quinta-feira, junho 29, 2006

a letra L

cenas da série "L Word", que atestam bem a criatividade e irreverência das suas escritoras:
um casal de lésbicas, bette e tina (jennifer beals e laurel holloman), quer engravidar. de entre os amigos que têm, escolhem um pintor. vão ter com ele ao seu estúdio, convencem-no a "ajudá-las" e levam-lhe o respectivo recipiente. a cena seguinte, em câmara fixa, mostra-nos o casal a vaguear pelo estúdio do pintor, contemplando os seus trabalhos, enquanto ao fundo, no meio da imagem, em silhueta, nos aparece o pintor a "despachar o pedido" para o citado recipiente.
na cena seguinte, elas estão já a caminho do laboratório, para aferirem da qualidade do esperma angariado e da sua viabilidade para uma desejada gravidez. tina leva o recipiente no meio das pernas, para o manter a uma temperatura ambiente. bette, que vai a conduzir, pede-lhe o recipiente. ela olha com um ar meio enojado para ele e diz: "que aspecto repugnante isto tem. nem acredito que antigamente costumava engolir isto!".
DE SEGUNDA A SEXTA, NA 2:, ÀS 00H25.

outra piada parva

dois amigos, em animada conversa de café.
- e então? como foi ontem à noite com a rita? vocês estavam animados com as caipirinhas e às tantas saíram juntos, nunca mais vos vi. o que aconteceu?
- a tipa é fenomenal pá. fomos até minha casa e tivemos sexo ardente a noite toda.
- foi assim tão bom?
- foi pá. ela é fantástica na cama, faz tudo.
- até bacalhau com natas?

o que serei daqui a 30 anos

sou uma pessoa de rotinas. tenho rotinas para tudo. para quando me levanto, ao pequeno almoço, ao almoço, no café, ao jantar, etc. não sou de maneira nenhuma uma pessoa muito dada a surpresas. tento evitar ao máximo lugares estranhos, onde me sinta desconfortável e desintegrado. não confio no meu sistema nervoso, porque por diversas vezes ele me atraiçoou, impelindo-me a abandonar esses mesmos lugares estranhos. são palpitações, suores frios, nervos, que levam a uma postura inquietante e sôfrega. daí que, por norma, eu frequente sempre os mesmos sítios e tenha a mesma rotina diária para tomar o pequeno almoço, almoçar e tomar café. ora, no local onde tomo café todos os dias, há já uns quatro anos, um sítio amplo, fresco, costumo escolher sempre a mesa encostada às paredes, ou que esteja numa extremidade, não gosto nunca de ficar no meio ou de costas para a porta. há dias, não havendo mesa livre dentro dessas minhas preferências, fiquei numa outra. por norma, até me poderia sentir deslocado, mas como já frequento há muito esse café, isso não aconteceu. mas até a empregada que todos os dias me atende, geralmente muito compenetrada e eficiente, pouca dada a small talk e confianças, deu conta do sucedido e comentou comigo, com um ligeiro sorriso, que eu estava muito fora dos meus locais habituais.
mas tudo isto serviu como preâmbulo para o que quero contar. nesse mesmo café, todos os dias, à mesma hora, entra um senhor, dos seus 75/80 anos, vai quase sempre para a mesma mesa (excepto se estiver ocupada). senta-se, não precisa pedir porque a empregada já sabe que ele toma todos os dias a sua cevada. ali fica cerca de vinte minutos, a beber a sua cevada, sem olhar para ninguém, apenas olhares vagos para a rua. nota-se que não está ali para observar ou ser observado. está ali porque aqueles vinte minutos fazem parte da sua rotina.
já o observei por diversas vezes e o homem não altera nada na sua postura. a cena parece repetir-se todos os dias, sempre da mesma forma.
de certa forma, vejo todos os dias o que serei daqui a 30 anos. os meus filhos terão as suas famílias, espero que tenham bons empregos e excelente estabilidade financeira, estarei certamente já divorciado, porque a minha mulher tem muitas qualidades mas não vai aguentar as minhas idiossincrasias e medos por muito mais tempo (espero estar enganado a este respeito), e sem amigos (pelos mesmos motivos atrás citados). a minha rotina será a mesma de hoje (excluindo a parte profissional). tenho a certeza que aqueles 20 minutos para a cevada, todos os dias, serão o meu único contacto diário com o mundo exterior. e a empregada do café receberá todos os dias as minhas únicas palavras a esse mundo exterior: "boa tarde!", "obrigado!" e "até amanhã"!...

piada parva

um repórter chega ao pé de um jovem agricultor:
- boa tarde, o que é que o senhor cria aqui na sua quinta?
- eu queria um subsídio, ou dois.
- não me entendeu, o que eu quis perguntar era o que o senhor cria, de criar, aqui na quinta?
- bem, com os apoios que o governo tem dado a este sector, limito-me a criar expectativas.

quarta-feira, junho 28, 2006

calar o corpo

que sensações viveria nos teus braços?!
que pensamentos me assolariam?!
entregar-me-ia ingenuamente indefeso
ou solicitaria uma engenhosa escapatória?!

que emoções desencadearia em ti?!
que sabor deixaria eu nos teus lábios?!
deixar-te-ia um agradável aroma a volúpia
ou antes um amargo paladar de luxúria?!

que segredos te pediria para guardares?!
quantos perdões te rogaria pelo meu desejo?!
atrofiar-me-ia nas teias da minha vergonha
ou atrever-me-ia a confessar a minha veleidade?!

como te encontrarei no nosso epílogo?
saberei eu contornar as inevitáveis dúvidas?!
como poderei então prender as mãos ao meu corpo
quando elas insistem em te tocar e acariciar?!

terça-feira, junho 27, 2006

when harry met sally


apetece-me frequentemente rever "when harry met sally"!... voltar a ver aquelas situações que toda a gente gostaria de viver, dos encontros, das saídas para jantar, os telefonemas pela noite dentro, as conversas sobre filmes e música; o florescer de uma amizade depois de duas más primeiras impressões; a criação de uma ténue linha entre uma sólida relação de amizade e uma atracção física dissimulada e evitada a todo o custo, em nome dessa mesma amizade.
o filme gira em torno desta questão: pode realmente haver amizade entre duas pessoas que se atraem fisicamente? já lá vão 17 anos, desde o aparecimento do filme, e essa pergunta continua por responder. mas certamente já houve quem o tenha tentado... tanto responder como fazer parte de uma relação desse género.
a pergunta não implica que qualquer relação de amizade entre um homem e uma mulher só possa funcionar se ambos forem extremamente feios ou fisicamente repugnáveis. ou pelo menos uma das partes. há outra variante a ponderar: se um deles for comprometido (casado, noivo, padre, etc.). mas mesmo assim pode existir a tal "atracção física", que pode levar, como levou Billy Crystal e Meg Ryan no filme, a uma relação de outro género, mais consistente. há ainda mais variantes: se ambos forem muito escrupulosos e cientes das suas responsabilidades, conseguindo dessa forma ultrapassar o desejo; se ambos respeitarem a própria relação de amizade e não a queiram "estragar" por causa de um impulso ou luxúria. enfim, toda uma série de "estradas mentais" que o nosso cérebro cria no sentido de nos levar a alguma conclusão.
e se essa conclusão não aparece? e se o desejo se instalou de tal maneira que já é quase impossível ir tomar um simples café com essa amiga (ou amigo, no caso delas) sem aparecerem os tais pensamentos lascivos? o que fazer nestas circunstâncias? esconder da melhor maneira possível a crescente atracção física por essa amiga/o? confessar o que se está a sentir? acabar a relação de amizade com essa pessoa? continuo sem respostas...
no filme tudo se passou de uma forma "natural". eles conhecem-se numa viagem de carro para new york, conversam durante oito horas seguidas, não "clicam", antes chocam psicologicamente. encontram-se novamente quatro anos depois. voltam a "chocar", não alterando a primeira impressão que tinham um do outro. novamente quatro anos depois voltam a encontrar-se. e começam verdadeiramente a "falar", sobre os relacionamentos de ambos, ele está a divorciar-se, ela acabou uma relação de anos com o namorado. conseguem encontrar pontos em comum e afinidades e constroem daí uma relação de amizade. almoços, jantares, exposições, etc. tentam "impingir-se" um ao outro aos seus melhores amigos, no sentido de se "ajudarem" mutuamente a esquecer os antigos parceiros e seguirem as suas vidas com outras pessoas. até que acontece o "tal" impulso! ela liga-lhe a chorar, contando-lhe que o seu antigo namorado se vai casar. ele vai ter com ela a casa, encontrando-a chorosa e deprimida. muitos lenços de papel depois, acabam por se beijar... e o resto... adivinha-se. nos dias seguintes, ambos tentam "apagar" essa noite das suas vidas e continuar a ser o que eram antes disso: simples amigos. mas é impossível! e a relação de amizade ressente-se e torna-se periclitante.
nesta altura do filme só poderia haver duas saídas: ou eles acabavam de vez a amizade, por não terem chegado a um consenso sobre o real significado da tal noite; ou um deles cederia, finalmente, concluindo que aquela noite tinha sido o início de algo muito forte. (para quem não viu ainda o filme, e pretende ver, não vou revelar qual dos finais é o verdadeiro).
pois é. nos filmes é assim. no mundo real, convivemos com dezenas de pessoas todos os dias. umas são mais apelativas que outras. umas dizem-nos mais do que outras. umas nós nem sequer queremos encontrar mas, que diabo, temos que as aturar. umas fazem de nós melhores pessoas e ajudam-nos a evoluir, estimulando-nos a inteligência. outras ainda de quem tentamos esconder e dissimular os tais "impulsos"... até não conseguirmos...

detesto o cristiano ronaldo

porque detesto pessoas como o cristiano ronaldo?
vive para as máquinas fotográficas; tenta imitar o beckham em termos de namorada/mulher conhecida, dá mesmo a impressão que só começou a namorar com a merche romero por ser parecida com a victoria beckham, por ser conhecida e por saber que todas as revistas os iam perseguir; todos os seus gestos parecem premeditados e preparados ao pormenor, para ficarem bem numa revista ou na televisão; como jogador tem feito um Mundial miserável, mas mesmo assim lá faz a "fitinha" de sempre em todos os jogos (porque ele tem que ser o centro do universo): nos jogos de preparação ninguém lhe podia tocar sequer que ele partia logo para a agressão, num vedetismo sem limites; agora, no Mundial, parece que anda sempre a procurar a câmara de televisão que melhor lhe capte o físico, o penteado, os maneirismos. ah, e não se esquece de mostrar o seu lado sensível para as câmaras, quando é substituído. lá vem sempre a lagrimazinha para as câmaras, para as fãs desmaiarem em casa ao verem o seu herói em agonia e dor.
cristiano ronaldo é um jovem madeirense com jeito para jogar futebol. jogou no sporting e eu sou um admirador das suas potencialidades futebolísticas. foi a jogar futebol que enriqueceu e se tornou famoso. então porque raio não se limita a jogar futebol? e de preferência ainda neste Mundial. o que vimos até agora foi um simples desfile de moda, só faltando mesmo no final dos jogos alguém lhe oferecer um ramo de flores...

miserável televisão

vivemos um tempo de um mau gosto intragável, em que, desgraçadamente, se enterram princípios e deuses. é a hora de todos os facilitismos e mediatizações. a estes se imolam os exibicionismos e audições apressadas, vale mais o parecer do que o ser. dir-se-ia que a humanidade ensandeceu, quer tudo já de qualquer modo, perdeu a paciência de amealhar e esperar. utilizam-se as palavras como se fossem bombas de carnaval e os comportamentos como se a vida durasse só hoje. já não há passado e o respeito e a solidariedade são inconsistências perdidas no esquecimento; não há saudade nem memória, apenas o imediato, o rapidamente consumível, o razoável em vez do excelente, o fútil em vez do complexo mas muito mais rico.
o povinho vai consumindo tudo o que lhe dão, sobretudo se for de graça.
e o que é de graça e é acessível a toda a gente?
pois é, a televisão! vejam-se as audiências e os programas mais vistos para se chegar a uma conclusão rápida. o povinho não quer pensar, quer é chegar a casa, por volta das 20h00, jantar e vegetar em frente ao televisor, desligando o cérebro, cansado das filas de trânsito, das contas para pagar, do emprego precário e mal pago, etc.. às tantas lá se adormece e está feito o dia... novelas, novelas, mais novelas, reality shows e mais novelas. é isto.
para se chegar a esta situação muito contribuiram as chamadas estações privadas de televisão. concordo que trouxeram muito de positivo ao panorama televisivo e constituiram finalmente alternativa ao cinzentismo do canal estatal, em determinada altura. mas eu cresci com "outra televisão", com regras, com civismo, com horários respeitados. o telejornal nunca demorava mais de 30 minutos, a novela (apenas uma, sim, era verdade!) ocupava apenas 30 ou 40 minutos, davam filmes a horas decentes (e de tanto ver filmes fui aperfeiçoando o meu inglês), concursos a horas decentes, desenhos animados a horas decentes. enfim, havia respeito, ao menos, pelo espectador.
agora é como mais convenha, tendo em conta a programação do "vizinho". se a SIC transmite futebol, tomem lá "Morangos" até ao final do jogo. se não transmite futebol, então coloca-se no ar a nova novela, para ver se pega. a SIC mete a Floribella a qualquer hora, dependendo do que está a passar na RTP e na TVI... é um verdadeiro mercado da degenerescência! a mim, sinceramente, mete-me nojo. mas o que me dá ainda mais asco é o povinho engolir tudo isto, porque vamos ver a tabela dos programas mais vistos e estão lá estes todos de que falei.
confesso que não vejo nenhum dos programas em questão, abomino a TVI, desprezo a SIC por querer imitar a TVI. a RTP e a 2: ainda são os que mais vejo, por causa de séries como as que já citei noutro post. mas ao menos estes dois últimos respeitam o espectador. o "Gato Fedorento" manteve o mesmo horário e o mesmo dia em toda a série, as séries no segundo canal também são sempre fiáveis em termos de horário; portanto, não andam constantemente a alterar os programas de acordo com a concorrência. e isso, em si, já é um sinal de respeito pelo espectador.
de resto, há sempre os canais por cabo e o dvd.

quinta-feira, junho 22, 2006

The L Word


recomendo esta série americana, que começou a passar no canal 2:, de segunda a sexta, a partir das 00h25. hoje, quinta feira, vai para o ar o quarto episódio da primeira série (que no total tem 14 episódios). nos Estados Unidos a série já vai na quarta série.
chama-se "The L Word", já venceu vários prémios de televisão nos Estados Unidos (Emmy, GLAAD Media Award, Image Awards e Satellite Awards) e tem como protagonistas Jennifer Beals (que protagonizou "Flashdance"), Mia Kirshner (que entrou em "Exotica" e mais recentemente na quarta série de "24"), Laurel Holloman, Karin Lombard, Katherine Moennig e Leisha Hailey. como convidadas, na primeira série aparece Pam Grier (de "Jackie Brown", de Quentin Tarantino), e nas seguintes actrizes como Ossie Davis, Cybil Sheppard e Marlee Matlin (de "Filhos de um Deus Menor").
na senda de "Donas de Casa Desesperadas", como produto de qualidade da "nova televisão americana", da qual fazem parte séries como "Lost", "Sopranos", "House", "Six Feet Under", etc., esta série distingue-se pelo seu campo de acção, que reside no mundo gay feminino e em toda a sua complexidade (tabus, flirts, ciumes). criada por Ilene Chaiken, a série segue a vida e os amores de um pequeno grupo de lésbicas a viver em Los Angeles. o humor está dentro do que vemos em Sex and the city e em Donas de Casa Desesperadas. as peripécias amorosas são a "pedra de toque", pela sua originalidade e criatividade.
depois de ter recomendado "House" e "Lost", ambas imperdíveis, bem como "Curb your Enthusiasm", que também passa no canal 2:, às sextas à noite, e "Friends", também na 2:, todos os dias, às 20h45, recomendo agora "The L Word". vão ver que também ficam logo "agarrados", como eu...

the blue nile


Os The Blue Nile surgiram em 1984, com o disco "A walk across the rooftops". a banda escocesa, formada por Paul Buchanan (voz), Robert Bell (baixo) e Paul Moore (piano), ainda hoje mantém a formação original. em 1989 lançaram "Hats", um trabalho notável em termos de atmosfera romântica e melancolia, no qual estão incluídas músicas inesquecíveis como "Headlights on a parade", "Downtown lights", "Over the hillside", "Let's go out tonight" e "From a late night train". estas duas últimas músicas constarão sempre de qualquer alinhamento ou colectânea de musicas preferidas de todos os tempos.

Depois do brilhante "Hats" (1989), a banda escocesa The Blue Nile lançou, em 1996, o disco "Peace at last", que contém essas verdadeiras pérolas musicais chamadas "Family Life" e "Tomorrow morning". oito anos separam esses dois trabalhos. em 2004, novamente oito anos depois, chegou a vez de "High" ser editado. neste trabalho a banda regressa aos ambientes de "Hats" e Paul Buchanan volta a escrever músicas apaixonantes como "Stay close", "I would never", "Because of Toledo" e "Soul boy".

em relação ao longo período de tempo entre os seus trabalhos, o letrista e vocalista Paul Buchanan é pragmático: "é o tempo que demora a fazer algo assim tão bom. é inacreditavelmente difícil escrever grandes músicas, mas quando se consegue... elas ficam para sempre! entende que pode ser bastante frustrante, nesse aspecto, ser fã dos Blue Nile, mas nós tentamos fazer a melhor música possível".

sobre "High": "acho que regressamos com um excelente disco. musicalmente, fizemos algo irrefutavelmente bom". a BBC disse isto sobre o disco: "The first album for eight years, and only the fourth in 21 years, High manages to maintain the Blue Nile's impeccably tasteful standards while soaring blissfully over the rattle and hum of most contemporary music. Paul Buchanan still sings his songs of faded love affairs, broken dreams and squandered ambitions with almost painful emotional candor, while the musical backings are as lush and flowing as ever". (vou poupar-vos à tradução, vocês chegam lá)

os The Blue Nile já há muito ganharam o respeito dos seus colegas de indústria, tendo mesmo algumas músicas deles sido gravadas por Rod Stewart e Annie Lennox. a legenda da soul music Isaac Hayes fez também uma versão de "Let's go out tonight", o que encheu Paul Buchanan de orgulho: "ele é o paradigma da música negra nos Estados Unidos, portanto foi um grande orgulho quando ele gravou uma música feita por um artista escocês. é sempre gratificante quando pessoas daquela estatura reconhecem o nosso trabalho". em relação a "Let's go out tonight", também craig armstrong, recentemente, no album "the space between us", remisturou o tema, tendo paul buchanan "emprestado" a voz a esta nova versão.

Paul Buchanan: "acho que a minha voz reflecte a minha vida. ela foi-se tornando mais rica com o passar dos anos. mas eu não me considero realmente um cantor, nas minhas músicas só estou a tentar expressar os sentimentos das letras. não tenho a certeza de que isso resultaria se tivesse que cantar todas as noites num bar. a minha voz não é um brinquedo e não a quero pôr ao serviço de algo não sincero. gosto de me expressar através das minhas músicas. quando tocamos as nossas músicas e recebemos algum amor de volta, esse é o nosso pagamento". meio a brincar, Buchanan afirma: "a minha voz é como um sniper. musicalmente eu escolho os meus alvos".

quarta-feira, junho 21, 2006

renovem lá as perguntas

será que ainda há algum português que ainda não tenha respondido às constantes e repetidas perguntas dos directos dos vários canais nacionais? "até onde acha que portugal vai chegar?"; "podemos ser campeões?"; "por quantos é que vamos ganhar?"; "quem é que prefere nos oitavos de final, holanda ou argentina?".
chega a ser constrangedor para os repórteres, entrar em directo só para se virar para os lados para fazer sempre as mesmas perguntas, ouvir sempre as mesmas baboseiras, levar com uns emplastros aos saltos e aos berros. será que não podiam variar um bocado as perguntas? podiam perguntar a esses fanáticos, que acham que portugal vai ser campeão mundial, o que acham da constante subida das taxas de juro, do crescente número de desempregados, da obra literária de Norman Mailer, da cinematografia húngara da década de 60, etc.
mas sobretudo podiam perguntar-lhes em que mundo virtual é que a nossa selecção algum dia ganha à argentina, à alemanha, à itália, ao Brasil. é que assim, por vencermos os pernetas dos angolanos e os nabos do irão, parece que já ganhamos o Mundial. tenham juízo!...

terça-feira, junho 20, 2006

homenagem a woody allen


homenagem a esse grande génio, responsável por muitos dos meus filmes preferidos: "Bananas", "Inimigo Público", "O Grande Conquistador", "Nem Guerra nem Paz", "Annie Hall", "Manhattan", "Zelig", "Heroi do Ano 2000", "Ana e suas Irmãs", "Crimes e Escapadelas", "Manhattan Murder Mistery", "Mighty Aphrodite", "Deconstructing Harry", "Celebrity", "Everyone says I love you", "Hollywood Ending", "Anything Else", "Match Point".
em "Manhattan", woody allen interpreta uma personagem chamada... Isaac Davis.
seguem-se alguns excertos de livros do realizador/escritor:
"o verdadeiro teste de maturidade não é a idade de uma pessoa mas sim o modo como reage ao acordar em cuecas no meio da cidade".
"o que é preciso lembrar é que cada época da vida tem as suas compensações próprias, ao passo que quando se está morto é difícil encontrar o interruptor da luz".
"o problema principal da morte é o medo de que não existe outra vida. há também o medo de que exista outra vida para além da morte, mas que ninguém venha a saber onde".
"no seu aspecto positivo, a morte é uma das poucas coisas que se podem fazer facilmente mesmo deitado".
"em resumo, o melhor que há a fazer é comportarmo-nos de acordo com a nossa idade. se tens quinze anos ou menos tenta não ficar careca. se tens mais de oitenta, é de muito bom tom descer a rua a arrastar os pés agarrando um saco de papel castanho e a murmurar: "O Kaiser vai-me roubar o cordel".

"é melhor ser o amante ou o amado? nenhuma das coisas, se o colesterol passar dos seiscentos.
é preciso não esquecer também que, para o amante, a amada é sempre a coisa mais bela que se pode imaginar, mesmo que um estranho a não possa distinguir de uma qualquer variedade de salmonídeos".

terça-feira, junho 13, 2006

e que tal o Dia Nacional do Cão?

desemprego a subir, crise na agricultura e nas pescas, empresas a fechar diariamente, praga dos incêndios à porta, apito dourado, casa pia, casa do gaiato, etc.. tanta coisa, tanta matéria por onde "pegar". o que terá passado pelas cabeças dos deputados parlamentares do PSD, na Assembleia da República, para surgirem com essa ideia peregrina de se instituir em Portugal o Dia Nacional do Cão? terá sido uma daquelas pausas silenciosas desconfortáveis em que nem dá para falar do tempo, porque já se tinha falado disso logo no início da reunião parlamentar?
grandes políticos estes que temos! se a oposição é assim... o governo pode estar descansado!

nick drake


Nicholas Rodney Drake nasceu no dia 19 de Junho de 1948. faleceu com 26 anos, em 25 de Novembro de 1974. estreou-se com 21 anos, com o disco "Five leaves left". um ano mais tarde lançou "Bryter layter". em 1972 foi editado o seu último trabalho, "Pink moon".
Nick Drake foi uma espécie de Van Gogh da música. o seu trabalho só veio a ter o merecido reconhecimento depois da sua morte. mergulhado em constantes crises depressivas, em parte provocadas pelo pouco impacto dos seus discos, o músico pereceu sem glória, numa década dominada por outras correntes musicais. mas músicas como "northern sky", "at the chime of a city clock", "fruit tree" ou "magic" perpetuarão o seu nome e imagem para sempre. a imagem de um "trovador" introvertido e sensível, com uma capacidade inata para tecer pequenas maravilhas musicais, tão simples como intrincadas, alicerçadas em ambientes bucólicos, com recurso a uma panóplia de instrumentos musicais, como flauta, violino, trompete, saxofone.
hoje, o nome nick drake é habitualmente citado como referência e inspiração musical em várias revistas e sites da especialidade. descobri-o por isso mesmo! quando ia procurar informação sobre as minhas bandas preferidas, o seu nome aparecia sempre, como "similar artist" ou "influenced by". quando ouço damien jurado, ed harcourt, mark kozelek, mark eitzel, damien rice, andrew bird, marjorie fair, entre outros, é fácil chegar à conclusão que nick drake foi, efectivamente, uma influência.
na próxima segunda feira nick drake faria 58 anos... quantas músicas perdemos nestes 32 anos de "silêncio"!... fica para a posteridade a letra de "Northern sky", a música que o New Musical Express considerou "the greatest english love song of modern times":

I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea
I never held emotion in the palm of my hand
Or felt sweet breezes in the top of a tree
But now you're here
Brighten my northern sky.
I've been a long time that I'm waiting
Been a long that I'm blown
I've been a long time that I've wandered
Through the people I have known
Oh, if you would and you could
Straighten my new mind's eye.
Would you love me for my money
Would you love me for my head
Would you love me through the winter
Would you love me 'til I'm dead
Oh, if you would and you could
Come blow your horn on high.
I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea
I never held emotion in the palm of my hand
Or felt sweet breezes in the top of a tree
But now you're here
Brighten my northern sky.

sexta-feira, junho 09, 2006

violência? onde?

só em portugal...
um jornalista vai à Casa do Gaiato entrevistar um responsável daquela instituição sobre alegados casos de abuso de autoridade e maus tratos lá verificados. o padre que se disponibilizou a falar com o jornalista negou que isso alguma vez tenha acontecido naquela instituição. enquanto dizia isto, com a maior das naturalidades, "enfia" uma estalada numa criança de 6 anos que, não sei porque motivo, por ali passava. voltou à entrevista, exibindo a mesma compostura com que tinha negado veementemente que tenham existido casos de violência na Casa do Gaiato. ainda por cima, depois do relato deste incidente nos telejornais desse dia, o padre "defendeu-se" dizendo que o rapaz nem sequer pertencia à Casa do Gaiato. é obra!
se fosse um sketch do "Gato Fedorento"... entendia-se.

quinta-feira, junho 08, 2006

grow old with me

I
realmente, a interacção social não é das tarefas mais fáceis do nosso dia-a-dia. e eu sei do que estou a falar, até já me disseram que sou parecido, não fisicamente, com o Larry David, na série "Curb Your Enthusiasm", que passa actualmente na 2:, com o nome parvo de "Acalma-te Larry". mas há momentos em que tudo "encaixa", tudo sai bem e se conjuga. para que isso aconteça tem que existir muita cumplicidade, igual percepção da personalidade da outra pessoa e reciprocidade natural, não forçada. confesso que não foram muitas as pessoas com quem atingi este patamar, provavelmente por causa da minha personalidade "larry davidiana".

II
no Olimpo, conscientes deste meu handicap social, reuniram de urgência Zeus, Apolo, Afrodite, Hermes, Ártemis e Atenéia (Poseidon não pode comparecer por não terem conseguido contacta-lo a tempo via telemóvel). analisaram, discutiram, viram um jogo de xadrez pelo meio, voltaram a tocar no assunto no dia seguinte (ainda sem o Poseidon que, confirmou-se mais tarde, não tinha pago a mensalidade e tinha o telemóvel desligado) e chegaram à conclusão de que deviam enviar alguém, uma pessoa dotada das mais excelsas qualidades humanas, doce, ternurenta, incapaz de fazer mal a uma abelha. além disso, fizeram questão que essa pessoa partilhasse os meus gostos musicais e cinematográficos, as mesmas ideologias. capricharam no sentido de humor, ao ponto de inclusivamente ela entender as minhas piadas parvas. atribuiram-lhe um forte cunho artístico, aliado a uma simpatia contagiante e a um sorriso luminoso! tudo isto numa só pessoa! parece impossível à primeira vista, mas como eu referi, nessa introdução perfeitamente credível, ela foi realmente "criada" no Olimpo, por todos esses Deuses. só assim se justifica que tenha aparecido na minha vida uma pessoa assim. foi pena, mas também nem os Deuses são perfeitos, que a tenham "enviado" com uns anitos de atraso...

III
Damien Jurado - "A jealous heart is a heavy heart"
a música acaba com damien jurado a repetir uma frase que considero ser uma das melhores declarações que se podem fazer a alguém:
"grow old with me".
é isto que eu lhe quero dizer!

keep them coming

entendo que, em relação à música, temos que ir sempre à procura de algo novo. podemos gostar muito de uma banda, comprar toda a sua discografia, vê-la ao vivo e decorar as letras das músicas todas (como fiz com os Red House Painters e American Music Club), mas isso não se compara à sensação de estar a "descobrir" e a "interiorizar" uma nova banda, uma nova voz, novas letras...
há cerca de ano e meio que tenho vindo a alargar consideravelmente o meu leque de preferências musicais. tudo começou com uma remessa de cd's que me emprestaram, onde fiquei a conhecer e a adorar The Czars e, em menor escala, Blonde Redhead, Turin Brakes e Kings of Leon. depois veio a fixação pelos Ilya, e esse fenomenal disco chamado "they died for beauty". mais tarde, através de colectâneas gravadas por um amigo, "descobri" bandas como The Dears, Wedding Present, The Killers, Andrew Bird, Patrick Wolf, The National, Magnetic Fields. por intermédio desse mesmo amigo, veio parar-me às mãos um dos discos mais intensos que tive o prazer de ouvir até hoje, tanto assim que na primeira vez que o ouvi, na última música (a minha preferida!) não consegui evitar umas sentidas lágrimas: o disco chama-se "I am a bird now", de Antony and the Johnsons.
apreciador do primeiro disco da banda, os Sigur Rós, não dei a devida atenção aos discos seguintes da sua discografia. até que, pelas mãos de uma amiga, ouvi o último, "Takk", e voltei a render-me aos ambientes angelicais e inebriantes desse inconfundível grupo islandês. e continuo a afirmar-me "apaixonado" pela música 10 desse disco. causa-me exactamente o mesmo efeito que a música 10 (coincidência!) do album dos Antony and the Johnsons.
há cerca de uns meses, rendi-me definitivamente a um grupo americano chamado Marjorie Fair, quando fiquei a conhecer o disco "self help serenade". já aqui coloquei um post neste blog dedicado aos Marjorie Fair e, meses depois, continuo a dizer o mesmo que disse na altura. se eu fosse músico ou tivesse alguma capacidade para compor canções, seria este o tipo de disco que faria. continuo ansioso pelo próximo album da banda.
mais ou menos na mesma altura, surgiram os My Morning Jacket, igualmente americanos, conotados amiúde com Neil Young. gostei tanto que a música que aparece no meu profile é deles: "Bermuda Highway".
mais recentemente, virei-me para uma banda que "nasceu" nos anos 80, mas que ainda recentemente lançou um novo trabalho: The Blue Nile. só recentemente fiquei a conhecer um disco deles, de 1989, "Hats", uma verdadeira obra prima, mas mais vale tarde do que nunca, porque o esse trabalho tem músicas inesquecíveis como "From a late night train", "Let´s go out tonight" e "Tomorrow morning". em 22 anos de carreira, esta banda só lançou 4 discos, o último dos quais em 2004, intitulado "High", que tem excelentes músicas como "I would never", "Because of Toledo" e "Broken loves". a atmosfera romântica que envolve as músicas dos The Blue Nile é contagiante e fiquei admirador e seguidor da banda, nem que o próximo disco só chegue em 2010...
na senda de nomes como Rufus Wainwright, Pete Yorn e dos já citados Andrew Bird e Patrick Wolf, tenho escutado e estou a adorar "interiorizar" outros dois nomes a reter: Ed Harcourt e Damien Jurado. ambos já possuem uma vasta discografia e Jurado até já chegou a ser citado como "o próximo Bob Dylan". actualmente ouço, de Ed Harcourt, músicas dos albuns "Here be monsters", "Maplewood", "From every sphere" e "Strangers". neles há músicas verdadeiramente deliciosas como "Bleed a river deep", "Beneath the heart of darkness", "This one's for you" ou "Something in my eye". Ed Harcourt tem previsto para este ano o lançamento do seu mais recente trabalho, "Beautiful lie" e vai estar no próximo dia 11 de Junho, Domingo, no Santiago Alquimista, em Lisboa.
de Damien Jurado ouço actualmente músicas dos discos "Rehearsals for departure", "I break chairs" e "On my way to absence". este "trovador" iniciou em 1997 a sua carreira e tem já oito discos na sua discografia. as músicas que me "alertaram" para este cantor foram providenciadas por um amigo, o mesmo das colectâneas. enviou-me duas músicas, "Sucker" e "Lottery". gostei de ambas e parti à descoberta de mais. encontrei pérolas como "A jealous heart is a heavy heart", "Never ending tide", "Inevitable" e "Night out for the downer".
pronto, é isto tudo. adoro música e o que ouço é muito importante para mim. ainda bem que tenho amigos fantásticos que me vão apontando nomes frequentemente para descobrir. para eles, o meu muito obrigado. keep them coming...

quarta-feira, junho 07, 2006

momentos inolvidáveis 4

Filme: "Sideways"
Actores: Paul Giamatti e Virginia Madsen
sinopse: dois grandes amigos partem numa viagem pela região vitivinicola da california, uma semana antes do casamento de um deles (actor de soap operas). essa viagem é vista por ambos como uma espécie de despedida de solteiro. a personagem de paul giamatti, divorciado, professor resignado e aspirante a escritor, é um profundo conhecedor e apreciador de vinhos. num restaurante conhece maya (virginia madsen), que partilha com ele o gosto pela apreciação e degustação vinícola, enquanto o seu amigo (thomas hadden church) se perde de amores por uma funcionária de uma casa de vinhos. saem os quatro, para jantar, muito bem "regado" em termos de vinhos, seguindo depois para casa de maya.
cena: depois do jantar e do seu amigo se ter "enfiado" num dos quartos da casa com a sua recente paixão, num alpendre, o protagonista (Paul Giamatti) conversa apaixonadamente sobre vinhos com virginia madsen, de tal forma que a "agarra"; ela deixa-se envolver, fascinada pelo tema e pela eloquência demonstrada. cria-se um ambiente de cumplicidade, motivado por um gosto comum, que se vai arrastando para uma atracção física evidente. há uma fracção de segundos em que a conversa pára e eles ficam a olhar um para o outro, à espera de algo, de um movimento, de uma aproximação. em silêncio constrangedor, o protagonista não consegue articular mais nada para além de um "vou à casa de banho". chegado lá, ele sente nitidamente que "perdeu o momento", que não teve coragem para dar o passo decisivo, quando todo o ambiente estava criado e "pedia" essa crucial medida. ele sai da casa de banho e encontra-a na cozinha. desesperado, chega ao pé dela e tenta beijá-la, tentando "remediar" a situação. ela afasta-o, delicadamente. já não havia "ambiente", o fascínio estava agora quebrado, the mood was gone.
adorei o filme, a personagem principal é contagiante, acabamos por sentir por ele um misto de compaixão e de admiração. numa situação idêntica à relatada, custa sempre fazer essa transição entre uma conversa agradável, um fascínio e atracção mútua, para algo... mais.

terça-feira, junho 06, 2006

momentos inolvidáveis 3

Filme: Cyrano de Bergerac
Actores: Gerard Depardieu e Anne Brochet
sinopse: depois de ter conhecimento de que a prima roxanne (anne brochet) se apaixonou por um cadete (christian) da sua academia, cyrano decide "esconder" os seus verdadeiros sentimentos por ela, ao mesmo tempo que ajuda o "limitado" cadete a conquistar o coração dela, através de poesia e prosa romântica. envergonhado do seu aspecto, cyrano nunca ousou abrir o seu coração a roxanne, escudando-se na sombra do físico perfeito do amado dela. as suas palavras conquistavam o seu coração, mas era christian que "recolhia" os louros. durante anos, mesmo depois da morte, em combate, do seu amado, roxanne acredita fielmente que as palavras apaixonadas e intensas que leu pertenciam ao seu cadete. nomeadamente uma carta, a última, que ela guardava religiosamente no peito, por baixo da roupa.
cena: muitos anos passaram. roxanne está num convento. cyrano visita a prima todos os sábados. num deles, quando se dirigia para lá, é atingido cobardemente por uma viga de madeira, que o deixa combalido e a sangrar. no entanto, o seu chapéu cobre-lhe os ferimentos na cabeça e ele surge, naturalmente, perante a prima, como se nada tivesse acontecido. ele pede-lhe para lhe deixar ver a última carta e começa a ler, enquanto a noite começa a roubar a claridade ao dia. ela ouve as suas palavras e vira-se para ele, encontrando-o de olhos fechados, já sem luz para conseguir visualizar as letras da carta. no entanto, continua a ler, sabedor de todas as palavras que ela continha. nesse momento, ela consciencializa-se de que as cartas, os poemas e a paixão eram dele e aproxima-se, para o ver... a desfalecer. assegura-lhe então que o seu aspecto físico não era relevante e que ela tinha sido conquistada pelas suas palavras e não pela beleza de christian. ele levanta-se, muito combalido e a sangrar da cabeça, e enfrenta a morte, empunhando a sua espada na escuridão, prometendo fazer frente aos espíritos que lhe apareçam pela frente. ele que havia disputado e vencido centenas de duelos, que havia granjeado dezenas de inimigos por causa do seu feitio intrépido e destemido, baqueava assim de uma forma cobarde, pelas costas. e é nesta altura que diz a uma das frases mais sentidas da história do cinema:
"Falhei em tudo, até na minha morte!"
Para além de este ser o meu filme preferido de todos os tempos, esta cena é a todos os títulos notável, de tão bem interpretada e pela carga emocional que encerra.

momentos inolvidáveis 2

filme: "As Pontes de Madison County"
Actores: Clint Eastwood e Meryl Streep
sinopse: a personagem de meryl streep, casada, envolve-se sentimentalmente com um fotógrafo recém chegado à cidade, com o intuito de fotografar as pontes de Madison County. aproveitando o facto de o marido e os filhos se terem ausentado da cidade, ela vai mostrando as belezas naturais do local, passando muito tempo a conversar e a encontrar afinidades com o "forasteiro". a relação de ambos, dada a cumplicidade e reciprocidade existente, acaba por desembocar num envolvimento carnal, pese embora toda a força de vontade de streep em evitar que tal acontecesse. no entanto, ambos sabem que aquela relação não vai ter futuro, por muito que tenham noção da intensidade e da paixão que viveram.
cena: chove intensamente. eastwood prepara-se para abandonar a cidade. o semáforo fica vermelho e pára o seu carro. pelo retrovisor, vê a carrinha do marido de streep. no veículo estão o mesmo marido e streep. ela tinha-lhe oferecido um fio, que ele colocou à volta daquele retrovisor, por onde ele agora via, pela última vez, a face da pessoa com quem tinha partilhado tantas emoções, tantos momentos inesquecíveis. ela vê-o, sente o mesmo que ele, tem noção que é aquele o momento das decisões. ele já lhe tinha dito para ela ir com ele, sair dali, mas sempre lhe faltou coragem para assumir aquela paixão. no curto espaço de tempo em que o sinal está vermelho, vemos a angústia estampada nas faces dos dois amantes. ela agarra a porta, preparando-se para a abrir, lutando contra si mesma, contra os seus instintos, por respeito ao marido. ele desespera a olhar para o retrovisor, à espera que ela siga os seus desejos e vá ter com ele, para que possam sair dali e iniciar uma vida a dois.
o sinal fica verde. renitente, ele não avança imediatamente. ela larga a mão da porta, rendendo-se finalmente, abandonando as dúvidas, resignando-se. finalmente, ele parte. ela chora silenciosamente, para o marido não dar conta. na face dela, a expressão de uma pessoa que tem a perfeita noção de que acabou de perder o amor da sua vida, irremediavelmente.

momentos inolvidáveis

filme: "As good as it gets" - em português "Melhor é impossível"
Actores: jack nicholson e helen hunt
cena: os dois protagonistas vão pela primeira vez jantar juntos, depois de muitas peripécias e cenas caricatas envolvendo as idiossincrasias de nicholson, a paciência de hunt e uma muito prestimosa ajuda do primeiro à segunda, em relação à saúde do filho desta. ele, nervoso por estar tão próximo da mulher amada, começa a portar-se de uma forma infantil e irracional, gozando inclusivamente com a roupa que helen hunt veste. ela, cansada e irritada, ameaça sair da mesa. ele diz que lhe vai fazer um elogio. ela, curiosa, fica na mesa e solicita-lhe rapidamente o elogio, caso contrário vai embora. nicholson começa a falar das suas idiossincrasias, de uns comprimidos que o ajudam a suportar psicologicamente o quotidiano, que ele não gosta nem costumava tomar, porque não acredita em fármacos.
é então que lhe diz que os recomeçou a tomar... por causa dela. e depois tem esta fabulosa deixa:
"tu fazes com que eu queira ser uma pessoa melhor!".
simplesmente genial!

quarta-feira, maio 31, 2006

morrer de amor ou amar até morrer?

em termos afectivos, acho que tudo se resume a esta questão:
preferimos morrer de amor
ou amar até à morte?
será possível juntar amor e paixão numa só pessoa, por longos anos? se escolhermos "amar até à morte" não correremos igualmente o "risco" de uma paixão esporádica? e, se ela chegar, como haveremos de reagir? poderemos "amar" sem estarmos "apaixonados"?
são tantas as questões que eu entendo que nunca ninguém poderá dizer convictamente que vai amar até à morte, cegamente. em questões sentimentais nunca se podem ter certezas, porque ninguém está livre de uma paixão repentina, provocada, às vezes, por um simples "fraquinho". para mim, em cada "fraquinho" que se tenha por alguém, há sempre a força latente de uma paixão e o desejo de um grande amor, nem que seja para se poder ostentar aquele ar sofredor, mal dormido, resultado físico da ausência da pessoa amada. os "fraquinhos" são as predisposições de quem está absolutamente disposto a amar, mesmo que já se ame (e isto é polémico, mas para mim é possível).
se nós conseguissemos amar sem paixão, ou sofrer grandes paixões sem amar, seriamos muito mais felizes, mas menos interessantes, menos complexos, mais... desumanos. ciúmes, discussões, arrufos, expectativas, saudades, ansiedade, alegrias, desilusões... é tudo tão deliciosamente doentio. confundir amor com paixão, e vice-versa, continua a ser o nosso "desporto" preferido. se ao menos conseguissemos emagrecer alguma coisa com isso...

"é mesmo assim"

miguel esteves cardoso, um dos poucos génios vivos deste país.
citações de 1986 que, passados 20 anos, ainda são tão actuais:

- "(...) os futebolistas portugueses têm uma maneira de falar muito especializada e dissolvente. Era bom, por exemplo, que as câmaras de televisão com que se filmam as entrevistas a jogadores, viessem sempre equipadas com um simples sistema de roldanas, que fizesse accionar um martelo pesado cada vez que alguém dissesse "O futebol é mesmo assim".

- "No passado domingo, no intervalo do jogo Brasil - Espanha, o comentador, meditando sobre o tédio doloroso da 1ª parte, dizia: "Até aqui, foi um jogo monótono, mas a alta competição é mesmo assim". A síndrome do "mesmo assim" é definitivamente a contribuição principal do futebol à língua portuguesa. Porque é que os críticos literários não começam, também, a dizer: "Este romance é incompreensível, mas a literatura é mesmo assim". Ou os gastrónomos: "O bacalhau espiritual sabia a peúgas de nylon, embebidos em gasolina, mas, em última análise, quem ganha é a gastronomia, porque a alta culinária é mesmo assim".

- "A regra geral, no futebol e noutras coisas, é a seguinte: quando vir qualquer coisa que pareça gravemente errada, avariada, mal acabada ou mal pensada, inaceitável ou incrível, é escusado pôr-se com dúvidas porque aquilo é mesmo assim".

- O "mesmo assim" é, ele sim, uma das forças dissolventes da nossa alma. Esperamos que a selecção portuguesa se redima nos relvados mexicanos. E que ninguém tenha de perguntar: "Estão a jogar mal de propósito ou é mesmo assim que jogam?".

em 1986 a selecção portuguesa preparava-se para disputar no México o Mundial de futebol. 20 anos depois, prepara-se para o Mundial da Alemanha. um país inteiro está ansioso por uma boa prestação, para poder pendurar bandeiras nacionais nas janelas, nos carros, nas varandas, nas portas, nos cafés, enfim, para que se crie um ambiente de folia igual ao que se viveu em 2004, aquando do Europeu da modalidade, realizado em Portugal. o nosso povo é "mesmo assim": a nossa selecção ou é "a melhor de todas", ou "a pior de todas"; ou estamos eufóricos com os seus feitos, ou totalmente abatidos com as derrotas. não há meio termo. de bandeiras nas varandas e em tudo o que é sítio (estilo os carros dos emigrantes, com autocolantes por todo o lado e corações a dizer I love Portugal) passamos rapidamente para "mandem o Scolari embora", "o figo já não pode com as pernas", "o cristiano ronaldo é um brinca na areia", "o pauleta só percebe de queijos e o nuno gomes de hamburgers", etc..
só espero que, quando acontecer a inevitável eliminação (sim, porque eu não entro nessa corrente de opinião lunática que entende que Portugal pode ser campeão mundial), os jogadores, seleccionador e dirigentes não venham para as conferências de imprensa dizer que "o futebol é mesmo assim".

terça-feira, maio 30, 2006

from a late night train

23h45. chovia intensamente. as luzes da cidade abriam caminho aos seus passos trémulos e inseguros. a custo, olhava para trás, procurando algo que o detivesse. custava-lhe partir, deixar todas as pessoas que amava, sem se poder despedir... e como custam as despedidas!... a espera pelo comboio tornava-se mais amarga à medida que ia aumentando. as dúvidas tomavam agora conta dele, fazendo com que soltasse as mais tímidas lágrimas, que se desintegravam no cimento frio, misturando-se com a chuva. o "confronto" entre os dois cenários pretendidos dilacerava-o, mas tinha noção de que só poderia escolher um deles. na balança estavam as recordações do que já teve e a ansiedade do que poderia vir a ter, caso partisse. o mergulho decidido no desconhecido, na aventura, sobrepor-se-ia ao que construiu durante anos, passando por cima de muitas adversidades? se se conseguisse ver a sua alma nesta altura, ela estaria a sangrar, tal a dimensão das suas incertezas e hesitações.
à medida que a noite ia caindo o frio tornava-se quase insuportável. procurou aquecer-se acendendo um cigarro, procurando conforto numa cadeira, dentro de um estação vazia em tudo, mas sobretudo de calor humano. o comboio estava atrasado. na sua luta interior, o facto de o comboio estar atrasado representava um sinal. tinha mais tempo para evitar tomar a decisão que poderia alterar a sua vida. se a decisão de partir fosse assim tão acertada, porque é que a sua mente continuava a enviar-lhe mensagens de desconfiança e incerteza?
uma voz abrutalhada interrompe-lhe os profundos pensamentos. dentro de momentos, o comboio chegaria à linha. as pernas teimavam em não querer levantar-se da cadeira. os olhos miravam agora o horizonte, aquela curva onde o comboio deveria aparecer, esse adamastor de ferro que lhe exigia uma resposta rápida.
chegou o momento. muitos mais passageiros a sair, a acotovelarem-se no sentido de mais depressa chegarem aos seus lares. para entrar, apenas ele, agora de mãos nos bolsos, amargurado, sozinho, com a alma vazia de tanto sangrar.
alguém lhe tocou no ombro, despertando-o do estado catatónico em que se encontrava há largos minutos. virou-se para trás... e obteve a resposta para as suas dúvidas!...
Ficou...

p.s. - escrito ao som de "From a late night train", dos The Blue Nile.

rica encomenda

como eu queria ser (e manifestamente não sou).
se me dessem a escolher, escolhia isto:
- a eloquência e a destreza de gerard depardieu em "cyrano de bergerac"
- os dotes artísticos e o virtuosismo de geophrey rush em "shine"
- a inteligência e o discernimento de morgan freeman em "seven"
- ser sedutor como daniel day lewis em "a idade da inocência"
- a pinta do jeff bridges em "os fabulosos irmãos baker"
- o sex appeal de george clooney em "out of sight"
- o sentido de humor de woody allen em "annie hall"
- o charme natural de hugh grant em "notting hill"
- o cavalheirismo de clint eastwood em "as pontes de madison county"
- a paixão profissional de robin williams em "o clube dos poetas mortos"
- o carácter meticuloso de tim robbins em "shawshank redemption"
- o optimismo e altruísmo de roberto benigni em "a vida é bela"
- a integridade de paul giamatti em "sideways".

quando é que me podem entregar isto tudo em casa??!!

segunda-feira, maio 29, 2006

outros cais, outras histórias


há que saber reconhecer quando se chega ao fim de algo...

a questão é saber como proceder. ou ficamos agarrados a uma memória, à recordação de momentos vividos e de palavras trocadas; ou seguimos em frente, de consciência tranquila, em paz de espírito, sabendo que demos tudo, que mostramos tudo, que não poderíamos dar mais do que demos, porque tudo se esgotou: argumentos, justificações, motivos, razões...

aquele barco sou eu, num dos muitos cais por onde passei. estou preparado para partir. à minha frente uma imensidão de água, onde surgirão certamente mil outros cais...

emplastros ao telemóvel

a televisão já existe há muito tempo. é um facto. mas porque raio as pessoas insistem em colocar-se à frente das câmaras televisivas, sempre de telemóvel em riste, a falarem supostamente com alguém, perguntando se estão mesmo a aparecer na televisão, sempre que há um qualquer directo televisivo? este fim de semana foi mais um exemplo: feira do livro de Lisboa. a imagem mostra-nos a repórter, em directo, tendo, como pano de fundo, apenas stands de livrarias. numa delas está uma senhora, a arrumar os livros, postura insuspeita. o directo prolonga-se por uns minutos, com uma entrevista a um autor. de repente, lá aparece a tal chamada, "avisando" a senhora insuspeita de que está na televisão. ela reage como uma adolescente que recebe a primeira declaração de amor, fica envergonhada, mas não sai, nunca, de trás das câmaras, porque a estão a ver no país inteiro. a entrevista ao autor, angolano por sinal, continua entretanto. no final da mesma já são quase uma dezenas de pessoas que estão por trás da repórter e do autor, a maior parte delas falando ao telemóvel...
porque raio é que, já existindo televisão há tanto tempo, ainda há pessoas cujo maior objectivo na vida parece ser o de aparecer na televisão? porque raio se critica tanto o "Emplastro" quando as pessoas fazem exactamente o mesmo, embora dissimuladamente e sempre com o telemóvel em riste? não têm noção que é exactamente a mesma coisa?

quarta-feira, maio 24, 2006

casais no cinema

Qual destes casais cinematográficos representa mais fielmente o chavão "e viveram felizes para todo o sempre", tendo em conta a empatia gerada entre ambos, o background afectivo e a "bagagem emocional" evidenciada?
- Jeff Bridges e Michelle Pfeiffer em "Os Fabulosos Irmãos Baker";
- Billy Crystal e Meg Ryan em "When Harry met Sally";
- Audrey Tautou e Matthieu Kassowitz em "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain";
- Hugh Grant e Andie MacDowell em "Quatro Casamentos e um Funeral";
- Paul Giamatti e Virginia Madsen em "Sideways";
- Tom Hanks e Meg Ryan em "Sleepless in Seatle";
- Hugh Grant e Julia Roberts em "Notting Hill";
- Jack Nicholson e Helen Hunt em "As good as it gets";
- Sean Connery e Michelle Pfeiffer em "A Casa da Rússia".

terça-feira, maio 23, 2006

quem camufla teu amigo é

tenho um grande defeito! reconheço. aliás, tenho vários, mas hoje queira falar de um deles apenas. os outros encheriam todas as páginas do expresso, incluindo suplementos.
os meus amigos, os verdadeiros, não aqueles de ocasião, confrontam-me amiúde com a minha suposta "falta de atenção" para com eles, a ausência de sinais de carinho e ternura, criticando, ainda, a minha acidez em alguns comentários pejorativos (não mal intencionados, aqueles que se dizem na brincadeira), a minha instabilidade emocional, que nunca lhes permite aferir se estou bem ou mal disposto antes de iniciarem qualquer conversa comigo. isto tudo para além de eu não conseguir conversar olhando olhos nos olhos a outra pessoa. e mais: que eu sou incapaz de manter uma conversa séria junto deles sem estar constantemente a mandar piadas parvas e a fazer trocadilhos irracionais e totalmente deslocados do assunto.
realmente... é muita coisa. é caso para perguntar como é que eu ainda tenho amigos!!...

pois bem, o meu defeito é o de "disfarçar" sensações, dissimulá-las, alterá-las de uma forma meia "apatetada" de maneira a que eu me sinta confortável e não meio acabrunhado, sem reacção para além de um sorriso amarelo constrangedor que, de tão rígido, provoca dores musculares na face durante um mês.
e quando é que eu faço isso? (não devo ser a única pessoa a fazê-lo, certamente!) eu faço isso quando não quero dar a entender à outra pessoa que, de facto, gosto dela. e é nessa altura que eu regrido cerca de 30 anos e me porto como um puto de 4 anos que se farta de gozar as meninas, a roupa delas, as brincadeiras e as bonecas delas, quando, no fundo, até queria mesmo era brincar com elas, pentear a barbie, vestir a cindy, fazer bolos de chocolate no mini forno eléctrico e servir chá no salão às amigas da carlota cambalhota (por exemplo). pois é, como era tudo tão simples nessa altura, gostávamos das nossas colegas da escola primária, mas ficava-nos bem dizer que as detestávamos, que o que era bom era brincar com o Chico, o Tó, o Zeca e o João. ah, e gozar com elas. sempre! agora é diferente, claro. se temos colegas de trabalho no emprego, como antigamente tinhamos colegas de escola, já não nos fica bem fazer o que faziamos antes.

mas voltando um pouco atrás, Vasco da Gama estava certo de que tinha encontrado o caminho marítimo para a Índia, embora não soubesse como voltar novamente ao seu país... bem, não tanto atrás. (parvoíce!). a esse processo eu chamo de "mecanismo de defesa", ou seja, estou sempre salvaguardado nesta minha carapaça de indiferença, mostrando o meu lado arrogante, de desprezo quase, dizendo apenas barbaridades, só para não ter que mostrar o meu "lado fraco" e sensível. conheço mulheres que adoram esse lado nos homens (felizmente são muitas e ainda bem, porque eu sou de facto assim); mas também há outras que nos "enganam" muito bem, porque parece que são exactamente o oposto disso e, depois, são iguais, não queriam era demonstra-lo, porque, lá está, também elas não queriam mostrar o seu "lado fraco". ou seja, quando pensamos que uma determinada relação, seja ela de trabalho, familiar ou de amizade, está a seguir um rumo "confortável", sem ondas, sem muitas exigências de parte a parte, somos confrontados com uma espécie de chamada de atenção do género: "porque é que a umas fazes questão de as brindar com elogios e a outras preferes pisar para não ter que elogiar?". e isto desarma qualquer um. primeiro porque a pessoa que fez a questão está cheia de razão. segundo porque esta espécie de "ciúme" camuflado faz-me cair na realidade e constatar que, de facto, tenho negligenciado algumas pessoas, em detrimento de outras, em várias fases da minha vida. e esta é uma delas (tanto a fase, como a pessoa). é o meu chamado "top of the pops" sentimental. (ricardo, esta do top é para ti!). umas vezes estão umas pessoas no topo, outras no fundo da tabela, também há reentradas, entradas directas para primeiro lugar, etc.. só não tenho é a isabel figueira a apresentar todas as semanas na televisão. sou assim, não há volta a dar. perdem-se muitas pessoas pelo caminho, ganham-se outras, ferem-se umas, mutila-se outras, causam-se severos danos psicológicos numas, vontade de mudar de sexo e orientação sexual noutras, etc..

reconhecendo isso, resta-me dizer a essa minha amiga que prezo mesmo bastante o pouco tempo que passo com ela. quando faço figuras de parvo ao mandar bocas foleiras e depreciativas tou a vestir uma pele confortável e cómoda, que apaga qualquer vislumbre de carinho e ternura que sinto por ela. e ela sabe que o sinto!...

quarta-feira, maio 17, 2006

20 anos depois

gosto de música, aliás, adoro música, foi com ela que eu vivi as minhas primeiras paixões e os meus primeiros desgostos amorosos, na escuridão do meu quarto, enquanto vertia umas lágrimas ingénuas, em cena típica de novelas vespertinas. e havia alturas em que molhava o cabelo, fazia um penteado à bryan ferry, colocava a música no gira-discos (sim, ouviram bem, gira-discos!) e fazia o playback, tipo teledisco, do "Avalon", dos Roxy Music, ou do "Never again", dos Classix Nouveaux (neste caso escusava de me preocupar com o penteado, já que o vocalista era careca...). foi uma fase turbulenta da minha vida, as notas eram curtas, os pais reclamavam, inventavam castigos diferentes todos os dias, mandavam-me tirar os posters da nena e da kim wilde da parede, etc.. tenho, obviamente, saudade disso tudo (quem é que não tem saudade da sua adolescência?).
confesso que, agora, ao ouvir novamente as músicas que me acompanhavam nesses momentos, chego a sentir o mesmo, aquela nostalgia, a necessidade de estar perto da pessoa amada, a sensação da ausência que se quer preenchida, o ansiar desalmadamente pelo reencontro com a pessoa que nos povoa a mente. e as músicas que mais me fazem "regressar ao passado" são baladas típicas dos anos 80, do género "Carrie", dos Europe, "The power of love", dos Frankie goes to Hollywood, ou "Against all odds", do Phil Collins. imediatamente sou transportado para os meus 14/15 anos, para as sensações difíceis de apagar da memória, como o primeiro e tímido beijo, a primeira vez que se anda na rua de mão dada com a namorada, os constantes comentários jocosos dos pais sobre o facto de namorarmos, o embaraço notório na nossa face quando nos cruzávamos com os pais dela na rua, etc..
sou um saudosista, um nostálgico. mantenho as sensações de outrora, o romantismo exacerbadamente despojado sobre as músicas que ouço, as do passado e as da actualidade. gosto de atribuir significados às músicas, de lhes "agrafar" momentos e pessoas. e há muitas pessoas, felizmente, nessa lista, a quem já "dediquei" músicas, acondicionando-as confortavelmente no meu baú de recordações.
espero daqui a 20 anos sentir o mesmo que agora, ao recordar as músicas que ouço actualmente, como por exemplo The Czars, Marjorie Fair, Antony and the Johnsons, The Blue Nile, e lembrar-me das pessoas que lhes estão "agrafadas". será um bom sinal!

terça-feira, maio 16, 2006

alinhamento musical anos 80

alinhamento musical - parte 2
dada a crescente "febre" por tudo o que tenha a ver com a década de 80, que por aí campeia, resolvi fazer um outro alinhamento musical, contendo desta vez músicas que me fizeram vibrar na altura e que, passados todos estes anos, ainda me conseguem "seduzir".
1. Souvenir - OMD
2. One night in Bangkok - Murray Head
3. Der Komissar - Falco
4. Broken Wings - Mr. Mister
5. Wouldn't it be good - Nik Kershaw
6. Stay on these roads - A-ha
7. Purple rain - Prince
8. Every breath you take - The Police
9. A question of lust - Depeche Mode
10. It's you, only you - Lene Lovich
11. Never again - Classix Nouveaux
12. Flash in the night - Secret Service
13. Love Kills - Freddie Mercury
14. I ran - A Flock of Seaguls
15. Wonderful life - Black
16. Drive - The Cars
17. Just around the corner - Cock Robin
18. Take my breath away - Berlin
19. Love bites - Def Leppard
e por último, o clássico dos clássicos:
20. save a prayer - Duran Duran

segunda-feira, maio 15, 2006

a fé! curto, se faz favor.

que raio de programa viram na televisão portuguesa, no sábado de manhã, todos os seguidores de religiões não-cristãs? RTP, SIC e TVI em directo, em simultâneo, de Fátima! claro, tem que ser, as minorias que se lixem. a religião vende, o povo quer é multidões de joelhos a rezar. e assim, desta forma, talvez se tenham convertido mais umas dezenas. a única chatice é as televisões mostrarem aqueles milhares de pessoas a irem a pé para Fátima, porque assim eles ainda pensam que esse é um requisito obrigatório.
está mesmo visto que em Portugal há espaço para tudo e para todos. 13 de Maio, Fátima está a abarrotar de fiéis; Tony Carreira dá um espectáculo em Lisboa, no Pavilhão Atlântico. ambos os locais estavam cheios, pelo que foi dado a ver nas imagens televisivas. será que o Carreira quis ser ele próprio, "maior que Jesus", como os Beatles? terá ele pensado que Fátima estaria "às moscas" porque ele daria um espectáculo nessa mesma noite? e porque não actuar em Fátima, durante a procissão? a verdade é que há mesmo "povinho" para isto tudo, chega para todos. se houvesse igualmente nessa noite uma concentração de motards, uma exposição tuning, uma manifestação de gays e lésbicas, um torneio de sueca em Vilar do Monte, uma tourada no Montijo e uma rave em Vila Nova de Gaia, estariam a "abarrotar" de povo sequioso deste tipo de eventos. e depois, em Fátima, não podem faltar as "celebridades", aquelas que aparecem em tudo o que é sítio, para se mostrarem, para se venderem, porque se parecerem muitos católicos vendem mais uns discos, fazem mais dinheiro, etc..
a fé é, decididamente, um negócio. vendem-se, aos milhares, os terços, as imagens das santas, dos santos, as estátuas, as cruzes, os fios, tudo o que indique que se é, de facto, cristão. nas grandes cidades, ir à missa todos os domingos... é chato. daí a maior parte deles serem "católicos não praticantes", que é fashion dizer-se. para mim são é "hipócritas praticantes". nas aldeias a questão já é outra, por aqui mistura-se ignorância e ingenuidade com crença e devoção. aos domingos, na missa, lá estão eles. quando é preciso dar dinheiro para a paróquia, eles dão, cegamente, porque assim estão a "comprar" o seu lugar no céu. alguém pede contas, no final do ano, a um padre? claro que não. eles são tão sérios...

alinhamento musical

alinhamento musical - parte 1
21h30, o jantar tinha sido divinal, o vinho correu sem hesitações, fluiu calmamente como a conversa. já em casa, na varanda sentimos a brisa fresca da noite, enquanto apreciávamos o café e os after eight's. voltamos para a sala quando sentimos frio. apeteceu-nos ouvir música, estimular os sentimentos, aproveitar palavras alheias, envoltas em preciosos arranjos musicais, e fazê-las nossas por instantes. agarrei-te pela cintura, cheirei o teu cabelo, passei-te a mão pela face e soltei um tímido "vamos dançar?". ela aceitou...
1. save a prayer - duran duran
2. more than this - roxy music
3. to wish impossible things - the cure
4. cowboys and angels - george michael
5. a strange kind of love - peter murphy
6. let's go out tonight - the blue nile
7. my sun is setting over her magic - marjorie fair
8. bird gehrl - antony and the johnsons
9. why should I care - diana krall
10. live with me - massive attack
11. autumn - the czars
12. rollercoaster - red house painters
13. western sky - american music club
e 14. the severed garden - the doors

sexta-feira, maio 12, 2006

stay (far away, so close)

fica... nem que seja por mais 2 minutos. sinto-me completo contigo, preenches tudo aquilo que eu queria ver preenchido. estás longe mas vives sempre comigo, perto do que é importante, perto daquilo que sente, que anseia, que vive à espera da próxima vez... alimentas-me sem saberes, matas-me a sede, és o meu primeiro pensamento de manhã, o último da noite.
fica... não vás assim, dessa forma. tens que me dar mais um sorriso, pelo menos. detesto sentir a tua tristeza, custa-me aceitar esta impotência de não te poder segurar comigo por mais tempo e... ver-te partir... sem mim.
fico para trás, agarrado ao pedaço da minha mente onde te tenho guardado, imaculadamente. nesse espaço, nesse minúsculo espaço, vemos todos os dias o por de sol juntos, colho-te flores todos os dias, passeamos no areal da praia, conversamos no alpendre embrulhados em aconchegante manta, adormecemos todas as noites à beira da lareira, ouvimos marjorie fair, the blue nile, antony and the johnsons, the czars... quando chover, saímos e deixamos a chuva inundar-nos os corpos, purificando-nos a alma, revigorando-nos o espírito.
aqui, neste sítio mágico, nunca partes, nunca te despedes, nunca tenho tempo para ter saudades tuas... aqui, só estamos nós. mais ninguém! é nosso! só nosso! ninguém nos pode tirar isso...
Só esta saudade de ti me mata o tempo, enquanto aguardo pela tua visita... no mundo real.
Jim Morrison, em "the severed garden", dizia que "death makes angels of us all and gives us wings where we had shoulders". pois bem, o meu anjo nem precisou de morrer... antes pelo contrário... nasceu! e está sempre comigo... naquele fiapo da minha mente!

Nota: este post foi mesmo escrito ao som de "Stay (far away so close)", dos U2.

actualidades... parvas

digam-me que viram ontem, nas notícias, à noite, a queda do Durão Barroso a jogar futebol... foi das coisas mais cómicas que vi, desde a queda do Fidel Castro há meses. finalmente temos políticos carismáticos ao ponto de figurarem nessa galeria das quedas mais cómicas de sempre. agora falta o Freitas do Amaral cair a andar de bicicleta, como o George W. Bush. Vamos Freitas, tu és capaz!

que livro do carrilho! mas agora anda tudo maluco a dar tempo de antena ao tipo, só porque resolveu insultar toda a gente? ou seja, o homem só tem algum relevo quando é mal educado: não apertou a mão ao Carmona, abriu os Telejornais; disse cobras e lagartos da SIC, abriu os Telejornais; "cascou" no Miguel Sousa Tavares, idem. enfim, era este o tipo que queria ser presidente da principal Câmara Municipal do país... baseando-se apenas no facto de estar casado com a Bárbara Guimarães. feiras e mercados não é com ele, porque ele é filósofo, letrado e intelectual. ele que não diga a ninguém que é de Viseu, porque nós não precisamos de má publicidade.

se os organizadores do Rock in Rio Lisboa se esforçassem mesmo muito, será que conseguiriam fazer um cartaz pior do que aquele que existe? guns and roses? sting? santana? shakira? mas estavam a preços de saldo? e quem é o gajo que insiste em contratar os xutos e pontapés para todo e qualquer festival que tenha lugar em portugal? e quando é que ele morre? já enjoa...

estamos a poucos dias do início do Mundial 2006. o país vai voltar a parar quando a selecção jogar, principalmente quando for contra Angola... as obras de construção civil vão sofrer atrasos imensos, os andaimes vão ficar vazios, não vai haver bocas para as "boazonas". enfim, por duas horas, vai valer a pena viver em portugal!

quarta-feira, maio 10, 2006

mais reflexões

porque é que as mulheres, quando nos mandam às compras, ficam todas contentes quando fazemos algo errado? e saem-se sempre com aquela máxima: "vocês homens, não têm jeito para nada!". se fizessemos sempre tudo certo, qual era a piada? faz parte do encanto de um homem casado, andar desnorteado com uma lista na mão pelo hipermercado. digo eu. pelo menos penso que sim, que fará parte. já as mulheres são extremamente meticulosas quando nas compras, comparam os preços todos, os componentes, os ingredientes, as embalagens, tudo, mas mesmo tudo. demoram 15 minutos a escolher um detergente para a louça, quando nós homens demoramos 10 segundos (é o que estiver mais à mão!). então quando elas proferem isto: "precisava de ir ali à zona das roupas ver umas calças", é o descalabro autêntico. porque é mais meia hora, 45 m, que vão para o tecto, tempo que nunca mais vamos conseguir recuperar. elas experimentam 35 calças, depois as camisas que poderiam ficar bem com aquelas calças, etc.. e sabem o que é que acontece no final destes 45 minutos? elas acabam por não levar nada! é assim mesmo, tanto tempo perdido para nada. e depois elas, durante este tempo todo, não podem sentir minimamente o nosso ar de tédio, temos que estar sempre com um sorriso largo, anuindo a tudo, obviamente, porque caso contrário lá vem o mesmo sermão de sempre: "quando é para as tuas coisas há sempre tempo" ou "eu também aturo os jogos de futebol". não as podemos vencer. nem queremos... faz parte do encanto delas!

reflexões de um desajeitado

naõ acho que tenha muito jeito para a sedução... sobretudo se envolver estar frente a frente com uma mulher. acho que tenho mais queda para a sedução à distância. dessa forma, vou começar a corresponder-me com uma empregada de balcão de um centro comercial de Sidney, na Austrália.

o problema é que as frases certas nunca saem no momento, só nos vêm à cabeça horas depois, quando estamos a recordar, frase a frase, aquele encontro na esplanada com a tipa com quem desejávamos sair há meses. nesse sentido, vou começar a gravar todo e qualquer encontro que tenha com uma mulher, para depois ouvir, analisar, alterar as deixas, memorizar tudo, para utilizar num futuro encontro. ah, e tentar levar a conversa precisamente para os mesmos tópicos. não falha, de certeza...

e a roupa? que usar meu deus?! aquelas calças que ficam mesmo bem ainda estão a secar, a t'shirt preferida está suja, de tanto andar com ela, as meias estão sempre a deslizar perna abaixo, os sapatos estão velhos, o casaco precisa de ir à lavandaria... para quando encontros em pijama?!? ficaria tudo muito mais nivelado, embora que por baixo.

questões existenciais

questões existenciais:
de que vale ter dois empregos, se só recebemos verdadeiramente de um?
os habitantes de Freixo de Espada à Cinta chamar-se-ão Espadachins?
os vídeos do Taveira, de tão velhos que são, poderão ser multados por circularem em sentido contrário na net?
porque é que dizer a uma mulher que o nosso ídolo é o woody allen resulta pior do que se dissermos que o nosso ídolo é o eládio clímaco?
será que ninguém vê que "O Crime do Padre Amaro" tem ainda menos qualidade cinematográfica que "O Fim de Semana com o Morto"?
se o principal papel feminino no "Padre Amaro" tivesse sido entregue à Ana Bola, que resultados de bilheteira teria conseguido o filme?
os habitantes da Zambujeira do Mar chamar-se-ão todos Már(io) Zambujal?

quarta-feira, abril 26, 2006

década de 80

como um tipo que "acordou" verdadeiramente para a música nos anos 80, sinto especial ternura por quase tudo que tenha saído dessa década, mesmo pelas mais pirosas músicas de que há memória. tenho ouvido músicas que já não ouvia há vinte e tal anos e as sensações que agora tenho são de uma nostalgia vívida, de tempos irrecuperáveis, em que andava quase 18 horas por dia com os walkman ligados. ricos tempos, sem preocupações nenhumas, a não ser as notas e a contagem de faltas que poderíamos dar a determinada aula. por norma, chegava mesmo ao limite em quase todas elas. nessa altura, o meu tempo livre dividia-se entre o spectrum, a bicicleta e a televisão, com algumas actividades curriculares pelo meio, como futebol (iniciados, juvenis e juniores), teatro (fui actor amador) e as aulas de música. quando os meus pais me compraram o walkman desatei a gravar cassetes com tudo o que tinha lá em casa em vinil e fazia inúmeras "colectâneas" com as minhas músicas preferidas. ouvia duran duran, a-ha, wham, nik kershaw, rod stewart, sting, europe, enfim, tudo aquilo que naqueles tempos se ouvia.
depois, na década de 90, comecei a achar tudo uma valente "xaropada", quando comecei a enveredar por outros caminhos musicais, como cocteau twins, the cure, this mortal coil, peter murphy, faith no more, radiohead, etc. muitos anos passaram entretanto e a nostalgia começou a apertar. temas como "save a prayer", dos duran duran, "purple rain", de prince, ou "every breath you take", dos the police, figuram ainda nas nossas listas de músicas preferidas de todos os tempos, mas agora, ao ouvir algumas preciosidades que o tempo tinha apagado da minha memória, estou a apreciar devidamente este revivalismo dos anos 80. temas tão pirosos como "Carrie", dos Europe, ou "I´ve been in love before", dos cutting crew", encaixam agora como uma luva neste meu jardim de memórias. (uma luva num jardim? muito kafkiano). mas há mais: "It´s over", dos Level 42, "Hunting high and low", dos A-ha, "windswept", de bryan ferry, "more than this", dos roxy music, "the promise you made", de cock robin", "A question of lust", dos depeche mode, "Marliese", dos fischer z, "broken wings", dos mr. mister, "holding back the years", dos simply red, "one more try", de george michael, etc. caramba, que saudades, que memórias, tanto saudosismo! e tantas colectâneas que eu vou voltar a fazer...

um dia virtual

por vezes alguns silêncios dizem mais do que cem palavras. para mim, um longo silêncio partilhado com a pessoa certa pode fazer milagres. os silêncios nem sempre são sinal de que os tópicos de conversa se esgotaram, ou de enfado e tédio. há momentos em que apenas nos apetece contemplar, olhar e sentir. confesso que a minha timidez não me permite ter uma conversa com alguém, frente a frente, olhando essa mesma pessoa nos olhos o tempo todo. tenho sempre medo que as pessoas possam ver no meu olhar o que eu estou a sentir (não se costuma dizer que os olhos são a janela para a nossa alma?!...). nessa altura o meu olhar vai correndo, sem sentido ou rumo predefinido, as paredes, o tecto, o chão, a mesa, a chávena do café, etc.. já várias pessoas me apontaram esse "defeito", que resulta muito mais da minha já confessada timidez do que propriamente de má educação ou desconsideração da minha parte pela pessoa com quem dialogo. mas os silêncios permitem-nos processar as ideias devidamente, reflectir, pensar, sentir a presença da outra pessoa. e há olhares que dizem tudo enquanto estamos calados. de vez em quando consigo colocar de lado a minha timidez e olho, não mais de cinco segundos certamente, para a pessoa à minha frente, e consigo "ler" o que lhe vai na alma. é certo que nem todas as pessoas são iguais, há algumas em que uma pessoa não consegue mesmo ler nada, de tão triviais e banais que são, mas há outras por quem vale a pena fazer esse "esforço". felizmente conheço mais pessoas neste último caso, pessoas ricas interiormente que lutam desesperadamente por se "encaixarem" devidamente nesta amálgama urbana.
por uma delas nutro especial carinho, de tão sensível e delicada que é. a minha solução para os seus problemas, na última vez que estive com ela, em que parecia que tinha 300 kilos sobre os ombros, foi recebida com agrado. e era tão simples, tão eficaz, tão... impossível... e eu queria tanto assumir esse papel, de apaziguador da sua mente, de estabilizador emocional, mas apesar de ser apenas uma questão de tempo e disponibilidade, tal não foi, nem será, certamente, possível. a ideia era muito simples, extremamente simples: retira-la da "selva urbana" durante um dia e leva-la para uma aldeiazinha muito perto de viseu, toda remodelada, para turismo rural, e ficar um dia inteiro numa esplanada a conversar, apenas com o som dos pássaros e do rio como pano de fundo. isto porque sempre que estamos juntos vemos o tempo escoar-se rapidamente, como areia a escapar-se por entre os nossos dedos, a ineroxável marcha do tempo... teríamos, nesse virtual dia, hipótese de falar sem pressa, de partilhar silêncios e emoções. com tempo, sem nenhuma obrigatoriedade de horários. e foi tudo isto que eu senti no seu olhar naquele dia, senti que ela queria tempo, mais disponibilidade, mais atenção. e eu não pude dar-lhe isso. e senti-me mal, frustrado, porque eu queria proporcionar-lhe isso tudo. e se ela olhou bem nos meus olhos "viu" isso também. e assim ficamos os dois, impotentes, a ver o tempo passar enquanto imaginávamos outro cenário, outro ruído, outros ambientes. e esse silêncio disse tudo. mesmo tudo.
nesse silêncio residiu a impossibilidade das coisas, quando as queremos, como as queremos e com quem as queremos. despedi-me dela, entristecido por não ter conseguido abrir-lhe a porta da gaiola, para que ela conseguisse voar.

sexta-feira, abril 07, 2006

olá outra vez e adeus, até sempre

foi longo o silêncio. pc avariado, trabalho em demasia, etc.. não interessa agora dissecar o tempo que passou, as palavras que ficaram por dizer, os poemas pensados que se perderam nalgum guardanapo de café...
interessa agora apenas o futuro, não o passado, nem o presente. isto porque vou estar de férias uma semana e este espaço vai ficar mais uma vez sem actualização assídua. vai ser uma semana inteirinha sem olhar para um raio de um monitor, esse "bicho" que me está diariamente a "comer" os olhos...
peço paciência ao meu séquito de admiradores (que são para aí, sem exagero, uns 2...), mas prometo voltar cheio de energia, no dia 17 de Abril, com novas depressões, neuras acabadinhas de criar e aquele tipo de humor que ja granjeou fama por toda a zona leste da despensa de minha casa.
convido-os a visitarem amiúde o blog da minha parceira de blog, esse autêntico diamante por talhar e polir, desde que um verdadeiro admirador de pedras preciosas a encontre; caso contrário, o diamante pode partir-se...
confesso que, agora que comecei a escrever, até me apetecia continuar aqui mais um bocado, a tentar recuperar o tempo perdido. ultimamente a minha vida tem sido bastante interessante: os meus filhos fizeram anos, no mesmo dia (27 de Março), mas não são gémeos (têm 6 anos de diferença); estive com amigos de longe, que só vejo uma ou duas vezes por ano, e foi muito bom aferir que as coisas continuam bastante sólidas e que a amizade está mais forte do que nunca; entretanto novas amizades continuam a construir-se, outras foram-se desvanecendo, etc.. é este o ciclo da vida... people come and people go, resta-nos ter o discernimento necessário para escolhermos bem as que queremos que fiquem e, por outro lado, escolher devidamente as palavras para dizer àquelas que, definitivamente, não nos interessam. é a verdade nua e crua, sem rodeios. é isto mesmo. talvez por isso não tenha assim tantos amigos, mas considero que tenho os suficientes. e tendo poucos, posso dedicar-lhes mais atenção. nomeadamente a um, a quem eu acho que estou a dever algum reconhecimento e gratidão. e ele, se ler isto, saberá perfeitamente que tou a falar dele. pronto, se não chegar lá, eu dou uma pista (grão mestre bar - atenção, não ler as duas últimas palavras muito rápido).
e é isto, acho que estava a dever algo a este espaço, um pouco de mim, e assim alimentei um bocadito este verdadeiro "monstro" de blog, extremamente lido na Mongólia e no Tibete (só que eles não sabem escrever em português para deixarem comentários), muito mais do que o blog do Pacheco Pereira. os tipos da NASA também não paravam de me chatear para eu escrever. há coisas de que eles sentem mesmo falta quando saem deste planeta...

quinta-feira, março 16, 2006

marjorie fair

quem segue este blog ficou a saber que ontem eu estava com uma neura desgraçada, aliada a uma grande dor de cabeça, provavelmente provocada pelo estúpido do meu monitor Mac, que decidiu ficar verde claro de repente. há coisas que inexplicavelmente nos colocam na pior das depressões, em que até nem sentimos forças para sair dela, só nos apetece ficar quietinhos a contemplar o vazio, o nada, sem pensar, sem sentir, sem... pois bem, alguma coisa de bom haveria de surgir disto tudo, acredito que quando temos um dia mau, o dia seguinte vai ser bom a dobrar. não sei explicar porquê, mas hoje levantei-me a pensar nisso e com esse espírito. e não me enganei. o meu monitor continua da cor do shrek, os olhos ardem só de olhar para lá, mas que diabo, aconteceu algo de bom, de muito bom mesmo. tenho finalmente em meu poder o album mais ansiado: marjorie fair - "self help serenade". quem me arranjou tal pérola foi outra pérola, uma pessoa que vem atestar e comprovar aquele velho ditado "mais vale tarde do que nunca", porque partilhávamos o mesmo meio, sem nunca termos perdido tempo a partilhar as nossas mentes um com o outro. agora que o fazemos, até se encontram vários pontos de vista comuns, o que se torna agradável, na medida em que são passadas muitas horas na sua companhia. ja lhe agradeci e fiz uma lista extensa das coisas que lhe fico a dever até ao fim dos meus dias, pelo favor que me fez.
pois bem... marjorie fair! que dizer? se eu tivesse talento, se fosse músico, letrista, compositor, era este tipo de música que eu faria. estão aqui verdadeiras preciosidades musicais, como "Stare" (cuja letra coloco por ser quase autobiográfica, nesta altura), "Don't believe", "Please don't", "Silver Gun", "Halfway House" e "Stand in the World". os temas parecem fundir-se num só, num ambiente bucólico de longos relvados, flores, arvores e sol. muito sol, porque as músicas aquecem-nos a alma, revitalizam-nos o espírito, andam na nossa cabeça o dia todo, em pequenos extractos que ainda não conseguimos juntar numa música. já tinha feito o convite para irem ao my space ouvir 4 musicas do disco (está lá o "Stare", por exemplo). agora fica o registo do quão agradável é ouvir o album todo e sorrir, sentir os raios de sol a invadir-nos e imaginarmo-nos na companhia perfeita, no cenário perfeito, ao som de verdadeiras e pungentes músicas.

Stare
these are things I feel but dont want to say
incase you feel that way
these are things I know but dont want to say
incase you feel that way
I'll wait another dayI can never change
cause the pain just makes me want to stare
at the same things I saw before
thinking there's something more
god it's a lonely place

I will never know how you feel
about the things I think about
will I get a chance to make up to you
the things I kept from you
you know I wanted toI can never change
the pain just makes me want to stare
at the same things I saw before
thinking that something's wrong
god it's a lonely place

say the same things you said before
wanting you even more
god it's a lonely place

I can never change
the pain just makes me want to stare
at the same things I saw before
thinking theres something wrong
god it's a lonely place
say the same things you said before
wanting you even more
god it's a lonely place

quarta-feira, março 15, 2006

neura

Desfaço-me em dúvidas,
multiplico-me em conjecturas.
Suavemente escureço.
Conscientemente, entrego-me,
cansado de pensar luas cheias,
farto de porejar ocasos solares,
fatigado de brotar tulipas e girassóis.
Recolho agora os mil pedaços
desta fragmentado ser,
esmigalhado na sua pequenez,
absorvido pelo pensamento reinante
ao qual a minha voz não se sobrepôs.
Quero que a noite caia depressa
e me proteja na sua escuridão;
hoje o meu espírito só espalha trevas,
as sombras invadiram o meu corpo,
sinto uma leveza inerte,
uma indolência gritante,
como se uma faca me rasgasse o peito
e em vez de dor, sangue e lágrimas
dele saísse apenas... poeira.
Suavemente escureço...

quinta-feira, março 09, 2006

patriotismo encarnado

A vitória, de ontem, do Benfica, em Liverpool, contra o actual campeão europeu, e todo o mediatismo daí decorrente, facilmente confundido com a exaltação patriota vivida aquando do Euro 2004, veio provar que somos mesmo "pequeninos". tanta coisa só porque uma equipa nacional foi vencer ao terreno do colosso europeu Liverpool? que me lembre, nem quando o FC Porto foi campeão europeu se fez tanto alarido, ou mesmo quando venceu a Taça UEFA. é futebol, a bola é a mesma para as duas equipas, jogam 11 homens contra outros tantos, as regras são iguais para todos, porque raio é que era assim tão impensável o Benfica lá ir ganhar? e não me venham falar em orçamentos milionários e jogadores a ganhar muito mais que os "nossos", porque eles também têm o mesmo número de pernas, de braços, de cabeças, de pés, que os "pobrezinhos" jogadores do Benfica. a questão fulcral nesta matéria é que... foi o Benfica, e o Benfica, a par da Amália e do Fado, é uma instituição nacional. até o governo de Sócrates veio beneficiar do facto de o Benfica ter conquistado o título na época passada, o país ficou mais aliviado, mais alegre; o facto de o governo ser bom ou mau passou a ser irrelevante. quando ouço, como ouvi hoje, enquanto almoçava, conversas do tipo: "está a ver ó senhor Saraiva, somos pequeninos mas fomos ganhar ao campeão europeu, caramba. mostramos aos ingleses que em portugal também se joga futebol". pois, eles já deviam desconfiar disso há uns tempos, há anos que participamos em competições europeias e temos campeonatos nacionais todos os anos. mas este tipo de comentário atesta o nosso sentimento de "inferioridade" e pequenez. já quando o tiago monteiro, na fórmula 1, ficou em terceiro lugar, numa corrida em que só participaram 6 carros, o país ficou eufórico, porque era a primeira vez que um português subia ao pódio naquela modalidade automobilística. que diabo, ficou no meio da tabela!... em seis, ficou em terceiro. uau! brilhante. mas nós somos assim, contentamo-nos com o razoável, em vez de exigirmos o perfeccionismo. parece que entramos sempre nas provas europeias, independentemente da modalidade, para ficar mesmo a meio da tabela, não fazer muito alarido e sairmos de mansinho, sem que ninguém dê por nós. mais recentemente, veio um nigeriano, naturalizado português, estragar-nos os planos, no atletismo. Francis Obikwelu tornou-se herói nacional por ter ficado... em terceiro lugar nos 100 metros, e agora até entra em anúncios televisivos, como aconteceu com o Pedro Lamy, o nosso primeiro piloto a pontuar numa prova de fórmula 1. o povinho precisa de heróis, mesmo aqueles que fazem barbaridades ao seu próprio corpo, como o João Garcia, quando subiu o Evereste. não tem nariz, nem pontas dos dedos, mas... também conseguiu sacar o seu anúncio televisivo. a rosa mota, o carlos lopes, o futre, o cristiano ronaldo, o figo, todos eles tiveram direito ao seu anúncio televisivo. são facilmente reconhecíveis pela maior parte da população nacional. seria difícil de imaginar um anúncio da nike com o miguel esteves cardoso, ou um da coca-cola com o miguel sousa tavares. a maior parte das pessoas não os reconheceria como "heróis nacionais" (no caso do sousa tavares, a maior parte das pessoas deixaria de comprar coca-cola..., mormente os benfiquistas e sportinguistas).
isto tudo faz-me pensar que se Jorge Sampaio só cedesse o seu lugar na Presidência da República 24 horas depois do previsto, ou seja, amanhã, dia 10, ainda teria tempo para condecorar toda a comitiva benfiquista e despedir-se, assim, em paz, aos ombros, ao som de "ele é um bom presidente, pois ele é um bom presidente (...) e ninguém o pode negar". até o povo de canas de senhorim o perdoava...
caramba, ó sampaio, eram só mais 24 horas e resolvias tudo...

quarta-feira, março 08, 2006

musica 2006

2006 vai ficar certamente conhecido como um ano de excelente música, em virtude dos vários lançamentos previstos de novas bandas, regressos ansiados de vários grupos e, inclusivamente, a formações originais de verdadeiros ícones da década de 80. quem sabe se tudo isto não será para compensar a pobreza, a parolice que é a programação do Rock in Rio previsto para este ano. comecemos, então, pelos regressos ansiados, que são vários:
Portishead - Aural Velvet - 9 anos depois do ultimo album de originais. duas músicas deste novo trabalho podem ser escutados na página da banda no my space (http://www.myspace.com/portisheadalbum3);
até ao final do verão ainda poderemos saudar os novos trabalhos dos Air, R.EM., Massive Attack (Weather Underground - colectânea), Blur e Prodigy.
mas os regressos mais desejados guardei-os para o fim: Radiohead, Flaming Lips e The Czars. duas das minhas bandas preferidas vão lançar novos trabalhos brevemente. o dos flaming lips tem o nome "A war with the mystics" e algumas músicas também se encontram já no my space da banda. quando aos radiohead a informação é mais escassa, aqui o secretismo impera, para não haver fugas de sons para a internet. o novo disco dos The Czars chama-se "Sorry I made you cry" e se for tão bom como os anteriores... continuam a cimentar o lugar de destaque que têm na minha lista de preferências.
dentro do panorama das novas bandas, em 2006 vamos ter novos albuns de originais dos Interpol, essa excelente banda, cujo segundo album ultrapassou mesmo o brilhantismo do primeiro, The Killers, Bloc Party, Arcade Fire (a grande revelação de 2005), The Bravery, The Stills (Without Feathers), Patrick Wolf e o disco de estreia dos The Upper Room.
faltam apenas os regressos de alguns "catedráticos", como The Cure, novo album de originais (ainda hão-de chegar aos 30 discos e aos 30 anos de carreira, começaram em 1979). os Roxy Music também vão ter novo disco, com a formação original, tal como os Duran Duran. os Pixies são outra das bandas "vintage" que vêm sair novo album em 2006.
por último, as minha apostas: My Morning Jacket (http://www.myspace.com/mymorningjacket). o novo album chama-se "Z" e no endereço em cima podem ouvir duas musicas dele, bem como mais outras duas musicas de trabalhos anteriores. uma delas é o belíssimo tema "Bermuda Highway", que eu bem tento colocar neste blog, mas não consigo. o outro projecto chama-se Marjorie Fair, tendo o album de estreia o nome de "Self Help Serenade". também no my space (http://www.myspace.com/marjoriefair) poderão ouvir 4 deliciosas músicas deste disco.
boas audições...

sexta-feira, março 03, 2006

os prémios americanos

no próximo domingo haverá novamente entrega de óscares, mais uma chance que os actores, produtores, realizadores têm de pagar favores uns aos outros. este ano, a lista de nomeados "fugiu" um pouco dos blockbusters sazonais para dar lugar a filmes mais modestos em termos de orçamento, mas certamente mais ricos em argumento. mesmo assim, de ano para ano, criam-se sempre lobbys que privilegiam uns e negligenciam outros. é o verdadeiro sistema de hollywood, em que, tal como no resto do mundo, em qualquer sociedade, ocidental ou oriental, para se "vencer" há sempre que se saber "vender". um bom actor não se pode limitar a ser um bom actor, tem que ir a festas, engraxar produtores, convidar outros actores para jantares, promover campanhas de solidariedade, etc.. tudo isto somado, para conseguir chegar a algum lado, um actor tem que ser verdadeiramente actor 24 horas por dia, excepto, claro está, os chamados "monstros sagrados" como um jack nicholson, robert de niro, al pacino, meryl streep, entre outros, que já granjearam tanto prestígio que lhes permite serem uns arrogantes de primeira apanha. os outros têm mesmo que passar pelo processo todo, de casting em casting, de festa em festa, de engraxadela em engraxadela, até conseguirem chegar a um patamar mais elevado, quem sabe até mesmo a uma nomeação para os Óscares... aí sim, vem o reconhecimento por toda aquela trabalheira que foi vestir a pele de "lambe-botas", mais até do que pela sua verdadeira vocação artística. a comunidade cinematográfica entende que o esforço que esse actor fez, a nível humano, de relacionamento social, foi o suficiente para lhe fazerem esse obséquio, essa condescendência. e nas semanas que antecedem a votação propriamente dita é que esse "relacionamento humano" é mesmo posto à prova. há que "trabalhar" muito bem os membros da academia, gastar caixas industriais de graxa, organizar festas com muita imprensa à mistura, para fazer passar a mensagem que de facto o actor é um tipo porreiraço, bem disposto, um mãos largas, que merece, sem dúvida nenhuma, o Óscar. o papel que interpreta? "bem, realmente agora não me estou muito bem a lembrar do filme, mas que diabo, ele merece a estatueta!". para mim, os Óscares, o fascínio que exercia, as noites em branco a ver tudo pela televisão, morreram na edição de 1990, quando se assistiu à maior injustiça até hoje perpetrada. concorriam para melhor actor principal Kevin Costner (Danças com Lobos), Richard Harris (The Field), Robert De Niro (Awakenings), Jeremy Irons (Reversal of Fortune) e Gérard Depardieu (Cyrano de Bergerac). Costner ganharia nessa noite a estatueta para melhor filme e melhor realizador (logo no seu primeiro filme como realizador, o que eu também não entendo... se pensarmos que Martin Scorsese nunca ganhou nenhum...), mas não venceu nesta categoria. Harris era uma hipótese muito remota. De Niro e Depardieu eram os grandes candidatos. Em Awakenings, Robert De Niro tem uma interpretação fabulosa, uma das melhores da sua carreira, e, em Cyrano de Bergerac, Gérard Depardieu é simplesmente assombroso, notável, brilhante, o filme É ele e ele É o filme, basicamente. apoiante de Depardieu nessa noite dos Óscares, nem me importava muito que ele perdesse para De Niro, que também merecia. mas quem venceu foi Jeremy Irons, em Reversal of Fortune, numa interpretação a roçar a banalidade, na pele de um barão aristocrata. a injustiça custou a engolir, mas nessa altura, nos meus inocentes 18 anos, desconhecia ainda as campanhas de valorização pessoal que revertiam em estatuetas, em detrimento do valor artístico. e mais: nessa altura, a imprensa americana, temente que o Óscar de melhor actor fosse parar a um "patético francês gordo", engendrou uma verdadeira campanha anti-Depardieu, relatando histórias da sua juventude, metendo prostitutas, sexo e deboche ao barulho. o chauvinismo americano prevaleceu sobre o francês, que quando chegou à cerimónia já tinha quase a certeza que ia perder. entretanto, na Europa, o filme coleccionava prémios atrás de prémios, e Depardieu tinha o reconhecimento que lhe era devido. já lá vão 16 anos e, para além de não me esquecer desta obra maquiavélica americana, nunca mais tornei a ver, num filme, uma interpretação tão poderosa, tão marcante, como a de Depardieu, numa película apaixonante, verdadeira apologia romântica, que, pasme-se, nem sequer venceu na categoria de melhor filme estrangeiro. mas isto, vindo do país que estraçalhou um outro só porque pensou que este tinha armas de destruição maciça, não admira assim muito. os Óscares não premeiam arte, mas sim pessoas. de preferência... americanas.

quinta-feira, março 02, 2006

a luz

sobre uma onda calma e escura,
onde dormem as estrelas,
ela flutua lentamente como um anjo.
quando sorri o sol volta a nascer, envergonhado,
o vento beija as suas faces, respeitosamente,
e murmura o seu romance à brisa da noite.
os seus cabelos estendem-se pelo mar
e as ondas acalmam-se em reverência.
as suas palavras são sons celestiais,
envoltas no mais cristalino azul dos céus,
vindas de um espírito imaculado e puro
que mil poetas já tentaram descrever
em outros tantos inspirados sonetos.
o seu coração é demasiado doce
para navegar em tantas marés negras,
que em tempos lhe dilaceraram a alma,
e despedaçaram o sorriso.
agora renasceu, aprendeu novamente a voar
e a estender-se para os céus,
para, ao lado das mais cintilantes estrelas,
iluminar os meus mais sombrios dias.

quarta-feira, março 01, 2006

e que tal um café?

"temos que tomar um café um dia destes". é das frases que mais ouvimos e mais dizemos, já maquinalmente, como se fosse um "até logo" ou um "até amanhã". "tomar um café", o que há de especial em tomar um café com alguém? e porquê café e não um frisumo, uma meia de leite ou um licor beirão? encontramos alguém na rua, que já não vemos há algum tempo, e quando começamos a ver que já não há tempo suficiente para meter todos os meses que entretanto passaram nos dez minutos que temos, lá vem a solução: temos que tomar um café um dia destes. e para quê? para continuarmos a nossa conversa. acho que nas últimas 10 vezes que disse isto, só fui realmente tomar café com o meu interlocutor uma vez, duas no máximo. pensando bem, "temos que tomar um café um dia destes" também é uma boa forma de "despacharmos" alguém, sem ficarmos com peso na consciência, porque estamos a propor um novo encontro com essa pessoa, embora, secretamente, saibamos que não vamos combinar nada a sério e que aquela encenação toda é simplesmente para dizer: "ok, já não te via há muito tempo mas também não tive assim tantas saudades tuas, ao ponto de perder mais 10 minutos contigo". e o tempo é tão precioso! para quê desperdiçá-lo com um tipo que a única coisa que tem em comum contigo foi ter vivido na mesma terra que tu durante uns anos? ou um outro que era amigo de um amigo? como jerry seinfeld preconiza num episódio de "Seinfeld", a vida devia ser um talk show, em que recebíamos as pessoas que nos conhecem, mas teríamos sempre tempo limite para a conversa. "Tenho muita pena, gostaria de ficar aqui mais um bocado a falar contigo, mas o tempo não o permite e vamos ter que sair para publicidade. fique por aí, já a seguir teremos o paulo dias, da nossa turma no 8º ano do liceu". e quando estamos sorrateiramente e educadamente a tentar "sair" de um conversa e a outra pessoa se agarra à nossa mão, durante o aperto de mão de despedida, como se disso dependesse a sua vida? e nós já vamos no nosso 18º "então vá, até amanhã", ou no 13º "depois a gente fala", e nada. continuamos a ouvir o mesmo relato sobre as férias na serra da estrela, as infiltrações na casa nova, o spread bancário, as taxas de juro, etc.. onde é que está o comando remoto?? fast forward e estava tudo resolvido. se ao menos fosse tudo assim tão simples...
mas felizmente também há o reverso da medalha, ou seja, pessoas com quem acontece exactamente o inverso. nestes casos utilizariamos o controlo remoto para fazer um pause ou um slow motion, para o tempo passar mais devagar. e aqui sim, a frase "temos que tomar um café um dia destes" ganha todo o sentido, porque de facto queremos MESMO ir tomar café com essa pessoa, porque é todo um processo: o encontro no café, o atendimento, o pedido (normalmente, para o empregado, é totalmente irrelevante se pedirmos o café curto, porque ele traz sempre o café da mesma maneira, a cerca de 70 a 90% da chavena, por isso pedi-lo causa-lhe tanto impacto como dizer-lhe "a escola cinematográfica húngara dominou parte do século vinte em termos de efeitos visuais"), a espera, o açucar, mexer durante 20 minutos e ficar à conversa 2 horas. isto sim, é ir "tomar um café". com os exemplos referidos no parágrafo anterior, se tivéssemos MESMO que ir tomar café com eles, seria ao balcão e demoraria o mesmo que um anúncio da vodafone. já tomei cafés, descafeinados, chocolates quentes, capuccinos e meias de leite com pessoas muito interessantes, em que a conversa fluiu sempre de forma escorreita, sem pausas embaraçosas e em que há conhecimentos e referências suficientes para sustentares as tuas opiniões, ouvires outras, contrapores, fazeres valer o teu físico para impores sem margem para dúvidas a tua opinião (esta é a brincar, claro!), mandar piadas e receber sorrisos. e isso é tão importante caramba, sentir essa sintonia, esse "clic", essa partilha. para estas pessoas ainda tenho guardados mais uma centena de "temos que tomar um café um dia destes". e espero que elas aceitem, claro...