quinta-feira, março 16, 2006

marjorie fair

quem segue este blog ficou a saber que ontem eu estava com uma neura desgraçada, aliada a uma grande dor de cabeça, provavelmente provocada pelo estúpido do meu monitor Mac, que decidiu ficar verde claro de repente. há coisas que inexplicavelmente nos colocam na pior das depressões, em que até nem sentimos forças para sair dela, só nos apetece ficar quietinhos a contemplar o vazio, o nada, sem pensar, sem sentir, sem... pois bem, alguma coisa de bom haveria de surgir disto tudo, acredito que quando temos um dia mau, o dia seguinte vai ser bom a dobrar. não sei explicar porquê, mas hoje levantei-me a pensar nisso e com esse espírito. e não me enganei. o meu monitor continua da cor do shrek, os olhos ardem só de olhar para lá, mas que diabo, aconteceu algo de bom, de muito bom mesmo. tenho finalmente em meu poder o album mais ansiado: marjorie fair - "self help serenade". quem me arranjou tal pérola foi outra pérola, uma pessoa que vem atestar e comprovar aquele velho ditado "mais vale tarde do que nunca", porque partilhávamos o mesmo meio, sem nunca termos perdido tempo a partilhar as nossas mentes um com o outro. agora que o fazemos, até se encontram vários pontos de vista comuns, o que se torna agradável, na medida em que são passadas muitas horas na sua companhia. ja lhe agradeci e fiz uma lista extensa das coisas que lhe fico a dever até ao fim dos meus dias, pelo favor que me fez.
pois bem... marjorie fair! que dizer? se eu tivesse talento, se fosse músico, letrista, compositor, era este tipo de música que eu faria. estão aqui verdadeiras preciosidades musicais, como "Stare" (cuja letra coloco por ser quase autobiográfica, nesta altura), "Don't believe", "Please don't", "Silver Gun", "Halfway House" e "Stand in the World". os temas parecem fundir-se num só, num ambiente bucólico de longos relvados, flores, arvores e sol. muito sol, porque as músicas aquecem-nos a alma, revitalizam-nos o espírito, andam na nossa cabeça o dia todo, em pequenos extractos que ainda não conseguimos juntar numa música. já tinha feito o convite para irem ao my space ouvir 4 musicas do disco (está lá o "Stare", por exemplo). agora fica o registo do quão agradável é ouvir o album todo e sorrir, sentir os raios de sol a invadir-nos e imaginarmo-nos na companhia perfeita, no cenário perfeito, ao som de verdadeiras e pungentes músicas.

Stare
these are things I feel but dont want to say
incase you feel that way
these are things I know but dont want to say
incase you feel that way
I'll wait another dayI can never change
cause the pain just makes me want to stare
at the same things I saw before
thinking there's something more
god it's a lonely place

I will never know how you feel
about the things I think about
will I get a chance to make up to you
the things I kept from you
you know I wanted toI can never change
the pain just makes me want to stare
at the same things I saw before
thinking that something's wrong
god it's a lonely place

say the same things you said before
wanting you even more
god it's a lonely place

I can never change
the pain just makes me want to stare
at the same things I saw before
thinking theres something wrong
god it's a lonely place
say the same things you said before
wanting you even more
god it's a lonely place

quarta-feira, março 15, 2006

neura

Desfaço-me em dúvidas,
multiplico-me em conjecturas.
Suavemente escureço.
Conscientemente, entrego-me,
cansado de pensar luas cheias,
farto de porejar ocasos solares,
fatigado de brotar tulipas e girassóis.
Recolho agora os mil pedaços
desta fragmentado ser,
esmigalhado na sua pequenez,
absorvido pelo pensamento reinante
ao qual a minha voz não se sobrepôs.
Quero que a noite caia depressa
e me proteja na sua escuridão;
hoje o meu espírito só espalha trevas,
as sombras invadiram o meu corpo,
sinto uma leveza inerte,
uma indolência gritante,
como se uma faca me rasgasse o peito
e em vez de dor, sangue e lágrimas
dele saísse apenas... poeira.
Suavemente escureço...

quinta-feira, março 09, 2006

patriotismo encarnado

A vitória, de ontem, do Benfica, em Liverpool, contra o actual campeão europeu, e todo o mediatismo daí decorrente, facilmente confundido com a exaltação patriota vivida aquando do Euro 2004, veio provar que somos mesmo "pequeninos". tanta coisa só porque uma equipa nacional foi vencer ao terreno do colosso europeu Liverpool? que me lembre, nem quando o FC Porto foi campeão europeu se fez tanto alarido, ou mesmo quando venceu a Taça UEFA. é futebol, a bola é a mesma para as duas equipas, jogam 11 homens contra outros tantos, as regras são iguais para todos, porque raio é que era assim tão impensável o Benfica lá ir ganhar? e não me venham falar em orçamentos milionários e jogadores a ganhar muito mais que os "nossos", porque eles também têm o mesmo número de pernas, de braços, de cabeças, de pés, que os "pobrezinhos" jogadores do Benfica. a questão fulcral nesta matéria é que... foi o Benfica, e o Benfica, a par da Amália e do Fado, é uma instituição nacional. até o governo de Sócrates veio beneficiar do facto de o Benfica ter conquistado o título na época passada, o país ficou mais aliviado, mais alegre; o facto de o governo ser bom ou mau passou a ser irrelevante. quando ouço, como ouvi hoje, enquanto almoçava, conversas do tipo: "está a ver ó senhor Saraiva, somos pequeninos mas fomos ganhar ao campeão europeu, caramba. mostramos aos ingleses que em portugal também se joga futebol". pois, eles já deviam desconfiar disso há uns tempos, há anos que participamos em competições europeias e temos campeonatos nacionais todos os anos. mas este tipo de comentário atesta o nosso sentimento de "inferioridade" e pequenez. já quando o tiago monteiro, na fórmula 1, ficou em terceiro lugar, numa corrida em que só participaram 6 carros, o país ficou eufórico, porque era a primeira vez que um português subia ao pódio naquela modalidade automobilística. que diabo, ficou no meio da tabela!... em seis, ficou em terceiro. uau! brilhante. mas nós somos assim, contentamo-nos com o razoável, em vez de exigirmos o perfeccionismo. parece que entramos sempre nas provas europeias, independentemente da modalidade, para ficar mesmo a meio da tabela, não fazer muito alarido e sairmos de mansinho, sem que ninguém dê por nós. mais recentemente, veio um nigeriano, naturalizado português, estragar-nos os planos, no atletismo. Francis Obikwelu tornou-se herói nacional por ter ficado... em terceiro lugar nos 100 metros, e agora até entra em anúncios televisivos, como aconteceu com o Pedro Lamy, o nosso primeiro piloto a pontuar numa prova de fórmula 1. o povinho precisa de heróis, mesmo aqueles que fazem barbaridades ao seu próprio corpo, como o João Garcia, quando subiu o Evereste. não tem nariz, nem pontas dos dedos, mas... também conseguiu sacar o seu anúncio televisivo. a rosa mota, o carlos lopes, o futre, o cristiano ronaldo, o figo, todos eles tiveram direito ao seu anúncio televisivo. são facilmente reconhecíveis pela maior parte da população nacional. seria difícil de imaginar um anúncio da nike com o miguel esteves cardoso, ou um da coca-cola com o miguel sousa tavares. a maior parte das pessoas não os reconheceria como "heróis nacionais" (no caso do sousa tavares, a maior parte das pessoas deixaria de comprar coca-cola..., mormente os benfiquistas e sportinguistas).
isto tudo faz-me pensar que se Jorge Sampaio só cedesse o seu lugar na Presidência da República 24 horas depois do previsto, ou seja, amanhã, dia 10, ainda teria tempo para condecorar toda a comitiva benfiquista e despedir-se, assim, em paz, aos ombros, ao som de "ele é um bom presidente, pois ele é um bom presidente (...) e ninguém o pode negar". até o povo de canas de senhorim o perdoava...
caramba, ó sampaio, eram só mais 24 horas e resolvias tudo...

quarta-feira, março 08, 2006

musica 2006

2006 vai ficar certamente conhecido como um ano de excelente música, em virtude dos vários lançamentos previstos de novas bandas, regressos ansiados de vários grupos e, inclusivamente, a formações originais de verdadeiros ícones da década de 80. quem sabe se tudo isto não será para compensar a pobreza, a parolice que é a programação do Rock in Rio previsto para este ano. comecemos, então, pelos regressos ansiados, que são vários:
Portishead - Aural Velvet - 9 anos depois do ultimo album de originais. duas músicas deste novo trabalho podem ser escutados na página da banda no my space (http://www.myspace.com/portisheadalbum3);
até ao final do verão ainda poderemos saudar os novos trabalhos dos Air, R.EM., Massive Attack (Weather Underground - colectânea), Blur e Prodigy.
mas os regressos mais desejados guardei-os para o fim: Radiohead, Flaming Lips e The Czars. duas das minhas bandas preferidas vão lançar novos trabalhos brevemente. o dos flaming lips tem o nome "A war with the mystics" e algumas músicas também se encontram já no my space da banda. quando aos radiohead a informação é mais escassa, aqui o secretismo impera, para não haver fugas de sons para a internet. o novo disco dos The Czars chama-se "Sorry I made you cry" e se for tão bom como os anteriores... continuam a cimentar o lugar de destaque que têm na minha lista de preferências.
dentro do panorama das novas bandas, em 2006 vamos ter novos albuns de originais dos Interpol, essa excelente banda, cujo segundo album ultrapassou mesmo o brilhantismo do primeiro, The Killers, Bloc Party, Arcade Fire (a grande revelação de 2005), The Bravery, The Stills (Without Feathers), Patrick Wolf e o disco de estreia dos The Upper Room.
faltam apenas os regressos de alguns "catedráticos", como The Cure, novo album de originais (ainda hão-de chegar aos 30 discos e aos 30 anos de carreira, começaram em 1979). os Roxy Music também vão ter novo disco, com a formação original, tal como os Duran Duran. os Pixies são outra das bandas "vintage" que vêm sair novo album em 2006.
por último, as minha apostas: My Morning Jacket (http://www.myspace.com/mymorningjacket). o novo album chama-se "Z" e no endereço em cima podem ouvir duas musicas dele, bem como mais outras duas musicas de trabalhos anteriores. uma delas é o belíssimo tema "Bermuda Highway", que eu bem tento colocar neste blog, mas não consigo. o outro projecto chama-se Marjorie Fair, tendo o album de estreia o nome de "Self Help Serenade". também no my space (http://www.myspace.com/marjoriefair) poderão ouvir 4 deliciosas músicas deste disco.
boas audições...

sexta-feira, março 03, 2006

os prémios americanos

no próximo domingo haverá novamente entrega de óscares, mais uma chance que os actores, produtores, realizadores têm de pagar favores uns aos outros. este ano, a lista de nomeados "fugiu" um pouco dos blockbusters sazonais para dar lugar a filmes mais modestos em termos de orçamento, mas certamente mais ricos em argumento. mesmo assim, de ano para ano, criam-se sempre lobbys que privilegiam uns e negligenciam outros. é o verdadeiro sistema de hollywood, em que, tal como no resto do mundo, em qualquer sociedade, ocidental ou oriental, para se "vencer" há sempre que se saber "vender". um bom actor não se pode limitar a ser um bom actor, tem que ir a festas, engraxar produtores, convidar outros actores para jantares, promover campanhas de solidariedade, etc.. tudo isto somado, para conseguir chegar a algum lado, um actor tem que ser verdadeiramente actor 24 horas por dia, excepto, claro está, os chamados "monstros sagrados" como um jack nicholson, robert de niro, al pacino, meryl streep, entre outros, que já granjearam tanto prestígio que lhes permite serem uns arrogantes de primeira apanha. os outros têm mesmo que passar pelo processo todo, de casting em casting, de festa em festa, de engraxadela em engraxadela, até conseguirem chegar a um patamar mais elevado, quem sabe até mesmo a uma nomeação para os Óscares... aí sim, vem o reconhecimento por toda aquela trabalheira que foi vestir a pele de "lambe-botas", mais até do que pela sua verdadeira vocação artística. a comunidade cinematográfica entende que o esforço que esse actor fez, a nível humano, de relacionamento social, foi o suficiente para lhe fazerem esse obséquio, essa condescendência. e nas semanas que antecedem a votação propriamente dita é que esse "relacionamento humano" é mesmo posto à prova. há que "trabalhar" muito bem os membros da academia, gastar caixas industriais de graxa, organizar festas com muita imprensa à mistura, para fazer passar a mensagem que de facto o actor é um tipo porreiraço, bem disposto, um mãos largas, que merece, sem dúvida nenhuma, o Óscar. o papel que interpreta? "bem, realmente agora não me estou muito bem a lembrar do filme, mas que diabo, ele merece a estatueta!". para mim, os Óscares, o fascínio que exercia, as noites em branco a ver tudo pela televisão, morreram na edição de 1990, quando se assistiu à maior injustiça até hoje perpetrada. concorriam para melhor actor principal Kevin Costner (Danças com Lobos), Richard Harris (The Field), Robert De Niro (Awakenings), Jeremy Irons (Reversal of Fortune) e Gérard Depardieu (Cyrano de Bergerac). Costner ganharia nessa noite a estatueta para melhor filme e melhor realizador (logo no seu primeiro filme como realizador, o que eu também não entendo... se pensarmos que Martin Scorsese nunca ganhou nenhum...), mas não venceu nesta categoria. Harris era uma hipótese muito remota. De Niro e Depardieu eram os grandes candidatos. Em Awakenings, Robert De Niro tem uma interpretação fabulosa, uma das melhores da sua carreira, e, em Cyrano de Bergerac, Gérard Depardieu é simplesmente assombroso, notável, brilhante, o filme É ele e ele É o filme, basicamente. apoiante de Depardieu nessa noite dos Óscares, nem me importava muito que ele perdesse para De Niro, que também merecia. mas quem venceu foi Jeremy Irons, em Reversal of Fortune, numa interpretação a roçar a banalidade, na pele de um barão aristocrata. a injustiça custou a engolir, mas nessa altura, nos meus inocentes 18 anos, desconhecia ainda as campanhas de valorização pessoal que revertiam em estatuetas, em detrimento do valor artístico. e mais: nessa altura, a imprensa americana, temente que o Óscar de melhor actor fosse parar a um "patético francês gordo", engendrou uma verdadeira campanha anti-Depardieu, relatando histórias da sua juventude, metendo prostitutas, sexo e deboche ao barulho. o chauvinismo americano prevaleceu sobre o francês, que quando chegou à cerimónia já tinha quase a certeza que ia perder. entretanto, na Europa, o filme coleccionava prémios atrás de prémios, e Depardieu tinha o reconhecimento que lhe era devido. já lá vão 16 anos e, para além de não me esquecer desta obra maquiavélica americana, nunca mais tornei a ver, num filme, uma interpretação tão poderosa, tão marcante, como a de Depardieu, numa película apaixonante, verdadeira apologia romântica, que, pasme-se, nem sequer venceu na categoria de melhor filme estrangeiro. mas isto, vindo do país que estraçalhou um outro só porque pensou que este tinha armas de destruição maciça, não admira assim muito. os Óscares não premeiam arte, mas sim pessoas. de preferência... americanas.

quinta-feira, março 02, 2006

a luz

sobre uma onda calma e escura,
onde dormem as estrelas,
ela flutua lentamente como um anjo.
quando sorri o sol volta a nascer, envergonhado,
o vento beija as suas faces, respeitosamente,
e murmura o seu romance à brisa da noite.
os seus cabelos estendem-se pelo mar
e as ondas acalmam-se em reverência.
as suas palavras são sons celestiais,
envoltas no mais cristalino azul dos céus,
vindas de um espírito imaculado e puro
que mil poetas já tentaram descrever
em outros tantos inspirados sonetos.
o seu coração é demasiado doce
para navegar em tantas marés negras,
que em tempos lhe dilaceraram a alma,
e despedaçaram o sorriso.
agora renasceu, aprendeu novamente a voar
e a estender-se para os céus,
para, ao lado das mais cintilantes estrelas,
iluminar os meus mais sombrios dias.

quarta-feira, março 01, 2006

e que tal um café?

"temos que tomar um café um dia destes". é das frases que mais ouvimos e mais dizemos, já maquinalmente, como se fosse um "até logo" ou um "até amanhã". "tomar um café", o que há de especial em tomar um café com alguém? e porquê café e não um frisumo, uma meia de leite ou um licor beirão? encontramos alguém na rua, que já não vemos há algum tempo, e quando começamos a ver que já não há tempo suficiente para meter todos os meses que entretanto passaram nos dez minutos que temos, lá vem a solução: temos que tomar um café um dia destes. e para quê? para continuarmos a nossa conversa. acho que nas últimas 10 vezes que disse isto, só fui realmente tomar café com o meu interlocutor uma vez, duas no máximo. pensando bem, "temos que tomar um café um dia destes" também é uma boa forma de "despacharmos" alguém, sem ficarmos com peso na consciência, porque estamos a propor um novo encontro com essa pessoa, embora, secretamente, saibamos que não vamos combinar nada a sério e que aquela encenação toda é simplesmente para dizer: "ok, já não te via há muito tempo mas também não tive assim tantas saudades tuas, ao ponto de perder mais 10 minutos contigo". e o tempo é tão precioso! para quê desperdiçá-lo com um tipo que a única coisa que tem em comum contigo foi ter vivido na mesma terra que tu durante uns anos? ou um outro que era amigo de um amigo? como jerry seinfeld preconiza num episódio de "Seinfeld", a vida devia ser um talk show, em que recebíamos as pessoas que nos conhecem, mas teríamos sempre tempo limite para a conversa. "Tenho muita pena, gostaria de ficar aqui mais um bocado a falar contigo, mas o tempo não o permite e vamos ter que sair para publicidade. fique por aí, já a seguir teremos o paulo dias, da nossa turma no 8º ano do liceu". e quando estamos sorrateiramente e educadamente a tentar "sair" de um conversa e a outra pessoa se agarra à nossa mão, durante o aperto de mão de despedida, como se disso dependesse a sua vida? e nós já vamos no nosso 18º "então vá, até amanhã", ou no 13º "depois a gente fala", e nada. continuamos a ouvir o mesmo relato sobre as férias na serra da estrela, as infiltrações na casa nova, o spread bancário, as taxas de juro, etc.. onde é que está o comando remoto?? fast forward e estava tudo resolvido. se ao menos fosse tudo assim tão simples...
mas felizmente também há o reverso da medalha, ou seja, pessoas com quem acontece exactamente o inverso. nestes casos utilizariamos o controlo remoto para fazer um pause ou um slow motion, para o tempo passar mais devagar. e aqui sim, a frase "temos que tomar um café um dia destes" ganha todo o sentido, porque de facto queremos MESMO ir tomar café com essa pessoa, porque é todo um processo: o encontro no café, o atendimento, o pedido (normalmente, para o empregado, é totalmente irrelevante se pedirmos o café curto, porque ele traz sempre o café da mesma maneira, a cerca de 70 a 90% da chavena, por isso pedi-lo causa-lhe tanto impacto como dizer-lhe "a escola cinematográfica húngara dominou parte do século vinte em termos de efeitos visuais"), a espera, o açucar, mexer durante 20 minutos e ficar à conversa 2 horas. isto sim, é ir "tomar um café". com os exemplos referidos no parágrafo anterior, se tivéssemos MESMO que ir tomar café com eles, seria ao balcão e demoraria o mesmo que um anúncio da vodafone. já tomei cafés, descafeinados, chocolates quentes, capuccinos e meias de leite com pessoas muito interessantes, em que a conversa fluiu sempre de forma escorreita, sem pausas embaraçosas e em que há conhecimentos e referências suficientes para sustentares as tuas opiniões, ouvires outras, contrapores, fazeres valer o teu físico para impores sem margem para dúvidas a tua opinião (esta é a brincar, claro!), mandar piadas e receber sorrisos. e isso é tão importante caramba, sentir essa sintonia, esse "clic", essa partilha. para estas pessoas ainda tenho guardados mais uma centena de "temos que tomar um café um dia destes". e espero que elas aceitem, claro...

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

going down with something

quando adoecemos parece que todo o peso do mundo nos cai na cabeça. não nos apetece fazer nada, o mundo lá fora mostra-se demasiado agressivo para o nosso debilitado corpo, andamos constantemente a queixar-nos das dores (mesmo quando não está ninguém na mesma divisão ou mesmo em casa), colocamos o nosso ar mais miserável, como se tivessemos recebido a notícia que só tinhamos mais dois meses de vida; só apetece mesmo estar deitado na cama ou no sofá, com montes de cobertores em cima, a ver filmes ou a programação estupidificante das matinés televisivas (também a nossa mente está tão cansada que aquilo até vem mesmo a calhar, para não termos de pensar muito). mas também existe um lado positivo, já que neste estado ninguém espera verdadeiramente nada de nós, apenas que tomemos os comprimidos todos à hora certa. em suma, desliga-se o cérebro e espera-se que venha alguém dar-nos mimo, muito miminho, especialmente se for com aquele ar de compaixão, terno e preocupado, em vez do semblante carregado e "invejoso", cuja verdadeira máxima é: "eu ao menos nunca fico doente, que raio de sorte a minha". no fundo as pessoas têm inveja de quem fica doente, porque quem o está tem sempre as atenções todas, pode faltar ao trabalho, ficar deitadinho o dia inteiro sem ajudar lá em casa, etc.. o "problema" é que nunca temos "nada de especial", como um tumor nos rins ou uma encefalite aguda, que provoque nas outras pessoas uma preocupação especial pelo sofrimento que estamos a passar. quando nos perguntam o que temos e ouvem como resposta "é uma gripe", lá vem o comentário jocoso: "ai isso não é nada, tomas uns comprimidos que eu tomei e ficas fino em 24 horas". (é estranho, mas toda a gente que conhecemos nos recomenda uma marca de comprimidos diferente...) ou seja, uma simples gripe pode deitar-nos completamente abaixo, por causa das dores, dos espirros, da fraqueza, mas tudo isto não é suficiente para "convencer" alguém a preocupar-se connosco. não se recebem visitas lá em casa, ninguém nos traz flores, nada... e há até pessoas que no dia seguinte se esquecem de nos perguntar se já estamos melhores. enfim, lá está, se fosse uma pedra nos rins... toda a gente se preocupava, vinham as estações de televisão, especialmente a TVI, caso suspeitasse de negligência médica, o presidente da república ainda nos arranjava uma medalha (já tem poucas, visto que já só falta condecorar o emanuel e a micaela) e condecorava-nos, dando-nos finalmente o reconhecimento devido, em virtude do nosso sofrimento.
é mesmo chato estar doente e ninguém nos ligar nada, porque é "apenas" uma mera, mesquinha, simples, ridícula, mísera, insignificante gripe. porra.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

serenidade

era tão serena aquela tarde, somente o som e a espuma das ondas
como carícias meigas de mãos puras.
o calor doce envolvia-nos numa cumplicidade silenciosa,
apenas os nossos olhos teimavam em se encontrar,
em detrimento daquela imponente imagem de pôr do sol.
ao longe não se erguiam adamastores tétricos
nem se previam tempestades,
antes se desenhava um horizonte longínquo de dominante azul
em perfeito contraste com o laranja do sol.
a praia, de areias açucaradas,
beijada por uma irresistível mansidão líquida,
estende-se até aos confins do olhar.
a natureza conversava entre murmúrios de amor,
namorando-se e amando-se na concretização das paixões eternas,
ciciando juras que mais ninguém deve escutar.
nos nossos rostos rasgavam-se inocentes sorrisos,
os nossos olhares encontravam-se no emaranhado da nossa timidez.
assim ficámos até o último raio de sol desaparecer,
as palavras não passaram de meros esboços,
receosas perante a invisibilidade de uma emoção
ou a aspereza de um instinto nocivo.
as letras são os tons da nossa alma,
da nossa força ou da nossa fraqueza.
nesse fim de tarde sereno imperou o olhar,
contemplativo, de pura adulação,
tornado desespero, como quem sabe que um prazer vai acabar,
ou alguém, que amamos, parte sem nós!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

introspecção

respondendo ao "desafio" lançado pela cláudia, no seu blog devaneios da cor do céu, aqui fica o exame do meu estado de consciência:
O que me define:
O Tempo. Frio, chuva, lareira, musica, adormecer os filhos, cafe, cobertor, filme, conversa agradável, adormecer acompanhado. Sol, primavera, parque, relvado, os meus filhos, a minha mulher, regressar a casa, lanchar. acho que consigo ser extrovertido e alegre, como um dia de sol; mas também sorumbático e depressivo como um dia de nevoeiro ou de chuva. tento ser um bom pai, um bom marido, um bom filho, um bom amigo, mas para as pessoas se darem bem comigo têm necessariamente de compreender estes estados de espírito e a minha inconstância emocional. depois há o lado profissional e esse obriga-me a estar constantemente atento aos pormenores, de tal forma que só consigo descansar completamente a mente, ou seja, tirar o "trabalho" da cabeça, quando fecho as edições dos jornais. até lá, tenho 4 jornais na cabeça, pagino-os mentalmente, penso sempre que poderia alterar mais alguma coisa. só quando vai tudo na caixa para a tipografia é que descanso e, aí, volto a organizar o meu cérebro, da mesma forma que se arruma uma divisão lá em casa.
O que adoro:
gosto de me sentir apaixonado, seja por uma musica, por um filme ou por outra coisa qualquer. adoro adormecer a minha filha ao som de sigur ros, mark eitzel, red house painters ou the czars; de assistir diariamente à evolução natural da minha filha; do seu sorriso desarmante; de passear na rua de mão dada com o meu filho, do olhar meigo dele quando me quer pedir alguma coisa; de adormecer agarrado todos os dias à minha mulher; de saber que tenho um grande amigo, longe mas sempre perto, com quem posso falar sobre tudo, ir assistir a concertos memoráveis ou simplesmente vaguear por esse país fora, sem destino. mas também do menos etéreo, como andar à chuva. há dias senti mesmo necessidade, pura, de me deixar ficar na rua, à chuva, a olhar para o céu, a contemplar os fios de chuva. adoro ter conversas estimulantes com pessoas igualmente estimulantes, aquelas que nos fazem "crescer" espiritualmente e emocionalmente. gosto de escrever poemas quando sinto a inspiração bater-me à porta. gosto de olhar para o produto final do meu trabalho e sentir-me realizado. uma taça de mateus rosé fresco num dia de calor intenso, numa esplanada à beira mar. um capuccino num dia frio, com muito chantilly para comer à colherada, ao pé de uma lareira. um cachecol aconchegante num dia de inverno. uma piscina familiar no verão. serões com os amigos a jogar playstation.
O que me faz voar:
a inspiração. por vezes há músicas que "tocam" mesmo e provocam sentimentos tão belos que têm mesmo de ser registados, de alguma forma. as letras de algumas músicas, de alguns poemas, as palavras certas no momento exacto. ver o "cyrano de bergerac", apaixonar-me pela personagem e desejar ter pelo menos metade da sua eloquência. ouvir a minha filha dizer "papá". o sorriso imediato dela quando eu chego a casa. os elogios da minha mulher e dos meus amigos (quem não gosta de ouvir elogios?). saber que sou importante para algumas pessoas.
o "clic" que se dá quando estou a conhecer uma pessoa e descubro nela inúmeros pontos em comum comigo. a musica 10 do ultimo album dos sigur ros; a musica "bird guhl" dos antony and the johnsons. "rollercoaster", dos red house painters. "concentrate", dos the czars. "listen", dos lambchop. "paralyzed", dos ride. e clássicos como "save a prayer", dos duran duran, e "purple rain", do prince. a musica faz-me voar, sempre!
O que me quebra as asas:
sentir-me impotente quando os meus filhos estão doentes. quando desiludo alguém inadvertidamente. sentir-me defraudado quando elevo demasiado as expectativas.
hipocrisia, mentira, vaidade, mesquinhez, desconfiança, estupidez, ganância, as modas (consegue-se impingir tudo em portugal: d'zrt, zés cabras, margaridas rebelo pinto, telenovelas ocas. a máxima é: se é assim tão falado, nas televisões e nas rádios, é porque é bom. não se pensa pela própria cabeça), quando as pessoas querem ser mais do que aquilo que são.
Porque gosto de viver?
porque tenho tudo aquilo que sempre quis ter: família (mulher fantástica, filhos doces e lindos, pais atenciosos), amigos (poucos mas bons!) e realização profissional (nos jornais onde trabalho). quero ver, acima de tudo, os meus filhos a crescer e ajudá-los a ultrapassar todos os obstáculos e barreiras com que se vão confrontar eventualmente. porque quero ainda apaixonar-me por mais 300 musicas e mais 300 filmes. porque quero ver se algum dia vou ser capaz de escrever alguma coisa que faça sentido e de que me orgulhe o suficiente para me sentir realizado.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

as duas faces da moeda

há decisões extremamente simples de tomar, preferências que assumem maior relevância sobre outras de menor interesse, tais como pedir uma água com ou sem gás, uma bola de berlim com creme ou sem creme, café ou descafeinado, bife bem ou mal passado, etc.. neste caso não é muito difícil tomar uma opção e tudo se resume a um simples "quero este" ou a um "não quero este".
tudo na vida deveria ser assim tão fácil, mas há decisões bem difíceis de tomar com que, volta e meia, somos confrontados. se uma escolha nos parece bem num determinado dia, ou momento, pode parecer errada no dia seguinte, até por uma mera questão de comodidade. pois bem, por esta ordem de ideias e para reforçar esta minha teoria, não há nada mais difícil do que termos de escolher entre duas pessoas, não querendo magoar nenhuma delas obviamente, e se torna complicado chegar a alguma conclusão facilmente. isto porque, não raras vezes, elas se complementam e têm traços de personalidade que nos cativam, que suplantam os defeitos. ou seja, essas duas pessoas juntas poderiam resultar no ser humano perfeito e no companheiro ideal para uma determinada pessoa. e então o que fazer? a sociedade diz-nos que é errado e censurável viver uma história de amor com duas ou mais pessoas, logo temos mesmo que nos decidir por uma delas ou, em casos mais infelizes, perder as duas. é o velho adágio "mais vale um pássaro na mão do que dois a voar". quando não conseguimos encontrar, ou escolher, uma resposta, corremos mesmo o risco de ver dois pássaros a voar. se uma das pessoas é atenciosa, afável, carinhosa, mas tem um sentido de humor igual ao do Manuel Alegre, não perde os Malucos do Riso e os Batanetes e a única coisa que lê é o Auto-Motor e a Maria, por causa do horóscopo, é complicado. uma pessoa assim não nos "incentiva", não espicaça o intelecto, apesar de nos oferecer aconchego, carinho e atenção. mas falta o resto? e quem é que tem o resto? a outra pessoa, porque nos estimula o conhecimento, tem uma vertente cultural mais rica e desse factor até podemos "beber" alguma aprendizagem e crescermos intelectualmente. isto apesar de esta outra pessoa por vezes ser rude, azeda, indelicada e arrogante, que se esquece sistematicamente das datas importantes e recorre frequentemente a um mecanismo de defesa que não permite contemplar a pessoa amada com manifestações de carinho.
com qual destas pessoas é que queremos estar mais?
uma enche-nos de carinho, de amor, mas falta algo que tendemos a procurar noutro lado.
a outra enriquece-nos espiritualmente, mas falta algo que tendemos a procurar noutro lado.
o ideal mesmo era pegar nos dois cérebros, tirar a parte má de cada um deles e unir os lados bons, resultando tudo isto num cérebro ideal. é uma cirurgia a considerar num futuro próximo, deixo aqui a ideia, de graça, a todos os profissionais desse ramo.
mas ainda não encontramos a resposta para esta questão e conheço, pelo menos, uma pessoa que bem a queria saber. a minha solução parte de um princípio básico: as pessoas têm que estar em constante evolução, não podem estagnar, desligar o cérebro, vegetar na comodidade. a maior parte desse desiderato terá que pertencer à própria pessoa, mas terá que existir também algum incentivo no sentido de tornar mais imperceptíveis os "defeitos" e de fazer sobressair ainda mais as virtudes. em ambos os casos descritos em cima, a pessoa que vai escolher tem sempre essa opção, de tornar mais "perfeitos" os adjectivos da pessoa em causa. a escolha terá que recair, a meu ver, na pessoa que mostrar maior receptividade em todo este processo de "aperfeiçoamento".
é certo que podem dizer "cala-te lá ó versão masculina da margarida rebelo pinto, isso é impossível, ninguém muda assim de um dia para o outro, não é só carregar num botão". têm razão, sim senhor. se nenhuma das pessoas mudar, o melhor é mesmo "ver os dois pássaros a voar" e partir em nova expedição pelo espécime perfeito. there's plenty of fish in the sea...

sábado, janeiro 28, 2006

dr. gregory house

como complemento ao post anterior a este, e porque também há a televisão a considerar (apesar da pobreza da programação dos canais nacionais, com as excepções de algumas séries da 2:, como Sopranos, 24, as britcom), deixo mais uma sugestão, para seguir no canal FOX: "House", com Hugh Laurie, Robert Sean Leonard, Omar Epps e Jennifer Morrison. é uma espécie de "ER - Serviço de Urgência" mas em tom sarcástico, irónico, que vive sobretudo da personagem principal, o dr. gregory house, magistralmente interpretado por Hugh Laurie (sim, o mesmo que fazia de pai do Stuart Little nos primeiros dois filmes com o mesmo nome), um homem rezingão, mal disposto, antipático, arrogante, sempre com uma tirada sarcástica engatilhada e quase sempre de menosprezo pela opinião dos outros, sempre amargo e azedo na sua relação com os seus pacientes. pese embora tudo isto, aprendemos a "gostar" dele e a compreender as suas atitudes e opções, à medida que vamos sabendo mais alguma coisa sobre o seu passado, a sua deficiência fisica, que lhe causa tremendas dores e o obriga a tomar comprimidos constantemente para as mesmas, o seu divórcio e a consequente incapacidade de se relacionar com alguém sentimentalmente. o homem está "in constant pain", em todos os níveis, e o que o motiva é a paixão pela medicina, a procura de soluções para casos considerados terminais, a luta incessante pelo tratamento mais adequado, mas sempre por respeito à própria medicina, porque os pacientes, esses, são meros portadores de doenças e vírus, "cobaias" perfeitas para o desenvolvimento dos seus conhecimentos e teorias. recomendo vivamente esta série, mas reconheço que sem o dr. gregory house provavelmente não a veria, ele é realmente a "alma" do programa. uma espécie de tony soprano, nos "Sopranos" (como seria a série sem ele?), ou mesmo de Jack Bauer, em "24".
resta dizer que "House" vai para o ar hoje, sábado, dia 28 Janeiro, pelas 23h30, no canal FOX, dois episódios, que são os mesmos que foram emitidos na passada terça-feira. Na próxima terça-feira, pelas 21h30, passarão mais dois novos episódios.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

sons e imagens para combater o frio

na antecâmara de mais um fim de semana, este por sinal será bastante frio, vou cometer o descaramento (grande lata esta de recomendar algo a alguém que não se conhece!) de deixar algumas recomendações para um serão ou uma tarde mais agradável em casa, junto à lareira (se existir), com muitos cobertores à mistura, café bem quente, o pijama felpudo, as pantufas confortáveis, enfim, a total serenidade.
dessa forma, e vou começar pelos sons, o último album dos Sigur Rós (Takk) propicia um tipo de ambiente realmente acolhedor, suave, calmo, com 11 faixas da mais pura essência musical, arrancadas de uma intensa carga dramática e pungente. quando mergulhamos decididos neste album deixamos o nosso espírito vaguear solto pelas mais longínquas paisagens celestiais, vivemos apaixonadamente cada climax feroz, que parecem ondas a esbarrar nos pontões, mas também cada momento mais solene de piano apenas, que nos embalam e aconchegam. experimentem ouvir a musica nº 10 do album. acho que não tenho capacidade mental para suportar, entender, perceber, uma musica assim tão bela, tão intensa. ouçam e depois digam-me o que pensam. eu fico sem palavras para a descrever. só me lembro de ter ficado assim uma vez, pelo menos nos últimos tempos: foi com um tema do Antony and the Johnsons ("Bird Guhl").
mas também poderei recomendar algo menos intenso, como The Czars (o album "Goodbye", por exemplo), é uma boa banda sonora para uma noite intimista, assim como Mark Eitzel ("60 watt silver lining") ou Lambchop ("Is a woman").
como sugestões cinematográficas, recomendo vivamente o filme "Sideways", com Paul Giamatti e Thomas Hadden Church, lançado para aluguer há pouco mais de 5 meses, portanto ainda o devem apanhar nos escaparates do vosso clube. relata a viagem de dois amigos, um deles divorciado, apreciador de vinho e pretendente a escritor; o outro tem casamento marcado para a semana seguinte, de modo que a viagem acaba por ser uma espécie de despedida de solteiro. Mas basicamente é a história de Miles Raymond (Paul Giamatti, brilhante aqui!), que não consegue encontrar um rumo para a sua vida, nem a nível profissional nem sentimental. o desenlace é gratificante e certamente vão desejar ver novamente o filme quando o mesmo acabar.
bom fim de semana. e não saiam do quentinho!...

segunda-feira, janeiro 23, 2006

manhattan

em jeito de homenagem a essa grande arte da ilusão que é o cinema, todas as semanas irei mudar o nome do meu profile. a ideia é relevar variadíssimas personagens cinematográficas que me marcaram, pela sua grandiosidade de espírito, sensibilidade, humor, ironia, sarcasmo, inteligência, etc.. em suma, o cinema é uma das minhas grandes paixões e esta é uma forma de o exaltar, ao mesmo tempo que vou partilhando os meus gostos, as minhas personagens e filmes preferidos. pareceu-me uma rica ideia no início, agora nem por isso... mas... espera aí... bem, já me parece uma boa ideia outra vez (que diabo, a esquizofrenia é mesmo a mais estupida das doenças!). para a primeira semana, o nome escolhido foi "isaac davis", personagem do filme "Manhattan", interpretada por woody allen, igualmente o realizador da película. se não viram este filme de 1979 aqui fica a dica. é uma deliciosa teia de encontros e desencontros passionais, em que Isaac Davis vive um autêntico turbilhão sentimental, mas sempre com um sofisticado toque irónico, dividido entre o ódio pela ex-mulher (Meryl Streep), que entretanto se tornou lésbica e quer escrever um livro sobre o casamento falhado; a relação com uma universitária de 17 anos (Mariel Hemingway) que o adora mas por quem ele não está apaixonado; e a amante do seu melhor amigo, interpretada por Diane Keaton. ultrapassados os naturais choques iniciais, provocados por um desmedida necessidade de se impressionarem mutuamente, Isaac começa a aperceber-se que ela "é" e "tem" precisamente aquilo que lhe falta na relação com a universitária. quem vir o filme entende isto perfeitamente, aqueles momentos de comunhão de ideias, as piadas parvas para ela se rir, o café na esplanada, a chuvada que apanham, as conversas estimulantes, a vontade intrínseca de estarem sempre juntos ou à espera de estarem juntos... o final acaba por ser surpreendente mas não o vou contar. espero que esta breve sinopse vos faça ver "Manhattan", porque é um dos meus filmes preferidos e também porque é escrito, realizado e interpretado por um dos maiores génios vivos deste planeta: woody allen.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

deslumbre silencioso

acabou de acontecer!
o momento tão ansiado acabou de passar!
tantas palavras, tantos pensamentos, tantas conjecturas imaginei
enquanto contava os minutos, os segundos, para te voltar a ver;
nada foi aproveitado, nada foi proferido,
o silêncio uniu-se ao deslumbramento.
apenas os meus olhos falaram.
se ao menos os tivesses escutado...
sinto-me novamente vazio e oco
ao encetar novamente a contagem decrescente
para o momento seguinte.
são segundos, milésimos de segundos,
meras migalhas com que me vou alimentando,
sugando até ao meu mais profundo âmago
aquele instante em que os nossos olhos se uniram!
forças transcendentais me impedem
de proferir um simples "olá",
ou de aspirar a algo mais do que esta contemplação diária;
sou uma mera nota numa sinfonia,
uma mísera letra num soneto,
entre a multidão que te venera, que segue os teus passos
e se encanta com tanta perfeição!
és a minha musa e o meu veneno,
a minha florescência e o meu ocaso,
em ti respiro e contigo morro!
mas nem mil exércitos me impedirão
de te voltar a admirar com o meu pensamento!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

ilusão e pantufas

a questão que trago hoje é esta: porque raio nos havemos de sentir mal por gostarmos de uma pessoa? sim, que diabo, amar alguém, apaixonarmo-nos por uma pessoa, não é nenhum crime e, no entanto, por vezes agimos como se fosse a maior obscenidade à face da terra. todos aqueles que não acreditam em amores impossíveis deviam ser obrigados a ver 22 vezes seguidas um filme chamado "Cyrano de Bergerac", no qual Gérard Depardieu interpreta o mais eloquente dos homens, em actos e em palavras, mas que carrega consigo esse estorvo físico que é o tamanho descomunal do seu nariz, facto que o impede de declarar a sua paixão à mulher amada. é uma lição de vida o rumo que a história segue, desaguando na verdade reprimida durante anos. o troféu estava e sempre esteve no mesmo sítio, não houve foi coragem para o arrebatar; nem o mais corajoso e audaz dos espadachins, capaz de derrotar cem homens numa emboscada, foi capaz de ir à procura da sua felicidade, escudando-se atrás da sombra do seu nariz.
amanhã poderá ser qualquer um de nós a perder o momento, a oportunidade, e quem sabe, o amor da nossa vida! e porquê? "porque nem vale a pena tentar, é impossível"! não se está é disposto a cometer loucuras e a dar espaço à ilusão, sobretudo quando as pessoas cada vez mais hoje em dia se acomodam ao que já têm. é a chamada "era da pantufa", um estado de espírito confortável, sedentário, mas que retira qualquer veleidade ilusória a essas pessoas. e a ilusão é necessária, como a imaginação, a ousadia, a cortesia... quando se ama, seja em que idade for, volta-se à idade do clerasil (creme para borbulhas), como disse Miguel Esteves Cardoso. de repente sentimo-nos novamente adolescentes e até nos apetece andar na rua com walkman's, de skate, calças rasgadas, etc. e depois, haverá desafio maior do que o de conquistar uma mulher? ou pelo menos tentar... é tempo de sonhar. a vida é uma coisa, a realidade também, mas o amor é outra completamente diferente, está sempre acima de tudo. a realidade pode matar a ilusão mas o sonho é mais bonito que a vida. basta um olhar, um sorriso, para o coração os apanhar para sempre. ele conserva aquilo que nos escapa como areia fina das mãos. e isto é amar, por muito longe, por muito impossivel, por mais desesperante que seja. alojamos essa sensação no cérebro e usamo-la quando precisamos de escapar, entrando nesse mundo ilusório onde tudo parece mais aliciante. sim, é um escape também, uma tentativa de nos agarrarmos a um passado não tão distante quanto isso e ficarmos por lá algum tempo, alimentando a alma, fortalecendo o ego, desatando sensações que pareciam perdidas e, quem sabe, encontrarmo-nos a nós próprios! a ilusão permite-nos tudo isso.
amanhã recomeça tudo. a realidade é incontornável e respeitamo-la. Sempre! mas a ilusão da conquista será sempre mais forte do que aquelas confortáveis pantufas e, certamente, amanhã terei novamente tempo para me dedicar a ela. sim, ela também é mais forte... do que eu...

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Nas Nuvens

como é bom andar nas nuvens!
elevar espiritualmente a minha trivialidade
e transcender-me para além desta singela essência
que me nega o ar que eu necessito para respirar.
é ter asas em vez de acabrunhada timidez;
subir ao convés e apreciar cada uma das ondas
em vez de me fechar nos oceanos da minha mente;
é poder contemplar o sol quando antes feria a vista,
afastar as cortinas e encher de cor esta minha escuridão.
se eu agora resplandeço, aqui nas nuvens,
foi porque me deixaste partilhar da tua luz
e me apresentaste o teu mundo de letras apaixonadas.
se agora me sinto assim, tão revigorado interiormente,
devo-o ao despertar que as tuas palavras surtiram
e ao aconchego emocional que me ofereceste.
como é bom andar nas nuvens!

sexta-feira, janeiro 13, 2006

"There´s always another girl"

Quem seria capaz de viver sem música? Momentos há em que nos sentimos com necessidade de "sofrer", de ficar pasmados a olhar o vazio, uma paisagem, a chuva, enquanto ouvimos "aquela" música, a tal que nos põe num estado nostálgico, a pensar em alguém, num passado não muito distante. Quase que até apetece fumar, para carregar simbolicamente a cena, juntando a isto tudo um copo de baileys com muito gelo, um ambiente acolhedor, uma lareira acesa, a chuva a bater nos vidros. Está criado o cenário perfeito, tudo emoldurado pelos sons que nos aquecem a alma e nos reavivam a memória. A postura e o olhar para o infinito são sempre baseados numa cena marcante do filme "Os Fabulosos Irmãos Baker", em que o fabuloso Jeff Bridges, de cigarro na boca e copo de whisky na mão (lá está, tem mesmo que ser!), ouve a despedida comovente de Michelle Pfeiffer, corroído de dor por dentro mas aparentando uma frieza quase gélida que o leva a dizer a célebre frase: "There's always another girl"... A "nossa" Michelle Pfeiffer está no nosso pensamento, não está ao nosso lado a despedir-se, a colocar um fim numa relação errante. A música, por esta altura, seria bem suave, talvez a voz de John Grant, dos The Czars, soasse divinalmente aos nossos ouvidos. Ouviamos "Concentrate": I hope you're not talkin' 'bout yesterday, 'cause I can't live, I can't live that way it's all gone now and you don't know the truth so you must go now and find the door I hope I'm not disturbing you". Uma das musicas ideais para uma despedida, o som depressivo mais adequado para a nossa sensação ser ainda mais forte. Talvez ainda nos lembrássemos de ouvir Mark Eitzel, esse trovador apaixonado, cantar "It's time for me to go away, i'll get a new nem maybe i'll get a new face, it's time for me to go away, no i don't belong in this place, but i'm not going to ask you why you think the parade as passed us by, or if everything good as gones into the western sky", da musica "Western Sky", dos American Music Club. Ou Mark Kozelek, dos Red House Painters, em "Song for a Blue Guitar": "in the room all i feel is the cold that you left, through the air all i see is your face full of blame; what's left to see? what's there to see?". Mas outras vozes e outras musicas encaixariam perfeitamente neste nosso estado letárgico, de contemplação interior. O momento é nosso, mais ninguém poderá invadir esse espaço. Estamos "desligados" deste mundo, estamos agora a viver num outro, apenas de recordações, de momentos passados, a tentar imaginar como teria sido diferente a nossa vida se tivéssemos dado um determinado passo, de tivéssemos dado "aquele" beijo, se tivéssemos dito as palavras que nos enchiam a mente na altura certa... "What If", dos Coldplay, também se poderia incluir na banda sonora deste momento. O "nosso" momento, desprendido do mundo real. Como escreveu uma grande amiga minha, uma pessoa cheia de qualidades e virtudes, "se me encontrares por aí perdida nas estrelas, não me devolvas à realidade!". Brilhante Cláudia! O final perfeito! Obrigado pela inspiração!

quarta-feira, janeiro 11, 2006

nascente das minhas ilusões

A nascente das minhas ilusões

Tinhamos a inocência na alma, retratada nos rostos

sem uma ruga de enfado, um esgar de cansaço!
Fervíamos na imaculidade da paixão
que não comportava a hipocrisia do interesse
ou intenções duvidosas de instintos perversos.

Ficávamos contentes só de nos vermos,

estarmos juntos, mesmo calados a contemplar a natureza,
a escutar o murmúrio dos pássaros,
das árvores e da água das fontes que saltitava dos veios rochosos,
felizes porque só conhecíamos o encanto
e nada nos matava a certeza do dia seguinte!

Tinhas a frescura da Primavera, a beleza do nascer do sol

e a elegância de um cisne altivo!
Os teus olhos reflectiam candura e pureza,
envoltos nesse oceano castanho de longos cabelos,
em cujas águas me perdi!

Deitados na relva, contemplávamos o majestoso céu

que parecia sorrir para nós, ordenando a Van Gogh idílicas pinturas,
a Rimbaud que declamasse um poema
e a John Lennon que escrevesse a mais bonita das músicas!

Foste a nascente das minhas ilusões,

o lapso de tempo que queria imutável
e a sensação intensa que desejava insuprível!

Agarrado aos fiapos da tua imagem,

acordei diante da minha solidão.
Perdi-te como se perdem todas as quimeras:

sem perceber os fios das teias
que me enredaram na tua imagem.

Neste sonho foste memória viva!
Agora, acompanhado por uma sombra vitalícia de tristeza,
só esta saudade de ti me alimenta o tempo...
Amei-te! Amei-te tanto que ainda julgo que nunca te perdi!


J.A.L.
Junho 2004

terça-feira, janeiro 10, 2006

apresentação

"nuvens da alma" resulta da inspiração, criatividade, sensibilidade que eu possa ter em determinado momento. não deixem que o nome do blog vos engane, não serei fatalista, derrotista ou demasiado depressivo. dias haverá em que as nuvens estarão com um semblante mais carregado e em que só me apetecerá ficar a contemplar a chuva; mas também existirão dias radiantes e quentes, em que as nuvens... se dissiparão. serão sempre os meus estados de espírito a controlar e a gerir este blog, não haverá nehuma linha de orientação rígida. aqui terão sempre lugar todas as formas de arte, as opiniões, as críticas, tudo o que as minhas nuvens queiram fazer chover.