão de que ela era uma prostituta, tal a forma como estava vestida. mal chegamos ao quarto, ela começou imediatamente a despir-se, o que demorou uns meros trinta segundos, dada a quantidade, ou a falta dela, de roupa que tinha vestida. perguntou-me onde era a casa de banho e se eu me queria lavar primeiro. eu concordava com tudo naquela altura, sentia-me bem por estar com alguém, mesmo que esse alguém fosse uma pessoa que não percebia quase nada do que eu dizia. quando regressamos ao quarto, ela pediu-me o dinheiro e disse que eu tinha uma hora. de repente, sentia-me uma criança a quem os pais deram 500 escudos para andar nos carrinhos de choque na feira popular. paguei à natasha, ela arrumou o dinheiro na carteira e deitou-se na cama.
uma hora depois, chamei-lhe um táxi por telefone. a minha solitária saída nocturna tinha acabado por me custar algum dinheiro, mas, no final, ficou um certo sabor a vitória, mesmo que tenha sido alcançada com um "golo irregular". o mais importante foi não ter ficado sozinho, mesmo que tenha pago pela companhia. a natasha tinha acabado de me "desvirginar".
os dias seguintes foram de tédio absoluto. o andré tinha ido de férias, com uma namorada recente, a verónica, para itália. eu tinha a casa só para mim e tempo para construir um navio, mas não me apetecia fazer nada. só tinha a sofia na cabeça, um pensamento tão vívido e tão forte que até me tolhia os movimentos. os dias de trabalho, a quinze dias de ir de férias, sucediam-se, sem nenhuma ponta de interesse. dias houve em que "despachei" a garrafa de vodka toda e, mesmo assim, as coisas não melhoraram. faltava-me lá o andré para a "galhofa", para nos rirmos de toda e qualquer situação, mesmo as mais normais possíveis. os meus outros colegas da repartição eram chatos como tudo, tinham uma cultura geral abaixo de cão, limitando-se a repetir durante todo o santo dia as anedotas que tinham ouvido na noite anterior nos "malucos do riso" ou nos "batanetes". eu devia olhar para o relógio umas duzentas vezes por dia, tal era a vontade de sair dali. atender as pessoas ainda era o mais insuportável, digamos que era bem o exemplo de um funcionário do estado: mal encarado, antipático e pouco prestável. ficava as tardes todas a pensar no que haveria de fazer quando saísse daquela "prisão" e, quando finalmente saía, metia-me em casa, sem coragem nem iniciativa para fazer fosse o que fosse. limitava-me a ficar no sofá, com o comando da televisão na mão, a mudar de canal. no dia seguinte, mais uma gigantesca dose de neura no trabalho. sempre, mas sempre, com a sofia na cabeça. angustiava-me a incerteza de um novo encontro, a minha cobardia e impotência para lhe pedir um número, uma morada, o que quer que fosse que a mantivesse ligada a mim. estávamos em agosto, ela estava certamente de férias, sabe-se lá onde. e eu aqui, "amordaçado", em lisboa, que parecia vazia, sem alma e também ela de férias.
os dias foram passando, sempre da mesma forma, até eu sentir uma enorme necessidade de falar com alguém, de algum calor humano, compaixão, ternura... ir a uma festa ou sair sem o andré era mentira, ainda não me sentia preparado para enfrentar uma multidão sozinho. mas dei o primeiro passo, que era vital, para estancar aquela monotonia: meti-me no carro, depois de jantar, e vagueei sem destino. para mim já era uma grande passo, aventurar-me sozinho na noite, sem "muletas", sem paternalismos de qualquer espécie. acabei por ir ao colombo tomar café, fazendo questão de escolher a mesma mesa onde estive com a sofia. desta vez tomei mesmo o café, seguindo depois para uma inconsequente excursão pelas montras. sentia-me tão sozinho, tão desamparado, que cheguei a pensar em ligar à sónia, que ainda estava por lisboa. mas o marco não iria compreender. depois pensei na paula, a fogosa mulher do césar cardoso, tal era o desespero. saí do colombo e passei por casa dela, de carro. não sei o que é que eu pensava encontrar indo lá. a paula à porta de casa, em lingerie, a fazer-me sinal com o dedo para eu entrar? um sinal gigante em neón a dizer "o meu marido saiu em negócios, só volta para a semana"? não sei o que me motivou a ir ali, à procura de algo que a paula, manifestamente, não me poderia voltar a dar. já tinha sido um grande risco da outra vez, ainda acabaria por lhe estragar a vida. por isso afastei-me do local, em direcção... ao vazio. ainda não me tinha sentido assim tão sozinho desde o meu divórcio. sentia-me mal e angustiado mas recusava-me a assumir a derrota daquela noite. continuei a conduzir, pela noite dentro.
estava uma noite quente, quase sem vento, e eu tinha os vidros abertos. parei num sinal vermelho e, do meu lado direito, vi três prostitutas, o que até era normal ver quando saía com o andré. de roupas minúsculas, maquilhagem a mais e... ao alcance de qualquer pessoa. uma delas disse bem alto "30 euros, uma hora". a minha primeira reacção foi de profunda censura e até de algum nojo. sempre tinha reprovado o conceito de alguém "alugar" o corpo por alguns minutos a troco de dinheiro. quando o sinal verde abriu, suspirei de alívio. mas, à medida que o tempo ia passando, e a frase "30 euros, uma hora" não deixava de ecoar na minha cabeça, começou a instalar-se uma forte curiosidade e uma vontade de experimentar algo que nunca tinha vivido. sim, tinha noção de que era o "último recurso", mas se houve noite, em toda a minha existência, em que eu não queria regressar sozinho para casa foi aquela. voltei a passar por lá e encostei. lentamente, uma delas foi-se aproximando do carro. era feia como tudo e, sinceramente, creio ter visto um proeminente buço nos cantos da sua boca quando proferia, vezes sem conta, o "famoso" chavão "30 euros, uma hora". como não estava minimamente preparado para tanta falta de beleza, disse à prostituta que não estava interessado e pedi-lhe para chamar uma outra sua colega de profissão. ela reagiu mal e, no mais estridente sotaque brasileiro, lá foi perguntando se aquilo era algum "rodízio de putas". depois de me mandar para a "puta qui ti pariu" e de se afastar, aproximou-se uma das outras duas. sotaque ucraniano, ou de algum país de leste, sem buço, olhos azuis e cabelos louros, curtos. chamava-se natasha e praticava os mesmos preços da sua colega do rodízio. disse-lhe para entrar no carro, ao que ela prontamente acedeu. pelo caminho, fiz-lhe perguntas sobre as "condições" do nosso pequeno contrato, nomeadamente se a poderia levar para casa. ela, em mau português, disse que podia ser onde eu quisesse, desde que lhe pagasse o táxi para regressar. já era tarde quando entrei em casa com a natasha. creio que nenhum vizinho nos viu a entrar; se vissem facilmente chegariam à conclusão de que ela era uma prostituta, tal a forma como estava vestida. mal chegamos ao quarto, ela começou imediatamente a despir-se, o que demorou uns meros trinta segundos, dada a quantidade, ou a falta dela, de roupa que tinha vestida. perguntou-me onde era a casa de banho e se eu me queria lavar primeiro. eu concordava com tudo naquela altura, sentia-me bem por estar com alguém, mesmo que esse alguém fosse uma pessoa que não percebia quase nada do que eu dizia. quando regressamos ao quarto, ela pediu-me o dinheiro e disse que eu tinha uma hora. de repente, sentia-me uma criança a quem os pais deram 500 escudos para andar nos carrinhos de choque na feira popular. paguei à natasha, ela arrumou o dinheiro na carteira e deitou-se na cama.
uma hora depois, chamei-lhe um táxi por telefone. a minha solitária saída nocturna tinha acabado por me custar algum dinheiro, mas, no final, ficou um certo sabor a vitória, mesmo que tenha sido alcançada com um "golo irregular". o mais importante foi não ter ficado sozinho, mesmo que tenha pago pela companhia. a natasha tinha acabado de me "desvirginar".
o "intocável"

a liga sagres começou este fim de semana mas já deu para ver que há um jogador, à semelhança do que acontecia no ano anterior com rui costa, que é praticamente intocável. se ele cai, é falta. se ele perde a bola, é falta. se ele escorrega numa casca de banana, é falta. se ele espirra, é falta. chegou a ser ridícula a forma como o árbitro do jogo rio ave - benfica "protegia" o seu menino, só faltando pegar-lhe ao colo. o referido jogador, se é que ainda não o identificaram, veio como o "salvador da pátria", criou um autêntico foletim privado num dos principais jornais desportivos nacionais, com repetidas manchetes de "é hoje", "está para breve", "já vem a caminho", "parou apenas para almoçar na mealhada", fui apontado como o substituto natural de rui costa (epíteto que se comprova agora, mas na referida "protecção"), e afinal, meia dúzia de jogos realizados, sempre a titular e jogando quase sempre os 90 minutos e... nada. nicles. zero. ou será que foi contratado apenas com o intuito de "cavar" faltas junto às grandes áreas adversárias? e, ou muito me engano, ou reyes vai pelo mesmo caminho. são "estrelas", daquelas que toda a gente é unânime em considerar que trazem prestígio e qualidade ao campeonato português. como o foram pizzi, esnaider, skurahvy, missé-missé... o argentino pablo aimar (sim, é ele o "intocável), que desceu com o saragoça na época passada, a jogar assim, ainda vai fazer com que rui costa mude de ideias e regresse aos relvados ainda esta época.
sábado, agosto 23, 2008
luta (demasiadamente) livre

a senhora que está por cima chama-se wang jiao, é chinesa e venceu a medalha de ouro, no passado dia 17 de agosto, na categoria até 72 kg da luta livre nos jogos olímpicos de pequim. a infeliz senhora que está por baixo chama-se ali bernard, é americana e ganhou, no combate com jiao, um exame rectal totalmente grátis.
quinta-feira, agosto 21, 2008
palo santo - shearwater
shearwater, com apenas dois elementos, jonathan meiburg e thor harris, a interpretar o tema "palo santo", do disco com o mesmo nome, quarto da banda, datado de 2006.
quarta-feira, agosto 20, 2008
o que se ouve por cá

"rook", dos shearwater. quinto disco da banda de austin, texas, formada em 1999, por jonathan meiburg e will sheff, quando ambos integravam a banda okkervil river. actualmente, dos shearwater fazem parte meiburg, kimberly burke e thor harris.
aqui ficam algumas palavras acerca deste disco:
"the band creates an immense sonic wave of their own, crashing with soaring levels of volume and distortion, mimicking the physical devastation, yet with a powerful melodic beauty" (...) that the album lasts a mere 35 minutes is for the best, as it might be difficult to endure such an emotional toll for far longer. still, every note and every word of those 35 minutes is so meticulously plucked, sung and crafted that it's nearly flawless in its execution, but dark enough to haunt long after the music has stopped" - aqui.
o site treblezine.com refere como "similar albums" três excelentes discos: "spirit of eden", dos talk talk (a voz do vocalista dos shearwater, jonathan meiburg, é mesmo muito parecida com a de mark hollis dos talk talk, com laivos de antony hegarty pelo meio), "amnesiac", dos radiohead, e "boxer", dos the national.
"hollis acolytes or not, these are hardly song-sketches; all of them are careful compositions adding new instruments, moods, and sounds around the anchor of meiburg's voice. the edges of these otherwise lulling, hypnotic songs hint at danger and chaos (...) as impressive and uniformly gorgeous a record as Rook is, the band's best work is likely still to come" - aqui.
"most of the album tracks marry meiburg's high vocal register with classical instrumentation, though this is no pretty chamber pop. there's always a sense of greater ambition at play here: whether it's through meiburg stretching his extraordinary voice to its upper limits, or through the refusal to play the verse-chorus game, or through the intention to milk every moment for maximum drama" - aqui.
"this fifth album from jonathan meiburg’s okkervil river off-shoot is a masterpiece of melodramatic, string and piano-based prog-folk, like the precocious child of antony hegarty and joni mitchell fronting latterday talk talk on a soundtrack to ‘night of the hunter" - aqui.
para já, concordo com tudo o que foi transcrito. o espírito dos talk talk, especialmente dos discos "laughing stock" e "spirit of eden", renasceu com os shearwater. pura perfeição!
aqui ficam algumas palavras acerca deste disco:
"the band creates an immense sonic wave of their own, crashing with soaring levels of volume and distortion, mimicking the physical devastation, yet with a powerful melodic beauty" (...) that the album lasts a mere 35 minutes is for the best, as it might be difficult to endure such an emotional toll for far longer. still, every note and every word of those 35 minutes is so meticulously plucked, sung and crafted that it's nearly flawless in its execution, but dark enough to haunt long after the music has stopped" - aqui.
o site treblezine.com refere como "similar albums" três excelentes discos: "spirit of eden", dos talk talk (a voz do vocalista dos shearwater, jonathan meiburg, é mesmo muito parecida com a de mark hollis dos talk talk, com laivos de antony hegarty pelo meio), "amnesiac", dos radiohead, e "boxer", dos the national.
"hollis acolytes or not, these are hardly song-sketches; all of them are careful compositions adding new instruments, moods, and sounds around the anchor of meiburg's voice. the edges of these otherwise lulling, hypnotic songs hint at danger and chaos (...) as impressive and uniformly gorgeous a record as Rook is, the band's best work is likely still to come" - aqui.
"most of the album tracks marry meiburg's high vocal register with classical instrumentation, though this is no pretty chamber pop. there's always a sense of greater ambition at play here: whether it's through meiburg stretching his extraordinary voice to its upper limits, or through the refusal to play the verse-chorus game, or through the intention to milk every moment for maximum drama" - aqui.
"this fifth album from jonathan meiburg’s okkervil river off-shoot is a masterpiece of melodramatic, string and piano-based prog-folk, like the precocious child of antony hegarty and joni mitchell fronting latterday talk talk on a soundtrack to ‘night of the hunter" - aqui.
para já, concordo com tudo o que foi transcrito. o espírito dos talk talk, especialmente dos discos "laughing stock" e "spirit of eden", renasceu com os shearwater. pura perfeição!
sábado, agosto 16, 2008
supertaça
como sportinguista, devo agradecer a jesualdo ferreira os consecutivos erros tácticos sempre que joga contra o sporting, como por exemplo a colocação de joão paulo a defesa esquerdo na final da taça de portugal e, hoje, a estranha troca de lisandro por farias na frente de ataque. ah, e por não ter convocado quaresma. e, já agora, por ter preferido sapunaru a fucile para defesa direito (que grande ajuda nos deu o romeno no segundo golo, onde foi mais preponderante do que... djaló). e já que estamos a falar no assunto, ainda tenho que lhe agradecer a inclusão do macio guarin no meio campo e do inconsequente benitez no lugar de defesa esquerdo (ao pé do argentino, marek cech até parece um grande jogador). ah, e por último, por ter metido candeias. jesualdo só "errou" num aspecto: devia ter metido hulk mais cedo, porque o tipo joga sozinho, não passa a bola a ninguém. imagino a quantidade de problemas que vai arranjar no balneário portista.
no sporting, no meu entender, está a despontar um grande jogador, que correu quilómetros, atacou, defendeu, rematou e foi extremamente influente: izmailov. fez o que quis do pobre sapunaru, ajudou bastante caneira a cobrir o flanco esquerdo, recuou no terreno para acompanhar lucho gonzalez (indiscutivelmente, o melhor jogador do fc porto e um dos melhores jogadores de sempre a jogar em portugal), fez a ligação defesa/ataque, transportando o jogo até aos avançados. o sporting teve a atitude certa ao apostar na compra do passe do jogador russo. de resto, polga e tonel (tirando os constante alívios para a bancada deste último) estiveram bem a segurar farias e lisandro, abel perdeu muitos poucos lances para rodriguez (que tinha feito uma exibição de gala na primeira parte contra a lazio no passado domingo), caneira continua a ser o mesmo "pão sem sal", aquele tipo de jogador que nem aquece nem arrefece, limitando-se a defender a sua zona, sem rasgos ou brilho. hoje até cometeu um penalty infantil e tudo. onde raio estava o grimi, que até tinha sido o melhor em campo contra a sampdoria? rui patrício, que dizer!? logo nas suas primeiras intervenções na primeira parte, sobretudo quando lhe atrasavam as bolas, deixou ficar a sensação de que o sporting nunca na vida seria campeão com um guarda-redes destes, tão inseguro e incapaz de transmitir confiança à sua defesa. mas depois faz uma segunda parte de sonho e... já não sei o que pensar. as alternativas também não me parecem muito melhores. no meio campo, moutinho fez de miguel veloso (se bem que o lugar seja mesmo deste último); romagnoli lá conseguiu mais uma vez passar ao lado do jogo, até parece que joga sempre de pantufas, para não fazer muito barulho e chamar as atenções para si; rochemback foi importantíssimo no meio campo, estancando as iniciativas atacantes do adversário e fazendo uma pressão constante ao homem que conduzia a bola; izmailov foi "apenas" o melhor jogador em campo. na frente, derlei e djaló, que, para já, parecem constituir a melhor dupla possível. postiga nem assusta para já e tiuí muito menos. quando vierem liedson e vukcevic, logo se vê quem sai. a principal dificuldade vai ser no meio campo. se miguel veloso jogar a trinco, restam 3 posições. rochemback e moutinho têm lugar cativo (se o capitão não sair até 31 de agosto), sobrando apenas um lugar. concorrentes: izmailov, vukcevic, romagnoli, adrien e pereirinha. para já não falar em caneira, que foi testado por paulo bento a trinco nesta pré-temporada. não saindo moutinho, jogarão, a meu ver, veloso, moutinho, rochemback e izmailov (pelo que ajuda em termos defensivos, muito mais do que vukcevic ou romagnoli). saindo moutinho, jogarão veloso, rochemback, izmailov e vukcevic. o pior é que paulo bento gosta de romagnoli, que tem sido o preferido do técnico para a posição "10". para mim, rochemback, moutinho e vukcevic fariam muito melhor essa posição, com a vantagem de rematarem muito melhor de fora da área do que o argentino.
o sporting começa a época da mesma forma do que no ano passado, vencendo a supertaça. foi o quarto troféu da era paulo bento, três deles conquistados ao fc porto. à primeira vista, o próximo campeonato parece vir a ser muito mais disputado do que o anterior. mas, para já, dos três grandes, parece ser a formação leonina a mais preparada para iniciar a liga, com sistema táctico e onze definido. o fc porto precisa de resolver a questão dos laterais, do trinco que vai substituir paulo assunção e o "problema" quaresma. se este sair, quem jogará com lisandro e rodriguez? hulk? farias? mariano? candeias? tarik? muitas dúvidas. quanto ao benfica, as indefinições são ainda maiores. aimar parece um "peixe fora de água" e tarda em revelar as suas tão propaladas qualidades; reyes precisa de mais um mês para decorar o nome dos seus colegas de equipa e tem a mania que é vedeta; yebda, balboa, ruben amorim e carlos martins poderiam perfeitamente constituir o meio campo de uma equipa do meio da tabela, como o belenenses ou o estrela da amadora; sidnei é uma incógnita; o "novo" defesa direito é o tipo que era médio direito no ano passado; no ataque, para além de cardozo, há "isto": nuno gomes, makukula e mantorras. será que luís filipe vieira virá dizer, novamente, que este é o melhor plantel do benfica dos últimos dez anos? enfim, venha a liga!
no sporting, no meu entender, está a despontar um grande jogador, que correu quilómetros, atacou, defendeu, rematou e foi extremamente influente: izmailov. fez o que quis do pobre sapunaru, ajudou bastante caneira a cobrir o flanco esquerdo, recuou no terreno para acompanhar lucho gonzalez (indiscutivelmente, o melhor jogador do fc porto e um dos melhores jogadores de sempre a jogar em portugal), fez a ligação defesa/ataque, transportando o jogo até aos avançados. o sporting teve a atitude certa ao apostar na compra do passe do jogador russo. de resto, polga e tonel (tirando os constante alívios para a bancada deste último) estiveram bem a segurar farias e lisandro, abel perdeu muitos poucos lances para rodriguez (que tinha feito uma exibição de gala na primeira parte contra a lazio no passado domingo), caneira continua a ser o mesmo "pão sem sal", aquele tipo de jogador que nem aquece nem arrefece, limitando-se a defender a sua zona, sem rasgos ou brilho. hoje até cometeu um penalty infantil e tudo. onde raio estava o grimi, que até tinha sido o melhor em campo contra a sampdoria? rui patrício, que dizer!? logo nas suas primeiras intervenções na primeira parte, sobretudo quando lhe atrasavam as bolas, deixou ficar a sensação de que o sporting nunca na vida seria campeão com um guarda-redes destes, tão inseguro e incapaz de transmitir confiança à sua defesa. mas depois faz uma segunda parte de sonho e... já não sei o que pensar. as alternativas também não me parecem muito melhores. no meio campo, moutinho fez de miguel veloso (se bem que o lugar seja mesmo deste último); romagnoli lá conseguiu mais uma vez passar ao lado do jogo, até parece que joga sempre de pantufas, para não fazer muito barulho e chamar as atenções para si; rochemback foi importantíssimo no meio campo, estancando as iniciativas atacantes do adversário e fazendo uma pressão constante ao homem que conduzia a bola; izmailov foi "apenas" o melhor jogador em campo. na frente, derlei e djaló, que, para já, parecem constituir a melhor dupla possível. postiga nem assusta para já e tiuí muito menos. quando vierem liedson e vukcevic, logo se vê quem sai. a principal dificuldade vai ser no meio campo. se miguel veloso jogar a trinco, restam 3 posições. rochemback e moutinho têm lugar cativo (se o capitão não sair até 31 de agosto), sobrando apenas um lugar. concorrentes: izmailov, vukcevic, romagnoli, adrien e pereirinha. para já não falar em caneira, que foi testado por paulo bento a trinco nesta pré-temporada. não saindo moutinho, jogarão, a meu ver, veloso, moutinho, rochemback e izmailov (pelo que ajuda em termos defensivos, muito mais do que vukcevic ou romagnoli). saindo moutinho, jogarão veloso, rochemback, izmailov e vukcevic. o pior é que paulo bento gosta de romagnoli, que tem sido o preferido do técnico para a posição "10". para mim, rochemback, moutinho e vukcevic fariam muito melhor essa posição, com a vantagem de rematarem muito melhor de fora da área do que o argentino.
o sporting começa a época da mesma forma do que no ano passado, vencendo a supertaça. foi o quarto troféu da era paulo bento, três deles conquistados ao fc porto. à primeira vista, o próximo campeonato parece vir a ser muito mais disputado do que o anterior. mas, para já, dos três grandes, parece ser a formação leonina a mais preparada para iniciar a liga, com sistema táctico e onze definido. o fc porto precisa de resolver a questão dos laterais, do trinco que vai substituir paulo assunção e o "problema" quaresma. se este sair, quem jogará com lisandro e rodriguez? hulk? farias? mariano? candeias? tarik? muitas dúvidas. quanto ao benfica, as indefinições são ainda maiores. aimar parece um "peixe fora de água" e tarda em revelar as suas tão propaladas qualidades; reyes precisa de mais um mês para decorar o nome dos seus colegas de equipa e tem a mania que é vedeta; yebda, balboa, ruben amorim e carlos martins poderiam perfeitamente constituir o meio campo de uma equipa do meio da tabela, como o belenenses ou o estrela da amadora; sidnei é uma incógnita; o "novo" defesa direito é o tipo que era médio direito no ano passado; no ataque, para além de cardozo, há "isto": nuno gomes, makukula e mantorras. será que luís filipe vieira virá dizer, novamente, que este é o melhor plantel do benfica dos últimos dez anos? enfim, venha a liga!
sexta-feira, agosto 15, 2008
jogos olímpicos
em jeito de homenagem à brilhante participação dos atletas portugueses, até agora, nos jogos olímpicos de pequim.
quarta-feira, agosto 13, 2008
domingo, agosto 10, 2008
eu fui à galiza e não sofri nenhum golo



(algumas imagens da praia de samil, em vigo, com piscinas espalhadas pela marginal)
confesso que fiquei rendido à galiza: praias bem tratadas, limpas, com bons acessos, água a temperaturas sempre aceitáveis, pouca ondulação... comprovei que os galegos são de facto muito simpáticos e que se come muito bem por lá, especialmente marisco. nesse aspecto, não descurámos nada. comeu-se muito bem, bebeu-se ainda melhor (alvarinho verde e a cerveja da galiza) e as saudades começaram no preciso momento em que partimos para portugal. pelo caminho pudemos fazer uma curiosa comparação entre espanhóis e portugueses, a partir da simpatia demonstrada pelos funcionários das portagens. em espanha, sempre simpáticos, sorridentes, cumprimentando à chegada e despedindo-se no final com um "gracias". em portugal, nem uma nem duas. nada mesmo.
apesar da paragem em vigo, o nosso destino era sanxenxo. lá pudemos verificar como se rentabiliza de uma forma integrada, ordeira e correcta um destino turístico, sem confusões, sem alarido, sem avionetas constantemente a passar com publicidade, com a polícia a intervir e a castigar os prevaricadores (especialmente estacionamentos abusivos), não permitindo a instalação da anarquia total em termos de circulação automóvel, edifícios arquitectonicamente irrepreensíveis, extremamente bem cuidados, uma perfeita simbiose entre a praia e o pinhal, que em algumas zonas chega mesmo até à água, ruas limpas, praias com os sempre úteis chuveiros à saída e casas de banho, rampas para deficientes, e, como não poderia deixar de ser, esplanadas convidativas ao longo de toda a marginal. confesso que fui "com um pé atrás", desconfiando das virtudes das praias galegas. perdi todos esses preconceitos mal entrei na água. para além da surpreendente temperatura da água, esta é ainda límpida e cristalina. se já tinha adorado a praia de samil, em vigo, e toda a sua envolvência paisagística, a praia de silgar, em sanxenxo, bateu a concorrência, não ficando a dever nada às praias do algarve em termos de temperatura da água.
em termos gastronómicos, fomos parar, ao segundo dia, a um restaurante chamado "la terraza", porque a mariana, nos seus irrequietos três anos, insistiu que queria comer massa. depois de lermos dezenas de ementas, onde não constava nem sequer algo parecido, fomos encontrar um "spaghetti" no citado restaurante. como adoramos o almoço, com uns calamares inesquecíveis, gambas ao alhinho, polvo e mexilhão, sem esquecer o referido "spaghetti", passamos a ir lá quase sempre. chegamos a sair do hotel com chuva torrencial só para irmos lá provar a paella. mas valeu bem a pena... a chuva acabou precisamente quando tínhamos acabado de comprar um guarda-chuva. já sabem: se forem a sanxenxo, procurem um restaurante chamado "la terraza". prometo que vão gostar. se quiserem ir sem pré-reserva de hotel, estão à vontade. hotéis são quase porta sim, porta não. são às centenas.
para o ano, se tudo correr bem, vamos voltar a sanxenxo. já ficou decidido. pelos quatro. a mariana ainda torceu o nariz, por haver poucos restaurantes com massa, mas lá acabou por aceitar. até porque a itália é bem mais longe...
terça-feira, agosto 05, 2008
até domingo!
depois de uma curta estadia no sul, nesse algarve que nunca me deixa ficar mal, seguem-se uns dias a descobrir os encantos da bela galiza. vigo, pontevedra e sanxenxo fazem naturalmente parte deste roteiro, em que se privilegiará a gastronomia e os afamados vinhos galegos, a rica moldura paisagística da galiza, as praias de vigo (samil) e sanxenxo, e, sobretudo, da grande empatia entre os galegos e os portugueses. pelo menos neste último aspecto é enorme a vantagem em relação ao algarve.
volto, em princípio, ao vosso convívio no domingo. até lá!
volto, em princípio, ao vosso convívio no domingo. até lá!
segunda-feira, agosto 04, 2008
capítulo VIII
capítulo VIII
a sofia parecia estar muito mais descontraída do que eu. sentou-se, pousou a carteira e os livros que tinha comprado numa cadeira e cruzou as pernas, entrelaçando as mãos por cima do seu joelho direito. transpirava descontracção, agindo sempre com uma desarmante naturalidade, como se este género de situações lhe acontecessem todos os sábados à tarde. "tomar um café com um pai de um aluno meu? vamos lá embora!".
- sempre quis ser professora? - perguntei.
- sim, sempre fui muito determinada nesse aspecto. os meus pais diziam que eu só podia mesmo ser professora, porque, nas minhas brincadeiras, imitava sempre os meus professores, as atitudes, a postura rígida e responsável, os raspanetes. até os meus pais eram meus alunos...
- nesse caso, foi para a universidade com o estágio já feito...
- mas mesmo assim ainda tive que lá andar quatro anos até me darem o diploma... foi uma injustiça.
- e escolheu história por vocação ou porque estava decidida a quebrar aquela ideia generalizada de que esse curso é um dos que tem menos saída profissional? quer dizer, ainda ontem um licenciado em história me pesou um quilo de uvas...
- eu sabia disso, como é óbvio, mas a história sempre me fascinou. quantas vezes arranjei problemas lá em casa porque eu queria ver os programas do josé hermano saraiva e os meus irmãos e o meu pai queriam ver futebol. naquela altura ainda não havia quatro televisores por casa, como agora.
- quem ganhava mais vezes?
- eles, porque eram mais. ficaram aliviados quando vim estudar para lisboa.
- e veio de onde mesmo?
- de uma aldeia chamada sarzedo, do concelho de arganil. lembro-me bem dos magníficos verões que lá passei, no rio alva.
- lisboa deve ter sido um choque muito grande...
- sim, nos primeiros meses andei à deriva. perdia os autocarros todos, enganava-me nas paragens, nunca conseguia decorar os horários do metro. enfim, o "pacote" todo, típico de alguém que nunca viveu numa grande cidade. mas também, se não fôssemos nós, os da província, vocês lisboetas não teriam ninguém com quem gozar, não é?
- eu não sou lisboeta. estou apenas à espera de juntar dinheiro suficiente para me pirar. aqui, nunca me senti verdadeiramente em casa.
quando a sofia se preparava para falar, provavelmente para me perguntar de onde é que eu vinha, fomos interrompidos pelo marco, que me veio pedir dinheiro para comprar um cd. enquanto eu procurava na carteira a quantia solicitada, a sofia começou a conversar com o marco, num tom mais sério, fazendo valer o seu estatuto de professora, sobretudo porque existiam fortes possibilidades de ela voltar a ser a sua professora de história no 11º ano. quando lhe dei o dinheiro, o marco disse-me para não me esquecer que o filme que íamos ver começava dentro de dez minutos, ao que eu lhe respondi "mas vamos ver um filme? qual filme". a sofia riu-se, por achar que eu estava a brincar com o marco. mas não estava. naquela altura sentia-me alheado de tudo, de tão inebriado que estava, por me sentir bem, finalmente, a fazer parte de uma conversa e por sentir que poderia ficar ali quinze meses seguidos apenas a falar com a sofia. foi como se toda aquela rotina do sábado à tarde com o marco, tão rigorosamente cronometrada e previamente estabelecida, se tivesse evaporado, de repente, da minha cabeça. e foi uma sorte o marco ter-me pedido apenas dinheiro para comprar um cd, porque se ele me tivesse pedido a chave do carro eu era bem capaz de lha dar.
o marco despediu-se da sofia com um "até p'ró ano stôra. boas férias!". ela respondeu "igualmente. fica descansado que eu aviso o teu pai quando chegar a hora do filme". esbocei um sorriso de cumplicidade, mas por dentro dava pulos de alegria. esta frase dela "caiu-me" maravilhosamente bem. encaixou. foi a perfeita conclusão para aquele pequeno interlúdio com o marco. foi o assumir de que também ela queria mais tempo comigo, caso contrário, teria olhado para o relógio, dizia que já estava atrasada para qualquer coisa e "entregava-me de bandeja" ao meu filho.
o tema da conversa passou a ser o marco, as suas virtudes, potencialidades e, sobretudo, a coragem que demonstrou perante as adversidades com que foi defrontado: a morte do avô e o divórcio dos pais. apesar da natural quebra a meio do ano, ele conseguiu dar a volta por cima e acabar o ano com notas razoáveis.
- fiquei realmente impressionada com a maturidade que o marco revelou no último período. confesso que não estava à espera que ele voltasse tão rapidamente ao seu nível.
- tenho a impressão de que ele se sentiu culpado, de certa forma, pela separação dos pais. eu e a minha ex-mulher entramos em discussão por causa dele, porque ela queria proibi-lo de sair com os amigos e eu defendi-o, dizendo que tinha confiança nele. como foi a última discussão, a que precipitou o fim, acredito que ele se tenha sentido assim. aliás, quando saí de casa, ele prometeu-me que ia estudar mais. cumpriu, como se pôde verificar.
- digamos que, em parte, o vosso divórcio acabou por lhe fazer bem...
- ele cresceu muito neste último ano em termos psicológicos e emocionais. gostava muito do avô artur, de ir com ele à pesca e ao futebol, de o ajudar no quintal. as férias em tomar eram indispensáveis para ele. e depois, de repente, ficar sem essa parte importante da sua vida, foi um choque demasiadamente brutal. comparado com isto, a separação dos pais foi quase como uma ida ao dentista.
- e como é que ele tem reagido?
- muito bem. ficou com a mãe, como era evidente. eu estou com ele aos sábados, de quinze em quinze dias. mas não moramos muitos longe um do outro. a sónia também facilita bastante, caso eu queira sair com ele noutros dias. o nosso casamento até acabou muito bem. digamos que foi por mútuo acordo. se calhar, até somos mais amigos agora do que quando éramos casados...
- bem, sempre é verdade então que depois da tempestade vem mesmo a bonança!...
- boa série essa. era com o lorne greene e o michael landon.
- sim, o "anjo na terra".
- exactamente. andei anos a ansiar por uma série chamada "tempestade" e que a colocassem antes do "bonanza". seria giro ouvir a fátima medina ou a helena ramos anunciar a programação.
- seria bem interessante, sem dúvida. lamento dizer que está na hora do vosso filme. já passaram dez minutos.
- mas ainda nem tomamos café... - referi, bastante espantado.
- também é verdade que nos esquecemos de o pedir - disse a sofia, sorrindo.
o marco aproximava-se lá ao fundo. eu sentia o nó a apertar na garganta, ao pressentir uma eminente e incontornável despedida. e vinham lá as férias de verão. quando é que eu a tornaria a ver? levantamo-nos. ajudei-a com o saco dos livros. lancei um último olhar à mesa, para ver se nos tínhamos esquecido de alguma coisa, e virei-me para ela. contra a minha vontade, o tempo não parou. os ponteiros continuavam a marchar imperturbáveis. o marco continuava a caminhar na nossa direcção. ficámos uns bons dez segundos assim, a olhar um para o outro, sem dizer nada. até que, no café, alguém deixou cair um copo ao chão, desviando-nos o olhar.
- bem, tenho que ir andando. vocês têm o filme para ver.
- sim, é verdade. é pena. gostaria de ficar mais tempo a falar consigo - até hoje me custa a crer que disse estas palavras, que tive coragem para tanto.
- talvez um dia a gente possa, efectivamente, tomar um café juntos. hoje perdemos essa oportunidade.
o marco chegou ao pé de nós e disse "vamos pai, já estamos atrasados". a sofia entendeu que era a "deixa" dela e começou a afastar-se, sorrindo e dizendo adeus com a mão direita. o marco começou também a afastar-se, mas em direcção oposta. eu permanecia estático, sem reacção, a ver a sofia cada vez mais longe, impotente para travar a sua marcha e incapaz de proferir fosse o que fosse, tal era a minha frustração. "pai, anda!". "sim, sim, já vou".
escusado será dizer que o filme me passou completamente ao lado. aliás, nem me lembro que raio de filme é que fomos ver nessa tarde de sábado. mesmo que fosse a melhor obra cinematográfica de todos os tempos, a minha indiferença nesse dia estaria sempre garantida. não conseguia deixar de pensar que poderia estar ainda a falar com ela. e, pior ainda, não parava de me recriminar por não lhe ter pedido um contacto que fosse.
a sofia parecia estar muito mais descontraída do que eu. sentou-se, pousou a carteira e os livros que tinha comprado numa cadeira e cruzou as pernas, entrelaçando as mãos por cima do seu joelho direito. transpirava descontracção, agindo sempre com uma desarmante naturalidade, como se este género de situações lhe acontecessem todos os sábados à tarde. "tomar um café com um pai de um aluno meu? vamos lá embora!".
- sempre quis ser professora? - perguntei.
- sim, sempre fui muito determinada nesse aspecto. os meus pais diziam que eu só podia mesmo ser professora, porque, nas minhas brincadeiras, imitava sempre os meus professores, as atitudes, a postura rígida e responsável, os raspanetes. até os meus pais eram meus alunos...
- nesse caso, foi para a universidade com o estágio já feito...
- mas mesmo assim ainda tive que lá andar quatro anos até me darem o diploma... foi uma injustiça.
- e escolheu história por vocação ou porque estava decidida a quebrar aquela ideia generalizada de que esse curso é um dos que tem menos saída profissional? quer dizer, ainda ontem um licenciado em história me pesou um quilo de uvas...
- eu sabia disso, como é óbvio, mas a história sempre me fascinou. quantas vezes arranjei problemas lá em casa porque eu queria ver os programas do josé hermano saraiva e os meus irmãos e o meu pai queriam ver futebol. naquela altura ainda não havia quatro televisores por casa, como agora.
- quem ganhava mais vezes?
- eles, porque eram mais. ficaram aliviados quando vim estudar para lisboa.
- e veio de onde mesmo?
- de uma aldeia chamada sarzedo, do concelho de arganil. lembro-me bem dos magníficos verões que lá passei, no rio alva.
- lisboa deve ter sido um choque muito grande...
- sim, nos primeiros meses andei à deriva. perdia os autocarros todos, enganava-me nas paragens, nunca conseguia decorar os horários do metro. enfim, o "pacote" todo, típico de alguém que nunca viveu numa grande cidade. mas também, se não fôssemos nós, os da província, vocês lisboetas não teriam ninguém com quem gozar, não é?
- eu não sou lisboeta. estou apenas à espera de juntar dinheiro suficiente para me pirar. aqui, nunca me senti verdadeiramente em casa.
quando a sofia se preparava para falar, provavelmente para me perguntar de onde é que eu vinha, fomos interrompidos pelo marco, que me veio pedir dinheiro para comprar um cd. enquanto eu procurava na carteira a quantia solicitada, a sofia começou a conversar com o marco, num tom mais sério, fazendo valer o seu estatuto de professora, sobretudo porque existiam fortes possibilidades de ela voltar a ser a sua professora de história no 11º ano. quando lhe dei o dinheiro, o marco disse-me para não me esquecer que o filme que íamos ver começava dentro de dez minutos, ao que eu lhe respondi "mas vamos ver um filme? qual filme". a sofia riu-se, por achar que eu estava a brincar com o marco. mas não estava. naquela altura sentia-me alheado de tudo, de tão inebriado que estava, por me sentir bem, finalmente, a fazer parte de uma conversa e por sentir que poderia ficar ali quinze meses seguidos apenas a falar com a sofia. foi como se toda aquela rotina do sábado à tarde com o marco, tão rigorosamente cronometrada e previamente estabelecida, se tivesse evaporado, de repente, da minha cabeça. e foi uma sorte o marco ter-me pedido apenas dinheiro para comprar um cd, porque se ele me tivesse pedido a chave do carro eu era bem capaz de lha dar.
o marco despediu-se da sofia com um "até p'ró ano stôra. boas férias!". ela respondeu "igualmente. fica descansado que eu aviso o teu pai quando chegar a hora do filme". esbocei um sorriso de cumplicidade, mas por dentro dava pulos de alegria. esta frase dela "caiu-me" maravilhosamente bem. encaixou. foi a perfeita conclusão para aquele pequeno interlúdio com o marco. foi o assumir de que também ela queria mais tempo comigo, caso contrário, teria olhado para o relógio, dizia que já estava atrasada para qualquer coisa e "entregava-me de bandeja" ao meu filho.
o tema da conversa passou a ser o marco, as suas virtudes, potencialidades e, sobretudo, a coragem que demonstrou perante as adversidades com que foi defrontado: a morte do avô e o divórcio dos pais. apesar da natural quebra a meio do ano, ele conseguiu dar a volta por cima e acabar o ano com notas razoáveis.
- fiquei realmente impressionada com a maturidade que o marco revelou no último período. confesso que não estava à espera que ele voltasse tão rapidamente ao seu nível.
- tenho a impressão de que ele se sentiu culpado, de certa forma, pela separação dos pais. eu e a minha ex-mulher entramos em discussão por causa dele, porque ela queria proibi-lo de sair com os amigos e eu defendi-o, dizendo que tinha confiança nele. como foi a última discussão, a que precipitou o fim, acredito que ele se tenha sentido assim. aliás, quando saí de casa, ele prometeu-me que ia estudar mais. cumpriu, como se pôde verificar.
- digamos que, em parte, o vosso divórcio acabou por lhe fazer bem...
- ele cresceu muito neste último ano em termos psicológicos e emocionais. gostava muito do avô artur, de ir com ele à pesca e ao futebol, de o ajudar no quintal. as férias em tomar eram indispensáveis para ele. e depois, de repente, ficar sem essa parte importante da sua vida, foi um choque demasiadamente brutal. comparado com isto, a separação dos pais foi quase como uma ida ao dentista.
- e como é que ele tem reagido?
- muito bem. ficou com a mãe, como era evidente. eu estou com ele aos sábados, de quinze em quinze dias. mas não moramos muitos longe um do outro. a sónia também facilita bastante, caso eu queira sair com ele noutros dias. o nosso casamento até acabou muito bem. digamos que foi por mútuo acordo. se calhar, até somos mais amigos agora do que quando éramos casados...
- bem, sempre é verdade então que depois da tempestade vem mesmo a bonança!...
- boa série essa. era com o lorne greene e o michael landon.
- sim, o "anjo na terra".
- exactamente. andei anos a ansiar por uma série chamada "tempestade" e que a colocassem antes do "bonanza". seria giro ouvir a fátima medina ou a helena ramos anunciar a programação.
- seria bem interessante, sem dúvida. lamento dizer que está na hora do vosso filme. já passaram dez minutos.
- mas ainda nem tomamos café... - referi, bastante espantado.
- também é verdade que nos esquecemos de o pedir - disse a sofia, sorrindo.
o marco aproximava-se lá ao fundo. eu sentia o nó a apertar na garganta, ao pressentir uma eminente e incontornável despedida. e vinham lá as férias de verão. quando é que eu a tornaria a ver? levantamo-nos. ajudei-a com o saco dos livros. lancei um último olhar à mesa, para ver se nos tínhamos esquecido de alguma coisa, e virei-me para ela. contra a minha vontade, o tempo não parou. os ponteiros continuavam a marchar imperturbáveis. o marco continuava a caminhar na nossa direcção. ficámos uns bons dez segundos assim, a olhar um para o outro, sem dizer nada. até que, no café, alguém deixou cair um copo ao chão, desviando-nos o olhar.
- bem, tenho que ir andando. vocês têm o filme para ver.
- sim, é verdade. é pena. gostaria de ficar mais tempo a falar consigo - até hoje me custa a crer que disse estas palavras, que tive coragem para tanto.
- talvez um dia a gente possa, efectivamente, tomar um café juntos. hoje perdemos essa oportunidade.
o marco chegou ao pé de nós e disse "vamos pai, já estamos atrasados". a sofia entendeu que era a "deixa" dela e começou a afastar-se, sorrindo e dizendo adeus com a mão direita. o marco começou também a afastar-se, mas em direcção oposta. eu permanecia estático, sem reacção, a ver a sofia cada vez mais longe, impotente para travar a sua marcha e incapaz de proferir fosse o que fosse, tal era a minha frustração. "pai, anda!". "sim, sim, já vou".
escusado será dizer que o filme me passou completamente ao lado. aliás, nem me lembro que raio de filme é que fomos ver nessa tarde de sábado. mesmo que fosse a melhor obra cinematográfica de todos os tempos, a minha indiferença nesse dia estaria sempre garantida. não conseguia deixar de pensar que poderia estar ainda a falar com ela. e, pior ainda, não parava de me recriminar por não lhe ter pedido um contacto que fosse.
domingo, agosto 03, 2008
quarta-feira, julho 30, 2008
preparar as férias

porquê um livro sobre a filosofia e 'seinfeld'? como é que a filosofia, uma disciplina que é mais ou menos «uma teoria geral de tudo», se encaixa com um programa que afirma ser «sobre nada»? bem, nem sempre o tudo e o nada estão completamente afastados! o «nada» com que 'seinfeld' lida é definitivamente alguma coisa que, por vezes, é filosófica. a comédia televisiva mais popular dos anos 90 conseguiu chamar a atenção para os acontecimentos diários da vida de uma forma pouco habitual, realçando os seus lugares comuns e mundanos, e chamando a nossa atenção para coisas que nos passam despercebidas. sócrates dizia que «a vida que não é examinada não vale a pena ser vivida». as personagens de 'seinfeld' examinam certamente as suas vidas, apesar de se duvidar que sócrates aprovasse muito as suas vidas ou as suas análises! em "a filosofia segundo seinfeld", treze fãs da série, que por acaso também são filósofos catedráticos, examinam com determinação e paixão as ideias, as histórias, o humor e as personagens de 'seinfeld'- sinopse do livro "a filosofia segundo seinfeld", de william irwin, que comprei hoje, perfeito para aquelas manhãs e tardes de ócio na praia.a segunda parte da terceira série de "entourage", que em portugal tem o nome de "vidas em hollywood"no circuito de dvd e de "a vedeta" quando passou recentemente na sic, é essencial para alguém, como eu, totalmente viciado nesta série e que quer, mesmo que isso implique fazer apenas uma refeição por dia, ter a série completa lá em casa. como se ainda faltassem argumentos, estou ainda mais motivado para ver esta segunda parte da terceira série porque nela entra a actriz carla gugino, que sigo com atenção desde os tempos de "spin city", em que interpretava a namorada de michael j. fox.
tenho a impressão de que vou gostar bastante destas férias...
ride
uma das minhas músicas preferidas: "ox4", dos ingleses ride, do disco "going blank again", de 1992. começa a desenhar-se uma gigantesca nostalgia pelos gloriosos anos 90 em termos musicais.
segunda-feira, julho 28, 2008
lisboa - liverpool - porto
quaresma.
simão sabrosa.
joão moutinho.
o primeiro saiu do sporting para o barcelona. regressou a portugal para o fc porto.
o segundo saiu do sporting para o barcelona. regressou a portugal para o benfica.
o terceiro vai sair do sporting para o everton. vai regressar a portugal para o fc porto.
a meu ver, o sporting não o deveria vender nem que dessem 100 milhões por ele, só para castigar a total falta de amor à camisola que o fez jogador. para mim, era obrigá-lo a ficar no clube até acabar o contrato, mantendo-o sempre no banco de suplentes. moutinho já tinha admitido antes que festejou efusivamente a vitória do benfica em alvalade por 6-3. agora, tem estas declarações nojentas, impróprias de um capitão de equipa (creio que o mais novo de sempre do sporting). se ainda houve capacidade para o "perdoar" da primeira vez, agora não existe nem um vislumbre de que isso possa vir a acontecer. se paulo bento tiver escrúpulos, idoneidade e carácter, deixará de contar com moutinho para a próxima época. ele que fique por lá a ajudar o paulinho a arrumar os equipamentos. caneira, polga, liedson, tonel, qualquer um destes jogadores pode ficar com a braçadeira de capitão. de joão moutinho eu nunca mais quero ouvir falar. morreu. um ano a jogar pelo everton (se não sair logo em dezembro) não deve ser um castigo assim tão grande, tendo em conta que depois poderá finalmente ter o seu grande admirador como presidente, o mesmo presidente que não se cansou de dizer recentemente que ele é "um jogador à fc porto".
simão sabrosa.
joão moutinho.
o primeiro saiu do sporting para o barcelona. regressou a portugal para o fc porto.
o segundo saiu do sporting para o barcelona. regressou a portugal para o benfica.
o terceiro vai sair do sporting para o everton. vai regressar a portugal para o fc porto.
a meu ver, o sporting não o deveria vender nem que dessem 100 milhões por ele, só para castigar a total falta de amor à camisola que o fez jogador. para mim, era obrigá-lo a ficar no clube até acabar o contrato, mantendo-o sempre no banco de suplentes. moutinho já tinha admitido antes que festejou efusivamente a vitória do benfica em alvalade por 6-3. agora, tem estas declarações nojentas, impróprias de um capitão de equipa (creio que o mais novo de sempre do sporting). se ainda houve capacidade para o "perdoar" da primeira vez, agora não existe nem um vislumbre de que isso possa vir a acontecer. se paulo bento tiver escrúpulos, idoneidade e carácter, deixará de contar com moutinho para a próxima época. ele que fique por lá a ajudar o paulinho a arrumar os equipamentos. caneira, polga, liedson, tonel, qualquer um destes jogadores pode ficar com a braçadeira de capitão. de joão moutinho eu nunca mais quero ouvir falar. morreu. um ano a jogar pelo everton (se não sair logo em dezembro) não deve ser um castigo assim tão grande, tendo em conta que depois poderá finalmente ter o seu grande admirador como presidente, o mesmo presidente que não se cansou de dizer recentemente que ele é "um jogador à fc porto".
quinta-feira, julho 24, 2008
mini-férias

três dias. duas noites. sem harrison ford ou anne heche. o sul espera por mim, com a tradicional passadeira vermelha, a banda filarmónica, a chave da cidade, as criancinhas para beijar e os balões, sem esquecer a largada de pombas, e vai tratar-me bem certamente. volto, retemperado na segunda-feira. até lá...
quarta-feira, julho 23, 2008
capítulo VII
capítulo VII
a vida parecia querer começar finalmente a sorrir-me. experimentava sensações novas, redescobria as tremideiras que eu julgava que tinham ficado na adolescência, o bater acelerado do coração, os suores frios, a efervescência da sedução, o prazer de conquistar. a paula teve esse condão de ignição, de me despertar para um recomeço de vida aos quarenta. os cabelos brancos deixaram de ser sinónimo de velhice para passarem a ser sinónimos de charme, de "know how", de experiência e sabedoria. nas saídas seguintes com o andré, depois da festa em casa da paula, cheguei até a ficar assustado com a facilidade com que tudo se desenrolava. era tudo excessivamente fácil, especialmente com o andré. resumia-se a umas bebidas, uns olhares furtivos, dois dedos de conversa e a habitual pergunta "não querem ir para um sítio mais calmo?". como sempre, eu conduzia o carro. o andré nem esperava e abria sempre as "hostilidades" no banco de trás. normalmente, voltávamos para o nosso apartamento, onde cada um de nós se enfiava no seu quarto com a respectiva companhia. uma vez estávamos tão embriagados que só de manhã reparámos que tínhamos trocado as nossas parceiras.
nessas noites, era frequente encontrarmo-nos na cozinha às tantas da manhã, cheios de fome, aproveitando a ocasião para comentar a "performance" das nossas parceiras. uma vez, o andré foi tão eloquente àcerca das qualidades de uma espanhola, de vinte e poucos anos, que eu sugeri uma troca a meio da noite. e ele estava coberto de razão...
foram meses loucos esses, de bebida, sexo e alguma droga. era inevitável não "chocar" com ela. um charro primeiro, depois ecstasy, o que interessava era manter o barco à superfície, a navegar sem obstáculos. e quanto mais entrava neste estilo de vida, mais queria experimentar. o contraste com a minha vida profissional era gritante. sentia a pachorrenta e formal repartição de finanças cada vez mais como uma enorme e apertada camisa de forças. as horas diárias que lá passava eram asfixiantes, "chupavam-me" toda a energia e a vida que a noite me dava. como a tal camisa me apertava cada vez mais, comecei a levar às escondidas uma garrafa de vodka, daquelas que os detectives aconchegavam no bolso das gabardines nos filmes antigos, que escondia na minha secretária. aligeirava, e de que maneira, aquela tortura toda, sem que ninguém desconfiasse. apenas o andré sabia, porque também bebia. graças a deus que a vodka não deixa hálito nenhum. saíamos sempre do trabalho com a nítida sensação que o dia estava apenas nesse momento a começar. bons e despreocupados tempos esses...
para elevar ainda mais os meus índices de felicidade, a sónia deu-me uma excelente novidade quando fui buscar o marco num dos sábados. o apartamento tinha sido finalmente vendido. disse-me para passar no escritório dela na segunda-feira seguinte para tratarmos da papelada. depois de pago o empréstimo ao banco, ainda deu para "encaixar" 25 mil euros. eu fiquei com 10 e ela com 15, por causa do marco. achei justo.
o rapaz sempre fez um esforço e passou de ano. organizei uma grande festa para ele e para os amigos lá em casa. notei que ele me olhava de forma diferente, com algum orgulho até. apresentou-me os amigos todos e, na altura do brinde, agradeceu-me bastante pela confiança que depositei nele aquando da sua "quebra psicológica". foi muito gratificante ter ficado com a sensação que não o tinha perdido, apesar da nossa distância e dos poucos momentos que passava com ele. afinal, não tinha feito tudo mal na minha vida. o marco era a prova disso.
num dos sábados seguintes, fomos ao colombo ao cinema, um programa habitual. íamos sempre à sessão das 15h00, depois de almoçarmos por lá. depois de almoço, estávamos nós na fnac a "queimar tempo", quando vi, na secção dos livros, uma cara conhecida. já estava a "engatilhar" uma abordagem quando o marco se antecipou a cumprimentá-la. aproximei-me dos dois, à espera de uma óbvia apresentação. e ela não tardou. era a sofia ribeiro, professora de história do marco. eu sabia que a conhecia de algum lado... dois beijinhos na face, perfume inebriante, pele imaculada, cabelos rebeldes a escorrerem-lhe pelo pescoço... confesso que fiquei um pouco nervoso. a minha postura foi a mesma do jorge oliveira antigo, não a do novo. as palavras não saíam como eu queria que elas saíssem, a eloquência parecia ter adormecido, o charme engasgou-se com o meu espontâneo regresso à timidez. felizmente, ela estava muito mais à vontade e, basicamente, falou pelos dois. o marco afastou-se para a secção dos cds e eu fiquei a falar com a sofia, que não se cansava de elogiar a sensacional recuperação do meu filho, sobretudo depois de mais uma contrariedade na sua vida, o divórcio dos pais. eu, nos pequenos lapsos de tempo em que não estava totalmente perdido nos seus olhos castanhos, fui capaz de balbuciar alguns sons de concordância. no sentido de "quebrar o gelo", especialmente o meu, que poderia ser facilmente confundido com o icebergue onde bateu o titanic, resolvi perguntar-lhe se já tinha tomado café. ela depois disse algo que eu nunca mais me esqueci, algo que resumia perfeitamente o género de mulher que era, com sentido de humor, cultura geral e simpatia q.b.: - "sim, já tomei café várias vezes. sei perfeitamente o que é". foi o perfeito "desbloqueador". eu soltei uma gargalhada, ela abriu um sorriso resplandecente, quase que de alívio pela minha reacção. ficou ali estabelecido o nosso primeiro sinal de cumplicidade.
a vida parecia querer começar finalmente a sorrir-me. experimentava sensações novas, redescobria as tremideiras que eu julgava que tinham ficado na adolescência, o bater acelerado do coração, os suores frios, a efervescência da sedução, o prazer de conquistar. a paula teve esse condão de ignição, de me despertar para um recomeço de vida aos quarenta. os cabelos brancos deixaram de ser sinónimo de velhice para passarem a ser sinónimos de charme, de "know how", de experiência e sabedoria. nas saídas seguintes com o andré, depois da festa em casa da paula, cheguei até a ficar assustado com a facilidade com que tudo se desenrolava. era tudo excessivamente fácil, especialmente com o andré. resumia-se a umas bebidas, uns olhares furtivos, dois dedos de conversa e a habitual pergunta "não querem ir para um sítio mais calmo?". como sempre, eu conduzia o carro. o andré nem esperava e abria sempre as "hostilidades" no banco de trás. normalmente, voltávamos para o nosso apartamento, onde cada um de nós se enfiava no seu quarto com a respectiva companhia. uma vez estávamos tão embriagados que só de manhã reparámos que tínhamos trocado as nossas parceiras.
nessas noites, era frequente encontrarmo-nos na cozinha às tantas da manhã, cheios de fome, aproveitando a ocasião para comentar a "performance" das nossas parceiras. uma vez, o andré foi tão eloquente àcerca das qualidades de uma espanhola, de vinte e poucos anos, que eu sugeri uma troca a meio da noite. e ele estava coberto de razão...
foram meses loucos esses, de bebida, sexo e alguma droga. era inevitável não "chocar" com ela. um charro primeiro, depois ecstasy, o que interessava era manter o barco à superfície, a navegar sem obstáculos. e quanto mais entrava neste estilo de vida, mais queria experimentar. o contraste com a minha vida profissional era gritante. sentia a pachorrenta e formal repartição de finanças cada vez mais como uma enorme e apertada camisa de forças. as horas diárias que lá passava eram asfixiantes, "chupavam-me" toda a energia e a vida que a noite me dava. como a tal camisa me apertava cada vez mais, comecei a levar às escondidas uma garrafa de vodka, daquelas que os detectives aconchegavam no bolso das gabardines nos filmes antigos, que escondia na minha secretária. aligeirava, e de que maneira, aquela tortura toda, sem que ninguém desconfiasse. apenas o andré sabia, porque também bebia. graças a deus que a vodka não deixa hálito nenhum. saíamos sempre do trabalho com a nítida sensação que o dia estava apenas nesse momento a começar. bons e despreocupados tempos esses...
para elevar ainda mais os meus índices de felicidade, a sónia deu-me uma excelente novidade quando fui buscar o marco num dos sábados. o apartamento tinha sido finalmente vendido. disse-me para passar no escritório dela na segunda-feira seguinte para tratarmos da papelada. depois de pago o empréstimo ao banco, ainda deu para "encaixar" 25 mil euros. eu fiquei com 10 e ela com 15, por causa do marco. achei justo.
o rapaz sempre fez um esforço e passou de ano. organizei uma grande festa para ele e para os amigos lá em casa. notei que ele me olhava de forma diferente, com algum orgulho até. apresentou-me os amigos todos e, na altura do brinde, agradeceu-me bastante pela confiança que depositei nele aquando da sua "quebra psicológica". foi muito gratificante ter ficado com a sensação que não o tinha perdido, apesar da nossa distância e dos poucos momentos que passava com ele. afinal, não tinha feito tudo mal na minha vida. o marco era a prova disso.
num dos sábados seguintes, fomos ao colombo ao cinema, um programa habitual. íamos sempre à sessão das 15h00, depois de almoçarmos por lá. depois de almoço, estávamos nós na fnac a "queimar tempo", quando vi, na secção dos livros, uma cara conhecida. já estava a "engatilhar" uma abordagem quando o marco se antecipou a cumprimentá-la. aproximei-me dos dois, à espera de uma óbvia apresentação. e ela não tardou. era a sofia ribeiro, professora de história do marco. eu sabia que a conhecia de algum lado... dois beijinhos na face, perfume inebriante, pele imaculada, cabelos rebeldes a escorrerem-lhe pelo pescoço... confesso que fiquei um pouco nervoso. a minha postura foi a mesma do jorge oliveira antigo, não a do novo. as palavras não saíam como eu queria que elas saíssem, a eloquência parecia ter adormecido, o charme engasgou-se com o meu espontâneo regresso à timidez. felizmente, ela estava muito mais à vontade e, basicamente, falou pelos dois. o marco afastou-se para a secção dos cds e eu fiquei a falar com a sofia, que não se cansava de elogiar a sensacional recuperação do meu filho, sobretudo depois de mais uma contrariedade na sua vida, o divórcio dos pais. eu, nos pequenos lapsos de tempo em que não estava totalmente perdido nos seus olhos castanhos, fui capaz de balbuciar alguns sons de concordância. no sentido de "quebrar o gelo", especialmente o meu, que poderia ser facilmente confundido com o icebergue onde bateu o titanic, resolvi perguntar-lhe se já tinha tomado café. ela depois disse algo que eu nunca mais me esqueci, algo que resumia perfeitamente o género de mulher que era, com sentido de humor, cultura geral e simpatia q.b.: - "sim, já tomei café várias vezes. sei perfeitamente o que é". foi o perfeito "desbloqueador". eu soltei uma gargalhada, ela abriu um sorriso resplandecente, quase que de alívio pela minha reacção. ficou ali estabelecido o nosso primeiro sinal de cumplicidade.
work in progress
para todos aqueles, que devem ser, sem qualquer ponta de exagero, uns quatro, que seguem as desventuras de jorge oliveira, naquilo a que eu chamo de "livro amador", ou de "cobaia literária", fica a informação que os próximos capítulos não deverão tardar muito, assim a inspiração o permita, já que se trata de um "work in progress" que eu, de vez em quando, alimento, levando-lhe umas batatas fritas e o resto das refeições cá de casa. (mas que grande frase esta... caramba, se isto não é ser escritor, não sei o que possa ser...).
por isso, não desanimem, caros leitores. está calor, é verdade. apetece cometer suicídio de cinco em cinco minutos, também é verdade. o sporting continua sem contratar um jogador de jeito para a próxima época, é igualmente verdade. mas podem ficar, desde já, com esta certeza: a história vai continuar, para o bem ou para o mal. agora que comecei, também eu quero saber como é que tudo aquilo vai acabar. no final, sou bem capaz de acender a lareira com todas aquelas folhas a4, mas vai ficar, certamente, uma sensação de realização, pelo atingir de um objectivo, porque eu raramente consigo acender a lareira...
por isso, não desanimem, caros leitores. está calor, é verdade. apetece cometer suicídio de cinco em cinco minutos, também é verdade. o sporting continua sem contratar um jogador de jeito para a próxima época, é igualmente verdade. mas podem ficar, desde já, com esta certeza: a história vai continuar, para o bem ou para o mal. agora que comecei, também eu quero saber como é que tudo aquilo vai acabar. no final, sou bem capaz de acender a lareira com todas aquelas folhas a4, mas vai ficar, certamente, uma sensação de realização, pelo atingir de um objectivo, porque eu raramente consigo acender a lareira...
terça-feira, julho 22, 2008
emmy's 2008
foram anunciadas as nomeações para a 60ª edição dos emmy's, a ter lugar no dia 21 de setembro de 2008. aqui ficam as categorias mais importantes:
melhor actor em série cómica:
tony shalhoub - monk
steve carell - the office
lee pace - pushing daisies
alec baldwin - 30 rock
charlie sheen - two and a half men
melhor actor em série dramática:
james spader - boston legal
bryan cranston - breaking bad
michael c. hall - dexter
hugh laurie - house
gabriel byrne - in treatment
jon hamm - mad men
melhor actor em mini-série ou filme:
ralph fiennes - bernard and doris
ricky gervais - extras (special series finale)
paul giamatti - john adams
kevin spacey - recount
tom wilkinson - recount
melhor actriz em série cómica:
julia louis-dreyfus - the new adventures of old christine
christina applegate - samantha who?
tina fey - 30 rock
america ferrera - ugly betty
mary-louise parker - weeds
melhor actriz em série dramática:
sally field - brothers & sisters
kyra sedgwick - the closer
glenn close - damages
mariska hargitay - law & order
holly hunter - saving grace
melhor actriz em mini-série ou filme:
catherine keener - an american crime
susan sarandon - bernard and doris
judi dench - cranford (masterpiece)
laura linney - john adams
phylicia rashad - a raisin in the sun
melhor actor secundário em série cómica:
jeremy piven - entourage
kevin dillon - entourage
neil patrick harris - how i met your mother
rainn wilson - the office
jon cryer - two and a half men
melhor actor secundário em série dramática:
william shatner - boston legal
ted danson - damages
zeljko ivanek - damages
michael emerson - lost
john slattery - mad men
melhor actor secundário em mini-série ou filme:
david morse - john adams
stephen dillane - john adams
tom wilkinson - john adams
denis leary - recount
bob balaban - recount
melhor actriz secundária em série cómica:
kristin chenoweth - pushing daisies
jean smart - samantha who?
amy poehler - saturday night live
holland taylor - two and a half men
vanessa williams - ugly betty
melhor actriz secundária em série dramática:
candice bergen - boston legal
rachel griffiths - brothers & sisters
chandra wilson - grey's anatomy
sandra oh - grey's anatomy
dianne wiest - in treatment
melhor actriz secundária em mini-série ou filme:
eileen atkins - cranford (masterpiece)
ashley jensen - extras (special series finale)
alfre woodard - pictures of hollis woods
audra mc donald - a raisin in the sun
laura dern - recount
melhor actor convidado em série cómica:
shelley berman - curb your enthusiasm
rip torn - 30 rock
will arnett - 30 rock
steve buscemi - 30 rock
tim conway - 30 rock
melhor actor convidado em série dramática:
stanley tucci - e.r.
glynn turman - in treatment
robin williams - law & order
robert morse - mad men
oliver platt - nip/tuck
charles durning - rescue me
melhor actriz convidada em série cómica:
polly bergen - desperate housewives
kathryn joosten - desperate housewives
sarah silverman - monk
carrie fisher - 30 rock
edie falco - 30 rock
elaine stritch - 30 rock
melhor actriz convidada em série dramática:
ellen burstyn - big love
diahann carroll - grey's anatomy
cynthia nixon - law & order
anjelica huston - medium
sharon gless - nip/tuck
melhor performance individual em programa de variedades ou musical:
jon stewart - óscares 2008
stephen colbert - the colbert report
david letterman - late show with david letterman
don rickles - mr. warmth: the don rickles project
tina fey - saturday night live
melhor série cómica:
curb your enthusiasm
entourage
the office
30 rock
two and a half men
melhor série dramática:
boston legal
damages
dexter
house
lost
mad men
melhor mini-série:
the andromeda strain
cranford (masterpiece)
john adams
tin man
melhor filme feito para televisão:
bernard and doris
extras: the extra special series finale
the memory keeper’s daughter
a raisin in the sun
recount
melhor programa de variedades, musical ou cómico:
the colbert report
the daily show with jon stewart
late show with david letterman
real time with bill maher
saturday night live
melhor actor em série cómica:
tony shalhoub - monk
steve carell - the office
lee pace - pushing daisies
alec baldwin - 30 rock
charlie sheen - two and a half men
melhor actor em série dramática:
james spader - boston legal
bryan cranston - breaking bad
michael c. hall - dexter
hugh laurie - house
gabriel byrne - in treatment
jon hamm - mad men
melhor actor em mini-série ou filme:
ralph fiennes - bernard and doris
ricky gervais - extras (special series finale)
paul giamatti - john adams
kevin spacey - recount
tom wilkinson - recount
melhor actriz em série cómica:
julia louis-dreyfus - the new adventures of old christine
christina applegate - samantha who?
tina fey - 30 rock
america ferrera - ugly betty
mary-louise parker - weeds
melhor actriz em série dramática:
sally field - brothers & sisters
kyra sedgwick - the closer
glenn close - damages
mariska hargitay - law & order
holly hunter - saving grace
melhor actriz em mini-série ou filme:
catherine keener - an american crime
susan sarandon - bernard and doris
judi dench - cranford (masterpiece)
laura linney - john adams
phylicia rashad - a raisin in the sun
melhor actor secundário em série cómica:
jeremy piven - entourage
kevin dillon - entourage
neil patrick harris - how i met your mother
rainn wilson - the office
jon cryer - two and a half men
melhor actor secundário em série dramática:
william shatner - boston legal
ted danson - damages
zeljko ivanek - damages
michael emerson - lost
john slattery - mad men
melhor actor secundário em mini-série ou filme:
david morse - john adams
stephen dillane - john adams
tom wilkinson - john adams
denis leary - recount
bob balaban - recount
melhor actriz secundária em série cómica:
kristin chenoweth - pushing daisies
jean smart - samantha who?
amy poehler - saturday night live
holland taylor - two and a half men
vanessa williams - ugly betty
melhor actriz secundária em série dramática:
candice bergen - boston legal
rachel griffiths - brothers & sisters
chandra wilson - grey's anatomy
sandra oh - grey's anatomy
dianne wiest - in treatment
melhor actriz secundária em mini-série ou filme:
eileen atkins - cranford (masterpiece)
ashley jensen - extras (special series finale)
alfre woodard - pictures of hollis woods
audra mc donald - a raisin in the sun
laura dern - recount
melhor actor convidado em série cómica:
shelley berman - curb your enthusiasm
rip torn - 30 rock
will arnett - 30 rock
steve buscemi - 30 rock
tim conway - 30 rock
melhor actor convidado em série dramática:
stanley tucci - e.r.
glynn turman - in treatment
robin williams - law & order
robert morse - mad men
oliver platt - nip/tuck
charles durning - rescue me
melhor actriz convidada em série cómica:
polly bergen - desperate housewives
kathryn joosten - desperate housewives
sarah silverman - monk
carrie fisher - 30 rock
edie falco - 30 rock
elaine stritch - 30 rock
melhor actriz convidada em série dramática:
ellen burstyn - big love
diahann carroll - grey's anatomy
cynthia nixon - law & order
anjelica huston - medium
sharon gless - nip/tuck
melhor performance individual em programa de variedades ou musical:
jon stewart - óscares 2008
stephen colbert - the colbert report
david letterman - late show with david letterman
don rickles - mr. warmth: the don rickles project
tina fey - saturday night live
melhor série cómica:
curb your enthusiasm
entourage
the office
30 rock
two and a half men
melhor série dramática:
boston legal
damages
dexter
house
lost
mad men
melhor mini-série:
the andromeda strain
cranford (masterpiece)
john adams
tin man
melhor filme feito para televisão:
bernard and doris
extras: the extra special series finale
the memory keeper’s daughter
a raisin in the sun
recount
melhor programa de variedades, musical ou cómico:
the colbert report
the daily show with jon stewart
late show with david letterman
real time with bill maher
saturday night live
domingo, julho 20, 2008
visitas ao "dealer" (fnac)
o primeiro concerto da mariana


tondela, 17 de julho de 2008.
rita redshoes no tom de festa, no teatro acert.
apesar de algo ensonada durante o concerto (as últimas quatro músicas já as ouviu de chupeta na boca), a mariana, no dia seguinte, perguntou se podíamos ir outra vez à festa... sinal de que gostou, tal como os pais. a cantora, de 27 anos, impressiona e desarma qualquer público mais desconfiado com a sua sinceridade, como quando relatou a sua última visita ao hospital, dias antes, e como descobriu que tinha uma "vértebra estranha" e menos uma costela... eu e ela temos algo em comum: o facto de agrafar sempre uma música a qualquer momento da sua vida. nesse dia, o da visita ao hospital, ela lembrou-se da música dos chic, "le freak". risada geral na plateia. a sua locomoção durante o concerto motivou sempre algumas risadas no público, bem como alguns "piropos". a paula chegou mesmo a sugerir que ela tirasse os seus famosos sapatos vermelhos, com um salto bem alto, por sinal, no sentido de atenuar as dores nas costas, que quase lhe cancelaram o concerto. mas ela acabou por vir e ainda bem. cantou todas as músicas do seu único disco, "golden era", com direito a repetição do single "dream on girl" no encore, e mais duas versões: "lonesome town", de ricky nelson, e "you only live twice", de nancy sinatra. o momento alto do concerto, para mim, foi a interpretação da música "minimal sounds", num registo muito próximo de uns portishead. a "beth orton" portuguesa excedeu as minhas expectativas. confesso que não estava à espera de tanto. o concerto, esse, ficará para sempre como o primeiro concerto da mariana. e só isso é inesquecível...
quarta-feira, julho 16, 2008
"this guy's in love with you"
"this guy's in love with you", original de herb alpert, com letras de burt bacharach, cantado aqui pela magistral voz de mike patton, num dos últimos concertos dos faith no more. esta música acabou por fazer parte do disco duplo de despedida da banda, intitulado "who cares a lot?".
evidence - faith no more
mike patton, nos bons velhos tempos dos faith no more, uma das bandas mais subvalorizadas das últimas décadas. a música chama-se "evidence" e pertence ao disco "king for a day, fool for a lifetime". digam lá se há alguém com mais "pinta" do que mike patton neste teledisco?
mondo cane
o novo projecto musical do "camaleónico" mike patton, antigo vocalista de bandas como faith no more, mr bungle, tomahawk, fantômas e peeping tom, chama-se mondo cane, que reúne uma curiosa colecção de versões de músicas italianas das décadas de 50, 60 e 70. confesso que nunca me passaria pela cabeça ouvir a espantosa voz de patton a recriar clássicos italianos, mas o carismático cantor consegue surpreender-nos sempre. desta vez veste a pele de um frank sinatra italiano, de fato elegante e gel no cabelo, acompanhado por uma orquestra. o resultado é, no mínimo, surpreendente. as músicas que coloco hoje no blogue chamam-se "ore d'amore", um original de fred bongusto, de 1967, e "quello che conta", dos compositores luciano salce e ennio morricone, de 1962. este ano, 1962, também foi o ano de estreia do documentário "mondo cane", de paolo cavara e gualtiero jacopetti, uma visão chocante da condição humana na sua mais depravada e perversa forma, com imagens de bizarros rituais, comportamento cruel e violência animal. o documentário recebeu uma nomeação, em 1964, para os óscares, na categoria de "melhor música original", e foi igualmente nomeado nesse ano para "melhor banda sonora original" nos grammy's.
quem sabe se mike patton não centrará um dia a sua atenção em portugal? é que não me custa nada imaginá-lo a cantar carlos do carmo e tony de matos... mesmo nada...
terça-feira, julho 15, 2008
coldplay
como os rapazes cresceram... o quarto disco de originais dos coldplay, "viva la vida or death and all his friends", não tem quase nada a ver com o resto da discografia da banda. já houve quem dissesse que este é o "ok computer" dos coldplay, um corte arriscado, mas bem sucedido, com o passado recente do quarteto britânico. nos anteriores três discos, "parachutes" (2000), "a rush of blood to the head" (2002) e "x&y" (2005), as músicas ouviam-se uma ou duas vezes e ficavam imediatamente no ouvido, com as naturais desvantagens em termos de desgaste rápido do próprio disco, que se consumia rapidamente, tal o entusiasmo que provocava no início. com "viva la vida" acontece o oposto. ouve-se uma vez e parece que não fica nada na cabeça. ouve-se outra e outra e... nada, nem se conseguem distinguir as músicas. até que o disco "bate" mesmo e começa a fazer sentido. para quem, como eu, gosta dos coldplay desde o início da carreira este era o disco que se exigia. mais do mesmo seria fastidioso. a própria banda entendeu isso, escolhendo produtores consagrados para este disco, provenientes de diferentes registos musicais (brian eno e markus dravs, habituados a trabalhar com bandas como os u2, arcade fire e bjork). não admira, portanto, que a sonoridade seja bastante ecléctica, misturando world music com referências sonoras próximas de uns beatles ou até mesmo de uns... cocteau twins. é uma verdadeira amálgama sonora, que resulta na perfeição. acabaram-se os solos de piano de chris martin, as baladas a puxar ao isqueirinho nos concertos, os óbvios singles para passar na rádio. eles cresceram. amadureceram. e "viva la vida" é a prova definitiva de que o quarteto de londres ainda não se esgotou criativamente. aliás, parece que agora é que estão, na realidade, a começar.
capítulo VI
capítulo VI
o verão aproximava-se. os dias quentes tinham-se instalado, esticando o dia, aumentando a vontade de sair à rua, de apreciar uma esplanada, com uma gelada cerveja na mão, chinelos nos pés, calções e t'shirt. estar em casa ou no trabalho era uma camisa de forças. o mundo parecia sorrir lá fora, com a habitual agitação urbana transformada em melodias harmoniosas, em ambientes coloridos pelo sol durante o dia, que embelezava mesmo os mais lúgubres recantos de lisboa, e iluminados pela lua de noite, fazendo pulsar as suas artérias mais solitárias. mal acabávamos de jantar, geralmente algo que coubesse no microondas e estivesse ao alcance no congelador, eu e o andré escapávamos para a rua. eu sentia-me um adolescente, a viver as mesmas sensações do meu filho quando o deixávamos sair à noite com os amigos. a convivência diária com o andré tinha alterado muito do meu comportamento social. era inevitável. ele era um especialista na matéria. em termos de bares, cafés, restaurantes e tascas, era muito raro o sítio onde ele não conhecesse alguém. em parte, começava finalmente a sentir-me novamente amparado, a caminhar com o profundo conhecimento de que haveria sempre duas sombras na minha silhueta, fazendo com que os meus níveis de auto-estima começassem a subir. comecei então a sentir que não poderia defraudar a pessoa que me colocou naquele estado, que me tinha aberto todos aqueles horizontes. a forma que eu arranjei de o fazer foi "embarcar" nas suas aventuras, não recusando nada pelo caminho. tinha 40 anos e sentia que ainda não tinha vivido a vida em toda a sua plenitude e, olhando para a vida do andré, era impossível não deixar de sentir alguma inveja. aquilo que no princípio renunciava, quando fui morar com ele, "batia" forte agora como uma premente necessidade.
o meu primeiro grande teste foi numa festa particular em casa de um casal amigo do andré, a paula e o césar cardoso, ele industrial automóvel e ela decoradora de interiores, ambos na casa dos cinquenta anos. a casa era enorme, com vastos relvados, jardins e piscina. mal olhei para ela comecei imediatamente a sentir-me mal vestido. fomos recebidos pelos donos da casa, que cumprimentamos com requintada cortesia, porque o ambiente exigia algum decoro e um comportamento imaculado. rapidamente deixou de se ver o bem tratado relvado da casa, à medida que os restantes convidados iam chegando. césar cardoso sabia receber, agia como um profissional nas suas deambulações pelos vários nichos de gente, cumprimentando, trocando meia dúzia de palavras simpáticas e perguntando sempre se era preciso alguma coisa. facilmente se compreendia nas suas acções o sucesso da sua carreira profissional. a sua esposa era mais comedida, chegando a dar alguns ares de arrogância. foi sempre muito fácil localizá-la durante a noite, constantemente acompanhada por duas amigas numa mesa à beira da piscina.
a noite avançava, assim como o número de copos vazios. a música ia ficando cada vez mais alta nos meus ouvidos. o champanhe escorria desalmadamente pela minha garganta, fazendo aumentar consideravelmente a qualidade da banda. senti então uma vontade incrível de dançar. a banda convidava. parecia mal não aceitar. o andré ainda não tinha tentado o seu habitual truque "eu tenho duas, ficas tu com uma; a mais feia de preferência". desta vez até queria que o fizesse, mas nem sequer o estava a ver. enquanto o procurava, vi o anfitrião encaminhar-se para a garagem com um grupo de pessoas. talvez para mostrar algum carro, porque um bom profissional nunca descansa. o andré já me tinha avisado que ele era assim, viciado no trabalho. por isso tinha tudo aquilo que eu estava a ver, incluindo a paula, sua mulher. ela lá continuava à beira da piscina. aproximei-me lentamente. se eu queria mudar mesmo, teria que começar pelos testes mais difíceis. afinal tinha estado grande parte da noite a olhar para ela. por isso sabia sempre onde ela estava. e o reflexo da água da piscina iluminada na sua cara atribuía-lhe um ar angelical, com olhos meigos e solitários. interrompi educadamente a conversa e convidei-a para dançar. as amigas olharam-me de alto a baixo, com um evidente ar de espanto e indignação. a paula gentilmente recusou o meu pedido, não conseguindo, todavia, deixar transparecer alguma satisfação pelo convite. não querendo parecer mal educado, convidei igualmente as suas amigas de mesa, recebendo a mesma resposta. procurando a melhor saída possível para o meu evidente embaraço, perguntei onde eram as casas de banho. foi a única pergunta que me ocorreu, talvez motivada pelo constante empertigamento da minha bexiga. depois das indicações, afastei-me, roubando mais um copo de champanhe de uma bandeja qualquer. já dentro de casa, errei a porta da casa de banho e dou de caras com o andré, num quarto, aos beijos com uma loura qualquer. nem me viram. fechei a porta devagarinho e, ao virar-me, dou de caras com a paula. tirou-me o copo da mão e disse que me ia indicar onde era a casa de banho. bebeu um pouco de champanhe e seguiu à minha frente, bem devagarinho, soltando os cabelos. o seu corpo ainda virava a cabeça a muitos homens, isso era óbvio. quando vi que tínhamos realmente entrado na casa de banho, não deixei de sentir algum desapontamento, com receio que as suas intenções fossem apenas as de me indicar, mesmo, a casa de banho. mas não eram. fechou a porta à chave, levantou a saia e tirou meticulosamente as suas cuecas. no meu interior, o medo de ser apanhado com a mulher do dono de casa e a excitação de fazer amor depois de tanto tempo travavam uma intensa luta. a fogosidade da paula, a porta trancada, o efeito do champanhe e a minha erecção fizeram a balança pender nitidamente para a excitação. fizemos amor em pé, contra a parede, tentando fazer o menor barulho possível. a intensidade foi tanto maior em virtude do perigo que corríamos de ser apanhados. uniu-nos uma enorme cumplicidade, aliada a uma tremenda sede de afectos e a uma evidente atracção física. no final, depois de nos recompormos, ela saiu primeiro, não sem antes me ter dito que teríamos que repetir um dia.
quando voltei a encontrar o andré, ele estava com duas mulheres... tarde demais.
o verão aproximava-se. os dias quentes tinham-se instalado, esticando o dia, aumentando a vontade de sair à rua, de apreciar uma esplanada, com uma gelada cerveja na mão, chinelos nos pés, calções e t'shirt. estar em casa ou no trabalho era uma camisa de forças. o mundo parecia sorrir lá fora, com a habitual agitação urbana transformada em melodias harmoniosas, em ambientes coloridos pelo sol durante o dia, que embelezava mesmo os mais lúgubres recantos de lisboa, e iluminados pela lua de noite, fazendo pulsar as suas artérias mais solitárias. mal acabávamos de jantar, geralmente algo que coubesse no microondas e estivesse ao alcance no congelador, eu e o andré escapávamos para a rua. eu sentia-me um adolescente, a viver as mesmas sensações do meu filho quando o deixávamos sair à noite com os amigos. a convivência diária com o andré tinha alterado muito do meu comportamento social. era inevitável. ele era um especialista na matéria. em termos de bares, cafés, restaurantes e tascas, era muito raro o sítio onde ele não conhecesse alguém. em parte, começava finalmente a sentir-me novamente amparado, a caminhar com o profundo conhecimento de que haveria sempre duas sombras na minha silhueta, fazendo com que os meus níveis de auto-estima começassem a subir. comecei então a sentir que não poderia defraudar a pessoa que me colocou naquele estado, que me tinha aberto todos aqueles horizontes. a forma que eu arranjei de o fazer foi "embarcar" nas suas aventuras, não recusando nada pelo caminho. tinha 40 anos e sentia que ainda não tinha vivido a vida em toda a sua plenitude e, olhando para a vida do andré, era impossível não deixar de sentir alguma inveja. aquilo que no princípio renunciava, quando fui morar com ele, "batia" forte agora como uma premente necessidade.
o meu primeiro grande teste foi numa festa particular em casa de um casal amigo do andré, a paula e o césar cardoso, ele industrial automóvel e ela decoradora de interiores, ambos na casa dos cinquenta anos. a casa era enorme, com vastos relvados, jardins e piscina. mal olhei para ela comecei imediatamente a sentir-me mal vestido. fomos recebidos pelos donos da casa, que cumprimentamos com requintada cortesia, porque o ambiente exigia algum decoro e um comportamento imaculado. rapidamente deixou de se ver o bem tratado relvado da casa, à medida que os restantes convidados iam chegando. césar cardoso sabia receber, agia como um profissional nas suas deambulações pelos vários nichos de gente, cumprimentando, trocando meia dúzia de palavras simpáticas e perguntando sempre se era preciso alguma coisa. facilmente se compreendia nas suas acções o sucesso da sua carreira profissional. a sua esposa era mais comedida, chegando a dar alguns ares de arrogância. foi sempre muito fácil localizá-la durante a noite, constantemente acompanhada por duas amigas numa mesa à beira da piscina.
a noite avançava, assim como o número de copos vazios. a música ia ficando cada vez mais alta nos meus ouvidos. o champanhe escorria desalmadamente pela minha garganta, fazendo aumentar consideravelmente a qualidade da banda. senti então uma vontade incrível de dançar. a banda convidava. parecia mal não aceitar. o andré ainda não tinha tentado o seu habitual truque "eu tenho duas, ficas tu com uma; a mais feia de preferência". desta vez até queria que o fizesse, mas nem sequer o estava a ver. enquanto o procurava, vi o anfitrião encaminhar-se para a garagem com um grupo de pessoas. talvez para mostrar algum carro, porque um bom profissional nunca descansa. o andré já me tinha avisado que ele era assim, viciado no trabalho. por isso tinha tudo aquilo que eu estava a ver, incluindo a paula, sua mulher. ela lá continuava à beira da piscina. aproximei-me lentamente. se eu queria mudar mesmo, teria que começar pelos testes mais difíceis. afinal tinha estado grande parte da noite a olhar para ela. por isso sabia sempre onde ela estava. e o reflexo da água da piscina iluminada na sua cara atribuía-lhe um ar angelical, com olhos meigos e solitários. interrompi educadamente a conversa e convidei-a para dançar. as amigas olharam-me de alto a baixo, com um evidente ar de espanto e indignação. a paula gentilmente recusou o meu pedido, não conseguindo, todavia, deixar transparecer alguma satisfação pelo convite. não querendo parecer mal educado, convidei igualmente as suas amigas de mesa, recebendo a mesma resposta. procurando a melhor saída possível para o meu evidente embaraço, perguntei onde eram as casas de banho. foi a única pergunta que me ocorreu, talvez motivada pelo constante empertigamento da minha bexiga. depois das indicações, afastei-me, roubando mais um copo de champanhe de uma bandeja qualquer. já dentro de casa, errei a porta da casa de banho e dou de caras com o andré, num quarto, aos beijos com uma loura qualquer. nem me viram. fechei a porta devagarinho e, ao virar-me, dou de caras com a paula. tirou-me o copo da mão e disse que me ia indicar onde era a casa de banho. bebeu um pouco de champanhe e seguiu à minha frente, bem devagarinho, soltando os cabelos. o seu corpo ainda virava a cabeça a muitos homens, isso era óbvio. quando vi que tínhamos realmente entrado na casa de banho, não deixei de sentir algum desapontamento, com receio que as suas intenções fossem apenas as de me indicar, mesmo, a casa de banho. mas não eram. fechou a porta à chave, levantou a saia e tirou meticulosamente as suas cuecas. no meu interior, o medo de ser apanhado com a mulher do dono de casa e a excitação de fazer amor depois de tanto tempo travavam uma intensa luta. a fogosidade da paula, a porta trancada, o efeito do champanhe e a minha erecção fizeram a balança pender nitidamente para a excitação. fizemos amor em pé, contra a parede, tentando fazer o menor barulho possível. a intensidade foi tanto maior em virtude do perigo que corríamos de ser apanhados. uniu-nos uma enorme cumplicidade, aliada a uma tremenda sede de afectos e a uma evidente atracção física. no final, depois de nos recompormos, ela saiu primeiro, não sem antes me ter dito que teríamos que repetir um dia.
quando voltei a encontrar o andré, ele estava com duas mulheres... tarde demais.
sexta-feira, julho 11, 2008
capítulo V
capítulo V
passaram-se três meses depois da minha saída de casa. continuava em lisboa mas a minha vontade era sair dali. estava a viver em casa do andré, meu colega da repartição. solteiro, 34 anos, o andré era um "bon vivant", uma pessoa que apreciava e perseguia os prazeres da vida, sem dar "cavaco" a ninguém. no trabalho era educado, calmo e ponderado; fora desse ambiente soltava-se completamente e procurava sempre divertir-se ao máximo. não se tratava de um caso de dupla personalidade, mas sim de uma pessoa que sabia perfeitamente separar a vida profissional da vida particular. a minha chegada a casa dele, naquela que seria inicialmente uma breve fase de transição, não alterou em nada o seu modo de viver. apesar de ter um vasto grupo de amigos, passou a ter em mim um parceiro para as saídas nocturnas, para os copos, para as farras e, sobretudo, um "designated driver". o álcool nunca me fascinou muito. via-o sempre como um meio de transporte de um ponto a), um estado normal e racional, para um ponto b), um estado anormal e irracional. nas primeiras saídas nocturnas nunca me conseguia entrosar nos ambientes, em qualquer um deles. e o andré bem tentou diversificar os mesmos. casinos, discotecas, casas particulares, festas na praia, etc.. em todos me sentia deslocado. obviamente, como não apologista das bebidas alcoólicas, o meu estado de espírito ao longo dessas noites era sempre igual. assistia à lenta metamorfose do andré, bebida a bebida, até conseguir chegar ao "ponto g", como ele referia. nessa altura, parava de beber e, simplesmente, deixava o corpo seguir o seu destino. perdi a conta aos "engates" que ele desperdiçou por minha causa. não lhe era muito difícil virar a cabeça a uma mulher. era alto, bem constituído, moreno, cabelo curto e fazia sempre questão de se vestir bem, não descurando pormenor nenhum no seu aspecto. por vezes conseguia ver o "telejornal" inteiro enquanto esperava que ele se arranjasse. quando vinha ter comigo com duas mulheres eu sabia perfeitamente qual era a ideia. invariavelmente, aquela que me estava destinada era sempre substancialmente menos atraente do que a dele. meia dúzia de palavras depois, às vezes nem tanto, vinha o habitual "torcer de nariz", seguido de um ligeiro sussurro ao ouvido da amiga e a consequente explicação para um afastamento. eu não me importava. era evidente que a minha personalidade não se encaixava ali, nem eu tinha alguma predisposição para a moldar àqueles ambientes. limitava-me a observar, noite após noite, a estudar os movimentos, os "joguinhos" de sedução, os truques. nesse aspecto, aprendi muito com o andré, ele sentia-se sempre como peixe na água, seduzia as empregadas com o seu estilo extrovertido e brincalhão. até as piadas menos trabalhadas e nitidamente saloias, quando estava menos inspirado, recebiam rasgados sorrisos, seguidos da famosa passagem das mãos pelos cabelos e leve inclinar da cabeça. para alguém como eu, que sempre tive uma vida pacata e familiar, sem devaneios nocturnos durante largos anos, todo aquele cenário pertencia a um outro mundo alternativo. era tudo novo para mim. lentamente fui aprendendo a "jogar". até me tornar muito bom também...
(continua)
passaram-se três meses depois da minha saída de casa. continuava em lisboa mas a minha vontade era sair dali. estava a viver em casa do andré, meu colega da repartição. solteiro, 34 anos, o andré era um "bon vivant", uma pessoa que apreciava e perseguia os prazeres da vida, sem dar "cavaco" a ninguém. no trabalho era educado, calmo e ponderado; fora desse ambiente soltava-se completamente e procurava sempre divertir-se ao máximo. não se tratava de um caso de dupla personalidade, mas sim de uma pessoa que sabia perfeitamente separar a vida profissional da vida particular. a minha chegada a casa dele, naquela que seria inicialmente uma breve fase de transição, não alterou em nada o seu modo de viver. apesar de ter um vasto grupo de amigos, passou a ter em mim um parceiro para as saídas nocturnas, para os copos, para as farras e, sobretudo, um "designated driver". o álcool nunca me fascinou muito. via-o sempre como um meio de transporte de um ponto a), um estado normal e racional, para um ponto b), um estado anormal e irracional. nas primeiras saídas nocturnas nunca me conseguia entrosar nos ambientes, em qualquer um deles. e o andré bem tentou diversificar os mesmos. casinos, discotecas, casas particulares, festas na praia, etc.. em todos me sentia deslocado. obviamente, como não apologista das bebidas alcoólicas, o meu estado de espírito ao longo dessas noites era sempre igual. assistia à lenta metamorfose do andré, bebida a bebida, até conseguir chegar ao "ponto g", como ele referia. nessa altura, parava de beber e, simplesmente, deixava o corpo seguir o seu destino. perdi a conta aos "engates" que ele desperdiçou por minha causa. não lhe era muito difícil virar a cabeça a uma mulher. era alto, bem constituído, moreno, cabelo curto e fazia sempre questão de se vestir bem, não descurando pormenor nenhum no seu aspecto. por vezes conseguia ver o "telejornal" inteiro enquanto esperava que ele se arranjasse. quando vinha ter comigo com duas mulheres eu sabia perfeitamente qual era a ideia. invariavelmente, aquela que me estava destinada era sempre substancialmente menos atraente do que a dele. meia dúzia de palavras depois, às vezes nem tanto, vinha o habitual "torcer de nariz", seguido de um ligeiro sussurro ao ouvido da amiga e a consequente explicação para um afastamento. eu não me importava. era evidente que a minha personalidade não se encaixava ali, nem eu tinha alguma predisposição para a moldar àqueles ambientes. limitava-me a observar, noite após noite, a estudar os movimentos, os "joguinhos" de sedução, os truques. nesse aspecto, aprendi muito com o andré, ele sentia-se sempre como peixe na água, seduzia as empregadas com o seu estilo extrovertido e brincalhão. até as piadas menos trabalhadas e nitidamente saloias, quando estava menos inspirado, recebiam rasgados sorrisos, seguidos da famosa passagem das mãos pelos cabelos e leve inclinar da cabeça. para alguém como eu, que sempre tive uma vida pacata e familiar, sem devaneios nocturnos durante largos anos, todo aquele cenário pertencia a um outro mundo alternativo. era tudo novo para mim. lentamente fui aprendendo a "jogar". até me tornar muito bom também...
(continua)
quarta-feira, julho 09, 2008
to wish impossible things - the cure
to wish impossible things
Remember how it used to be
When the sun would fill the sky
Remember how we used to feel
Those days would never end
Those days would never end
Remember how it used to be
When the stars would fill the sky
Remember how we used to dream
Those nights would never end
Those nights would never end
It was the sweetness of your skin
It was the hope of all we might have been
That filled me with the hope to wish
Impossible things
To wish impossible things
But now the sun shines cold
And all the sky is grey
The stars are dimmed by clouds and tears
And all I wish
Is gone away
All I wish
Is gone away
All I wish
Is gone away
compilação musical de junho
e ao sexto mês... eu descansei. é verdade, não ouvi nada de novo em junho, apenas visitei os meus arquivos musicais, recordando músicas marcantes e entrando novamente em contacto com a minha vincada nostalgia. para julho tenho já em carteira alguns discos, como os coldplay, sigur rós, spiritualized, hercules & love affair, etc.. a compilação de junho é quase como que um "resumo da matéria dada", em que os sons me transportam para os primeiros tempos deste blogue e para toda a montanha russa de emoções vividas. ei-la:
1. the same deep water as you - the cure
2. a jealous heart is a heavy heart - damien jurado
3. ballad of sister sue - slowdive
4. man is the baby - antony and the johnsons
5. salty seas - devics
6. to wish impossible things - the cure
7. darkest dreaming - david sylvian
8. over the hillside - the blue nile
9. true - the frames
10. steam engine - my morning jacket
11. transatlanticism - death cab for cutie
12. bleed a river deep - ed harcourt
13- trust - the cure
1. the same deep water as you - the cure
2. a jealous heart is a heavy heart - damien jurado
3. ballad of sister sue - slowdive
4. man is the baby - antony and the johnsons
5. salty seas - devics
6. to wish impossible things - the cure
7. darkest dreaming - david sylvian
8. over the hillside - the blue nile
9. true - the frames
10. steam engine - my morning jacket
11. transatlanticism - death cab for cutie
12. bleed a river deep - ed harcourt
13- trust - the cure
capítulo IV
capítulo IV
encarei o fim do meu casamento de 16 anos com a sónia de uma forma natural. há muito que procurávamos caminhos opostos e tínhamos ambições distintas. apenas nos limitávamos a partilhar a mesma casa nos últimos tempos, incapazes sequer de um beijo na face quando ela saía de casa ou chegava do emprego. enquanto fazia as minhas malas, tentei lembrar-me da última vez que tínhamos feito amor. a única data que me veio à cabeça foi a do dia de aniversário do marco, em outubro, há muitos meses atrás. depois da festa lá em casa, ele saiu com os amigos e eu e a sónia ficamos sozinhos em casa. eu estava bem disposto, bem bebido; ela não sabia por onde começar a arrumar a mesa e a sala, que estava de pantanas devido à "passagem" de um grupo de dezena e meia de adolescentes famintos, todos eles munidos do inseparável telemóvel. aliás, até creio que eles comunicaram uns com os outros por esse meio, tal a avidez com que manuseavam o aparelho. quando se partiu o bolo, depois dos parabéns, estava mesmo à espera que o marco mandasse sms's aos amigos a perguntar se queriam bolo. enfim... juventude! no meu tempo havia o cubo mágico, o walkman, os headphones. mudam-se os tempos, mudam-se as distrações juvenis. mas, apesar de tudo, acho que nunca andei vestido com umas calças pelas virilhas e com as cuecas a verem-se. nessa noite, quem estava impecavelmente vestida era a sónia. de vestido preto, pelos joelhos, e com um acentuado decote, por onde espreitavam parte dos seus vistosos seios. nessa noite desejei-a com intensidade e não descansei enquanto não a possuí. fizemos amor na cozinha, em pé. lembro-me que, durante o acto, me veio à cabeça a cena do filme "basic instinct", em que o michael douglas e a jeanne tripplehorn se envolvem da mesma forma. no filme, eles acabam nas costas de um sofá. na minha cozinha, acabamos na mesa. mas quer-me parecer que nós prolongamos mais a "cena" do que o par cinematográfico (também não era difícil, no filme a cena demora uns 40 segundos). foi bom, foi mesmo muito bom. por isso é que custa tanto a perceber por que motivo não o fazíamos mais vezes. creio que esse orgasmo na cozinha foi mesmo a última coisa que fizemos juntos.
a questão da custódia do marco era um assunto praticamente resolvido à partida. como iria discutir isso com uma mãe advogada? concordamos que seria melhor ele ficar. o acordo com a sónia foi colocarmos o apartamento à venda e depois dividirmos o dinheiro. assim como eu ficar com o marco aos fins de semana, de quinze em quinze dias. por isso, quando saí de casa, num quente dia de março, fiquei com a sensação de que estava a partir para umas férias sozinho, na medida em que sabia perfeitamente que ainda ia ver a sónia muito mais vezes. o marco deu-me um forte abraço e, quando encostou a cabeça no meu ombro, disse-me algo baixinho que eu nunca mais esqueci: "eu vou estudar mais, prometo".
quando entrei no táxi, comecei a chorar desalmadamente. lembro-me que, na rádio, passava o "purple rain", do prince. e como eu desejava que estivesse a chover, que as nuvens cobrissem o céu e tapassem o sol. esse sol que me feria, que contrastava seriamente com as trevas no meu interior, com os negros abismos da minha alma. sim, a verdade é que eu era, naquele momento, um homem livre, com carta branca para começar de novo, para um "reset" a todos os níveis; mas a minha sombra no pavimento continuava a ser a de um frágil miúdo assustado.
(continua)
encarei o fim do meu casamento de 16 anos com a sónia de uma forma natural. há muito que procurávamos caminhos opostos e tínhamos ambições distintas. apenas nos limitávamos a partilhar a mesma casa nos últimos tempos, incapazes sequer de um beijo na face quando ela saía de casa ou chegava do emprego. enquanto fazia as minhas malas, tentei lembrar-me da última vez que tínhamos feito amor. a única data que me veio à cabeça foi a do dia de aniversário do marco, em outubro, há muitos meses atrás. depois da festa lá em casa, ele saiu com os amigos e eu e a sónia ficamos sozinhos em casa. eu estava bem disposto, bem bebido; ela não sabia por onde começar a arrumar a mesa e a sala, que estava de pantanas devido à "passagem" de um grupo de dezena e meia de adolescentes famintos, todos eles munidos do inseparável telemóvel. aliás, até creio que eles comunicaram uns com os outros por esse meio, tal a avidez com que manuseavam o aparelho. quando se partiu o bolo, depois dos parabéns, estava mesmo à espera que o marco mandasse sms's aos amigos a perguntar se queriam bolo. enfim... juventude! no meu tempo havia o cubo mágico, o walkman, os headphones. mudam-se os tempos, mudam-se as distrações juvenis. mas, apesar de tudo, acho que nunca andei vestido com umas calças pelas virilhas e com as cuecas a verem-se. nessa noite, quem estava impecavelmente vestida era a sónia. de vestido preto, pelos joelhos, e com um acentuado decote, por onde espreitavam parte dos seus vistosos seios. nessa noite desejei-a com intensidade e não descansei enquanto não a possuí. fizemos amor na cozinha, em pé. lembro-me que, durante o acto, me veio à cabeça a cena do filme "basic instinct", em que o michael douglas e a jeanne tripplehorn se envolvem da mesma forma. no filme, eles acabam nas costas de um sofá. na minha cozinha, acabamos na mesa. mas quer-me parecer que nós prolongamos mais a "cena" do que o par cinematográfico (também não era difícil, no filme a cena demora uns 40 segundos). foi bom, foi mesmo muito bom. por isso é que custa tanto a perceber por que motivo não o fazíamos mais vezes. creio que esse orgasmo na cozinha foi mesmo a última coisa que fizemos juntos.
a questão da custódia do marco era um assunto praticamente resolvido à partida. como iria discutir isso com uma mãe advogada? concordamos que seria melhor ele ficar. o acordo com a sónia foi colocarmos o apartamento à venda e depois dividirmos o dinheiro. assim como eu ficar com o marco aos fins de semana, de quinze em quinze dias. por isso, quando saí de casa, num quente dia de março, fiquei com a sensação de que estava a partir para umas férias sozinho, na medida em que sabia perfeitamente que ainda ia ver a sónia muito mais vezes. o marco deu-me um forte abraço e, quando encostou a cabeça no meu ombro, disse-me algo baixinho que eu nunca mais esqueci: "eu vou estudar mais, prometo".
quando entrei no táxi, comecei a chorar desalmadamente. lembro-me que, na rádio, passava o "purple rain", do prince. e como eu desejava que estivesse a chover, que as nuvens cobrissem o céu e tapassem o sol. esse sol que me feria, que contrastava seriamente com as trevas no meu interior, com os negros abismos da minha alma. sim, a verdade é que eu era, naquele momento, um homem livre, com carta branca para começar de novo, para um "reset" a todos os níveis; mas a minha sombra no pavimento continuava a ser a de um frágil miúdo assustado.
(continua)
segunda-feira, julho 07, 2008
capítulo III
capítulo III
foram penosos os primeiros meses. recusava-me a sair de uma confortável, mas compreendida, depressão. ela serviu-me de camuflagem para muitas coisas que eu não queria fazer. as tais coisas que antigamente pedia ao meu pai para resolver. de certa forma, estava a negar-me a aceitar as responsabilidades inerentes ao meu papel de chefe de família, pai de um filho menor, agora que acima de mim não tinha mais ninguém. desamparado de mãe e pai, os holofotes apontavam agora para mim. era eu que tinha, agora, de resolver os problemas dos outros. mas como, se eu nem os meus conseguia resolver? nunca soube.
o ambiente degradava-se de dia para dia em minha casa. era raro o dia em que não havia discussões. as contas avolumavam-se, muito por causa de ter ficado três meses de baixa psicológica, as notas do marco pioraram, a sónia acudia a vários fogos mas era incapaz de lidar com tudo isto. ainda por cima era a única que trabalhava por esta altura. eu vegetava por casa, comendo tostas mistas ao almoço, jogando playstation e vendo má televisão. não abria a porta a ninguém, não atendia o telefone nem o telemóvel. estive completamente isolado do mundo durante três meses. a minha única tarefa diária era ir buscar o marco ao liceu, às 17h30. numa dessas situações, enquanto esperava no carro pelo meu filho, fui interpelado por uma muher, que aparentava ter trinta e poucos anos de idade, de calças de ganga justas e top preto. tinha longos cabelos pretos e uns olhos esverdeados. obviamente, quando a vi aproximar-se do meu carro, tentei recompor-me o melhor possível. a minha grande dúvida, no momento, foi se mantinha ou não os óculos de sol. não queria que ela visse as minhas olheiras mas, por outro lado, sempre considerei uma grande falta de educação falar com alguém que não tira os óculos escuros para falar comigo. por isso tirei-os. no preciso momento em que ela ia começar a falar. não pude deixar de notar um ligeiro esgar de desconforto e alguma repugnância perante o que se lhe apresentava diante dos olhos.
- boa tarde, o senhor é o pai do marco, não é?
- sou sim - afirmei, tentando dizer o menor número de palavras possível, não fosse ela reparar, igualmente, no meu terrível mau hálito. onde é que há um cigarro quando um tipo precisa de um?
- eu sou a professora de história do seu filho. chamo-me sofia ribeiro. soube pelos colegas do marco que o avô tinha morrido. os meus sentimentos.
- obrigado.
- ele foi-se um pouco abaixo, como deve saber. pelo que os outros professores dele me contam, também aconteceu o mesmo nas outras disciplinas. por isso, estou um pouco preocupada com ele, que sempre foi um aluno exemplar. na altura do falecimento ele não teve nenhum acompanhamento psicológico?
- não, não teve. sofreu muito, é verdade. ele gostava muito do avô artur.
- já andava há uns tempos para falar consigo ou com a sua mulher, porque eu considero que ele devia ser acompanhado psicologicamente. é uma pena ele desperdiçar a inteligência que tem desta forma. vem aí o terceiro período e ele precisa de subir as notas para não perder o ano.
- sim, tem que ser. tem que ser. - confesso que não me lembrava de nada minimamente inteligente para dizer. já não me lembrava da última vez que tinha falado com alguém. talvez tenha sido no funeral.
- eu vou deixar-lhe um cartão da escola, com o número do gabinete de acompanhamento psicológico, para a eventualidade de o senhor e a sua esposa decidirem aceitar esta minha proposta.
- sim, muito obrigado. logo ao jantar discutirei o assunto com a minha mulher.
ela sorriu e despediu-se, afastando-se do meu carro devagarinho. pelo menos era assim que eu a via, numa espécie de câmara lenta, com os cabelos selvagens a debater-se com o vento numa luta inglória. sofia ribeiro! lindo nome! no meu tempo não havia professoras assim. ou que se vestissem assim. raio de sorte!
durante o jantar, toquei no assunto. o marco sentiu-se incomodado, logo dizendo que não precisava de acompanhamento nenhum. a sónia, de forma ríspida e autoritária, fez-lhe ver que o seu rendimento escolar tinha que ser alterado rapidamente, ameaçando proibir as suas saídas ao sábado à noite. o marco olhou para mim, à espera de defesa. vi nos olhos dele que aquela não era a altura propícia para o desapontar, que me estava a estender uma mão à espera do salvamento de uma queda inevitável. era este o momento.
- marco, a mãe está a brincar. não vai nada proibir-te de sair aos sábados. apenas tens que perceber que tens que te aplicar e estudar mais. nunca nos deste problemas na escola. não vai ser este ano, pois não?
o marco esboçou um enorme sorriso, aliviado, contente pelo meu voto de confiança.
- marco, vai para o teu quarto, por favor, que eu quero falar com o teu pai. - disse a sónia.
de repente, senti colocarem-me no pescoço umas grossas cordas, às quais deram um daqueles nós que só se aprendem nos escuteiros. o pontapé na cadeira que me deixaria suspenso no ar abandonado à minha sorte foi dado pela sónia ainda antes de o marco ter chegado ao quarto:
- esta foi a última vez que me desautorizaste à frente do nosso filho. estou farta! chega, acabou! passo o dia inteiro a trabalhar, para poder pagar as nossas contas, para pôr comida na mesa, gasolina nos carros, e é esta a recompensa que eu tenho? tu ficas em casa o dia todo, sabe-se lá a fazer o quê, não te preocupas com nada nem com ninguém, não queres saber onde eu estou, onde está o teu filho, o que come, com quem anda, e depois és tu, ainda por cima, que dás a palavra final sobre o que é melhor para ele? isso não, nem pensar. eu, que faço uma ginástica terrível para arranjar tempo para tudo, trabalho, casa, escola do marco, compras... a única coisa que te peço é que o vás buscar à escola todos os dias. achas muito? depois quando acontecem situações como esta, é o paizinho que é bestial, porque faz as vontades todas ao filhinho. eu não, eu sou sempre a má da fita. para mim, acabou! estou esgotada! farta disto tudo!
como poderia eu rebater isto? era tudo verdade. tudo! apenas um grande canalha tentaria argumentar algo em sua defesa, utilizando as artimanhas possíveis e imaginárias para reverter a situação a seu favor. a verdade tinha-me batido de frente, como um autocarro a chocar contra uma bicicleta. o meu papel era o de ficar estendido no chão, com as rodas tortas, os pedais partidos e o volante desfeito.
(continua)
foram penosos os primeiros meses. recusava-me a sair de uma confortável, mas compreendida, depressão. ela serviu-me de camuflagem para muitas coisas que eu não queria fazer. as tais coisas que antigamente pedia ao meu pai para resolver. de certa forma, estava a negar-me a aceitar as responsabilidades inerentes ao meu papel de chefe de família, pai de um filho menor, agora que acima de mim não tinha mais ninguém. desamparado de mãe e pai, os holofotes apontavam agora para mim. era eu que tinha, agora, de resolver os problemas dos outros. mas como, se eu nem os meus conseguia resolver? nunca soube.
o ambiente degradava-se de dia para dia em minha casa. era raro o dia em que não havia discussões. as contas avolumavam-se, muito por causa de ter ficado três meses de baixa psicológica, as notas do marco pioraram, a sónia acudia a vários fogos mas era incapaz de lidar com tudo isto. ainda por cima era a única que trabalhava por esta altura. eu vegetava por casa, comendo tostas mistas ao almoço, jogando playstation e vendo má televisão. não abria a porta a ninguém, não atendia o telefone nem o telemóvel. estive completamente isolado do mundo durante três meses. a minha única tarefa diária era ir buscar o marco ao liceu, às 17h30. numa dessas situações, enquanto esperava no carro pelo meu filho, fui interpelado por uma muher, que aparentava ter trinta e poucos anos de idade, de calças de ganga justas e top preto. tinha longos cabelos pretos e uns olhos esverdeados. obviamente, quando a vi aproximar-se do meu carro, tentei recompor-me o melhor possível. a minha grande dúvida, no momento, foi se mantinha ou não os óculos de sol. não queria que ela visse as minhas olheiras mas, por outro lado, sempre considerei uma grande falta de educação falar com alguém que não tira os óculos escuros para falar comigo. por isso tirei-os. no preciso momento em que ela ia começar a falar. não pude deixar de notar um ligeiro esgar de desconforto e alguma repugnância perante o que se lhe apresentava diante dos olhos.
- boa tarde, o senhor é o pai do marco, não é?
- sou sim - afirmei, tentando dizer o menor número de palavras possível, não fosse ela reparar, igualmente, no meu terrível mau hálito. onde é que há um cigarro quando um tipo precisa de um?
- eu sou a professora de história do seu filho. chamo-me sofia ribeiro. soube pelos colegas do marco que o avô tinha morrido. os meus sentimentos.
- obrigado.
- ele foi-se um pouco abaixo, como deve saber. pelo que os outros professores dele me contam, também aconteceu o mesmo nas outras disciplinas. por isso, estou um pouco preocupada com ele, que sempre foi um aluno exemplar. na altura do falecimento ele não teve nenhum acompanhamento psicológico?
- não, não teve. sofreu muito, é verdade. ele gostava muito do avô artur.
- já andava há uns tempos para falar consigo ou com a sua mulher, porque eu considero que ele devia ser acompanhado psicologicamente. é uma pena ele desperdiçar a inteligência que tem desta forma. vem aí o terceiro período e ele precisa de subir as notas para não perder o ano.
- sim, tem que ser. tem que ser. - confesso que não me lembrava de nada minimamente inteligente para dizer. já não me lembrava da última vez que tinha falado com alguém. talvez tenha sido no funeral.
- eu vou deixar-lhe um cartão da escola, com o número do gabinete de acompanhamento psicológico, para a eventualidade de o senhor e a sua esposa decidirem aceitar esta minha proposta.
- sim, muito obrigado. logo ao jantar discutirei o assunto com a minha mulher.
ela sorriu e despediu-se, afastando-se do meu carro devagarinho. pelo menos era assim que eu a via, numa espécie de câmara lenta, com os cabelos selvagens a debater-se com o vento numa luta inglória. sofia ribeiro! lindo nome! no meu tempo não havia professoras assim. ou que se vestissem assim. raio de sorte!
durante o jantar, toquei no assunto. o marco sentiu-se incomodado, logo dizendo que não precisava de acompanhamento nenhum. a sónia, de forma ríspida e autoritária, fez-lhe ver que o seu rendimento escolar tinha que ser alterado rapidamente, ameaçando proibir as suas saídas ao sábado à noite. o marco olhou para mim, à espera de defesa. vi nos olhos dele que aquela não era a altura propícia para o desapontar, que me estava a estender uma mão à espera do salvamento de uma queda inevitável. era este o momento.
- marco, a mãe está a brincar. não vai nada proibir-te de sair aos sábados. apenas tens que perceber que tens que te aplicar e estudar mais. nunca nos deste problemas na escola. não vai ser este ano, pois não?
o marco esboçou um enorme sorriso, aliviado, contente pelo meu voto de confiança.
- marco, vai para o teu quarto, por favor, que eu quero falar com o teu pai. - disse a sónia.
de repente, senti colocarem-me no pescoço umas grossas cordas, às quais deram um daqueles nós que só se aprendem nos escuteiros. o pontapé na cadeira que me deixaria suspenso no ar abandonado à minha sorte foi dado pela sónia ainda antes de o marco ter chegado ao quarto:
- esta foi a última vez que me desautorizaste à frente do nosso filho. estou farta! chega, acabou! passo o dia inteiro a trabalhar, para poder pagar as nossas contas, para pôr comida na mesa, gasolina nos carros, e é esta a recompensa que eu tenho? tu ficas em casa o dia todo, sabe-se lá a fazer o quê, não te preocupas com nada nem com ninguém, não queres saber onde eu estou, onde está o teu filho, o que come, com quem anda, e depois és tu, ainda por cima, que dás a palavra final sobre o que é melhor para ele? isso não, nem pensar. eu, que faço uma ginástica terrível para arranjar tempo para tudo, trabalho, casa, escola do marco, compras... a única coisa que te peço é que o vás buscar à escola todos os dias. achas muito? depois quando acontecem situações como esta, é o paizinho que é bestial, porque faz as vontades todas ao filhinho. eu não, eu sou sempre a má da fita. para mim, acabou! estou esgotada! farta disto tudo!
como poderia eu rebater isto? era tudo verdade. tudo! apenas um grande canalha tentaria argumentar algo em sua defesa, utilizando as artimanhas possíveis e imaginárias para reverter a situação a seu favor. a verdade tinha-me batido de frente, como um autocarro a chocar contra uma bicicleta. o meu papel era o de ficar estendido no chão, com as rodas tortas, os pedais partidos e o volante desfeito.
(continua)
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