tenho um grande defeito! reconheço. aliás, tenho vários, mas hoje queira falar de um deles apenas. os outros encheriam todas as páginas do expresso, incluindo suplementos.
os meus amigos, os verdadeiros, não aqueles de ocasião, confrontam-me amiúde com a minha suposta "falta de atenção" para com eles, a ausência de sinais de carinho e ternura, criticando, ainda, a minha acidez em alguns comentários pejorativos (não mal intencionados, aqueles que se dizem na brincadeira), a minha instabilidade emocional, que nunca lhes permite aferir se estou bem ou mal disposto antes de iniciarem qualquer conversa comigo. isto tudo para além de eu não conseguir conversar olhando olhos nos olhos a outra pessoa. e mais: que eu sou incapaz de manter uma conversa séria junto deles sem estar constantemente a mandar piadas parvas e a fazer trocadilhos irracionais e totalmente deslocados do assunto.
realmente... é muita coisa. é caso para perguntar como é que eu ainda tenho amigos!!...
pois bem, o meu defeito é o de "disfarçar" sensações, dissimulá-las, alterá-las de uma forma meia "apatetada" de maneira a que eu me sinta confortável e não meio acabrunhado, sem reacção para além de um sorriso amarelo constrangedor que, de tão rígido, provoca dores musculares na face durante um mês.
e quando é que eu faço isso? (não devo ser a única pessoa a fazê-lo, certamente!) eu faço isso quando não quero dar a entender à outra pessoa que, de facto, gosto dela. e é nessa altura que eu regrido cerca de 30 anos e me porto como um puto de 4 anos que se farta de gozar as meninas, a roupa delas, as brincadeiras e as bonecas delas, quando, no fundo, até queria mesmo era brincar com elas, pentear a barbie, vestir a cindy, fazer bolos de chocolate no mini forno eléctrico e servir chá no salão às amigas da carlota cambalhota (por exemplo). pois é, como era tudo tão simples nessa altura, gostávamos das nossas colegas da escola primária, mas ficava-nos bem dizer que as detestávamos, que o que era bom era brincar com o Chico, o Tó, o Zeca e o João. ah, e gozar com elas. sempre! agora é diferente, claro. se temos colegas de trabalho no emprego, como antigamente tinhamos colegas de escola, já não nos fica bem fazer o que faziamos antes.
mas voltando um pouco atrás, Vasco da Gama estava certo de que tinha encontrado o caminho marítimo para a Índia, embora não soubesse como voltar novamente ao seu país... bem, não tanto atrás. (parvoíce!). a esse processo eu chamo de "mecanismo de defesa", ou seja, estou sempre salvaguardado nesta minha carapaça de indiferença, mostrando o meu lado arrogante, de desprezo quase, dizendo apenas barbaridades, só para não ter que mostrar o meu "lado fraco" e sensível. conheço mulheres que adoram esse lado nos homens (felizmente são muitas e ainda bem, porque eu sou de facto assim); mas também há outras que nos "enganam" muito bem, porque parece que são exactamente o oposto disso e, depois, são iguais, não queriam era demonstra-lo, porque, lá está, também elas não queriam mostrar o seu "lado fraco". ou seja, quando pensamos que uma determinada relação, seja ela de trabalho, familiar ou de amizade, está a seguir um rumo "confortável", sem ondas, sem muitas exigências de parte a parte, somos confrontados com uma espécie de chamada de atenção do género: "porque é que a umas fazes questão de as brindar com elogios e a outras preferes pisar para não ter que elogiar?". e isto desarma qualquer um. primeiro porque a pessoa que fez a questão está cheia de razão. segundo porque esta espécie de "ciúme" camuflado faz-me cair na realidade e constatar que, de facto, tenho negligenciado algumas pessoas, em detrimento de outras, em várias fases da minha vida. e esta é uma delas (tanto a fase, como a pessoa). é o meu chamado "top of the pops" sentimental. (ricardo, esta do top é para ti!). umas vezes estão umas pessoas no topo, outras no fundo da tabela, também há reentradas, entradas directas para primeiro lugar, etc.. só não tenho é a isabel figueira a apresentar todas as semanas na televisão. sou assim, não há volta a dar. perdem-se muitas pessoas pelo caminho, ganham-se outras, ferem-se umas, mutila-se outras, causam-se severos danos psicológicos numas, vontade de mudar de sexo e orientação sexual noutras, etc..
reconhecendo isso, resta-me dizer a essa minha amiga que prezo mesmo bastante o pouco tempo que passo com ela. quando faço figuras de parvo ao mandar bocas foleiras e depreciativas tou a vestir uma pele confortável e cómoda, que apaga qualquer vislumbre de carinho e ternura que sinto por ela. e ela sabe que o sinto!...